Nota: (1) – Harry Potter e seus personagens não me pertencem. E sim a J.K. Rowling. Toda a trama desta história é baseada na incrível obra de S.J. Watson, que, obviamente, também não me pertence. Porém, a causa da amnésia de Harry e o final desta história serão completamente diferentes do livro de Watson. Essa história não possui nenhum fim lucrativo, é pura diversão.
(2) – Essa é uma história Slash, ou seja, relacionamento Homem x Homem. E contém Lemon, ou seja, sexo explícito entre os ão, se você não gosta ou se sente ofendido, é muito simples: não leia.

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Harry abriu os olhos na manhã seguinte, logo cedo, vendo-se deitado ao lado de um homem desconhecido. O quarto estava escuro, silencioso. Ele permaneceu deitado, petrificado de medo, sem saber quem ele era nem onde estava. Só conseguia pensar em fugir, em escapar, mas não conseguia se mover. Sua mente parecia vazia, oca, mas então palavras fluíram à superfície. Tom. Marido. Memória. Acidente. Morte. Filho.

David.

Elas pairavam à sua frente, entrando e saindo de foco. Ele não conseguia conectá-las. Não sabia o que significavam. Elas giravam em sua mente, ecoando, como um mantra, e então o sonho lhe veio à mente, o sonho que o deve ter despertado.

Ele estava num quarto, numa cama. Em seus braços havia um corpo, um homem. Este homem estava em cima dele, pesado, suas costas largas, os braços fortes. Ele se sentiu estranho, esquisito, a cabeça leve demais, enquanto o próprio corpo parecia muito pesado; o quarto balançava sob ele e quando abriu os olhos, o teto estava desfocado. Ele não sabia dizer quem era o homem – sua cabeça estava próxima demais para que visse o rosto dele – mas ele conseguia sentir tudo, até mesmo os pelos daquele peito forte contra o seu dorso nu. Havia um gosto na sua língua, doce. Ele estava beijando-o. Ele era muito bruto e Harry queria que ele parasse, mas não disse nada.

- Eu te amo – murmurou o homem desconhecido, suas palavras perdidas entre os cabelos de Harry e seu pescoço. Ele sabia que queria, embora não soubesse o que desejava dizer, mas não conseguia entender como fazer isso. Sua boca não parecia estar ligada ao cérebro, então permaneceu ali, deitado, enquanto aquele homem lhe beijava e falava entre os seus cabelos.

Harry se lembrava que, ao mesmo tempo que o desejava também queria que ele parasse, quando ele começou a lhe beijar. Então as mãos hábeis deslizaram pelas suas costas até embaixo e Harry deixou. E novamente, enquanto ele erguia sua camiseta e colocava a mão por baixo dela, pensou: "Pronto, pronto, só vou deixar que você vá até aí". Mas ele não ia fazê-lo parar, não agora, porque estava gostando. Porque aquela mão morna o acariciava com maestria, porque seu corpo estava respondendo com pequenos calafrios de prazer. Porque, pela primeira vez, ele via seus sentidos nublados pelo prazer. "Mas não vou fazer sexo com você", Harry pensava. Não essa noite. Ele só o deixaria chegar até ali, não além desse ponto. Então o homem desconhecido o despojou da roupa e Harry ainda pensava que logo o faria parar. A palavra "não" até havia começado a se formar, fixando-se em sua mente, mas quando a pronunciou, o homem já o havia puxado em direção à cama e a palavra havia se transformado noutra coisa, num gemido, em algo que recordava vagamente como prazer.

