CAPÍTULO 07

Sawyer não tinha como saber se Kate havia, de fato, sonhado com ele ou não. Mas ele, com certeza, tinha sonhado bastante com Kate.
Sonhos desconexos, dos quais não lembrava muito bem.
Por exemplo, sonhara que ele e Kate tinham feito cabo de guerra com a caixa de papelão da máquinha de capuccino. Os dois puxavam vigorosamente a caixa, cada um para um lado, sem resultado algum.
E a caixa em vez de rasgar, esticava, como se fosse feita de borracha.
Mais estranho ainda, na opinião dele, era que os sonhos não pareciam ter sido eróticos. Ele costumava ter sonhos eróticos com mulheres bonitas, mas com Kate, não.
Aquela garota era encrenca e ele ia ficar bem longe dela.

Na casa em frente, do outro lado do pátio, Kate estava, de maneira bem pouco original, pensando exatamente a mesma coisa: "Aquele cara é encrenca e vou me manter bem longe dele!"

E sim , ela sonhara com Sawyer, sonhos bem mais vívidos do que os dele. Como aquele em que em vez de ajudá-la com as caixas, ele a puxava para dentro do carro e os dois ficavam se bolinando no banco de trás do carro, feito dois adolescentes.
O sonho em si tinha sido bem agradável, mas era perturbador acordar apalpando o travesseiro.
Kate gostava de pensar em si mesma como uma pessoa controlada e não a agradava ficar pensando besteiras acerca de um homem que acabara de conhecer, ela não era desse tipo.

Portanto, saiu cedo de casa, sem tomar café direito para não correr o risco de encontrá-lo.
Na delegacia, passou algumas horas insípidas checando fichas e comparando informações para um caso de desfalque, quando lhe ocorreu que aquele sujeito podia ser perigoso de verdade. Ele não lhe inspirava a menor confiança... e que ela possuía os meios de investigá-lo.
Na verdade, era obrigação dela, como policial.
Pensando no jeito petulante de Sawyer, desafiadoramente, começou a puxar informações sobre ele no banco de dados nacional da polícia.

Sawyer tomou seu café da manhã silenciosamente. Também tinha em mente evitar qualquer encontro com Kate, pelo menos por enquanto. Até que finalmente viu o carro dela saindo e relaxou um pouco.
Hurley o observava. Desde ontem, quando vira o jeito embaraçado de Sawyer ao ser apresentado à nova vizinha, Hurley se convencera de que alguma coisa estava acontecendo com seu colega de apartamento.
Sawyer não se embaraçava facilmente. Na verdade, nunca o vira apertado por nenhuma situação.

- Tá tudo bem, Dude? - perguntou Hurley.
- Tudo em ordem, - respondeu Sawyer, introvertido. - Por quê? Tô com o nariz verde, por acaso?
- Não, é que você e a vizinha nova, Kate... vocês ficaram bem esquisitos ao serem apresentados. Parecia até que tinha rolado um clima... - disse Hugo, com um sorriso malicioso.
Achando vagamente engraçado, Sawyer respondeu:
- Não foi clima nenhum, a gente já se conhece-

Espantadíssimo, Hurley o interrompeu:
- Você já conhecia ela? Cara, você é um animal! Você conhece todas as garotas de Los Angeles?! Dude! Eu quero ser você quando crescer!
Era para ser engraçado, mas por algum motivo, Sawyer se preocupou e respondeu honestamente:
- Não! Nada disso, a gente se conheceu numa batida policial, só isso. Ela me atrapalhou numa captação. É um pé no saco, essa tira!

Meio desapontado, Hurley voltou a se sentar:
- Mesmo assim, que coincidência...
- Pois é. Foi meio inesperado. Mas, tudo bem, deixa pra lá, é só ela não me aporrinhar.
Ainda sentindo uma certa tensão, Hurley mudou de assunto:
- Ah! E como foi o encontro ontem?
- Bem familiar, do jeitinho que eu gosto. - disse ele ironicamente.

Sawyer agora se arrependia de não ter prestado mais atenção no que Hurley e Charlie tinham conversado sobre Kate. Ele estava curioso para saber mais dela, mas agora não dava para perguntar sem dar na vista. Hurley não era bobo.
Hurley, porém, voltou, por conta própria, a falar de Kate.
- Escuta, eu tava pensando em fazer uma festinha para dar boas vindas pra Kate. Você tem alguma coisa contra?
Dando de ombros, Sawyer respondeu, com fingido pouco caso:
- Não, nada contra. Mas ela quer isso?
- Acho que sim, foi bem simpática, ontem. Ia ser legal todo mundo se conhecendo, né? E ela pode trazer o namorado, também.

