Últimas Chances

Capítulo Sete

Sasuke não sentia os seus pés o carregarem. Os seus olhos viam, mas não enxergavam. Os seus ouvidos estavam surdos para qualquer coisa além dos seus pensamentos. Ele parecia um zumbi enquanto era guiado por Tsunade até uma sala de consultório vazio – cuja localização Sasuke não fazia a menor ideia. Podia ser o terceiro ou sétimo andar; podia ser dia ou noite; podia ter se passado poucas horas ou séculos desde que Sakura desmaiou nos seus braços.

Ele não sabia ao certo o que se passava na sua cabeça. Eram tantos pensamentos juntos, sobrepondo-se, misturando-se, que ele não conseguia focar em um apenas. A única coisa que ele entendia é que todos eles se relacionavam a Sakura e que todos faziam o seu coração pular uma batida.

Ele só voltou a si quando Tsunade fechou a porta atrás de si e instruiu que ele e Naruto se sentassem. Quando ambos se recusaram – Sasuke nem sequer abriu a boca para aceitar ou recusar – ela suspirou e se sentou na cadeira do outro lado da mesa. Se o poder de concentração e observação de Sasuke não estivessem prejudicados pelo turbilhão de sentimentos dentro de si, talvez ele tivesse percebido o quão cansada Tsunade estava. Parecia muito mais velha do que quando ele a viu dias atrás.

Sasuke achou que fosse vomitar.

"Eu não deveria estar fazendo isso," ela começou. Sasuke nunca viu Tsunade encará-lo com tanta seriedade. "Eu prezo o sigilo entre médico e paciente – e Sakura é a minha paciente. Essa é a minha única exceção em toda a minha vida. Ela me pediu para não conta-los, mas eu não creio que há mais sentido em manter segredo. É evidente que Sakura não está bem e vocês sabem disso. Eu só terei o trabalho de nomear o problema para vocês. Porém, eu peço encarecidamente que não digam nada a mais ninguém. Sakura é capaz de matar a nós todos se o que eu disser sair dessa sala, estão me ouvindo?"

Nenhum deles tinha força para dizer ou mexer em concordância. Portanto, Tsunade continuou depois de respirar fundo.

"Eu não irei mais me delongar. Sakura tem uma doença agressiva e incurável."

Sasuke ia vomitar.

As palavras de Tsunade foram como um soco direto no seu estômago que lhe tiraram o fôlego – algo tão físico que por um segundo ele ficou desnorteado. Ele se esqueceu de onde estava, surdo para o que Naruto balbuciava, cego para os olhos atentos de Tsunade sobre si.

"... distúrbio de chackra. Uchiha, está me ouvindo?"

Sasuke levantou os olhos para a médica. Ele o fitava preocupada.

Ele não podia dizer que não estava preparado para algo como aquilo. Desde que acordara em Konoha não só os seus instintos como também as milhões de evidências gritavam que algo catastrófico o aguardava. Mas, mesmo assim, o seu chão pareceu ter sido roubado.

"Como eu estava dizendo," Tsunade continuou quando Sasuke não respondeu. Ela ficou de olho nele. Ele estava mais pálido do que o normal. "Sakura tem um distúrbio de chackra que não sabemos explicar. Ele está totalmente fora de controle. Irônico, se consideramos o talento que ela tem justamente para fazer dele o que bem entender." Ela esfregou uma mão no rosto. "Mas o mais grave é que ele está atacando o corpo dela. Está ferindo os órgãos internos dela e nós não sabemos o que fazer. Eu sinto muito."

Após segundos em silêncio, Naruto soltou uma risada abafada, sem o menor humor, e balançou a cabeça. "Isso... Isso é uma piada, não é? Sakura-chan não está doente. É impossível. E-Ela não fica doente. Nunca. Ela não pode ficar doente."

Tsunade o olhou com simpatia e continuou: "Ela passou mal durante uma cirurgia semana passada. Estava manipulando o chackra para tratar do paciente e repentinamente ele ficou ainda mais descontrolado do que já estava antes. Alguns órgãos dela foram invadidos e tudo o que eu pude fazer para tentar frear esse ataque foi dar drogas que diminuíam drasticamente a velocidade do fluxo de chackra. A imunidade dela abaixou por causa disso e ela pegou essa maldita pneumonia. Os pulmões dela já estavam lesados por causa da doença e, em um lampejo de máxima idiotice, ela tentou tratar a pneumonia justamente com a merda de chackra dela e deu no que deu."