- Eu te amo – disse o homem novamente. E Harry sentiu algo entre os joelhos. Era duro. Então percebeu que era o joelho dele, que ele estava forçando suas pernas a se abrirem com o joelho. Harry não queria deixar, mas de alguma forma sabia que deveria, que já o havia deixado ir longe demais, que havia deixado suas chances de dizer algo, de fazê-lo parar, passarem, uma a uma. E agora não tinha escolha. Ele havia desejado isso momentos antes, enquanto aquele homem abria o zíper da calça e tirava a cueca, então devia querer isso agora, agora que estava embaixo do corpo dele. Harry tentou relaxar. Então o homem arqueou o corpo e gemeu – um ruído grave, gutural – e então Harry viu seu rosto. Ele não o reconheceu, ao menos não no seu sonho, mas agora o reconhecia. Tom.

- Eu te amo – disse ele, e Harry sabia que deveria dizer alguma coisa, que ele era o seu marido, embora sentisse que o havia visto pela primeira vez naquela manhã. Ele podia impedi-lo. Podia confiar que Tom seria capaz de parar o que estava fazendo.

- Tom, eu...

Tom o calou com um beijo ávido, violento, e Harry o sentiu rasgar seu íntimo. Dor, ou prazer. Ele não sabia dizer onde terminava um e começava outro. Eu pedi isso, pensava, embora ao mesmo tempo não quisesse isso. É possível querer e, ao mesmo tempo, não querer uma coisa? Pelo desejo de desafiar o medo?

Harry fechou os olhos. Viu um rosto. Um desconhecido de cabelos escuros e olhos azuis. Uma cicatriz na bochecha. Ele lhe parecia familiar, mas não tinha a mínima ideia de onde o conhecia. Enquanto Harry o fitava, seu sorriso desaparecia e foi então que ele gritou, no sonho. Foi nesse momento que ele acordou e se viu numa cama silenciosa, ao lado de Tom e sem a menor ideia de onde estava.

Devagar, Harry se levantou da cama. Para usar o banheiro? Para fugir? Ele não sabia aonde ir, o que fazer. Se de alguma forma ele soubesse da existência do caderno com anotações que substituíra seu diário perdido, ele o teria alcançado sob o colchão, mas não o fez. Então foi para o andar de baixo. A porta da frente estava trancada, a chave não estava no trinco da porta, mas estranhamente isso parecia natural para ele. Tom não deixaria a chave no trinco da porta à noite. Pelo vidro congelado, ele observou que a lua brilhava azulada no céu noturno. Então, percebeu que estava nu.

Sentado nos primeiros degraus da escada, Harry viu o sol nascer. Viu o corredor passar de um azul queimado a cor laranja. Nada fazia sentido. O sonho muito menos. Parecia real demais, e ele havia acordado no mesmo quarto que aparecia no sonho, ao lado de um homem que não esperava ver.

Somente horas mais tarde, quando leu suas anotações, depois que o Dr. Malfoy lhe telefonou, um pensamento começou a se formar. Teria sido uma recordação? Uma lembrança que conseguira reter da noite passada? Harry não sabia. Se foi, o progresso de sua terapia seria evidente, achava. Mas isto não queria dizer que Tom havia se forçado para cima dele e, pior ainda, que enquanto o fazia Harry havia visto a imagem de um desconhecido de olhos azuis e cicatriz no rosto. De todas as lembranças possíveis, essa parecia ser uma das mais cruéis para se reter.

Talvez não significasse nada, porém. Talvez fosse apenas um sonho. Um pesadelo. Tom o ama, e o estranho de olhos azuis e cicatriz no rosto não existe.

Mas como ter certeza?

-x-

Naquele tarde, quando seu celular tocou, Harry sentiu o coração falhar uma batida. Era Hermione. Ele soube, instantaneamente.

- Alô? – a voz dela voz parecia tão familiar quanto a sua própria voz – Alô? Harry?

Ele não disse nada. As imagens o inundaram em flashes. Viu o rosto dela, o cabelo castanho cacheado. O olhar inteligente, perspicaz. Ele a viu num casamento – o casamento dele, supunha, embora não pudesse ter certeza – com um vestido rosa esvoaçante, servindo-se de uma taça de champanhe. Ele a viu segurando um bebê nos braços e então lhe entregando com as palavras "Hora do jantar!" Ele a viu sentada à beira de uma cama, conversando com uma pessoa ali deitada, e percebeu que aquela pessoa era ele.

