O sangue em minhas veias pulsa, é necessário liberar o rancor.

Todas as estradas que temos que percorrer são tortuosas;

Todas as luzes que nos levam até lá nos cegam

Fight of Fate – Capítulo Seis

Quando nossos olhos se encontrarem eu não sei se irei sentir ódio ou amor.

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Propriedades do Clã Satsuki – 18h30min

O quarto era amplo, os móveis antigos ali presentes de valores incalculáveis completavam a decoração farta em detalhes luxuosos. As cortinas italianas exalavam sua elegância ao se moverem graciosamente com o vento leve que entrava pela janela da grande sacada que dava para o jardim da mansão. A garota tinha os cabelos prateados meticulosamente arrumados e analisava a nova yukata que vestia com extremo rigor diante do grande espelho a sua frente. A roupa lhe caia solta e adequada, o tecido branco preenchido por algumas pequenas pétalas roxas auxiliava o charme da faixa lilás, o par de orbes de cor caramelo fixados na imagem refletida olhavam tudo com aprovação.

- Okaa-san, Otou-san, estou usando uma nova yukata, o que acham? – perguntou ao espelho esboçando um estranho sorriso.

Virou-se, afastando-se do espelho em um gesto infantil e meigo batendo algumas palminhas de alegria enquanto caminhava pelo quarto, aproximando-se da cama onde se encontrava estendida outra yukata, tão bela quanto a que usava, apanhou-a gentilmente como se apalpasse a uma flor, e guardou novamente no clouset, iria lhe servir para outra oportunidade, para àquela a branca de pétalas roxas já havia conquistado lugar.

A garota se aproximou em meio a rodopios de uma pequena poltrona de veludo clara, próxima a grande cama, sentando-se sobre ela e cruzando as pernas adquirindo uma postura educada. Seu olhar era vago e alegre como o de uma criança, em meio ao quarto vasto e solitário preenchido pelo luxo a garota de traços delicados exalava uma aura angelical demasiadamente alegre para a situação.

Uma pequena batida veio, seguida da abertura da grande porta branca onde haviam esculpidos alguns formatos sofisticados sobre a madeira. A garota olhou alegre para a mulher que entrara carregando sob a bandeja de prata duas taças preenchidas com vinho tinto.

- Pode pedir para que ele entre agora, por favor. – pediu educadamente à mulher enquanto apanhava entre os dedos uma das taças de cristal, sem se mover de sua atual posição.

A mulher concordou com a cabeça, sem pronunciar uma única palavra, e saiu, deixando a bandeja com a outra taça sob uma pequena mesa.

Não levou muito tempo para que o garoto de cabelos castanhos passasse pela porta por onde a mulher havia saído, um pequeno sorriso brotou nos lábios da dona dos cabelos prateados ao encontrar-se com os olhos azuis voltados para ela.

- Você parece feliz. – sorriu, aproximando-se.

- Eu tenho motivos para estar feliz. – falou, levando a taça aos lábios e tomando um pequeno gole do líquido avermelhado. – Concorda com o que digo?

A garota se levantou em um saltinho no mesmo instante, aproximando-se novamente do espelho, ainda com a taça de vinho em mãos.

- Sirva-se. – alertou ela para a outra taça posta na mesa, chamando a atenção do jovem. – Nós devemos comemorar Kaito-kun! – dera um pequeno giro enquanto observava sua imagem refletida, sorrindo para ela.

- Hime... As coisas não saíram exatamente como esperávamos. – comentou calmamente, com os olhos azuis sérios.

- Ocorreu tudo muito bem. – falou rápida, virando-se brevemente para ele. - Veja, está Yukata não fica linda em mim?

- Sim, fica.

O olhar de Kaito não era dos melhores, segurava a taça de vinho em mãos, mas não havia tocado em uma gota do líquido. Não compreendia o festejo de Mina, o ataque a Areia rendera apenas a perca de alguns bons homens, nenhuma vantagem sequer.

- A Areia não foi derrotada, pelo contrário, eles lidaram perfeitamente bem com todos os ninjas que mandei.