Naruto cambaleou e teve que se jogar na cadeira anteriormente recusada para não cair no chão. Sasuke continuava paralisado exatamente no mesmo lugar.

"Por que você diz que é incurável?" Naruto perguntou depois de um tempo. "Nada é incurável para você, Tsunade. E-Eu já vi você fazendo coisas incríveis – e a Sakura-chan também! Ela enfiou uma mão no meu peito e bombeou o meu coração com os próprios dedos – por que vocês não sabem a cura para isso?"

Ele soava desesperado. A voz tremia. Sasuke não via o rosto dele, mas tinha certeza que estava prestes a chorar.

"Nós não sabemos o que exatamente é essa doença dela. O único caso que vimos antes era justamente do pai dela."

"E ele morreu pouco tempo atrás."

Tsunade não retrucou.

Naruto afundou o rosto nas mãos.

"A doença de Sakura começou mais precocemente que a do pai dela. Nós não sabemos por quê, talvez por ela estar sempre usando o chackra, mas o quadro é basicamente o mesmo." Ela esperou que alguém dissesse algo. Nada. "Acreditem em mim, eu queria muito poder dizer algo diferente do que direi, mas infelizmente é a realidade: não existe tratamento. Sakura tem pesquisado exaustivamente essa doença desde que foi diagnosticada no pai, mas o avanço foi mínimo. Não existem muitos remédios que influenciem diretamente no chackra, especialmente um tão caótico quanto o dela. Nós não sabemos o que fazer."

"Não é possível que não exista nada!" Naruto gritou. "Vocês são as melhores médicas do mundo – não é possível que não possam fazer nada!"

"Não é culpa nossa, Naruto. Uchiha, você está bem?"

"E há quanto tempo vocês sabem disso?" Naruto ignorou o comentário de Tsunade. "Há quanto tempo Sakura-chan tem passado por isso sem que eu tivesse a menor ideia?"

"Pouco mais de um ano."

Naruto subitamente se levantou, quase derrubando a cadeira no processo, e agarrou o cabelo loiro.

"Por que ela nunca me disse isso?" Ele chorava. Os olhos de Tsunade também lacrimejavam.

"Ela não queria preocupar vocês com algo que não poderia ser mudado. É idiota, eu sei, não precisa gritar comigo por causa disso, mas era a vontade dela e eu a segui até o meu limite."

"O quão grave é?" Naruto quis saber.

Disfarçadamente, Tsunade limpou uma lágrima traiçoeira que caiu. "Muito. Muitos órgãos dela já estão severamente danificados. O coração é um deles. Os sintomas estão cada vez mais intensos e nós não temos muito o que fazer. Eu não quero ser pessimista, mas essa é a realidade. Eu juro que estamos fazendo de tudo para ajudá-la. Eu fui pessoalmente a duas outras vilas que pareciam ter alguma coisa remotamente relacionado ao quadro de Sakura, tentamos tratamentos alternativos, mas eles surtiram pouco efeito. Nada suficiente para mudar o curso da doença.

"E eu sinto dizer que Sakura não está ajudando a si mesma. Ela raramente deixa o chackra em repouso, continua trabalhando como se nada estivesse acontecendo e não toma os remédios da forma correta por ter certeza de que eles não vão ajudar em nada. Ela provavelmente está certa, mas a essa altura do campeonato deve-se arriscar tudo por mais tolo que possa parecer."

"Por que você a deixa trabalhar aqui se faz mal?" Naruto grita, desesperado. "Por que ninguém está olhando se ela está tomando a porcaria desses remédios?"

"Ela já é uma mulher adulta, Naruto. E uma médica. Eu não posso enfiar os remédios dela goela abaixo –"

"Você pode e deve enfiar os remédios dela goela abaixo se eles vão ajuda-lo! Está com medo de que ela fique com raiva? Não tem problema. Eu vou enfiá-los nem que eu tenha que amarrá-la nessa cama de hospital!"

"Não vai adiantar muita coisa. Eles são só sintomáticos. Não são capazes de frear a doença; eles só aliviam os sintomas –"

"Mas já é alguma coisa!"

"Eu sei."