- Hermione? – disse ele, finalmente.

Silêncio. O momento se alongou tanto que pareceu durar uma eternidade. Harry fechou os olhos querendo desesperadamente chorar. Então, ouviu sua amiga gritar:

- Harry! Harry, meu Deus! É você mesmo?

Ele abriu os olhos. Uma lágrima tinha começado sua longa descida pelas linhas não familiares do seu rosto.

- Sim, sou eu.

- Meu Deus do céu – disse ela, e depois de novo – Meu Deus... – A voz dela era baixa. Então, em voz subitamente alta ela disse: – Rony! Rony é o Harry! No telefone!

Ele podia imaginá-la com o telefone em meio aos espessos cabelos cacheados e um sorriso agitado nos lábios.

- Como você está? Onde você está? – ela perguntou e então, gritou novamente – Rony!

- Eu estou em casa – respondeu.

- Casa?

- Sim.

- Com Tom?

Harry subitamente se sentiu defensivo.

- Sim – falou – Com Tom.

- Certo – disse Hermione – E como está tudo? Como vão as coisas?

- Bem, você sabe, não consigo me lembrar de porcaria nenhuma.

- O que?

- O acidente.

- Acidente? Do que você está falando, Harry? – a voz dela denotava surpresa e preocupação. E Harry, então, se deu conta que Hermione não sabia de nada.

- Eu sofri um acidente há alguns anos e desde então não consigo reter memórias de mais de um dia.

- Harry...

- Sim, é horrível.

Harry não conseguiu mencionar David, mas contou sobre o Dr. Malfoy, sobre o diário, sobre sua rotina perfeitamente controlada por Tom e sobre como este insistia em ocultar detalhes da sua vida.

- Eu acho que, às vezes, ele prefere não me contar a verdade porque sabe que isso vai me chatear – disse ele. Hermione não respondeu – Hermione? – Harry a chamou num sussurro – O que eu poderia estar fazendo em Didsbury?

O silêncio se alongou entre eles.

- Harry – disse ela – se você quer mesmo saber então eu vou lhe contar. Ou o que eu sei, pelo menos. Mas não pelo telefone. Quando a gente se encontrar. Prometo.

A verdade. Ela pairava à sua frente, cintilando, tão próxima que era quase possível estender a mão e pegá-la. Mas, então, a realidade se abateu sobre ele:

- Nos encontrar? Como? Quando?

- Eu posso pegar um trem amanhã às 10h e encontrá-lo na hora do almoço na estação. Podemos almoçar e conversar lá.

- Mas você não está morando na Austrália?

- Austrália? É claro que não, Harry. Eu moro em Londres.

Então Tom tinha mentido sobre isso também. Harry ainda não sabia por que, não conseguia imaginar um motivo para seu marido sentir a necessidade de remover Hermione completamente de sua vida. Seria como tudo o mais sobre o que ele mentiu, ou escolheu não lhe contar? Seria para o seu próprio bem?

Eles conversaram mais um pouco, uma conversa pontuada por longas lacunas e falações desesperadas. Hermione contou que havia defendido sua tese de doutorado, que lecionava na Universidade de Londres e que havia se casado com um homem chamado Rony Weasley.

- Ele é professor de educação física, mas diz que um dia será treinador do Liverpool – riu.

Era bom conversar com ela, Harry pensou. Escutar sua voz. Parecia fácil, familiar, quase como voltar para casa. Ela exigia pouco, parecia entender que ele tinha pouco a oferecer. No fim ela parou e Harry pensou que estivessem prestes a se despedir. E Harry percebeu que ninguém havia mencionado David.

- Bom, nos vemos amanhã?

- Tudo bem.

- Legal. 12h30min na estação de Didsbury. Combinado?

Harry disse que sim. Tinha de concordar.