A garota arqueou uma das sobrancelhas finas para a imagem no espelho, ainda indiferente às palavras do jovem em seu quarto.

- Não vejo como isso pode ser classificado como algo bom... Eles podem nos dar trabalho.

Mina suspirou cansada ao ouvi-lo.

- Kaito-kun não entende o raciocínio das coisas. Eles continuam vivos, mas não mataram seus agressores, não consegue ver a lógica disso? – perguntou delicadamente, sorrindo.

Kaito olhava sem acompanhar o pensamento da garota a sua frente, era difícil compreendê-la ainda mais quando estava feliz e fazia questão de demonstrar isso com os gestos infantis em meio ao nevoeiro de seus jogos pelo poder.

- Quando não se mata um adversário você está tendo compaixão por alguém que quis matá-lo, isso é ser fraco Kaito-kun. Eu achei que a Folha e a Areia não seriam um incômodo, e depois de testar a Areia eu percebi que ela realmente não vai ser um incômodo, mas sim uma diversão! Eles serão divertidos porque são fracos, não têm o espírito da guerra. – Os lábios se moviam enquanto os olhos permaneciam vidrados na sua própria movimentação dos lábios no reflexo do espelho. – A Areia é fraca, e a Folha nem ao menos pode ser considerada uma adversária, isso não é um grande motivo para se estar feliz?

- Se você está feliz eu estou feliz, Hime-sama. – falou galanteador, finalmente tomando um pouco de vinho. – Mas existe algo que não compreendo em sua lógica... – a voz voltara a ficar séria.

A garota virou-se para olhá-lo, abandonando a imagem no espelho por um momento.

- Se não matar um adversário lhe torna fraco, porque a Hime insiste em deixar Uchiha Itachi vivo?

Aquela pergunta pegou-a de surpresa. Uchiha Itachi era um nome que lhe roubava a felicidade, e em um instante a face alegre e infantil dera lugar a uma feição séria. A taça de vinho que trazia levemente sobre os dedos fora comprimida pela mão com tamanha força que se partiu caindo em vários pedaços juntamente com o vinho sob o chão, manchando o tapete claro do quarto.

Mina olhou para a palma de sua mão, sentia uma leve ardência preenchendo os cortes provocados pelos cacos da taça, mas não havia dor ali, continuou olhando enquanto pouco a pouco o sangue passava a fluir pelo ferimento, respingando levemente sobre o chão. O líquido carmim a hipnotizava.

- Uchiha Itachi é alguém que devo matar, e estou ciente disso. – sua visão confrontou o par de olhos azuis de Kaito perturbada. - Agora saia! – ordenou de forma severa, apontando para a porta.

Kaito ainda olhou-a de forma descrente, não sabia se deveria confiar nos jogos de Mina, era arriscado. A herdeira dos Satsukis era instável, e ao mesmo momento em que demonstra ser um anjo abençoado torna-se um demônio atormentado por uma única maldição: Uchiha Itachi. Era nítido o conflito envolvendo Satsuki Mina e o suposto assassino de todo o Clã Uchiha e dos conselheiros mestres da Folha, tão nítido quanto confuso, e ele definitivamente não tinha a mínima vontade de se meter entre aqueles dois. Deu as costas a Mina e saiu tranquilamente do cômodo.

A garota levantou a mão para o alto, fixada no sangue que fluía. Algumas gotas escaparam, respingando sobre sua face e deixando um caminho vermelho ao escorrerem por ela.

- Itachi não é fraco, não é uma diversão... Ele é um inimigo.

Contraiu o punho com força, lançando-o em uma fúria descontrolada contra o grande espelho a sua frente, partindo o vidro por completo, desfigurando seu reflexo.

Meu coração falso é a única coisa que bate.

Às vezes eu desejo que alguém me encontre

Loja Ichiraku – 18h40min

- Porque mesmo eu tive que vir com vocês? – perguntou irritada, talvez pela milésima vez em menos de uma hora.

- Naomi-san! Ficar todos os dias no quarto ouvindo música não é uma vida! É bom andar pela cidade às vezes, e a Hinata queria comprar ingredientes para o bolo que vamos fazer. – sorriu ajeitando os óculos, tendo um sim tímido murmurado por Hinata logo em seguida.