"E tem que ter alguma coisa que se possa fazer!" Ele espalmou as mãos na mesa entre ele e Tsunade. Ele estava furioso, desesperado, arrasado por dentro, mas nada que intimidasse uma mulher como Tsunade. Ela era uma médica e já tinha presenciado esse tipo de reação mais vezes do que gostaria. "Algum exame, algum remédio, a-algum médico que saiba alguma coisa que vocês não sabem."

"Eu já disse que pesquisei pessoalmente em outras vilas e não achei nada." Ela olha para Sasuke. Ele continuava parado no mesmo lugar olhando para um ponto fixo na parede atrás dela. O rosto dele permanecia impassível. Ele estava perdido dentro de si mesmo.

"Pois então procure mais longe! Me dê uma permissão para sair de Konoha e eu irei em outro planeta se for preciso agora mesmo! Alguém tem que saber alguma coisa!"

"Eu sinto muito."

Naruto levou uma mão a boca e voltou a se sentar na cadeira. Os seus olhos chorosos estavam arregalados, assustados, descrentes do que tinha acabado de ouvir.

"Ela..." Ele engoliu em seco. "Ela está morrendo?"

Tsunade funga. Céus, ver Naruto desse jeito parte o meu coração – principalmente por um motivo que já o deixou despedaçado. "É uma doença extremamente agressiva e nós não sabemos o que fazer para interrompê-la. Eu sinto muito."

"Quanto tempo?"

Tsunade se sobressaltou com a voz do Uchiha. Ela nunca achou que isso fosse acontecer, mas o completo desamparo que ele mostrava no rosto terminou de quebrar o que lhe restava dos pedaços do seu coração. Ele se importa com ela.

"Nós não sabemos," foi o que ela respondeu. "Presumimos que poucos meses. Menos de um ano."

Sasuke saiu do consultório com o choro de Naruto em seus ouvidos. Vomitou na primeira lata de lixo que encontrou.

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A perna dele doía como nunca. Ele precisava mancar para andar rápido, sem destino, para fora do hospital em uma Konoha que a cada segundo ele menos considerava um lar.

Sem ter ciência do que fazia ele entrou em uma floresta densa, à esmo. Um canto da sua mente registrou que aquele lugar talvez fosse as redondezas dos campos de treinamento, mas ele não tinha certeza. Ele só pode se aquietar quando encontrou um canto escuro, silencioso, longe do barulho de pessoas, de máquinas, de choros e de notícias ruins.

Ele se jogou ao pé de uma árvore qualquer, subitamente exausto. Parecia que tinha travado uma batalha contra o mais forte dos inimigos, apanhado bastante e, no fim, perdido.

Estava acontecendo de novo. Um garoto de seis anos chegava em casa com um sorriso no rosto para ser recebido por todas as pessoas que amava – mortas. Ele não conseguia respirar. Ele não conseguia pensar. Ele não conseguia entender o que, diabos, estava acontecendo ali – por que Itachi segurava uma arma e o encarava daquele jeito?

Sasuke vomitou de novo.

Sakura estava em seus braços, ensanguentada.

Sakura estava morta.

A sua mãe estava morta.

O seu pai estava morto.

Itachi estava morto.

Sasuke já não estava mais vivo.

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Ele decidiu voltar para o hospital quando os primeiros raios de sol atravessaram a copa das árvores. Há quanto tempo estou aqui? E onde é aqui? Ele se pôs de pé com dificuldades, gemendo de dor. Os músculos da sua perna pareciam prestes a rasgar.

O que isso importa?

Ele ativou o seu kekkei genkai para tentar se localizar. Pelo chackra das pessoas há um raio de trinta metros – bem longe de ele estava – ele presumiu que, de fato, estava em uma das florestas perto dos campos para treinamento ninja.

Os seus instintos e o seus olhos apurados o levaram para fora dali. Um casal de shinobis treinava no campo perto de onde ele emergiu da floreta. Eles o encaram com espanto. A garota deu um grito. Sasuke nem se deu ao trabalho de encará-los, muito menos explicar por que um homem saía do meio das árvores naquela hora da manhã. O seu cabelo preto estava tão bagunçado quanto os seus pensamentos de tanto que ele os puxou – em uma vã tentativa de extrair uma solução para aquela catástrofe. Os seus olhos estavam vermelhos. Ele não se lembrava de ter chorado.

