MEMÓRIAS

Nina Neviani

Beta-reader: Chiisana Hana

Capítulo VI – Esperança

Você que um dia reencontrarei

em outro eu, em outra você

Reencontrarei você em um tempo que sem tempo é(1).

Vale da Esperança, 06 de julho de 1997.

Shunrei olhava a pequena turma para a qual dava aula. Todos tinham aproximadamente 9 anos e tanta energia quanto as crianças dessa idade poderiam ter. Ela, entretanto, não sabia se com aquela idade ela também tinha sido uma criança cheia de energia. Não sabia nem mesmo o seu sobrenome.

– Professora Shunrei, por favor, veja se está certo.

A mulher observou o exercício de Matemática e rapidamente constatou que o garoto tinha acertado.

– Está certíssimo, Lian. E você está de parabéns.

O menino assentiu satisfeito consigo mesmo:

– Obrigado, Professora. – Ele já ia voltar para a sua cadeira, quando olhou para a professora e disse contente – A senhora deixa as coisas parecerem mais fáceis do que elas são.

Shunrei sorriu realmente satisfeita com o elogio sincero de um dos seus pequenos aluninhos e agradeceu sinceramente. Afinal, poderia não saber quais eram suas habilidades no passado, mas no presente sabia que desempenhava bem o seu trabalho.

Percebeu que faltava pouco para o final da aula e resolveu avisar seus alunos.

– Crianças, quero que vocês tentem terminar de fazer esse exercício em casa. Amanhã corrigiremos todos juntos. – Naquele momento o sinal tocou e as crianças saíram correndo para fora da sala. – Até amanhã! – Ela disse quando o último já estava atravessando a porta. – E não quero que ninguém vá para o rio! – A professora deu um suspiro resignado quando viu que nenhum de seus aluninhos tinha ouvido a sua recomendação na pressa de ir brincar.


Os pequenos alunos da professora Shunrei estavam perto do rio que passava pelo vilarejo e naquela margem era o local onde eles normalmente costumavam brincar.

Um dos meninos tinha levado uma bola de futebol e aquela seria a brincadeira do dia. Como as aulas começavam na metade da manhã e terminavam no meio da tarde, frequentemente as crianças passavam o resto da tarde brincando até voltarem para as suas casas.

A questão inicial era a divisão dos times, todos os garotos queriam ser os capitães de cada time.

– Eu mereço ser o capitão, fui o único que consegui terminar o exercício de Matemática na aula hoje. – Lian disse todo orgulhoso de si.

– De que adianta ter conseguido terminar o exercício, mas não saber nadar para buscar a bola no rio caso ela caia lá? – Bo retrucou.

– Eu sei nadar, sim!! – Lian respondeu, nervoso.

– Claro que não sabe!

– Vocês vão ver como eu vou atravessar esse rio!

– Não faça isso, Lian. – Li Mei tentou dissuadi-lo, pois todos sabiam que só pessoas adultas e que nadavam bem conseguiam atravessar o rio.

Lian, porém estava determinado a mostrar para os demais que assim como era bom nos exercícios da escola poderia ser atravessando aquele rio.


Vale da Esperança, 06 de julho de 1997.

Shiryu abaixou-se para lavar o rosto no rio que existia no pequeno povoado em que ele acabara de chegar. Era um dia quente e ele parou para se refrescar. Ao se dar conta estava olhando para o seu reflexo nas águas calmas do rio. Estava com 25 anos, mas talvez até parecesse mais velho devido aos trabalhos que realizara nesses anos em que buscara Shunrei. Em alguns dos empregos realizava trabalhos manuais em condições bastante desgastantes. Em outros, tinha realizado trabalhos menos exaustivos, nos quais muitas vezes tinha utilizado a sua fluência em japonês.

Seu cabelo continuava tão comprido como era na época em que era um dos Cavaleiros de Atena. E, provavelmente pelo fato de ocasionalmente realizar trabalhos braçais, seu corpo continuava muito parecido com o que era 7 anos, excetuando, claro as mudanças relacionadas a idade. Pois podia ter sido um jovem com responsabilidade e mentalidade de um homem adulto. Agora, porém, era um homem em um corpo de homem. O que o lembrava que Shunrei também deveria ser uma mulher em um corpo de mulher. Será que ela tinha mudado muito?

Como que para lembrá-lo da infância que deixara para trás, um grupo de crianças passou correndo pela outra margem do rio.