Namorado! Claro, ela tinha namorado...
- Ele também é policial? - perguntou Sawyer.
- Não, ele é médico.
Médico! ótimo, não é à toa que é tão metida.
"Isso vai me dar trabalho," pensou Sawyer, olhando para a caneca de café.

Na delegacia, Kate passou algumas horas insípidas checando fichas e analisando perfis para uma investigação sobre uma onda de arrombamentos de lojas em certa região metropolitana de LA - quando lhe ocorreu que 'aquele sujeito' podia mesmo ser perigoso e que ela possuía os meios para investigá-lo.
- Vamos ver quem você é de verdade, amigo! - disse Kate baixinho para si mesma.

Descobrir que Sawyer, de fato, tinha ficha policial encheu Kate de uma satisfação amarga, que a fez se debruçar ansiosa sobre sua ficha.
Estelionato, na maioria de suas passagens pela polícia. Golpes do vigário, fraude, geralmente ligado à sedução de mulheres - Devia ter imaginado - algumas desordens da ordem pública, como brigas em bares, provável ligação com contrabando.

Estudando os arquivos, constatou que nada ligado a tráfico de droga, assalto à mão armada, atentado violento ao pudor, estupro ou homicídio aparecia em suas fichas.
"Bem", ela reconheceu, "pelo menos isso."
Não que estelionato não fosse um delito desprezível, mas pelo menos Sawyer até então nunca apelara para violência ou cometera um crime contra a segurança de outros.
Por isso, as poucas penas que tivera, se resumiram a meses na prisão. Mulheres enganadas raramente dão queixa na polícia, é muito humilhante para elas e para os maridos.

Um fato chamou a atenção de Kate: há uns dois anos recebera uma sentença de 7 anos por ter aplicado um golpe numa mulher divorciada, mas acabara cumprindo pouquíssimo da pena e fora libertado com perdão total.
Kate tentou entrar nesse arquivo, mas estava fechado com senha.
- Ele deve ter feito algum acordo para sair tão rápido - murmurou ela.

Sempre esperto, sempre pensando agilmente, sempre vendo mais adiante, safo, sinuoso, insinuante ... pensou ela, com admiração.
De repente, percebeu que se sentia muito atraída por ele nesse momento. Atraída por alguém dessa laia - como sua mãe!
Mas ela estava reagindo, não estava? Não ia cair feito uma patinha como Diane, não ela! Além do mais tinha um namorado excelente... de quem não se lembrava há mais de 24 horas!

Suspirando profundamente, Kate notou que até nas fotos instantâneas tiradas na hora da prisão, Sawyer ficava bem.
Pensando em voz alta, ela falou:
- Deve estar tramando alguma coisa, não é possível que esteja morando lá por nada...
- Como é? - perguntou Ana Lucia, da mesa em frente.
- Sabe quem é um dos meus novos vizinhos no condomínio pra onde me mudei? Sawyer! O caçador de recompensa de ontem.
Ana Lucia assobiou, espantada:
- Sério? Menina, você tá azarada, heim?
- Puxei a ficha dele e adivinha? Estelionatário, com várias passagens na polícia. Tenho certeza que ele tá aprontando alguma coisa.

Pensando um pouco, Ana perguntou:
- Tem gente rica no seu condomínio? Que possa ser um alvo pra ele? Quanto tempo ele mora lá?
- Não sei - respondeu Kate - Pouco menos de um ano, eu acho. E creio que todo mundo lá é classe média... mas, ele não parece um golpista de milhões.
- Sei - continuou Ana - e quando foi o último golpe dele?
Kate respondeu:
- Bem, o último golpe eu não sei. O último pelo qual foi preso tem mais de dois anos e ele obteve perdão total, depois de três meses cumprindo pena. Acredita? Deve ter feito algum acordo, entregado alguém mais importante, talvez até ganhado alguma recompensa.
Ana respondeu:
- É muito tempo para um golpista. Uns meses estudando e enrolando a marca, tudo bem. Mas pelo menos um ano? Ele não está trabalhando com o Grego? Às vezes tomou jeito, acontece.

Fazia sentido, mas Kate não queria acreditar nisso:
- E você acha que estelionatário toma jeito?
- Difícil, - respondeu Ana, torcendo a boca - mas um ano inteiro sem dar golpes, não é pouca coisa. Não digo que ele ficou bonzinho, só que é pouco pra se investigar. Especialmente, se ele ainda não fez nada aqui na California. Eu não perderia meu tempo com isso...
Meio irritada, Kate insistiu:
- Pois eu acho que ele tá tramando alguma coisa e não vou largar do pé dele.