A loira olhava para a dupla a sua frente incrédula, como se deixara levar de forma tão fácil? Acostumar-se com o fuso horário japonês provavelmente estava afetando seu senso. Havia discutido com Tsunade novamente – estava se tornando uma rotina -, por mais uma vez a tia havia insistido para que voltasse a freqüentar as aulas para se adaptar novamente a um ritmo acadêmico, fazia duas semanas que a garota estava no Japão e novamente já tentavam decidir sua própria vida sem seu consentimento, como na última vez.

Sora era gentil e amigável, até demais. Não tinha como construir uma barreira contra ela quando com um simples sorriso a garota tinha o estranho poder de inibir a aversão natural de Naomi às pessoas e sua personalidade extremamente propensa para arranjar inimigos. Estava vencida diante de duas garotas tão estranhas e talvez ingênuas, pelo menos era dessa forma que a garota enxergava Hinata e Sora.

- Combinei com a Sakura que estaríamos esperando mais tarde em casa, você terá a chance de conhecê-la.

- Sakura? – pensou por um momento, recordando brevemente sua rápida e complexa visita a Academia da Folha. – A do cabelo rosa?

- S-sim. – respondeu Hinata.

- Tanto faz. – deu com os ombros.

Os olhos de Naomi voltaram-se para uma prateleira que continha um item considerado perigoso e extremamente necessário. Olhou de soslaio para constatar que Hinata e Sora não haviam notado os itens ali e decidiu esperar e agir na hora certa.

- Ovos, farinha, leite... Acho que está tudo ai Hina! Vamos voltar e colocar o plano em prática! – Os olhos de Sora brilharam em determinação, enquanto ela e Hinata riam.

- Hum... Podem me esperar um pouco lá fora? Vou ao banheiro. – falou Naomi rapidamente, sumindo entre as prateleiras da loja.

- Na-naomi-san tem um comportamento arisco. – comentou Hinata confusa.

- Com o tempo ela vai se acostumar conosco, não é uma pessoa má, eu posso ver. Mas bem, vamos pagar isso! – sorriu, puxando Hinata para o caixa.

- Neh Hina-chan, está com medo da disputa? – perguntou ocasionalmente, enquanto a mulher atrás do balcão calculava os itens.

- Um pouco... Otou-sama disse que as disputas pela taça são violentas e-e que se não acelerar meus ritmos de treinos po-pode ser perigoso...

- Você está melhorando a cada dia! Quase golpeou a Saya, e ela é uma das melhores da nossa sala.

A Hyuuga sorriu tímida enquanto pegava algumas sacolas com as compras.

- Sabe, Tsunade-sama tem me treinado desde que fui morar com ela, tem sido uma grande mestra. Eu sei que muitas pessoas não acreditam nela como diretora, ou mesmo em mim como uma integrante do time da Folha na disputa, mas... Eu realmente quero que ela se orgulhe de mim e quero garantir que a Folha fique com a Taça.

Sora estava sendo sincera, e Hinata admirava aquilo nela. Para Hoshi Sora a disputa pela Taça ultrapassava os limites de um desafio, era uma missão primordial, algo que deveria ser feito como demonstração da enorme gratidão à Tsunade por tê-la acolhido quando se viu sozinha no mundo, e tratado-a como uma verdadeira filha.

- A-acho que Tsunade-sama já tem muito orgulho de você Sora-chan. – Hinata sorriu para a amiga, afinal, havia vivenciado o esforço de Sora durante todo o tempo em que estudaram juntas em se manter como a aluna mais exemplar da academia.

Com as compras em mãos passaram pela porta da loja sendo recebidas pelo vento frio que soprava na rua. Alguns fios do cabelo escuro de Hinata voaram contra seu rosto, incomodando seus olhos.

- Está esfriando! – reclamou Sora encolhendo-se no próprio casaco. – Espero que Naomi-san não demore muito...

Hinata não respondeu ao comentário da colega, ou melhor, não pôde responder, já que seus olhos perolados fixaram-se na pessoa que se aproximava delas. Alguém que Hinata não esperava e muito menos desejava encontrar.

