Remus era um membro esforçado da ordem, gostava de antecipar ataques e salvar pessoas. Não gostava do combate em si, preferia a estratégia, mas não fugia de ação quando necessária. Não que a vida fosse fácil, não era, estavam em guerra, e a sua situação era mais complicada do que dos outros membros. Pois não só os Death Eaters como os Aurores adorariam colocar as mãos em um lobisomem.
Mas ele não se importava com esses problemas, grande parte das missões eram realizada com seus amigos, ou planejada para eles realizarem. O fato de ter que se ausentar uma semana todo mês não atrapalhava seu trabalho. Ele perdia algumas novidades, isso era verdade. E agora as transformações eram solitárias, não mais na casa dos gritos, agora em uma área de mata alguns quilômetros de Londres. Já não era mais prudente para os amigos se transformarem e correr o risco de atrapalhar alguma missão por estarem longe acompanhando o lobisomem. Remus entendia. E concordava que era o mais prudente a ser feito.
Também entendia o receio de um ou outro membro da ordem. Principalmente depois de um quase acidente. Remus havia sido levado como sempre para o lugar seguro para a transformação, mas por um erro de cálculo quando os outros dois membros que o acompanharam já estavam partindo acabaram por ver a imagem de um lobisomem adulto.
E a imagem não era bonita.
Assim como não eram as cicatrizes que Remus trazia todas às vezes após a transformação. Ele sabia que alguns membros ficavam um pouco inseguros, mas quando estava em ação, dava sempre o melhor de si, talvez para provar a todos que ele era tão bom quanto o resto.
Talvez por isso Remus tenha ficado chateado quando Dumbledore o chamou para conversar em particular. "Você é o único que pode fazer isso." Ele falava em um tom calmo. "É de extrema importância saber se os lobisomens vão ou não apoiar o lord das trevas" os olhos azuis de Dumbledore o encaravam, e ele duvidava que alguém seria capaz de negar algo ao diretor. "Eu sei que será perigoso, e que Greyback..."
"Eu sei quem é Greyback, e não vou comprometer a missão por problemas pessoais." Remus disse em um tom cansado.
"Sendo assim, estamos combinados. Você parte em duas semanas, não precisa levar nada de valor, esconda sua varinha, faremos contato sempre na lua nova." Essas foram as últimas palavras ditas por Dumbledore até o fim da guerra.
Ninguém o cumprimentou pela importante missão para que foi designado.
E um dia antes, James, Sirius Peter e Lilly o levaram a um pub. "Seu último contato com a civilização por um bom tempo." Sirius comentou num tom brincalhão que foi logo cortado por um olhar de reprovação de Lilly. Naquela noite eles beberam, e riram, e se divertiam como não se divertiam desde a época da escola. Por uma noite não havia guerra, nem lobisomens, eram apenas cinco amigos aproveitando a vida. Quando o final da noite veio todos desejaram boa sorte na nova missão.
E pode ter sido o excesso de bebida, ou o hábito de ficar na defensiva. Mas por um instante ele achou que eles também estavam contentes por ele partir, James e Lilly acabaram de ter um bebê e talvez um lobisomem por perto, mesmo sendo o lobisomem um amigo, os deixassem inquietos. E ao deitar na sua cama pela última em um bom tempo, uma memória voltou.
Dos olhos negros, do cabelo caindo pelo rosto, da maneira sem jeito.
E fez uma prece para que ele também estivesse bem, não importa onde estivesse.
-x-
Ele nunca imaginou que a vida de Death Eater fosse fácil, mas também não acreditou que sua função seria apenas de produzir poções e venenos para facilitar os outros.
Não que Severus Snape fosse um especialista em combates e feitiços. Na teoria ele sabia, o problema era a prática. Por isso participara de poucas missões. E a primeira vez que utilizou de um Cruciatus teve problemas para dormir.
E assim ele foi deixado de lado, utilizado para fabricação poções ou missões de pouca importância. O que estragava seus planos. Porque a idéia era aprisionar Potter, Sirius e Peter e fazê-los sofrer. Lupin também deveria sofrer. Por tudo que ele era, por tudo que ele quase fez, e por tudo que ele realmente fez. Mas a idéia de fazer Lupin sofrer exigia um pouco mais de esforço.
E numa noite chuvosa que a roda da fortuna resolveu sorrir para Severus.
Estava num bar não muito limpo, nem muito bem freqüentado em Hogsmead tomando uma bebida de cheiro forte e gosto amargo, quando seus olhos caíram sobre duas figuras que estavam sentadas no balcão. Uma delas ninguém menos que seu ex-professor Albus Dumbedore. Ele conversava com uma mulher estranha de roupas coloridas, muitos colares e mais anéis do que dedos nas mãos. Mas se o próprio Dumbledore perdeu seu tempo para ouvir a mulher, talvez algo de importante ela teria a dizer. Então tentou se aproximar ao máximo dos dois sem ser notado, quando ouviu a mulher dizer "Aquele com o poder de vencer o Lorde das Trevas se aproxima...nascido dos que o desafiaram três vezes, nascido ao terminar o sétimo mês.". Mas antes que pudesse ouvir o restante, uma mulher gorda o expulsou do bar, por estar ouvindo a conversa dos outros.
