CAPÍTULO VII
Dia ruim
Carlinhos estava sentado no salão comunal escrevendo uma redação para a aula de Poções quando viu o seu irmão Percy passar pelo retrato da Mulher Gorda com uma enorme pilha de livros nos braços.
"Ei, ei, ei, irmãozinho. Onde vais tão carregado?", ele disse ao se aproximar do irmão, "Ainda não é hora de ficares lendo tantos livros. Principalmente estes", disse ao pegar um dos livros e analisar o título.
"Não são pra mim. O Gui pediu pra eu pegar estes livros na biblioteca pra ele".
"Quer dizer que o nosso querido Monitor Chefe não pode ir à biblioteca, é? Quero só ver que desculpa ele vai dar... Vamos lá, Percy."
"Tu podias me ajudar a carregar alguns desses, né?", reclamou o mais novo.
"Que é isto... Tás conseguindo carregar até agora bem direitinho... Precisas mesmo deixar esses braços mais fortes", riu Carlinhos e começou a subir as escadas à frente do irmão. Ao entrarem no quarto de Gui, Carlinhos fez sinal para que Percy deixasse os livros e então o levou para o corredor e fechou a porta. Foi até o irmão que estava deitado na cama e, sentando-se ao lado dele, perguntou, "Qual o problema?"
"Oi, Carlinhos. Não te vi entrar", disse Gui se sentando, "Mas não sei do que estás falando", ao ver a expressão de incredulidade estampada no rosto do irmão continuou, "É sério. Não tenho problema nenhum".
"Sim, e tu resolveste deixar de ir pra biblioteca simplesmente porque a cama é mais confortável, assim como eu deixei de jogar quadribol porque a vassoura fazia calo nas minhas pernas". O irmão permaneceu em silêncio, cabisbaixo, então disse, "Eu sei que tu estás incomodado com aquilo que a Anne te contou, só que não ir pra biblioteca não vai mudar em nada. Tu vais evitar ela na biblioteca, mas as aulas continuam. Cara, tens que resolver isso de uma vez. Tu precisas levantar a bunda dessa cama e ir falar com a esquisita".
"Em primeiro lugar, sim eu estou incomodado com aquilo", começou Gui, "Em segundo lugar, eu sei que eu não posso evitar falar com ela pra sempre... Eu só não sei o que dizer... Ao mesmo tempo que eu não consigo imaginar que a Anne inventaria uma coisa dessas, eu também não consigo acreditar que a Dawn falaria algo assim... Além disso, como é que se pergunta isso pra uma amiga? Em terceiro lugar, ela não é esquisita".
"Quer saber?", disse Carlinhos se levantando da cama, "Se tu não tens coragem pra falar com ela, eu vou ir contra dois de meus princípios e tentar resolver isso pra ti"
"Como assim? O que tás pensando em fazer, posso saber?"
"Vou lá perguntar pra ela se o que a Anne disse é verdade. Se ela realmente tem preconceito de sangue".
"Vais? E pra isso vais ir contra princípios?"
"Sim, o princípio de nunca ser visto na biblioteca por mais tempo do que o necessário para buscar algum livro e o de nunca, jamais, falar com garotas estranhas". Antes que o irmão pudesse falar alguma coisa, Carlinhos saiu do quarto do irmão e atravessou o salão comunal sem falar com ninguém. Ele seguiu determinadamente pelos corredores até chegar à biblioteca. Demorou um pouco para encontrá-la, e logo que a viu foi diretamente até sua mesa. Quando chegou ali não soube o que falar, ficou parado em silêncio ao lado da mesa por alguns segundos.
"Tu estás tapando minha luz. Se puderes ir enfeitar a outra mesa eu agradeceria".
"Muito obrigado por me considerares bonito o suficiente para enfeitar uma mesa", disse Carlinhos se sentando ao lado de Dawn, "Mas na verdade eu queria falar contigo".
"Comigo? E por que eu falaria contigo?"
"Por que a gente precisa conversar sobre o Gui".
"Então tenha essa conversa com a namorada dele".
"Mas é que é exatamente sobre ela que eu quero falar".
"Te decida, por favor? É sobre o Gui ou sobre a namorada dele?", disse ela pegando sua bolsa e se levantando da mesa, "De qualquer forma, não me interessa".
"Por que tu tens que ser tão chata?" disse Carlinhos também se levantando e olhando diretamente nos olhos dela.
"E por que tu não cuidas da tua vida e me deixa em paz?", disse Dawn retribuindo o olhar.
"Acho que não é muito pedir que se mantenha silêncio na biblioteca", disse a bibliotecária rispidamente.
"Desculpe, Madame Pince. Isso não vai se repetir. Além disso, eu já estou saindo". E então Dawn saiu rapidamente da biblioteca sendo, logo depois, seguida por Carlinhos.
"Achas que vais te livrar assim tão rápido de mim?", disse ele após alguns minutos ao alcançá-la.
"Aparentemente tu és mais impertinente do que aparentas. Meus parabéns", disse ela ironicamente sem diminuir o passo.