Tripp, ouvindo boa parte da conversa, se aproximou:
- Por isso que Cortez é uma policial exemplar: sabe escolher prioridades. Acho que não ser surpresa quando alguém aqui virar tenente!
Kate virou os olhos, impaciente!
Estava cansada de saber que Ana Lucia era a queridinha do chefe Tripp. Vinha de uma família de policicias: pai, mãe, irmãos e até ex-marido. Uma espécie de clã irlandesa de tiras, só que hispânica. O pai de Ana havia sido parceiro de Tripp, quando ambos eram investigadores.
Tripp era o padrinho de Ana.

E Kate sabia também que Tripp não ia muito com a cara dela. Falta de sorte o chefe ter ouvido sobre sua investigação sobre Sawyer. Outra vez aquele homem a prejudicando! Ana e Tripp que se danassem, ela não ia deixar nada barato com aquele cara!

Assim que chegou ao condomínio, à noitinha, Kate ficou um bom tempo observando o apartamente de Sawyer e Hurley. Queria entrar lá e vasculhar as coisas dele. Tinha certeza que encontraria algo sobre suas atividades.
Resolveu arriscar e bater na porta, para ver o que acontecia.

Por sorte, Hurley abriu a porta. O simpático rapaz abriu um sorriso:
- Oi, Kate! Tudo bem? Eu ia mesmo na tua casa, mais tarde... quer entrar? Não faça cerimônia.
Contente, Kate entrou rapidamente.
- Obrigada, eu vim agradecer a ajuda ontem com a mudança! Vocês foram todos muito legais comigo, ontem. - dando uma pausa, ela perguntou - teu colega está aí?
Hurley, que realmente não era bobo, respondeu mansamente:
- Não, Sawyer ainda não chegou. Ele não costuma ter horário. Eu que cheguei mais cedo hoje. - dando um tempo, continuou - Ele é bem legal, né?
Diante do olhar interrogativo de Kate, Hurley falou:
- Sawyer, ele é muito legal. Meio temperamental, mas um cara e tanto.
Não era bem isso que Kate queria ouvir, mas aproveitou a deixa e perguntou:
- É, pode ser. Hurley o que você sabe dele?
- O que eu sei dele? - Hurley perguntou suspeitoso.
- É, ele tem família, é casado, o quê?

Interpretando a curiosidade de Kate com o interesse romântico, Hurley respondeu:
- Sei pouco. Ele não é casado, mas tem uns rolos por aí. Não tem família, também. Parece que morreu todo mundo, ele não gosta de falar nisso. Sawyer não sabe que eu sei, mas ele teve problemas com a polícia.
- E você não se importa com isso?
Hurley olhou para Kate melancolicamente
- Ninguém é perfeito. E de perto, ninguém é normal, nem bom, o tempo todo. Todo mundo se ferra na vida, de vez em quando, né? Não gosto de julgar ninguém. Eu tenho medo... de fazerem o mesmo comigo, sabe?

Kate se sentiu esbofeteada com a sabedoria vinda quando ela menos esperava. Resolveu mudar de assunto.
- Mas o que você queria falar comigo, Hurley?
- Puxa, menina, toda vez que alguém se muda pra cá, a gente faz um churrasco, uma festinha de boas vindas, sabe? E eu queria fazer uma pra você. Tá todo mundo contando com isso. A gente é meio uma família aqui. Tudo bem pra você? Vai ser na 6ª feira, à noite.

Kate hesitou um pouco, mas não tinha nada contra, na verdade. E era grato à sua eterna baixa estima ver que as pessoas a aceitavam tão bem.
Sorrindo como uma criança, Kate aceitou contente.
- Não precisa trazer nada, - disse Hurley - só precisamos de você. E se quiser trazer seu namorado, colega de trabalho, alguém da família, tudo bem.
Kate agradeceu.
- Vou ver se Jack não vai estar de plantão. Brigada, Hurley.

Nesse momento, um alarme de cozinha tocou e Hurley explicou:
- Eu deixei as cortinas do meu quarto pra lavar na lavanderia do condomínio e tava marcando o tempo. Vou lá passar pra máquina de secar. Fica aí bebendo seu café, que eu não demoro, tá? Pode colocar um cd, se você quiser ou ligar a tv.
Kate o viu saindo e pensou o quanto Hurley era simpático e simples.

Sem perder tempo, deu uma olhada pela casa. Era o espelho de sua casa com Claire.
Na estante, ao lado da tv, havia um retrato de Hurley e Sawyer, sorridentes. Ela parou meio espantada, olhando o sorriso genuinamente contente no rosto de Sawyer. Verdade seja dita, eles pareciam realmente amigos.