A garota engoliu seco e sentiu algo ruim no peito.

Em alguns poucos segundos, Sora notou a reação estranha de Hinata, e pôde visualizar o problema que se aproximava.

- Não pode ser... – murmurou.

- É-é melhor irmos! – a Hyuuga como num estalo despertara alcançando uma das mãos de Sora. – Va-vamos por ali! – apontou, olhando para o lado contrário ao que a dupla conhecida se aproximava.

Não deram muitos passos até que Sora parasse de súbito.

- Espere! Naomi não voltou!

- Sora-chan po-por favor, vamos! – suplicou.

Sora estava nervosa com a situação.

A garota agarrou a mão de Hinata, abandonando as sacolas de compras sob o chão e começaram juntas a correr, mas antes que pudessem dobrar a esquina uma voz fez com que parassem.

- Hinata-sama, está realmente fugindo? – perguntou sarcástico.

A Hyuuga virou para olhar para trás, sentiu como se todo o sangue do corpo parasse de correr ao encontrar o par de olhos tão claros quanto os seus que a assustava tanto.

- Neji! Vamos voltar! – disse Tenten tentando convencê-lo.

O que soou extremamente inútil.

- Neji-niisan... – balbuciou a garota, apertando a mão de Sora.

Sora continuava confusa ao lado da amiga, sem saber qual reação tomar para saírem dali.

- Como andam as coisas? – começou com casualidade, olhando para a prima. - O Clã Hyuuga? O Assassino do meu pai, que por sinal é seu pai! – jovem tinha um meio sorriso no rosto, e a feição antes calma e indiferente havia se tornado fria e ameaçadora. – Por que me olha como se eu estivesse dizendo algo que você desconhece? – perguntou ao notar o pavor da garota a sua frente.

Hinata permanecia sem saber quais palavras cabiam adequadamente àquele momento, Neji era perigoso, e ela sabia muito bem disso.

- Espero que graças aos mimos que recebe por ser a herdeira daquela família miserável não tenha se esquecido do quanto o Clã Hyuuga me deve! – sentiu os dentes trincarem, a cada minuto as palavras saiam mais ferozes.

- E-eu sinto muito p-por seu pai... – sussurrou Hinata, fechando uma das mãos contra o peito, os olhos tristes não conseguiam encarar o jovem que a atacava com palavras.

- VOCÊ SENTE MUITO? – gritou. – Eu não estou pedindo seus pêsames! Eu estou cobrando a dívida que sua família tem comigo! – estava nitidamente exaltado, mas fez uma pausa, normalizando a respiração. – Ah, é claro. Você acredita não ter nada haver com isso, não é? Encontra-se tão perdida em seu mundo de faz-de-conta que nem ao menos pensa na realidade das coisas.

- Neji, está indo longe demais! – interveio Sora finalmente, adquirindo forças para falar.

O Hyuuga contraiu o cenho ao ouvir a fala repentina, mas ignorou-a.

- Talvez devêssemos nos enfrentar Hinata-sama, para ver como me saio lutando diretamente com a herdeira do Clã Hyuuga, você não acha? – perguntou sarcástico, cruzando os braços.

Hinata dera um pequeno passo para trás, não desejava uma luta, muito menos contra aquela pessoa.

- Neji onde diabos você está com a cabeça? – Tenten agarrou o braço do jovem com força, tomando sua atenção. - Agora que encontrou sua prima na rua vai querer bater nela? Você está ficando louco? – a garota falava rápida e estava visivelmente nervosa com a tensão do local e as palavras de Neji.

- Tenten, você deveria saber melhor do que ninguém o que este encontro significa. Uma hora ou outra eu e ela deveríamos nos enfrentar, e eu prefiro que não seja na disputa pela Taça da Guerra, já que simplesmente não me importo com aquilo! – seu olhar era firme e suas palavras eram frias.

A morena soltou o braço de Neji aos poucos, encarando-o descontente, não aprovava aquilo e queria deixar tudo bem claro.