"Agora que já conheces uma de minhas qualidades será que poderias parar e conversar comigo por alguns minutos?"
"Acho que isso não será possível, Weasley", disse ela e continuou em silêncio até a entrada do Salão Comunal da Sonserina.
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Gui subia as escadas até o segundo andar, onde teria aula de Aritmancia. Mais uma aula com Dawn. Ele ainda não sabia como falar com ela a respeito do que possivelmente havia acontecido entre ela e Anne. Por mais que ele duvidasse que Anne mentiria a este respeito, como imaginar Dawn tendo aquele tipo de preconceito? Por mais que ela seja uma sonserina, ela nunca demonstrou antipatia com relação aos nascidos trouxas... Bem, nenhuma antipatia fora do normal... Ela evitava todos da mesma forma, afinal... Ele não queria magoá-la ao perguntar algo desta natureza.
Pensando nisso ele parou em frente à porta da sala de aula e suspirou. Abriu a porta e lá estava ela, sentada na mesa de costume. Ela ergueu a cabeça e olhou dentro dos olhos dele. Mágoa. Foi isto que ele viu dentro daquele olhar. Teria que falar com ela logo.
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Assim que terminou a aula de Aritmancia, Dawn recolheu rapidamente seus livros e se dirigiu à porta. Ao passar ao lado de Gui ela olhou para ele, mas ele desviou o olhar. "Como fui tola!", pensou ela ao sair rapidamente pela porta e se encaminhar para as masmorras, "Mas não importa... Agora tudo vai voltar ao normal", ela parou em frente à porta do salão comunal e suspirou, "Águas negras", ela entrou no salão comunal e, logo que a porta se fechou atrás dela ela se viu cercada de outros alunos, mas nenhum parecia notar que ela entrara. "Tudo normal. Mais uma vez sou só eu". Uma dor profunda tomou conta de seu peito, como se uma faca a tivesse atravessado. "Como ele pôde fazer algo assim?", pensou ela se encaminhando para o quarto, "O que ele ganhou me fazendo acreditar que queria ser meu amigo e agora simplesmente me virando a cara?"
Ela colocou seus livros sobre a cama e foi até a janela abrindo as cortinas. A luz verde inundou o quarto. Nenhuma outra casa tinha o privilégio de ter em suas janelas a beleza do fundo do Lago Negro, as algas se mexendo com o fluxo das águas e os peixes passeando tranqüilamente. Era como se ela estivesse passeando num daqueles aquários trouxas que seu pai a levou uma vez, só que aqui tudo estava em seu lugar verdadeiro, e não num ambiente artificial. Nada a acalmava tanto quanto aquele lago.
Ela então voltou para sua cama e a raiva que sentia voltou no mesmo instante. Ali, pendurado, estava o apanhador de sonhos. O presente que Gui lhe havia dado. Sem nem ao menos pensar, ela arrancou o enfeite com força. Estava prestes a esmagá-lo, mas não conseguiu seguir em frente. Ela se lembrou do dia que recebeu, de como havia sido reconfortante estar ao lado de Gui. "Se fosse só por isso eu deveria quebrar essa porcaria", pensou ela ao tentar afastar essas memórias, "Mas é verdade que nunca mais tive pesadelos desde que ele me deu..." Ela se sentou na cama e ficou observando o objeto. "Vou ter que ficar com ele... Pelo menos até comprar outro..." E pensando nisto ela pendurou novamente o apanhador de sonhos no dossel de sua cama.
Resolveu então fazer a única coisa que a distraía de seus problemas: estudar. Abriu seu livro de Runas Antigas e pegou o pergaminho que devia traduzir. Não havia nem ao menos conseguido traduzir duas linhas com perfeição quando suas colegas de quarto chegaram.
"Ai, cama!", disse a mais alta delas, "Nem acredito! Achei que nunca mais ia voltar pra cá! A aula parecia que não terminava nunca"
"Ah, mas se tem uma aula que a gente não pode reclamar de ser longa é essa de transfiguração, né Marrie?", sorriu a outra garota, "Nessa turma todos os meninos são lindos!"
"Ah, isso é!", riu Marrie, "Melhor do que isso só os times de quadribol"
"E o Weasley tava mais lindo que nunca hoje. Não é a toa que a Sofia queria ficar sozinha na sala".
"Vocês não tem nada melhor pra fazer, não?", disse Dawn visivelmente irritada. Não bastasse a conversa sem fim e o barulho que faziam, aquelas duas ainda tinham trazido Gui de volta para a memória dela, "Sabe, neste ano temos NIEM's, não faria mal nenhum pra vocês estudar um pouco"
"Pra que estudar?", perguntou Marrie sorrindo debochadamente, "Saindo daqui eu vou me casar com o herdeiro de uma das maiores fortunas do mundo bruxo. Estudar é só praquelas que nunca vão ter essa sorte".
