Capítulo VII

Snape a fitava atentamente, os cabelos ruivos espalhados sobre o braço do sofá, fazendo-o lembrar de Lílian. Ele desviou pretos ao ver Anne mover-se preguiçosamente e abrir os olhos. Ela sorriu ao perceber a inquietação dele e perguntou:

- Ainda aqui, Severus? - disse apoiando o rosto sobre as mãos claras.

- Acho que parece óbvio, não é? - encarou-a em pretos fuzilantes.

- Pode ir se desejar, eu estou bem... - ela sorriu-lhe complacente e desta vez ele não pode evitar de mergulhar em castanhos.

- Tem certeza que ficará bem? - seu tom era ameno. O olhar preocupado vagava em sua direção, deixando Anne curiosa.

- Sim... - Anne se colocou de pé e Snape não se moveu, apenas registrando o andar lento dela até onde ele estava – Diga-me, por que sempre tenta agredir as pessoas antes de ser afável?

- Srta. Gramp, eu não vim aqui discutir meu caráter – rosnou – e não me parece que você seria a pessoa ideal para me dar conselhos.

Ela sorriu-lhe marota e virando-se de costas para ele, foi até a mesa de centro. Pegou um cigarro da carteira e acendeu-o. Encarando novamente Snape, disse-lhe:

- Desde quando a ama?

- Perdão?

- Não seja tolo – gracejou – Desde quando ama essa mulher?

- Por que acha que estou apaixonado? - sentiu-se desconfortável com as palavras dela. Como Anne poderia saber?

- Vocês homens ao todos iguais – fitou-o carinhosamente – Você a ama, mas não é correspondido, eis o motivo de sua amargura.

- Definitivamente minha vinda aqui foi um equívoco – disse quase num rosnado e se pôs de pé – Eu a aconselharia a permanecer em repouso por mais algum tempo, mas parece óbvio que não vai me obedecer.

- E em que momento, eu o levei a crer que me dava ordens? - sorriu-lhe, vendo o semblante dele endurecer numa fúria velada – Contudo, eu sei reconhecer um amigo, Severus, e também, agradecer pela ajuda, quando feita sem fins desonestos.

- Como pode ter certeza de que eu não tenho outros interesses? - disse se aproximando dela, os lábios crispados num sorriso cínico.

- Por isso... - Anne murmurou, tocando os lábios dele suavemente com os seus.

Snape deixou-se levar pela língua quente que o incitava a prosseguir, as mãos subiram até a nuca de Anne, mas subitamente o beijo foi interrompido, e os dedos dela estavam sobre os seus lábios impedindo-o de seguir adiante. O olhar dela se tornou intenso dentro de pretos, enquanto um sorriso cínico marcava os lábios rubros. Anne sorriu ao se afastar e dizer friamente:

- Está vendo como ama alguém? - desdenhou – Você hesitou em me beijar... - Novamente ela se aproximou, os lábios próximos ao rosto de um Snape confuso, mas ainda assim impassível, e completou: - Na próxima vez que quiser disfarçar suas emoções, Severus, terá que ser melhor do que isso... - Sedutoramente, entreabriu os lábios. Ele crispou os lábios num sorriso e se inclinou para tomá-los, mas ela fechou-os impetuosamente, encarando-o em castanhos frios: - Boa noite, Sr. Snape.

Tudo que Snape sentiu segundos depois foi o leve cheiro de alfazema e uma abatida de porta ao longe. As mãos crisparam sobre sua pele e ele saiu para a noite fria. Os lábios murmuravam irritados;

- Quem ela pensa que é?

No quarto, castanhos fitavam a escuridão a sua volta através das vidraças, vendo o vulto sumir pelos jardins. Anne foi até sua cama e deitou-se displicentemente sobre os lençóis. Levou o braço a testa e falou para si mesma:

- Ele terá que ser melhor do que foi esta noite, se quiser iludir o Lorde – deu um longo suspiro – Se ele ama tanto Lílian assim, terá que esquecê-la...

Anne virou-se para os travesseiros, e enterrando o rosto em um, deixou que as lágrimas viessem enquanto murmurava:

- Desculpe-me, Sirius... Mas eu o amo demais para perdê-lo como perdi Régulus.

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Anne encarava os olhos azuis a sua frente, enquanto via as barbas prateadas se moverem lentamente ao falar-lhe. Sentia-se tão bem quando conversava com Dumbledore, e era exatamente disso que estava precisando, depois de uma noite tão confusa. Ficou feliz ao ouvir o leve som que indicava o uso da rede de flu, eram poucas pessoas que tinham acesso a casa por ela, e foi com um sorriso caloroso que recebeu o diretor em sua sala.

- Então está disposta a abrir mão de Sirius? - disse-lhe em tom brando.

- É o melhor a fazer – ponderou Anne, vendo azuis sorrirem-lhe bondosamente.

- Eu não tenho direito de intervir em sua decisão – pigarreou suavemente -, mas peço que pense mais um pouco sobre o que pretende fazer, Anne.

- Eu o quero vivo, Dumbledore, e longe disso tudo – rebateu firme.

- E o que ele quer? - fitou-a em azuis intensos – Não deve ser levado em conta?

- Não nesse momento – disse irritada – Pode atrasar nosso plano...