Ele mancou até o único hospital de Konoha. Agarrou uma das enfermeiras pela lapela da blusa – ele nunca agredia mulheres, nunca, exceto Karin e Sakura meu Deus eu agredi Sakura – e exigiu que ela o levasse até Sakura. A mulher chorou. Ele teve que ser levado para longe dela por dois enfermeiros fortes. Mesmo com um braço não foi difícil para Sasuke derrota-los. O nariz de uma deles foi quebrado e o outro se contorcia no chão de dor depois de um soco no estômago.

Ele sentiu uma picada no pescoço. Ao se virar para trás encarou os olhos de Mayama. E apagou.

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Por um momento, quando Sasuke abriu os olhos, ele rezou para quem quer que estivesse olhando-o lá de cima que tudo não tivesse passado de um pesadelo – mais um – e que ele tivesse acordado para a sua vida antes de tudo. Antes dos seus pais, de Itachi, de Sakura. Antes, quando os seus ombros ainda eram leves.

Mas não era. Nunca era.

"A sua capacidade de piorar o que já está ruim é impressionante, Uchiha."

Mayama.

Sasuke não se mexeu na maca. Não dignificou o médico com o olhar. Ele não merecia ver o que seus olhos mostravam – e eles provavelmente mostravam tudo o que tinha dentro dele, Sasuke desconfiava. Ele não tinha forças para se esconder dentro de si.

"Como ela está?" ele perguntou, fitando o teto branco.

Ele ouviu Mayama suspirar. "Estável."

"Isso é bom ou ruim?"

"Se levarmos em conta tudo o que está acontecendo, é ótimo."

Sasuke fechou os olhos. Talvez ele voltasse a dormir.

Mas não ia. Ele nunca ia.

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Sasuke não queria, mas teve que ser examinado. Não por Mayama. Ele não suportava nem respirar o mesmo ar que o médico, muito menos ser examinado por ele quando estava com o mais negro dos humores.

Ele achava desnecessário, mas ele estava cansado demais para discutir.

"Por incrível que pareça, está tudo bem com você fisicamente. Mas com uma boa dose de sorte. Tsunade provavelmente estaria torcendo o seu pescoço se estivesse no meu lugar," Shizune comentou enquanto analisava os olhos do seu paciente nada cooperativo. "Ela detesta confusões no hospital dela, especialmente se causadas por você."

Sasuke não achou graça. Também não se sentiu ofendido. Ele não sentia nada. Estava anestesiado.

Shizune suspirou enquanto se afastava. "Eu sei que vou ouvir o que não desejo, mas não consigo olhar para você e não perguntar se você está bem."

Se ele fosse qualquer outro homem com qualquer senso de humor provavelmente teria rido em escárnio.

Ela rolou os olhos para si mesma. "É claro que não está bem. O que quero dizer é que posso conversar com você, se quiser. Quero dizer, eu sei que você não quer realmente conversar porque sei muito bem que arrancar palavras da sua boca é quase tão difícil quanto arrancar uma garrafa de saquê das mãos de Tsunade. Eu só queria que soubesse que estou aqui para te ouvir, se quiser. Muito provavelmente você não vai querer, mas eu só queria que soubesse que, se por algum milagre do destino, você queira, eu estou aqui."

Sasuke a encarou com estranheza, deixando Shizune ainda mais nervosa. Ela não aguentava aquele silêncio tenso. Eu não sou Sakura e sua paciência de santa. Era como se ela pudesse ver o peso nos ombros e o tanto que ele se esforçava para carrega-lo sem pedir ajuda. Ela era médica. Estava acostumada a ver seus pacientes assim. Talvez fosse só por isso que ela podia enxergar isso em Sasuke, já que o rosto dele, para um completo estranho, estava indiferente. Nada. Vazio.

"Sasuke, você está me preocupando. Você... Você sumiu ontem. Naruto não sabia se se desesperava mais por você ou por Sakura."

"Onde ele está?" foi a primeira e única coisa que ele disse, monótono.

Acho que preferia quando ele estava calado. A voz dele a dava calafrios. Parecia que a qualquer momento ele ia explodir.

"E-Eu não sei. Talvez esteja com Sakura. É horário de visitas na UTI." Ele não esboçou reação enquanto descia da maca. "Você vai vê-la?"

Ele saiu sem responde-la.