Shiryu sorriu e voltou a abaixar-se para molhar os braços e a nuca, buscando se refrescar um pouco mais. Quando voltou a sua vista para os garotos percebeu que um deles tentava atravessar o rio. Pelo que ele conhecia dos rios da região, alguns, principalmente os largos como esse, eram rasos apenas próximo às margens, e podiam ser perigosos para alguém que não soubesse nadar bem. Ele acreditava que o menino, por ser daquela região, deveria saber aquilo mais do que ele, e não se arriscaria numa travessia se não fosse capaz de completá-la. Ainda assim, continuou a observá-lo decidido que só seguiria seu caminho depois que visse o menino chegar ao seu lado do rio em segurança.

Dessa forma, quando o garoto se cansou e tentou ficar em pé, acreditando ingenuamente que não iria submergir, começou a se afogar.

Shiryu prontamente entrou na água e foi tentar resgatá-lo.

Shunrei estava se preparando para ir para a casa em que morava, quando Li Mei chegou até a sala de aula correndo. Ela logo imaginou que algo diferente estivesse acontecendo, já que Li Mei era uma das suas alunas mais centradas e não correria até ali por nada.

– O que foi, Li Mei?

A garota ainda demorou um pouco para conseguir recuperar o fôlego e conseguir falar:

– O Lian... aquele doido está tentando atravessar o lago.

A cor fugiu do rosto da professora, mas ela logo começou a correr em direção ao rio.

Shiryu fora acostumado a nadar em águas mais turbulentas, como as da cachoeira de Rozan, assim rapidamente alcançara o menino, que, contudo, já estava desacordado, e nadava carregando-o para a outra margem, aquela em que as crianças estavam por ser mais perto e mais povoada. Quando saiu com o menino nos braços, nem teve tempo de reparar nos rostinhos assustados das crianças que olhavam a tudo sem emitir um mínimo som.

O ex-Cavaleiro de Atena colocou o garoto cuidadosamente de bruços no chão e verificou a pulsação e respiração. Então, começou a realizar respiração boca a boca. Mentalmente agradecia pelo curto, porém proveitoso, tempo em que trabalhara num pequeno hospital do interior como recepcionista. Como o pessoal era limitadíssimo ele, sempre que era necessário, ajudava no atendimento, tendo aprendido assim o básico dos primeiros socorros. Sabia que algum dia aqueles conhecimentos seriam úteis, não esperava, porém, que pudesse precisar deles tão cedo e nem em uma situação tão crítica: resgatando uma criança.

Não imaginava que estava tão envolvido naquela situação até que percebeu o alívio que sentiu quando o menino jogou a água que tinha engolido e foi voltando a si.

– Lian! – Shiryu viu uma mulher chegar correndo e somente parar ao lado do menino, ajoelhando-se em uma posição semelhante a que ele próprio se encontrava. No entanto, não virou para vê-la, queria ter certeza de que ele estava realmente bem.

Voltou a tomar a pulsação do garoto e respirou fundo ao ver que estava normal. Fechou os olhos e fez uma prece agradecendo por estar na hora certa e no lugar, podendo ter ajudado para que a vida daquele menino não tivesse sido interrompida tão cedo.

Só então olhou para a mulher que abraçava o menino e dizia coisas que eram um misto de repreensão com agradecimento. E ficou sem reação.

Por sete longos anos passara cada dia da sua vida procurando por ela. E agora não sabia o que dizer, sua vontade maior era abraçá-la e dizer o quanto a amava e que nunca mais deixaria que alguém os separasse. E num turbilhão de coisas que queria fazer, apenas conseguiu dizer o nome dela.

- Shunrei...

Ela olhou para ele, estranhando ele tê-la chamado pelo nome, e perguntou em uma voz educada, mas cautelosa.

– Eu conheço você?

Continua...


(1) sai che un giorno io
ti rincontrerò
in un altro me in un'altra te
ti rincontrerò
in un tempo che senza tempo è

Trecho da música "Ti Rincontrerò" (2008) do cantor Marco Carta.


N/A: Capítulo demorado esse. Marca o final de uma fase importante na fic. Falo mais sobre ele no meu blog.

Agradeço de coração a minha beta e amiga, Chiisana Hana, que muito mais do que betar essa fic, me incentivou a atualizá-la.

Até mais,

Nina Neviani