Não importava, ele tinha uma profecia sobre o Lord das Trevas, e mesmo que incompleta seria de extrema importância.
E foi com essa informação que ele saiu do status de fazedor de poções, a membro de certo Status. Dessa vez Severus realmente achou que iria realizar seus planos.
Por isso ele chorou quando ouviu que o Lord iria atrás dos Potters para evitar a profecia se cumprisse. Iria atrás de Lilly. E isso ele não podia permitir. E se sentindo o pior dos seres humanos que ele procurou o ex-professor, e contou tudo que sabia sobre os planos.
Do homem que humilharia James Potter, agora era o homem que estava tentando salvar sua vida. Mesmo que James nunca soubesse, ele se odiava por isso.
-x-
Remus não pensava mais em Snape, nem se preocupava se o antigo colega de escola estava bem, ou se já havia sido morto por alguém da ordem. Ou pior, se já havia matado. Nem gostava de imaginar que nesse exato momento ele poderia estar torturando algum inocente.
Pelo menos era isso que ele gostava de acreditar.
Porque muitas vezes no meio da floresta escura e úmida em que o bando de Greyback se escondia sua mente parecia vacilar. O contato com outros lobisomens não lhe fazia bem, o grupo era violento, e a maior parte já haviam esquecido grande parte das normas da sociedade. Viviam do instinto e para propagar a licantropia. Alguns já não precisavam mais da lua cheia para se transformar, aumentando ainda mais o perigo.
A idéia de que no fundo ele não era potencialmente tão diferente assim, o assustava, e o rapaz temia que se ficasse mais tempo junto com o grupo poderia acabar se aproximando mais da besta, deixando tudo pra que ele passou anos tentando esconder de lado, e abraçando a insanidade do lobo dentro de si. Ele não podia negar que a idéia de total liberdade, não precisar se esconder, e viver onde era aceito completamente por ser o que é era de certa forma, tentadora. E estava se tornando ainda mais tentadora a cada dia.
E pra tentar manter sua sanidade ele lembrava.
E se perguntava como estariam seus amigos, esperava que todos estivessem vivos, se o bebê de James e Lily crescia bem, se Sirius já começara a criar algum tipo de juízo, se Peter um pouco de coragem. Se forçava para lembrar cada detalhe de seus rostos, suas aventuras com os amigos na época de escola, das conversas, e de tudo que era importante para ele. E rezava para que todos estivessem bem. Depois de visitar mentalmente cada um de seus amigos, eventualmente suas memórias passavam por Snape.
Mesmo que sem querer, ele revivia o beijo. Mesmo sabendo que essa memória só voltava por nunca ter experimentado essa sensação com mais ninguém. E que o sonserino não significava nada. Mas diversas vezes ele se pegou imaginando sis, e como as coisas poderiam ter sido diferentes se ele tivesse tido um pouco mais de coragem.
E acabava por rezar para que Severus não tivesse escolhido um caminho errado e agora não estivesse em problemas. Na verdade essa preocupação com Severus Snape era mais constante do que Lupin gostaria de assumir.
Remus já não sabia quanto tempo exatamente estava acompanhando o grupo de lobisomens, mais de um ano era certeza, também não em que mês estavam, o clima já começava a esfriar, mas ainda não era inverno. As informações da ordem se tornavam cada vez mais espaça e vagas, e o rapaz por muitas vezes considerou abandonar tudo e descobrir o que estava acontecendo. Então pensava em Dumbledore, na decepção por ele ter abandonado sua missão. Se algo realmente importante tivesse acontecido ele saberia.
Ele sabia que a lua cheia iria demorar a aparecer, duas semanas pelo menos, quando notou uma agitação no grupo. E logo a agitação se transformou em pequenas discussões, e logo toda a alcatéia se juntava para discutir a notícia que o Lord das trevas poderia ter sido derrotado.
As informações eram desencontradas, alguns diziam que tinham sido os aurores, outros que o próprio Dumbledore, e uma das informações essa não levada a sério, dizia que o Lord havia sido morto depois de matar dois membros da ordem, mas que seu filho havia sobrevivido.
Muitos não acreditavam na hipótese, já outros diziam que seria melhor debandar antes que duas centenas de bruxos aparecessem querendo prendê-los.