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Sasuke estava escorado na parede esperando que Naruto saísse da UTI. As enfermeiras quase fugiram de medo ao vê-lo ali, taciturno, perguntando por Naruto – e não por Sakura.

Os olhos de Sasuke foram direto para os de Naruto assim que o futuro Hokage saiu de dentro da UTI. Estavam inchados e vermelhos. Aquilo foi como um soco no estômago já injuriado de Sasuke. Uma minúscula parte de si tinha esperanças de que Naruto apareceria com o sorriso idiota de sempre e dissesse que tudo não passava de um pesadelo. Foi a segunda decepção no mesmo dia.

Ele demorou para ver que Hinata vinha atrás de Naruto com o rosto igualmente infeliz.

"O que ela está fazendo aqui?" Sasuke questionou. "Você não sabe o que segredo significa?"

Naruto fechou os olhos, respirou fundo e bagunçou os cabelos. Hinata encostou uma mão no ombro do namorado para acalmá-lo.

Quando voltou a encarar Sasuke, uma raiva contida foi somada a tristeza no rosto dele. "A sua sorte é que eu te conheço há mais de dez anos e sei que não quis ofender a mulher da minha vida na minha frente. Eu sei exatamente o que você está passando, mas isso não é justificativa para ser grosso com a Hinata-chan. Nunca mais fale nesse tom com ela se não quiser que eu arranque o seu intestino pelos seus ouvidos com as minhas próprias mãos."

Sasuke estava pronto para avançar e quebrar a cara de Naruto ali mesmo no hospital. Ele não pensava nisso, mas descarregar os seus sentimentos nos ossos quebrados do seu melhor amigo talvez o fizesse bem.

Entretanto, ele teve que se conter. Temia matar Naruto acidentalmente se lhe desse a brecha de despejar toda a sua fúria nele e Sasuke não podia ser dar ao luxo de ter mais um amigo ferido.

E Sakura não merecia que ele perturbasse a ordem de novo. Ela estava a só poucos metros dele.

Portanto, ele engoliu a raiva e deu um passo para trás. Sentia os olhos da Hyuuga sobre si, cautelosos. Parecia estar pronta para proteger Naruto. Como se ela tivesse a menor chance.

Naruto suspirou, também retomando a calma. "Hinata-chan sabe. Eu não consegui mentir para ela quando cheguei em casa," ele explicou. Como podia recusar o conforto de Hinata se ela sabia que ele sofria assim que ele abriu a porta? "E você não estava exatamente aqui para que eu pudesse conversar com alguém, não é mesmo? Onde você esteve?"

"Não importa," Sasuke respondeu. "Como ela está?"

Naruto esfregou o rosto. "Eu não entendo nada desses termos médicos. Pelo que entendi do que Tsunade me disse ela está mal, mas não está piorando."

Sasuke assentiu. Temia perguntar mais e ouvir respostas que não desejava.

"Você não vai entrar?" Naruto perguntou.

Sasuke olhou para as portas de vidro. Atravessá-las parecia mais difícil do que atravessar os portões de Konoha, quando foi embora. Ele não admitiria a si mesmo muito menos em voz alta, mas tinha medo.

Que bem faria ver com os seus próprios olhos e impregnar ainda mais a sua memória a Sakura que Tsunade, Mayama e Naruto descreveram?

"Eu volto mais tarde," foi o que Sasuke disse antes de se virar para ir embora, mas foi impedido pela mão de Naruto no seu ombro.

"Você não vai entrar?"

"Não." Sasuke tentou se desprender, mas o aperto de Naruto era forte.

"Você vai deixa-la sozinha lá dentro? É isso mesmo o que você vai fazer?"

"Eu disse que vou voltar," o Uchiha sibilou.

"Quando?"

"Não te interessa."

"Sasuke, responda uma porra de pergunta direito ou eu –"

"Naruto-kun." Hinata tocou o ombro do seu amado da mesma forma que este segurava Sasuke. "Deixei-o."

"Hinata-chan, ele vai embora sem sequer olhar para Sakura!"

"Deixe-o."

Uma troca de olhares intenso entre o casal fez Naruto soltar Sasuke com relutância. Um silêncio tenso pairou entre eles.

"Onde você vai? E não ouse me dar uma resposta vaga, Uchiha," Naruto quis saber, ainda irritado.