- Tudo bem – falou.

Hermione disse a ele quais ônibus pegar e Harry anotou todos os detalhes numa folha de papel. Então, depois de se despedirem, ele pegou seu caderno e começou a escrever. Ele não poderia esquecer essa conversa. Ele não poderia faltar a este encontro amanhã.

-x-

Estava um dia claro quando Harry saiu do ônibus. A luz estava encoberta pela frieza azul do inverno, o chão era rígido. Hermione dissera que o encontraria no restaurante da estação, onde Harry a esperava agora, sentado numa das mesinhas charmosas situadas do lado de fora. Ele tentou imaginar a si mesmo acendendo um cigarro e dando uma tragada ansiosa, tentou resistir à tentação de se levantar e caminhar de um lado para o outro. Sentia-se nervoso, ridiculamente nervoso. Contudo, não havia motivo para isso. Hermione já tinha sido sua amiga. Sua melhor amiga. Não havia com o que se preocupar. Ele estava seguro.

Uma sombra caiu sobre o seu rosto e Harry abriu os olhos. Sequer percebera que os havia fechado. Uma mulher estava em pé à sua frente. Alta, com cabelos castanhos presos num coque no alto da cabeça, vestia calças pretas e uma jaqueta.

- Harry! – exclamou a mulher. Era a voz de Hermione. Inconfundível – Harry, sou eu! Céus, eu estava tão preocupada com você.

Harry se levantou e se virou para olhá-la de perto. Ele queria correr, chorar, tão amplo o abismo entre eles, mas então ela estendeu seus braços.

- Oh, Harry... – disse ela, abraçando-o com força – Eu senti saudades. Senti tanta, mas tanta saudade.

Pelo mais breve dos instantes, Harry sentiu como se conhecesse tudo a seu respeito, e tudo a respeito de si próprio, também. Era como se o vazio, o vácuo que repousava no centro de sua alma tivesse sido aceso com uma luz mais brilhante do que a do céu. A história – a sua história – cintilou à sua frente, mas rápido demais para que ele pudesse ter alguma outra coisa que não apenas um vislumbre.

- Eu me lembro de você – falou – Eu me lembro de você.

Então o vislumbre sumiu e a escuridão tomou conta mais uma vez.

Eles se sentaram no restaurante, Hermione pediu uma água com gás e limão espremido e Harry disse que tomaria o mesmo, então o garçom os deixou a sós com o menu.

- Você parece diferente, mas, ao mesmo tempo, igual ao que eu imaginava.

- Quer dizer que pareço mais velha? – ela brincou – Pois você está praticamente o mesmo da última vez que eu o vi.

- Quando foi? Quando foi a última vez que nós nos vimos?

- Bom, você ainda morava em Londres. Nós sempre íamos àquele pub no centro da cidade, qual era mesmo o nome?... Enfim, conversávamos por horas, quase uma vez por semana, na época eu estava escrevendo minha tese e você trabalhava numa editora de livros, mas queria escrever o seu próprio romance.

Eles conversaram por quase duas horas. Na verdade, Hermione contou sobre sua vida em Londres, sobre os lugares que eles frequentavam, sobre as loucuras que fizeram na faculdade e outros detalhes que Harry jamais se lembraria sozinho. Ela lhe disse como ele estava inseguro para o seu primeiro encontro com Tom, sobre o seu casamento e sobre as brigas que o levaram a muitas vezes dormir na casa dela para não ver o marido, mas contou que este era louco por Harry e que sempre aparecia na sua porta com flores, chocolates e um pedido de perdão.

- Eu realmente fiquei surpresa quando vocês se divorciaram – disse ela.

- O que?

- Foi bastante inesperado, na verdade. Há quanto tempo vocês estão juntos de novo?

- Eu... Não sei. Eu nem sabia que havíamos nos separado.