Aquilo já era demais. Dawn pegou suas coisas e saiu do quarto o mais depressa que pôde. Como, mas como ela havia conseguido sobreviver com aquelas garotas por seis anos? Criaturas fúteis e sem cérebro! Todas elas! Ah! Insuportáveis! Seguia caminhando pelo corredor, desviando daqueles que caminhavam mais lentamente. Seu estômago roncou. Resolveu passar primeiro no Salão Principal para jantar. Caminhava tão rapidamente que não notou o degrau e tropeçou, caindo no chão e espalhando todas as suas coisas. "Droga de dia", pensou ela enquanto juntava suas coisas sob os olhares divertidos de vários alunos que passavam, "O que será que falta acontecer pra deixar ele ainda pior?", pensou ela.
"Precisa de ajuda?", perguntou um rapaz ao se abaixar ao seu lado e começar a recolher o material dela. Ao erguer os olhos ela percebe que era Carlinhos. Pronto, ficou pior.
"Não preciso de ajuda", disse Dawn pegando o que estava nas mãos dele e colocando de volta na bolsa. Ela então tentou levantar, mas não conseguiu, o joelho não parecia sustentar seu peso.
"Vem", disse ele estendendo o braço e a ajudando a ficar de pé, "Vou arrumar um lugar pra tu te sentares". Dawn deixou o orgulho de lado e aceitou ajuda. Carlinhos a levou até uma sala próxima e a ajudou a sentar, então ele estendeu a mão e pegou no joelho dela.
"Ei! Quem deixou te deixou tocar em mim?", disse ela tentando tirar as mãos dele.
"Calma, só tô tentando descobrir qual o problema com o teu joelho", disse ignorando as tentativas dela, "Parece estar tudo certo com os ossos, deve ter sido só muscular mesmo...", ele então tirou um frasco de dentro de sua mochila e um pedaço de pano, "Isso aqui vai aliviar a dor", ele molhou o pano com a substância amarelada do frasco e colocou no joelho dela antes que ela pudesse protestar. A dor começou a aliviar assim que o pano tocou sua pele. Ao ver a expressão curiosa no rosto dela ele disse sorrindo, "Quem joga quadribol precisa saber o que fazer pra aliviar a dor depois do treino".
"Obrigada", respondeu ela sorrindo.
"Será que podemos conversar agora?", disse Carlinhos puxando uma cadeira para sentar ao lado dela.
"E por acaso seria aquela tal conversa sobre o teu irmão?"
"Essa mesma"
"Então não perca seu tempo. Nada que diga respeito a ele me importa".
"Bem, mas neste caso o que está incomodando meu irmão diz respeito diretamente a ti".
"A mim? E o que poderia ser? Ele nem ao menos fala comigo!"
"Ele só não sabe o que falar pra ti... A Anne de um lado e tu do outro, ele está meio dividido..."
"Não entendo... Por mais que eu não goste dela, eu nunca fiz nada contra eles. Se ele quer namorar aquela uma, o problema é dele. Só não quero ela perto de mim".
"Acho que é este o problema... Ela fica furiosa sempre que tu entras na conversa, diz que é porque tu tens preconceito por ela ser nascida trouxa..."
"Eu? Preconceito? Depende o que ela considera preconceito", ao ver a expressão no rosto dele, ela continuou, "Digamos assim, eu não me importo que eles existam, nem apoio a matança indiscriminada de trouxas e de sangues-ruins, mas..."
"Sangue-ruim? Então tu realmente chamou a Anne de sangue-ruim?"
"Não sei... É possível... É o que ela é afinal... Ou ela tem vergonha dos pais serem trouxas? Porque não é demérito nenhum, ela é muito melhor do que eu usando uma varinha, e eu sou uma mestiça...", ela respondeu dando de ombros, "Continuando, eu só não pretendo ter eles como amigos. Trouxas e sangue-ruins eu digo".
"E por que não? Qual o problema de tê-los como amigos?"
"Por onde tu esteve nestes últimos anos? Nunca ouvisse falar no Lord das Trevas? Tem uma guerra lá fora!"
"Você Sabe Quem morreu, a guerra acabou"
"Bem que eu gostaria de acreditar nisso... Mas nunca encontraram o corpo do Lord das Trevas. Sem corpo não tem como provar que ele morreu. Ele não teria conquistado tanto poder se não fosse inteligente. Então não sei como que todo mundo duvida que ele tenha conseguido escapar..."
"Tá, mas independentemente disto... Tu vais deixar de ter amigos por causa daquele maluco?"
"Tu nunca perdeu ninguém que tu amavas, não é mesmo?", disse ela tentando ficar de pé e pegando sua bolsa, "É a pior sensação do mundo. Tu não imaginas o que isso pode fazer com uma pessoa..." ela caminhou até a porta e então se virou para Carlinhos novamente, "E muito obrigada pela ajuda lá no corredor..."
"Por nada", disse ele sorrindo e ela sorriu de volta antes de sair em direção ao Salão Principal. "Bem que eu sempre disse que ela era estranha..."
N.A.: Bem, a pedidos, segue o capítulo 7! Juro que vou tentar retomar a fic, estava com bloqueio criativo (acho que em parte por conta da faculdade) mas agora as idéias estão começando a voltar, então vou tentar escrever mais aqui! Beijos!