"Para casa." Sasuke não devia satisfações ninguém, muito menos Naruto. Mas suspeitava que o Uzumaki irritante o seguiria ou encheria o seu saco até que ele lhe respondesse.

"Venha para a minha. Pode dormir no sofá. Você não deveria ficar sozinho."

"Não." Sasuke deu as costas para Naruto – que tentou retrucar mas que, uma vez mais, foi contido por Hinata.

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Pelos cinco intermináveis dias que se seguiram em que Sakura ficou em coma, Sasuke não se atreveu a vê-la. Centenas vezes ele colocou a mão na maçaneta da porta da UTI, pronto para abri-las, mas o movimento nunca foi concretizado.

Ele não conseguia. Era uma fraqueza que ele demorou para admitir. Naruto não insistia mais.

Entretanto, ele não saía do hospital em momento nenhum. Ficava do lado de fora da UTI o tempo todo, arrancando notícias de enfermeiras intimidadas e um Mayama contrariado. Ela evoluía bem, os médicos diziam. Nada fora do esperado – mesmo que o esperado fosse uma merda. Ainda estava entubada, inconsciente, em coma, sob fortes medicações, mas era melhor do que estar morta.

Sasuke só esperava que a imaginação dele fosse menor pior do que a realidade.

Ele só lembrava de comer quando Naruto avisava. As calças dele estavam folgadas na sua cintura, mas ele não ligava muito. Não tinha fome. Não conseguia dormir e, quando o fazia, era assombrado. Pelos seus pais, por Itachi, por Sakura, e por si mesmo. Só voltava para casa quando os médicos o expulsavam de lá tarde da noite.

Naruto se dividia entre ficar ao lado de Sasuke e de Sakura. O estado dos dois preocupava o futuro Hokage, mas não havia nada que ele pudesse fazer em nenhum dos casos. Sasuke não aceitava as suas sugestões, no máximo quando ele praticamente enfiava comida goela abaixo do Uchiha. Ele raramente conversava. Era Naruto quem preenchia o silêncio com monólogos.

"Ela vai sair dessa, Sasuke," ele consolava o seu melhor amigo – sem que esse pedisse em voz alta. "Você sabe que Sakura-chan é dura na queda."

Sasuke permanecia calado.

Naruto suspirou, cansado de todas aquelas dores: dele, de Sakura e de Sasuke. "Fale comigo."

Sasuke demorou para responder. "Falar o quê?"

"Sei lá. Qualquer coisa. Coloque para fora."

"E de que isso vai adiantar?"

"Eu não sei. Só vamos saber depois que você tentar." Naruto deu uma batida amigável na perna do seu amigo. "Quantas vezes eu vou ter que te dizer o tamanho do mal que te faz guardar tudo para si? Fale alguma coisa. Me xingue, xingue Mayama, xingue essa cadeira dura em que está sentado a não sei quantas horas – mas fale alguma coisa. Eu te garanto que vai se sentir melhor."

Ele olhou com o canto do olho para um Naruto esperançoso e, depois de um instante, disse: "Cale a boca."

Naruto soltou um gemido de frustração e levantou, jogando as mãos para o alto. "Eu desisto! Quer ficar com essa cara de bunda remoendo os seus problemas como um covarde? Ótimo! Faça isso! Eu não me importo e não aguento mais olhar para essa sua cara de merda!"

"Então vá embora!" Sasuke argumentou. "Eu também não quero ouvir essa sua voz imbecil."

"Eu estou aqui pela Sakura-chan e não vou embora por causa de um filho da puta desgraçado."

"Então vá ficar com ela."

"Por que você não vai ficar com ela? Só uma visita pode entrar por vez. Se você for irá se livrar de mim."

Sasuke só balançou a cabeça.

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"Uchiha."

Assim que uma mão encostou no seu ombro por um milissegundo Sasuke abriu os olhos. Por mais que estivesse exausto os seus reflexos ninja não descansavam. Acordaram-no imediatamente e o puseram em alerta.

Tsunade o encarava, de pé.

Sasuke esfregou uma mão no rosto para espantar o sono. Merda. Ele nem tinha percebido que havia dormido. Não era a sua intenção, mas, pelo visto, até o seu corpo altamente treinado tinha limite. Nem mesmo a cadeira desconfortável evitou o peso das suas pálpebras pesadas, há tanto tempo abertas.

Ele pigarreou. "Como ela está?"