- Creio que foi logo após você se mudar de Londres. Parece que vocês tiveram um briga e meses depois você enviou a ele os papéis do divórcio. Você disse que não queria nem olhar para ele. Enviou os papéis por correio.

Harry estava em choque.

- Eu não sei bem o que aconteceu depois – explicou ela – Ele assinou os papéis, enviou para você e se mudou também. Isso tem uns quarto anos, se não me engano.

Quatro anos.

Ele estava divorciado de Tom há quatro anos?

Mas, segundo Tom, seu acidente acontecera há quatro anos.

Harry teria sofrido o acidente e Tom, por ainda amá-lo, decidira voltar com ele para cuidar dele? Mas por que ele havia se divorciado em primeiro lugar? Por que abandonar o homem que cuidava dele e fazia de tudo para vê-lo feliz?

Ele perguntou a Hermione, mas ela não sabia dizer.

- Você simplesmente sumiu, Harry.

-x-

Harry se despediu de Hermione e voltou para casa em estado de torpor. Ele apenas conseguiu voltar em segurança e não estava neste momento vagando pelas ruas daquela cidade desconhecida porque Hermione o havia colocado dentro de um táxi e instruído o motorista com base nas anotações da agenda de Harry. Agora, ele estava sentado no sofá pelo qual vira Tom se despedir esta manhã sem saber ao certo o que fazer, ou o que pensar.

Ele havia se divorciado de Tom?

Eles reataram o casamento depois do acidente?

Essa repentina separação tinha algo a ver com o tal acidente?

Ele não sabia dizer. Ele não sabia de nada. Ele não sabia sequer qual era o seu nome ao se levantar todas as manhãs, até lê-lo no post-it escrito por Tom. Era Tom quem possuía todas as respostas, mas ele poderia fazer essas perguntas e esperar que seu marido as respondesse com sinceridade? Tom havia mentido sobre Hermione, havia escondido a existência de David, havia ocultado inúmeros detalhes de sua vida. E por quê? Para que? Para controlá-lo? Para protegê-lo? Harry não sabia ao certo dizer.

Com as mãos trêmulas, Harry se levantou e foi até a cozinha. Ele precisava tentar se acalmar, tentar pensar com clareza, talvez numa forma de conversar sobre isso com Tom e fazer seu marido lhe contar toda a verdade.

- Eu vou conversar com ele – disse a si mesmo, após colocar a chaleira com água no fogão – Ele vai me contar a verdade. Ele me ama.

Harry pegou uma xícara e começou a procurar pelo chá. Seus pensamentos, porém, estavam longe e, por isso, ele acabou esbarrando no armário aberto e fez vários pacotes e enlatados caírem no chão.

- Droga!

Ele recolheu todos depressa, mas quando os colocou dentro do armário percebeu algo estranho. Uma parte do armário estava deslocada por dentro revelando um fundo falso, algo que ele nunca imaginou existir. Com cuidado, Harry retirou a tampa falsa de madeira e alcançou o que ela escondia. Um pote verde escuro. Dentro dele, dezenas de cápsulas roxas do que pareciam ser vitaminas.

- PKMzeta – leu o rótulo em voz alta. Ele não sabia o que era aquilo, mas duvidava que Tom fosse se dar ao trabalho de esconder no fundo falso de um armário simples vitaminas.

O celular tocou no bolso da calça e Harry sentiu o coração falhar uma batida.

Tom.

- Alô...?

- Harry, sou eu. Você chegou bem em casa?

Hermione.

Graças a Deus.

- Sim. Sim, obrigado, Hermione.

- Que bom.

- Escuta, Hermione.

- O que?

- Você sabe o que são PKMzeta?

- PKMzeta? – murmurou ela – Não, nunca ouvi falar sobre isso. Mas me dê um minuto, estou com meu Ipad na mão e vou dar uma olhada no Google.

Harry esperou, sem saber ao certo o que sua amiga estava fazendo, ou o que as palavras "Google" e "Ipad" significavam. Mas Hermione era inteligente. Isso era algo que ele nunca esqueceria.