Remus não precisou esperar que eles tomassem uma decisão para tomar a sua. E enquanto a alcatéia ainda discutia se esgueirou até um arbusto para investigar qual daquelas teorias era realmente verdadeira. A lua ainda fraca facilitou sua fuga e em poucos instantes aparatou em uma pequena vila bruxa não muito longe de lá, e entrou primeiro bar que encontrou.
O lugar não era grande, um bar pequeno para uma vila pequena, a madeira de que era feito o lugar já exigia reparos, assim como suas mesas e as cadeiras. Mas naquela noite ninguém parecia se importar. O local exalava um forte cheiro de álcool, alguns fregueses já demonstravam sinais de embriaguez, comemoravam, davam vivas e cantavam em homenagem ao fim da guerra. O forte cheiro de fumaça vindo de diversos cachimbos se misturava ao de álcool deixando o ambiente pesado, e complicado para respirar e a cada momento alguém decidia pagar uma rodada de bebidas a todos os presentes. Muitos já derramavam mais o conteúdo fora dos copos. Mas todos estavam felizes.
Foi exatamente no momento em que uma mulher que usava um vestido curto demais, e apertado demais para seu corpo largo, tentava transitar sem derrubar as bebidas de sua bandeja, que Remus escolheu uma mesa um pouco mais afastada e sentou. Antes mesmo que pudesse escolher o que iria beber, a senhora depositou um copo de bebida de cheiro forte e cor estranha na sua frente. "Cortesia daquele senhor ali." Ela apontou para um homem baixo de barriga protuberante cantava alto uma música antiga.
Remus acenou para o homem e se serviu da bebida. O gosto forte fez seu corpo estremecer. Pela reação das pessoas ele nem precisou averiguar, parecia que os Rumores eram realmente verdades. Aquele que não deve ser nomeado estava derrotado.
Agora ele poderia voltar para seus amigos, e finalmente tentar uma vida normal.
Remus estava prestes a se levantar e aparatar diretamente na cede da ordem, quando seus olhos pararam por um instante em uma figura no canto do bar. E sua boca não precisou secar, nem seu coração disparar para ele ter certeza que aquela pessoa era Severus Snape.
Estava mais magro, o cabelo um pouco mais comprido, mas sem dúvida aquele era Snape, E pela expressão em seu rosto, ele era o único que não nem um pouco feliz pelos acontecimentos.
Ele era um Death Eater, não havia uma prova direta, mas fortes evidências levavam a crer que sim. Remus sabia o que deveria fazer, desarmá-lo, rende-lo e levar até os aurores mais próximos para que cumprisse pena pelos crimes cometidos.
Era exatamente isso que ele deveria fazer, e por isso ele não fez.
Se aproximou da mesa e puxou uma cadeira mesmo sem ser convidado. O rosto do outro homem estava levemente inchado, os olhos baixos e avermelhados. Remus tinha certeza que Severus havia chorado. E em todos os anos de escola, mesmo com todas as maldades, ele nunca havia visto Severus Chorar.
"Noite difícil?" Remus perguntou antes mesmo que Severus tivesse a chance de expulsá-lo da mesa.
O outro homem não respondeu, apenas fitou Lupin de cima a baixo e voltou a encarar o copo.
"Eu deveria prender você..." Remus começou, e abaixou o tom de voz quando percebeu que a senhora trazia mais duas doses, dessa vez oferecida por uma jovem bruxa, que gritava aos quatro cantos do bar que era nascida trouxa e havia sobrevivido ao terror e não teria mais que viver com medo. "Pelo o que você é, e te entregar as autoridades." Remus completou a meia voz.
"Eu poderia matar você pelo o que você é, e ninguém iria me julgar um criminoso." Snape respondeu sério, e sem encarar o homem sentado ao seu lado.
Remus apenas desviou o olhar, não iria cair nas provocações de Snape, não naquela noite.
"Você sabe como aconteceu?" Lupin perguntou enquanto olhava o conteúdo do copo sem muita coragem de bebê-lo.
Dessa vez houve reação. Severus virou o rosto bruscamente em direção ao homem ao seu lado. Seu rosto pareceu ainda mais pálido, e seus olhos o brilho de quem está prestes a chorar. "Você não sabe?" Havia desespero na voz de Snape.
E os dois se encararam, e Remus teve certeza que havia algo de muito errado acontecendo.
"Como foi?" Remus perguntou.
Antes de obter uma resposta viu Severus virar o conteúdo de seu copo, chamar a garçonete e avisar que essa rodada seria por conta dele. E em poucos segundo o barulho no bar aumentou.
"Aquele que não deve ser nomeado foi derrotado." Mas acredito que isso você já deve ter percebido. Snape encarou o copo de bebida. "Mas levou dois membros da Ordem antes disso."
Remus estremeceu ao ouvir isso. Tomou mais um gole da bebida. E rezou para que não fosse nenhum de seus amigos.
