No último dia de nossa viagem a Jenn, a cidade onde ficava a escola de aperfeiçoamento social, passamos por terras de ricas fazendas. O dia estava nublado e quente, e eu estava com tanto calor que quase não sentia fome. Karin tinha energia para apenas um comando: abaná-la.

- Abane-me também - Konan falou. Ela tinha chegado à conclusão que se Karin me dissesse para fazer alguma coisa, eu faria, e se ela me ordenasse fazer a mesma coisa, eu também faria. Karin não havia explicado a ela como funcionava minha obediência. Karin não se preocupava em explicar muitas coisas à lerda Konan, e deve ter gostado de guardar consigo o delicioso segredo só para ela mesma.

Meus braços doíam. Meu estômago roncava. Eu olhei pela janela e vi um rebanho de carneiros e desejei uma distração que afastasse meus pensamentos de carneiros e salada de lentilha. Meu desejo foi atendido, instantaneamente, pois a carruagem disparou num louco galope.

- Ogros! - gritou o cocheiro.

Uma nuvem de poeira ocultou a estrada atrás de nós. Pude vislumbrar um bando de ogros, tentando se desvencilhar da poeira, e vindo em nossa perseguição.

Mas, estávamos indo mais rápido do que eles. A nuvem de poeira foi se desfazendo.

- Por que vocês correm de seus amigos? - um deles falou. Era a voz mais doce que já tinha ouvido. - Nós trazemos os presentes que o seu coração deseja. Riquezas, amor, vida eterna...

Desejo do coração. Mamãe! Os ogros a trariam de volta da morte. Por que nós chorávamos pelas coisas que mais queríamos?

- Vá devagar - Karin ordenou, desnecessariamente. O cocheiro já havia puxado as rédeas dos cavalos.

Os ogros estavam a apenas poucos metros de nós. Intocados pela magia dos ogros, o rebanho de carneiros estava berrando e balindo seu medo. Rapidamente, o ruído deles encobriu as palavras melosas e o encanto se quebrou. Lembrei que os ogros não poderiam reviver a minha mãe. Os cavalos foram novamente chicoteados para galopar.

Mas os ogros ultrapassariam os carneiros num minuto, e estaríamos à mercê deles novamente. Gritei para Karin, Konan, para o cocheiro e para os lacaios:

- Gritem bem alto para que vocês não possam ouvir os ogros.

O cocheiro logo entendeu e juntou sua voz à minha, gritando palavras que eu nunca tinha ouvido antes. Então, Karin começou.

- Me comam por último! Me comam por último! - berrava ela.

Mas foi Konan quem nos salvou. Ela deu um rugido que eliminou qualquer pensamento. Não sei como conseguiu fôlego; seu som era infinito. O som continuou ao passarmos pelas casas afastadas de Jenn, enquanto os ogros desapareciam de nossa visão e eu me recobrava do susto.

- Quieta, Konan - disse Hattie. - Ninguém vai ser comido. Você está me deixando com dor de cabeça.

Mas Konan não se calou, até que o cocheiro parou a carruagem, entrou, e lhe deu um tapa certeiro no rosto.

- Desculpe-me, senhorita - ele falou, e retirou-se rapida mente.

A escola de aperfeiçoamento social ficava em uma casa de madeira comum. Exceto pelos enormes arbustos ornamentais, podados em forma de moças com saias longas, esta casa parecia ter sido o lar de um comerciante não-muito-próspero.

Eu tinha esperanças de que as porções do almoço fossem generosas.

Quando chegamos, a porta se abriu e uma senhora ereta e de cabelos grisalhos caminhou toda empinada em direção à nossa carruagem.

- Bem-vindas, senhoritas. - Ela se curvou na reverência mais delicada que eu já havia visto. Nós a reverenciamos também.

Ela apontou em minha direção.

- Mas quem é esta?

Falei rapidamente, antes que Karin pudesse explicar sobre mim de uma maneira que eu não gostasse de ser explicada.

- Sou Sakura, senhora. Meu pai é Sir Kakashi de Frell. Ele escreveu-lhe uma carta. - De minha valise, retirei a carta de meu pai e a pequena bolsa que ele havia me confiado.

Ela guardou a carta e a bolsinha (depois de pesá-la em sua palma) no bolso de seu avental.

- Que bela surpresa. Eu sou madame Edith, diretora de seu novo lar. Seja bem-vinda ao nosso humilde estabelecimento. -Madame Edith fez novamente reverência.

Eu queria que ela parasse com aquilo. Meu joelho direito estalava quando me abaixava.

- Nós acabamos de almoçar.

Lá se foram as minhas porções generosas.

- Estamos nos aprontando para nossos bordados. As jovens estão ansiosas para conhecer vocês, e nunca é cedo demais para começar a se aperfeiçoar socialmente.