- Nunca me pareceu tão obstinada com nosso plano quanto agora, srta. Gramp – olhou-a desconfiado: - Permita-me a impertinência, mas há algo mais envolvido?

Ela analisou a pergunta do diretor por minutos, e depois lhe respondeu com um sorriso, dizendo:

- Descobri que posso ajudar não só a Ordem com o que pretendemos fazer.

- Isso é maravilhoso, tanto quanto é perigoso – sorriu-lhe condescendente – Entretanto, vejo que sua causa ganhou novos horizontes, que não só a vingança, e isto é muito louvável – e fitando-a carinhosamente, completou: - Só espero que isso não a envolva mais ainda com Voldemort.

- E se envolver? - perguntou em castanhos brilhantes.

- Então, eu lhe desejarei sorte, porque talvez não haja mais volta... - Azuis adquiriram um brilho peculiar ao dizer isso.

O céu tornara-se cinza escuro e um trovão o rasgou, só havia silêncio da sala de Anne. A água da chuva atirava-se furiosamente contra as janelas da mansão, e ela murmurou para Dumbledore, enquanto via as gotas escorrerem pelas vidraças:

- Agora sabe porque vou me afastar definitivamente de Sirius – voltou a fitar o diretor, e com os olhos úmidos, completou: - Não há volta para mim.

Ele simplesmente assentiu, inclinou-se para frente e depositou um leve beijo em sua testa, e antes de deixar Anne, perguntou:

- Sabe o que está me pedindo para fazer?

- Sei... - desviou o olhar – Faça-o esquecer de mim. Você disse que me ajudaria, e estou lhe pedindo para poupar a vida de um membro da Ordem em troca da minha própria, não pode me negar isso, Diretor! - exigiu com a voz embargada.

- Não, não posso – fitou-a tristemente – Entretanto, esse é um fardo pesado demais para se carregar sozinho, ele já a perdeu uma vez. Sirius não compreenderá – ponderou o diretor.

- Ele não tem que compreender... – retrucou firme – A morte é inevitável, Dumbledore, e afinal, eu morri para o mundo ontem a noite...

- Eu espero que saiba o que está fazendo, Anne – disse em azuis preocupados – Eu estou assumindo sua morte, mas haja o que houver, sempre terá em mim um amigo, alguém em quem pode confiar – deu-lhe um tapinha leve no rosto – Admiro sua coragem e sua determinação, mas não poderei mais interceder por você já que escolheu outro caminho...

- Eu sei – sorriu-lhe – Mesmo assim, obrigada, Diretor...

Anne tentou manter o sorriso, mas tudo o que pode fazer foi demonstrar sua tristeza ao vê-lo deixar sua sala, e com ele, suas esperanças de um dia voltar a ver Sirius. Ela deixou-se escorregar até o tapete, e escondendo o seu rosto sobre as mãos, chorou até que suas lágrimas secassem por completo.

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- Mandou me chamar? - perguntou, fitando-o curioso e se atirando numa cadeira próxima.

- Sim, Sirius – disse o velho de barbas prateadas parado a sua frente com um oclinhos meia-lua – Preciso de alguns minutos do seu tempo, meu jovem.

- O que há de errado, Dumbledore? - seus olhos cinza fixaram nos azuis, enquanto um leve sorriso cínico transparecia em seus lábios.

- Tivemos baixas a noite passada numa missão da Ordem, Sirius – disse-lhe com cuidado, vendo o sorriso de outrora desaparecer por completo e cinzas o encararem preocupados. Dumbledore manteve sua calma, retomando sua narrativa, por mais difícil que fosse dizer aquelas palavras a Sirius Black: - Ao tentar proteger um Ministro trouxa de um ataque de Comensais da Morte... - azuis tentavam manter-se serenos antes de completar tristemente: – Anne está morta, Sirius.

O homem a sua frente ficou lívido como um cadáver, as feições contraídas como se um punhal perfurasse seu coração e os olhos vidrados, sem vida. Dumbledore o fitava atentamente, a consternação de Sirius era palpável, e o fez perceber que Anne estava certa, ela devia morrer. Uma dor momentânea, muitas vezes pode ter o efeito de cura, e ele, Dumbledore, esperava firmemente que fosse isso o que acontecesse a Sirius.

Ele gostava muito de Anne e entendia os motivos que a levaram a seguir por aquele caminho. Um caminho escuro e imprevisível, era isso que teria a sua frente e ela chegou a hesitar, mas sua determinação falou mais alto fazendo-a seguir adiante. Dumbledore aceitou sua ajuda, se fora errado ou não, ainda não descobrira, algo lhe dizia que o caminho dela seria assim, sabia disso desde que ela o procurara, contudo, ele ainda teve a esperança de que o amor por Sirius a retirasse desse caminho escuro. Infelizmente, o amor fizera um trabalho contrário no coração da menina, mas por quê? - perguntava-se mentalmente o Diretor, enquanto fitava Sirius – Algo mexera com Anne... Mas o que seria tão intenso? - Não pode pensar em mais nada, porque naquele momento seus olhos registravam a saída de Sirius da sala. Estava feito.

Ainda abalado, Sirius se levantou mudo, desviando cinzas de azuis, sem dizer uma única palavra, as lágrimas escorrendo em seu rosto e deixou o escritório. Estava só, entregue as suas lembranças, a sua dor... Cinzas escureceram.