Se encaminhando para o corredor, entrou no primeiro quarto, que parecia de Hurley. Passando direto pela porta que ela sabia ser do banheiro, entrou no quarto seguinte.
Era o quarto de Sawyer, exatamente o mesmo aposento que ela ocupava no apartamento em frente.

Kate parou indecisa na porta, mas criando coragem, foi em frente.

O quarto não era nada do que ela havia imaginado.
Já vira estelionatários antes. Eles costumavam ser deslumbrados com o lucro que conseguiam e torravam todo o dinheiro com roupas e móveis extravagantes e bregas.

Mas aquele quarto... aquele quarto tinha... alma!

Uma enorme estante, atolada de livros, alinhados desarrumadamente, tomava conta de uma das paredes.
Os títulos e autores, entre volumes de dicionários e obras de referência, eram os mais variados possíveis e ela mal pôde ler todos os títulos: William Faulkner, Mark Twain, Agatha Christie, Stephen King, Jorge Luis Borges, Tolkien, Gabriel García- Marquez? "Nossa, que gosto eclético," pensou ela.

Kafka, Shakespeare, F. Scott Fitzgerald, Vladimir Nabokov, Somerset Maughan, Ernest Hemingway, Truman Capote, Dostoyevsky, Ayn Rand, Kurt Vonegutt, Nora Roberts... espere, Nora Roberts?
Kate riu pra valer ao ver uns dois livros da autora de melodramas femininos. Não que ela mesmo não gostasse, mas não era o tipo de leitura que esperaria para Sawyer...
Mexendo em um Jack Kerouac, notou que todos os livros estavam manuseados, lidos, não eram enfeite. Tampouco estavam maltratados, ao contrário, eram lidados por alguém cuidadoso.

Kate não esperava por isso!

Abrindo o closet, viu uma grande quantidade de roupas. Todas lhe pareceram de bom gosto. Muitas camisetas de mangas compridas, camisas sociais, jeans, algumas gravatas. Vários blazers e duas jaquetas de couro. Kate também gostava de jaquetas de couro.

A cama, deixada do jeito que ele acordara, era king size, o que não era de espantar, dado o tamanho do dono da cama e suas atividades noturnas com companhia variada.
Num impulso, se abaixou para olhar embaixo da cama. Bingo! Revistas de mulher pelada!
Achou graça, mexendo a cabeça de um lado pro outro.
Mas no criado-mudo tinha um livro de John Fante, "Pergunte ao Vento", com o marcador quase no final do volume. Ao lado do livro, um grande abajur. Provavelmente, Sawyer lia antes de dormir.

Em frente à estante, havia uma escrivaninha, com papéis, um computador e um globo terrestre em cima. Distraída, ela rodou a bola algumas vezes, vendo as cores se misturarem velozmente.

O que mais deixava Kate sem ação era o clima do aposento: calmo, tranquilo, familiar.
Tinha um ar confortável, despretencioso. A pequena desarrumação dava a impressão de que alguém, de fato, morava ali, para todo bem e para todo o mal.
O cheiro da colônia, que ela notara que ele usava, desde que havia se atracado com ele no forum, parecia impregnado sutilmente nas paredes.

Se o lugar que uma pessoa morava era, realmente, o reflexo da própria pessoa, então, definitivamente, Kate não sabia mais o que pensar de Sawyer.

Perdendo a noção do tempo e se esquecendo de que Hurley voltaria a qualquer momento, Kate resolveu mexer nos papéis da escrivaninha.

Logo em cima dos papéis, havia o que parecia ser relatórios sobre fugitivos.
Era praticamente como se fossem cartazes do velho oeste, com os nomes dos fugitivos. Kate quase podia ler "PROCURA-SE VIVO OU MORTO" nos manifestos, como faziam antigamente.
Sorrindo, ela não podia deixar de pensar que era bem aventureiro ser caçador de fugitivos.

Passando para outros papéis, ela topou com uma pasta, com um arquivo bem grande sobre um fugitivo em especial. "Blake, Alan George". De onde ela conhecia esse nome? Contador... onde ela já ouvira esse nome?

E tão concentrada estava no relatório, que não percebeu que a porta havia se aberto silenciosamente e que alguém se aproximava, sorrateiro por trás dela.

Nem percebeu quando, abruptamente, esse alguém a segurou pelo braço e a obrigou a levantar, jogando-a, abruptamente, sobre a cama e se lançando por cima dela.
Foi quando viu Sawyer dizer com a voz mal disfarçando a raiva:
- Então, gostando do meu quarto, doçura?

Os dois se encararam, Kate com uma expressão desafiadora e Sawyer, com uma expressão terrível.