Ela nos conduziu a uma grande sala ensolarada.

- Senhoritas — ela anunciou — aqui estão três novas amigas. Uma sala repleta de moças se levantou, fez reverência, e retornou aos seus assentos. Cada uma delas usava um vestido cor-de-rosa e uma fita amarela no cabelo. Meu vestido estava manchado e amarrotado da viagem, e meu cabelo provavelmen te estava solto e despenteado.

- Voltem ao trabalho, senhoritas - disse madame Edith- - A mestra de costura irá ajudar as novas alunas.

Sentei-me numa cadeira perto da porta e encarei desafiadoramente aquela elegância à minha volta. Encontrei os olhos de uma menina da minha idade. Ela sorriu hesitantemente. Talvez meu olhar tenha se abrandado, porque seu sorriso cresceu e ela piscou para mim.

A mestra de costura aproximou-se com uma agulha, uma variedade de linhas coloridas e um pano de linho branco redon do com um desenho de flores. Eu deveria seguir 0 contorno e costurar as flores com a linha. O tecido poderia, então, ser usado para cobrir um travesseiro ou as costas de uma cadeira.

Depois que a mestra de costura me explicou o que deveria ser feito, deixou-me, presumindo que eu saberia como fazer. Mas eu nunca havia segurado uma agulha antes. Embora observasse as outras meninas, não conseguia fazer os pontos. Lutei por uns quinze minutos, até que a mestra de costura correu para o meu lado.

- Esta menina foi criada por ogros ou coisa pior! _ exclamou ela, puxando o tecido de minhas mãos. - Segure delicadamente. Isto não é uma lança. Tem que trazer a linha junto- - Colocou uma linha verde na agulha e a devolveu para mim.

Segurei delicadamente, como me fora ordenado

Ela saiu do meu lado, e eu fiquei olhando estupidamente para minha tarefa. Então, espetei a agulha no contorno da rosa.

Minha cabeça doía por falta de comida.

- Você precisa dar um nó no final da linha e começar por baixo. - Quem falou foi a menina que tinha piscado para mim. Ela havia trazido sua cadeira para junto da minha. - E a mestra da costura vai ridicularizar você, se você bordar a rosa verde. Rosas têm que ser vermelhas ou rosas, ou amarelas, se você for mais ousada.

Um vestido rosa, parecido com o que ela usava, estava sobre seu colo. Ela curvou sua cabeça sobre ele para dar um pequeno ponto.

Seu cabelo castanho escuro estava penteado em dois coques no alto de sua cabeça, lembrando-me um panda. A pele tinha cor de canela, com tons de framboesa nas bochechas (não podia evitar pensar em comida). Seus lábios, naturalmente cur vados para cima, davam-lhe um ar alegre e agradável.

Seu nome era Tenten, e sua família vivia em Amonta, uma cidade logo depois da fronteira de Ayortha. Ela falava com uma pronúncia ayorthaiana, fechando os lábios depois da letra m e pronunciando os ls como ys.

- Abensa utyu anja ubensu. - Eu esperava que esta fosse a forma ayorthaiana para "Prazer em conhecê-la". Aprendera isso com um papagaio.

Ela sorriu para mim em êxtase.

- Ubensu ockommo Ayortha?

- Só sei algumas palavras - confessei. Ela ficou tristemente desapontada.

- Seria tão bom ter alguém para conversar na minha língua.

- Você poderia me ensinar.

- Sua pronúncia é boa - disse ela sem muita certeza. - A mestra de escrita ensina ayorthaiano para todas as meninas, mas nenhuma conseguiu realmente aprender.

- Eu tenho jeito para línguas.

Ela começou a me ensinar naquele mesmo instante. Uma vez ouvido, sempre lembrado, é como acontece comigo com relação aos idiomas. No fim de uma hora, estava formando pequenas frases. Areida ficou encantada.

- Uryu ubensu evtame oyjento? - perguntei. (Você gosta da escola de aperfeiçoamento social?)

Ela meneou os ombros.

- Você não gosta? É horrível? - perguntei, revertendo para kyrriano.

Uma sombra cobriu a costura, que eu negligenciara. A mestra de costura pegou minha capa de almofada e anunciou drama ticamente:

- Três pontos em todo este tempo. Três largos e desalinha dos pontos. Como três dentes numa gengiva desdentada. Vá para o seu quarto e fique lá até que seja hora de ir para a cama. Não haverá ceia para você esta noite.

Meu estômago revirou tão alto que toda a sala deve ter ouvido. Karin deu um sorriso falso para mim. Ela não teria conseguido planejar algo melhor.

Eu não queria acrescentar mais nada a seu prazer.

- Não estou com fome - anunciei.

- Então você ficará sem o desjejum também, pela sua impertinência.