"Bem," Tsunade respondeu, cruzando os braços. Apreciava o esforço de Sasuke não sair dali por mais do que alguns minutos, mas, mesmo assim, ele a irritava – profundamente. "Ela tem se recuperado muito bem, na medida do possível. Estamos tirando-a do coma agora mesmo."

Sasuke tentou disfarçar o seu alívio e entusiasmo, mas Tsunade tinha olhos treinados e viu como o rosto eternamente duro dele relaxou.

Tudo o que ele fez foi abaixar a cabeça, passar a mão pelo cabelo e suspirar. "Ótimo."

"Agora, vá para casa e tome um banho de gente normal. Ninguém mais está aguentando te ver aqui – e com esse cheiro."

"Ela está acordando?" Sasuke perguntou, ignorando a ofensa.

"Está."

"Em quanto tempo?"

"Estamos tirando os medicamentos agora. Talvez daqui a umas três ou quatro horas ela acorde – tempo suficiente para você tomar esse maldito banho, vestir roupas decentes e fazer essa barba horrenda."

"Não." Ele se levantou. Um pedacinho de Tsunade – bem pequeno, minúsculo, quase insignificante – se compadeceu ao ver os olhos fundos, a pele pálida e o evidente estresse dele. "Eu quero estar aqui."

"Uchiha, não vai adiantar nada você ficar aqui. Nada vai mudar nas próximas horas, eu garanto. Vá para casa e volte daqui a três horas."

"Eu não –"

"Eu te aviso se ela acordar antes."

Sasuke olhou para ela desconfiado. E com razão: Tsunade nunca lhe prestava favores.

Ela rolou os olhos diante da descrença dele. "Eu prometo, Uchiha. Naruto também foi para casa descansar. Eu disse que o avisaria também."

Ele não tinha motivos para duvidar de Tsunade mesmo sabendo que ela o odiava. Portanto, à contragosto, ele foi para casa.

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Sasuke prometeu a si mesmo que não iria dormir, mas a luta contra o sono era uma que ele eventualmente perderia. Ele cochilou durante o banho – mesmo este sendo gelado, justamente para mantê-lo acordado – andou pelo apartamento inteiro, tentando tirar a sua cabeça do sono, mas, assim que ele se sentou no sofá a resistência dele acabou. Só alguns minutos, ele disse a si mesmo. Por precaução ele programou o seu celular para despertar em trinta minutos.

Ele não conseguiu acordar.

Ele só acordou quando Naruto bombardeou a porta da sua casa com socos e pontapés. Sasuke despertou sobressaltado, assustado, por um segundo não entendendo o que, diabos, estava fazendo em casa e não no hospital. Quando olhou as horas e viu que as três horas estipuladas por Tsunade haviam se passado há muito tempo ele imediatamente se pôs de pé, praguejando tudo o que via pela frente.

"Sasuke! Abra essa porta!"

Ele fez o que Naruto mandava – não porque obedecia ordens de Naruto, mas simplesmente porque queria correr o mais rápido para o hospital.

"Sakura já acordou –"

"Eu sei!" Sasuke gritou enquanto fechava a porta atrás de si com raiva. Ele não reservou a Naruto nem mesmo um olhar enquanto corria para descer as escadas.

Era óbvio que o loiro o acompanhou.

"Você não vai me perguntar como ela está?"

"Eu quero ouvir da boca dela."

Ele se deixou ser guiado por Naruto dentro do hospital em direção ao quarto de Sakura – reclamando algumas vezes da lerdeza do seu amigo. Ele nem sentia a dor na perna mais. Aquilo era totalmente irrelevante naquele momento.

Naruto parou com a mão na maçaneta do quarto. Sasuke já estava pronto para empurrar Naruto contra a porta para abri-la quando o futuro Hokage se virou e o encarou com seriedade.

"Você não vai brigar com ela, está me ouvindo?" ele ordenou.

Sasuke resfolegou. "Pare de falar asneiras e abra logo essa porta."

"Eu estou falando sério, Sasuke. Sakura-chan ainda está fraca. Qualquer tipo de estresse só irá piorar a situação."

"Eu sei disso, idiota."

"Eu mesmo torcerei o seu pescoço se falar qualquer coisa desagradável para ela."

"Abra essa merda."

Com um suspiro, Naruto o fez.

Se Sasuke achava que ficaria aliviado em vê-la, estava redondamente enganado.