- Nii-san... eu não quero... não quero lutar contra você. – a voz saia baixa, sentia a insegurança e o medo dominando-a a cada segundo, como poderia imaginar uma situação como aquela em um dia tão tranqüilo?

- Hinata... É melhor que se defenda, e faça uso daquilo para o que foi treinada sua vida toda, porque eu não vou pegar leve, não dessa vez. – olhou sério para a prima, dando um passo a frente, se afastando de Tenten.

Sora colocou-se a frente de Hinata, abrindo os braços em frente à Neji em proteção à amiga, séria.

- Você não vai atacar a Hinata! Isso não é certo, você não tem esse direito! – bradou nervosa, sem vacilar, cara a cara com o Hyuuga prodígio.

- Tenten, cuide para que essa garota não me atrapalhe. Eu e minha prima vamos resolver os problemas pendentes hoje.

A garota olhou perplexa para o jovem, ele não estava brincando, realmente pretendia começar uma luta ali naquele lugar qualquer. Tinha momentos em que realmente não entendia absolutamente nada em Neji, e aquele era um dos momentos em que tinha medo dele, o modo como seus olhos estavam. O tom da sua voz. O jeito como simplesmente parecia não se importar com as conseqüências de uma atitude como aquela. Teve pena de Hinata por um instante, odiava aquele Neji, mas não iria se opor a ele, não conseguiria.

A morena deslizou a mão para os bolsos do casaco que usava, e olhou para Sora de relance.

- Hinata! – gritou Sora por instinto.

Shurikens vieram na direção das duas garotas, fazendo com que Sora e Hinata se lançassem ao chão, em direções opostas, conseguindo desviar do ataque.

Tenten levou uma das mãos novamente ao bolso, apanhando mais alguns dos pequenos objetos entre os dedos, lançando-os em seguida na direção de Sora. A garota pressionou os braços contra o peito e rolou, ainda ao chão, fugindo do novo ataque.

Hinata se levantou assustada.

- Sora-chan! – gritou aflita.

- Hinata! Corra! – gritou Sora, levantando-se e correndo para trás de um poste, protegendo-se da nova leva de shurikens que foram lançadas contra ela. – Droga!

Hinata não teve tempo para pensar em fugir, ou talvez não pudesse fazer isso, deixando Sora sozinha. A sua frente, Neji erguera os braços, adquirindo uma posição que ela conhecia muito bem.

- Como eu disse, não pretendo pegar leve com você. – afirmou sério.

- P-porque... Porque tem que acabar assim? – em seus olhos, pequenas lágrimas passavam a se formar.

- Essa é uma realidade além de um querer. É o nosso destino lutar, e o meu acabar com a herdeira dos Hyuuga!

Hinata aos poucos, e ainda trêmula, deu um passo adiante. Não haveria outro modo de encarar aquilo, era verdade que se viu perdida no instante em que encontrara Neji, que queria correr, fugir e evitar qualquer confronto, até mesmo seu olhar, mas na verdade sabia muito bem como as coisas se resolveriam com ele, porque só havia uma resposta para aquela questão que entrelaçava os Hyuugas.

Esticou as mãos para frente, fazendo com que surgissem em meio às longas mangas do casaco, levantou-as em frente ao corpo, enrijecendo os pulsos. A franja fazia uma leve sombra sobre os olhos marejados por lágrimas, e dessa forma, naquela posição, ela encarou o primo.

- Neji-niisan, e-eu não tenho a mesma mágoa que você nutre por mim. Realmente não compreendo todo seu sofrimento, mas, se de alguma forma... Se de alguma forma lutar comigo puder diminuir sua dor, então... – Um pequeno sorriso triste formou-se nos lábios da morena. – Eu lutarei com você, Neji-niisan.

- NÃO FALE SOBRE COISAS QUE VOCÊ NÃO ENTENDE! – gritou.

Seus nervos agiram, e qualquer raciocínio ali seria inútil. Ele correu na direção dela, ignorando o fato dela ser uma garota, ou todos os fatos felizes do passado que poderiam impedi-lo de atacá-la naquele momento. Lembrar da morte de seu pai o tornava insano.