- Aqui está – disse ela – PKMzeta é uma enzima capaz de causar a perda rápida de memórias neocortical. Esse artigo diz que a enzima PKMzeta foi descoberta pela equipe do cientista Todd Sacktor, do Suny Downstate Medical Center, em Nova York. Em 2006, os testem desenvolvidos em laboratório confirmaram que essa enzima era capaz de apagar memórias de curto prazo em ratos, o que despertou uma discussão mundial sobre as implicações sociais e éticas do tema. Harry?... Harry você está aí?...

- Sim – ele murmurou.

- O que está acontecendo? Fale comigo, Harry!

- Eu... Eu encontrei cápsulas com essa enzima escondidas no armário. Ele as escondeu. Tom as escondeu. Ele está me drogando. Ele está apagando as minhas memórias!

- Harry, acalme-se.

- Como ele pôde fazer isso? Como ele pôde? Ele teve a coragem de olhar nos meus olhos hoje de manhã e dizer que me amava. Ele olhou nos meus olhos com aqueles olhos castanhos tão intensos e eu acreditei nele!

- Harry você tem que sair daí!

- Eu sei...

- Não, você não está entendendo – Hermione estava claramente assustada, quase gritando ao telefone – Você tem que sair daí agora.

- Sim, mas...

- Harry! Esse homem não é o seu marido, Tom tem olhos azuis!

O telefone cai das mãos de Harry.

E, naquele momento, ele ouve o barulho de chaves na porta.

A porta se abre. Harry não diz nada quando Tom entra na cozinha, mas sua mente rodopia. Em questão de segundos ele conseguira colocar o pote de PKMzeta de volta no armário, escondido pelo fundo falso, e desligar o celular deixando uma angustiada Hermione do outro lado da linha. Agora ele colocava uma colher de açúcar dentro da xícara com as mãos trêmulas e o suor frio escorrendo pela espinha. Tom tinha olhos azuis. Foi a última coisa que Hermione lhe disse, num grito cheio de angustia e temor. Tom tinha olhos azuis. Este homem que o encarava com profundos olhos castanhos não era seu marido.

- Está tudo bem com você, meu amor? – pergunta o maior. Harry assente, diz que sim, mas a palavra parece ter sido forçada para fora de seus lábios. Ele sente reviravoltas de ódio em seu estômago.

Tom segura seu braço. Aperta um pouco forte demais, mais força e Harry diria algo, menos, e ele duvidaria que seu suposto marido tivesse notado alguma coisa.

- Tem certeza?

- Sim – Harry sorri, tentando esconder o medo ao desviar o olhar para a chaleira fervendo no fogão – Sim, estou bem. Só um pouco cansado. Pensei em tomar uma xícara de chá.

- Por que não vai se deitar? – sugere Tom – Eu levo o chá para você.

- Eu acho que vou, obrigado.

Harry começa a se afastar em direção à porta, mas Tom o puxa de volta para os seus braços, tomando seus lábios num apaixonado beijo. Um beijo demorado, no qual o maior passa a mão pelos seus cabelos, afaga suas costas e saboreia todos os cantos da sua boca. Harry sente o impulso de se afastar, lembrando-se das palavras de Hermione: "Esse homem não é seu marido". Porém, ele permanece sabiamente imóvel, deixando-se manusear em silêncio. As mãos de Tom deslizam pelas suas costas, vindo a repousar na parte de cima de suas nádegas e Harry engole com dificuldade.

- Bom menino – diz Tom.

Harry, por sua vez, oferece um pequeno sorriso que não alcança seus olhos antes de fugir para o quarto.

"Tom tem olhos azuis".

"Azuis..."

Azuis, como os do homem com quem havia sonhado.