"James e Lilly estão mortos, a cria deles sobreviveu ao ataque, os rumores dizem que com apenas uma marca."
Remus sentiu o estômago revirar, e por um instante o mundo rodou e sua visão escureceu. "Você... Tem certeza?" Remus perguntou, desejando muito que Snape estivesse mentindo.
"Dumbledore é a fonte." Foi difícil Snape pronunciar o nome do diretor sem nojo.
E mais uma vez os dois se encararam, e Remus teve certeza de que ele não estava mentindo. Num movimento tentou se levantar, mas o efeito da bebida, ou o choque da notícia, fez com que ele se sentasse de novo.
"Eu preciso..." Ele começou.
"Nem tente," A mão de Severus segurou a mão de Lupin evitando que o outro homem tentasse levantar.
O arrepio que ambos sentiram quando isso aconteceu nenhum dos dois demonstrou.
"Londres está cheia de Aurores procurando Death Eaters, e de Death Eaters procurando por informações. O lugar não é seguro nem pra você, nem pra mim." Snape ainda segurava a mão de Lupin quando terminou de falar.
"E por que..." Remus não sabia como e nem foi necessário ele terminar. A garçonete trazia mais uma dose para os dois. E nesse instante Severus soltou a mão de Remus.
Snape encarou o conteúdo e em uma golada acabou com o conteúdo do copo. "Lilly..." Falar o nome dela doía, e ele fechou os olhos para evitar que uma lágrima escorresse. "Antes de vocês aparecerem, ela era minha amiga, antes do imbecil do James aparecer, ela era minha amiga." Havia dor e raiva em sua voz, raiva suficiente para fazer o copo que ele segurava quebrar. "E por conta do imbecil ela está morta."
Severus não sentiu o pedaço de vidro entrar por sua mão, muito menos o sangue que começou a escorrer. Foi necessário Lupin abrir a mão do outro homem e tentar tratar de maneira precaria o ferimento e estancar o sangue.
"Severus..." ambos se espantaram quando Remus o chamou pelo primeiro nome, mas seja pela dor ou pela embriaguez eles ignoraram. "Há algum lugar seguro para você passar a noite?" Remus perguntou.
"Tem uma casa não longe daqui, me foi garantido que seria seguro"
"Acho melhor você ir, acho melhor nós dois irmos," Remus olhou o bar. "Nós somos os únicos que não estão cantando e celebrando e acho que isso começou a trazer suspeitas." Ele concluiu indicando uma dupla de bruxos de corpo largo que olhava na direção deles.
Severus apoiou a mão machucada na mesa quando tentou se levantar, o que fez com que ele quase perdesse o equilíbrio, se não fosse por Remus o segurar ele teria caído. Ele deixou um galeão ao passar pela bancada onde um homem pequeno e com um longo cabelo preso num rabo de cavalo servia mais copos.
O homem sorriu e acenou com a cabeça. Enquanto Snape se apoiava levemente em Lupin, e Lupin se apoiava em Snape numa tentativa de andar em linha reta.
E os dois continuaram caminhando assim por uns dez minutos, os homens haviam ficado pra traz, mas a rua completamente deserta não trazia sensação de segurança, até Snape indicar um pequeno sobrado.
"É melhor você descansar." Remus disse enquanto caminhavam em direção a porta.
"Entre." A voz de Severus recuperou o tom sério e orgulhoso. E antes que Lupin pudesse terminar de entrar Snape o beijou.
E ele correspondeu.
Um beijo intenso que ambos tentavam dominar, E com o beijo tentavam esquecer o que perderam, tentavam esquecer que sofriam.
E na tentativa de esquecer a dor e o sofrimento, caricias foram trocadas, roupas se espalharam pelo chão, marcas foram deixadas nos corpos, nenhuma palavra foi dita. Só a respiração ofegante e eventuais gemidos ecoaram pela casa.
No desespero de encontrar prazer no meio da tristeza, eles se tocaram, e se possuíram, sem delicadeza. Havia desespero nas ações dos dois homens. E quando toda dor que sentiam se transformou em prazer, e se entregaram ali mesmo no chão do sobrado, sem se importar com mais nada, naquele momento não havia dor, nem mágoa, e nada mais poderia trazer razão ao mundo.
Exaustos e em silêncio eles adormeceram.
Remus Lupin com Severus Snape apoiado em seu peito, a mão parada sobre a cabeça do outro homem, como se tivesse adormecido enquanto afagava seus cabelos. E nada mais que uma capa cobria seus corpos.
Finalmente algo aconteceu. O que era para ser pequenas drabbles tá virando uma fic de verdade, e talvez esteja na hora de eu achar uma beta. Porque deve tá lotada de erros. Bem e se você já se deu ao trabalho de ler até aqui, porque não deixar um comentário.