O golpe veio forte, mas Hinata foi rápida o suficiente para bloqueá-o com o braço, evitando os dados. Os pés deslizavam sobre o concreto da calçada como em uma dança de velocidade. Os gestos, ainda que fortes e possivelmente perigosos, carregavam uma estranha graciosidade, pertencente apenas à família Hyuuga.

Ambos se moviam rápido, e mesmo que levemente imperceptível aos olhos de quem visse, Hinata estava tendo dificuldades, pois os ataques do primo eram cada vez mais certeiros. A Hyuuga sabia que aquele estilo de luta era perigoso, sabia que um mínimo momento de desatenção em que ela recebesse algum golpe lhe causaria sérios problemas. O modo de luta do Clã Hyuuga era conhecido por carregar a habilidade de danificar os pontos de energia do corpo humano, um único ponto danificado acarreta tal lesão e tamanha dor que significaria o fim de uma batalha.

Hinata desviou de outra investida, fazendo Neji ranger os dentes. Os olhos aflitos da garota tentavam se concentrar nos movimentos que vinham contra ela, estava fazendo aquilo bem, mas não saberia dizer por quanto tempo agüentaria se defender. Viu quando um punho veio em sua direção, e imediatamente notou o deslizar mais avançado dos pés de seu adversário, aquilo não era bom. Assustou-se, bloqueando o golpe e passando pelos pés que vinham contra os seus, mas deixou uma brecha, e Neji pôde vê-la. O jovem de imediato agarrou um dos pulsos da prima com a mão livre, pegando-a de surpresa, lançou-a para trás depressa e cravou a palma da mão já posicionada nas costas da garota, acertando finalmente a herdeira dos Hyuuga.

Hinata cambaleou para frente, sentindo a dor aguda que consumia suas costas. Gotas frias de suor desceram pelas têmporas, enquanto controlava-se para manter as pernas firmes. Contraiu os olhos com força, virando-se para encarar o primo novamente, sabia que a luta não acabaria ali, era só o começo de sua dor.

Neji tinha um meio sorriso maldoso nos lábios, ele havia acertado-a, mas não era um grande dano, faria Hinata sofrer, ela iria sentir mesmo que daquela forma tão miserável o que era o sofrimento.

A garota ofegava, mas mantinha-se de pé, afinal, não poderia se deixar abater por um único golpe. Neji não esperou, e partiu na direção da garota novamente, decidido a intensificar o ritmo das coisas.

Do outro lado da rua Sora tinha a respiração acelerada, estava com raiva por se sentir tão inútil. Podia ver Hinata com problemas a poucos metros dali, mas estava desarmada – diferente de Tenten. – e encurralada tentando se proteger dos ataques da garota.

- Isso não vai nos levar a nada! – gritou de onde estava, para que Tenten ouvisse.

- Eu não apoio totalmente isso, mas não posso deixar que atrapalhe o Neji. – falou girando uma Kunai em um dos dedos. – Não se preocupe, eu não pretendo atingi-la em lugares vitais.

Sora revirou os olhos com o comentário de Tenten. Iria acreditar com certeza que todas as dezenas de shurikens lançadas contra ela até o momento estavam especificamente miradas em locais que não lhe causariam problema algum. A quem aquela garota pretendia enganar?

Respirou fundo, tateando a parede atrás de si e olhando de soslaio para onde a garota estava. Precisava usar aquele lugar a seu favor se tivesse a intenção de vencer a usuária de armas. Não podia se mover sem que entrasse no raio de ataque de Tenten, olhou para o chão, calculando a distância entre ambas. Haviam alguns tambores para depósito de reciclados a três metros dali, uma árvore a frente deles paralela a uma pequena elevação de alguns centímetros da calçada defeituosa, na reta de Tenten. Era arriscado, mas sua amiga corria perigo, e ela tinha uma conduta muito bem resolvida quanto a situações como aquelas, mesmo que elas não pudessem ser classificadas como comuns.

Os olhos azuis esverdeados fecharam-se por um instante, em um gesto infantil para adquirir coragem, enquanto contava mentalmente até três. Abriu-os novamente e a única visão que Tenten teve naquele instante foi a de cabelos avermelhados passando a sua frente como um flash.