Antes de tudo isso ela já estava magra – agora, estava quase caquéxica. Os ossos do rosto dela estavam mais protuberantes, o cabelo seco, olheiras escuras manchavam a pele pálida. Ela não parecia Sakura. Parecia um fantasma da mulher que ele um dia conhecera.

Vários fios e tubos saíam dela para se conectar a máquinas e bolsas de medicamentos e outras coisas que Sasuke não queria saber. Ele via que um deles saía de um lado do tórax dela para drenar uma substância amarelada.

"Sasuke!"

O grito de Naruto no seu ouvido o assustou. Ele estava tão concentrado em estar chocado que não percebera que todos olhavam para ele – inclusive Mayama, sentado ao lado de Sakura.

Ele engoliu em seco e, com a mão enfiada no bolso e cabisbaixo, foi lentamente até a cama de Sakura. Ele sentia os olhos dela sobre si. A sua visão periférica captou Naruto se debruçando sobre Sakura e dando um beijo amistoso na testa dela.

"Como está se sentindo?" Naruto perguntou enquanto acariciava o cabelo dela.

"Bem," ela respondeu com um sorriso fraco que Sasuke ainda não viu. Mantinha os olhos baixos, encarando os seus pés.

A voz dela fez um arrepio descer pela espinha dele. Há tantos dias desejava ouvi-la como uma prova de que ela estava simplesmente viva, mas, agora que ouvira, não estava satisfeito. Estava diferente, seca, fraca – exatamente como o corpo de Sakura em si.

Sasuke ouviu Mayama se levantar da cadeira. "Vocês podem ficar com ela essa tarde? Tenho que voltar para o meu plantão."

"É claro. Eu e Sasuke estaremos aqui. Não se preocupe."

"Ótimo." O médico deu um beijo na testa de Sakura exatamente como Naruto. "Fique bem."

Um silêncio estranho entrou o quarto com a saída de Mayama. Os olhos dos seus outros dois amigos fez os pulmões de Sasuke parecem menores. Quando ele enfim teve coragem de erguer a cabeça viu que Sakura realmente o encarava.

Ele queria desviar os olhos de novo. Vê-la daquela forma o machucava quase fisicamente.

"Fale alguma coisa," ela sussurrou.

Sasuke abriu a boca, mas a fechou imediatamente depois. Queria falar alguma coisa – qualquer coisa – mas não sabia exatamente o quê. O que realmente desejava era chacoalha-la pelos ombros e gritar, exigir respostas do porquê de ela ter escondido isso dele. Queria dizer que tudo ficaria bem. Queria dizer que ele a odiava por fazê-lo se sentir assim de novo. Queria arrancá-la daquela cama e manda-la reagir e assegurá-lo de que tudo aquilo era exagero de Tsunade.

Mas ele não podia fazer isso. Ele não estava preparado para transformar em palavras todos os temores, e nem Sakura estava preparada para ouvi-lo.

Portanto, tudo o que ele pôde fazer foi apertar os lábios e dizer: "Eu não tenho nada a dizer."

Sakura sabia que era mentira. Via na tensão do rosto dele que ele tinha muito a dizer. Mas sabia também como a cabeça de Sasuke funcionava. Se ele achava que não tinha nada a dizer, não seria ela que o pressionaria.

"Por que não se senta?" Naruto sugeriu. Preocupava-se com Sasuke. O semblante dele não era nada bom. Parecia que a qualquer momento o Uchiha explodiria – e bem na frente de Sakura.

"Eu estou bem."

"A sua perna ainda não está totalmente recuperada. Seria melhor se sentasse."

"Eu já disse que estou bem," Sasuke retrucou com os dentes cerrados. Céus, como Naruto o irritava. A voz do seu amigo já era chata o bastante em dias normais; agora que Sasuke tinha os nervos à flor da pele ela parecia mil vezes mais enjoada.

Naruto levantou as mãos em rendição. "Tudo bem. É você quem sabe." Ele se virou para Sakura. "Está tudo bem com você, Sakura-chan? Quer que eu arrume mais travesseiros? Quer comer ou beber alguma coisa?"

"Não, Naruto, está tudo bem. Obrigada."

Sasuke queria rir. A última coisa que tudo aquilo estava era bem.

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A.N.: Eu peço desculpas pela demora. Espero que tenham gostado!