Torcendo as mãos, Harry se senta na beirada da cama. Ele não conseguia acalmar a própria mente, não conseguia focar num único pensamento. Em vez disso sua mente disparara, como se, em uma mente desprovida de memória, cada ideia tivesse espaço demais para crescer e se mexer, colidir com as demais em uma chuva de faíscas antes de sumir à distância.

Ele se levanta. Estava furioso. Não conseguia encarar a ideia de Tom cruzar as portas daquele quarto com uma xícara de chá em cima de uma bandeja, chá este que certamente estaria drogado pela tal enzima PKMzeta a fim de roubar suas memórias outra vez. Ele não poderia mais ficar ali, no lugar onde sua vida fora arruinada e arrancada de si por um desconhecido, por um homem que clamava ser seu marido, mas que o mantinha preso e drogado para o seu próprio benefício.

Alcançando o caderno embaixo do colchão, Harry escreve rapidamente, furiosamente, o que havia descoberto e todos os detalhes do seu dia. O encontro com Hermione, a descoberta da enzima e o fato de que aquele homem não era o seu marido. De repente, Harry o escuta subindo as escadas e logo esconde o caderno de volta onde estava, fingindo distrair-se com um livro que até então repousava sobre o criado mudo.

- Como você está se sentindo, pequeno?

- Bem – Harry deixa o livro de lado e observa Tom colocar a bandeja com uma xícara de chá fumegante e alguns biscoitos em seu colo. Ele observa o chá fixamente. Ele quase podia imaginar a enzima reagindo com a água pronta para apagar suas memórias daquele dia.

- Beba o chá, Harry.

- Eu não estou com fome – murmura relutante – Na verdade, estou um pouco enjoado.

- Entendo. Beba o chá e você se sentirá melhor.

Não havia escapatória. O olhar frio e quase perigoso adornando as feições de seu suposto marido lhe dava certeza disso. Então, respirando fundo, Harry bebeu o chá e mordiscou alguns biscoitos amanteigados sob os atentos olhos castanhos de Tom, que sorriu satisfeito ao tirar de seu colo a bandeja com a xícara vazia, deixando-a no chão ao lado da cama.

- Eu senti sua falta, pequeno.

Harry não responde, mas também não se opõe aos toques e beijos que Tom passava a distribuir pelo seu corpo. Ele permanece lá, imóvel, reagindo com pequenos gemidos e se deixando manusear pelo maior. Esta seria a última vez. Ele dizia a si mesmo. Sim, a última vez. E, com esse pensamento, Harry mais uma vez se deixa tomar por aquele homem desconhecido que havia roubado sua vida.

- Eu amo você, pequeno.

Harry permanece em silêncio sentindo apenas uma solitária lágrima deslizar de seus olhos.

Continua...

Próximo Capítulo: - Está tudo bem, Harry – diz o Dr. Malfoy – Logo eu estarei aí.

-x-

N/A: Uau... Faz mesmo um ano que eu não atualizo essa história? Nossa, eu não tenho palavras para me desculpar com vocês, meus queridos leitores. De verdade, eu sinto muito mesmo. Por favor, me perdoem pelo sumiço e saibam que enquanto vocês me quiserem eu estarei aqui. Posso demorar um pouquinho a aparecer, admito, mas estarei aqui.

Espero que tenham gostado do capítulo de hoje. Que reviravolta, não? O nosso querido Tom realmente será quem ele diz ser? E quem será o misterioso homem de olhos azuis? Bom, essa e outras respostas vocês terão ao longo dos próximos capítulos, que prometo – prometo mesmo – não vou demorar a postar aqui.

Espero que continuem apreciando a história e deixem suas lindas REVIEWS dizendo o que acharam!

Um beijo especial e meus sinceros agradecimentos à:

schopekowski... Luana Rosette... Sandra Longbottom... thesecretpassage1... Jasper1997... yggdrasil001... Liane... barbaravitoriatp... TaiSouza... lunynha... Hanii Seirios Slytherin e Thomas!

Um grande beijo!
E até o próximo – e último – capítulo de Destinos Entrelaçados!