Sora lançou-se sobre os tambores coloridos, agarrando uma das tampas de cobertura e jogando para frente. Antes que Tenten pudesse mudar a rota de seu ataque, lançou a Kunai, e viu quando a mesma perfurou a tampa que voava perfeitamente na direção do ataque. Sora correu em direção a árvore, e em um salto curto prendeu os braços sob o galho a mostra, impulsionando o restante do corpo para frente com estes. Tenten rapidamente agarrou algumas shurikens, lançando-as na garota facilmente em mira, porém, não contara com o movimento de Sora. Era fácil presumir que utilizando a árvore como impulso a garota viria a sua frente em um único embalo, sendo pega pela shurikens, mas não foi o que aconteceu ali. Sora lançou-se em um pequeno giro, mas antes de continuar sua ação presumida, freou os pés, utilizando a pequena elevação da calçada para suspender o embalo, mantendo-se abaixo da linha de ataque por onde as shurikens voaram sem rumo, atingindo a árvore. Tenten olhou incrédula para o golpe falho, e antes que pudesse reagir Sora jogou-se contra a garota, derrubando-a do banco em que estava.

- AH! – gritou, sendo lançada ao chão.

Sora foi rápida enquanto caia por cima da garota, posicionou os joelhos contra os braços da mesma, mantendo-a presa ao chão, imóvel.

- É melhor ficar quieta! – ordenou, retirando uma Kunai das roupas de Tenten e mirando-a na garganta da morena, que apenas a olhou horrorizada.

- Ugh.. – Hinata gemeu, sentindo as dores do novo golpe.

Tinha um dos braços envoltos na própria cintura, respirava com dificuldade, tentava não pensar na dor e concentrar-se na luta para poder ao menos se defender, mas estava ficando difícil.

- Tsc. – Neji notou que algo não estava bem com Tenten, não podia mais demorar ali, decidiu então que acabaria com Hinata na próxima investida.

Estava ileso, nem ao menos havia se esforçado significativamente. Hinata pelo contrário se encontrava praticamente vencida, mas não iria se contentar com aquilo, aquela garota merecia mais.

Suspirou irritado, lembrando-se das palavras da prima. Talvez para ela fosse fácil dizer coisas daquele tipo achando que assim resolveria seus problemas, era uma tola, e aquilo era o que mais odiava nela.

Voltou a sua posição de ataque novamente, analisando o modo como Hinata simplesmente tentava se manter de pé. Seria fácil, e realmente gostaria de ver a cara de Hiashi quando este visse o que Neji havia feito à sua preciosa herdeira.

Tomando impulso sob os pés, foi em direção à garota, mas algo o interrompeu, ou melhor, barrou-o inesperadamente. Levou alguns segundos para visualizar o intruso a sua frente, com um punho mirado em sua direção. Estavam próximos, mas os reflexos do Hyuuga o fizeram parar antes que confrontasse tal pessoa que simplesmente surgira em sua frente.

Olhou de perto, recuperando-se do momento de surpresa. Havia uma garota de olhos sérios, o que chamou sua atenção não foi o punho estendido, ou os cabelos loiros levemente desgrenhados, mas sim o fato de carregar uma pequena sacola em uma das mãos e ter o que parecia ser um biscoito pela metade na boca.

Levantou uma das sobrancelhas, encarando-a. A garota calmamente relaxou o punho estendido, apanhando a metade do biscoito dos lábios e guardando-o na pequena sacola branca. Mastigou o restante, e simplesmente deu as costas para Neji, deixando-o perplexo e irritado.

- Hinata, o que diabos vocês estão fazendo? Onde está a Sora? – perguntou séria. – Não é que eu queira fazer questão de lembrá-las, mas quando quiserem me deixar sozinha em um lugar estranho simplesmente não me chamem para sair, droga!

- Na-naomi-san?– sussurrou a dona dos olhos perolados, sem acreditar na garota que estava a sua frente naquele momento.

- Humph. – suspirou, voltando-se para Neji. – E você! – chamou apontando para ele, surpreendendo-o. – Que merda você pensa que ta fazendo com essa garota aqui? É algum tipo de maníaco?

Neji olhou para ela sem acreditar no que ouvia, como aquela garota podia simplesmente surgir, atrapalha-lo, e ainda falar com ele daquela forma?

- É melhor sair daqui, eu e Hinata estamos resolvendo nossos assuntos. – grunhiu irritado.

Naomi mirou-o com desdém, até que seus olhos castanhos visualizaram a cena do outro lado da rua, onde Sora estava sobre uma garota estranha ameaçando-a com uma arma no pescoço.

Os olhos da garota olharam surpresos de volta para o jovem de cabelos cumpridos, e voltou-se para Hinata em um segundo.

- Hinata... – falou baixo.

- Naomi-san, vá embora, por favor! – gritou a Hyuuga recuperando as forças, nitidamente abatida.

- Hinata? – correu até ela. – Hinata o que está acontecendo? Porque estão sendo atacadas?

Hinata olhou-a de forma agonizante, pressionando o estomago, não tinha como explicar a situação quando simplesmente estava dentro ela.

- Ei garota! Se não quer que as coisas piorem para o seu lado é melhor ir embora rápido e parar de me atrapalhar. – Neji disse da forma mais arrogante possível, esperando que pudesse acabar com Hinata sem incômodos como aquele.

Naomi abaixou-se próxima a Hinata, abandonando a pequena sacola branca, repleta de Cookies, sobre a calçada. Tateou o bolso da calça escura, apanhando um pequeno aparelho de lá.

- Tome isso e chame a polícia. Não se preocupe, eu cuido das coisas até lá, apenas chame ajuda certo? – falou calma, olhando nos olhos da garota enquanto colocava o celular em sua mão.

- Naomi-san... Não... – as lágrimas caiam quentes, manchando o rosto pálido da Hyuuga, não sabia como reagir diante daquilo.

A garota de cabelos loiros e vestes escuras levantou-se, virando-se na direção de Neji. Algo havia mudado em seu olhar. Subiu levemente o zíper do casaco, fechando-o por completo.

- Eu não sei quem é você e pouco me importa se tem motivos ou não para bater nessa garota. – falou diretamente, apontando de canto para Hinata. – Mas eu realmente odeio tipinhos assim, e não vai ser nenhum sacrifício mostrar esse meu ódio aqui agora. – sorriu ousada.

Neji arqueou uma das sobrancelhas sério e talvez levemente indignado, mas teve que ser rápido quando aquela garota simplesmente lançou um chute contra ele. O Hyuuga bloqueou o golpe, e com agilidade prendeu a perna da garota com um dos braços, mas antes que pudesse golpeá-la e acabar com aquela estupidez, a garota usou a perna presa como base para impulsionar à outra, acertando-o fortemente.

O Hyuuga se moveu, afastando-se e mantendo-se em posição. Recebera um golpe forte que não esperava, e aquilo o surpreendeu por um instante. Quem era aquela?

Sora olhou por um momento para o outro lado da rua, notando a dona dos cabelos claros que estava frente a frente com Neji, seu coração falhou no segundo em que reconheceu Naomi.

Tenten notou o olhar desatento de Sora, e utilizou o peso da garota unido ao seu para lançá-la para o lado. Sora caiu, abandonando a Kunai que segurava, Tenten se jogou tentando alcançar a arma, mas teve que interromper a ação, sendo atingida por Sora. A garota se levantou fechando os punhos com força, mesmo que lutas corpo a corpo não fossem de seu feitio ainda sim era boa naquilo. Ambas travaram os punhos, e envolveram-se em trocas rápidas e doloridas de ataques.

Naomi saltara, desviando da investida do Hyuuga. A garota usava os punhos com força, enquanto o jovem realizava movimentos suaves e parcialmente certeiros, sim parcialmente que poderiam ser totalmente certeiros, se Naomi não contasse com o estranho fator velocidade a seu favor. Nunca havia visto movimentos como aqueles, eram imprudentes, bruscos, sorrateiros, e ao mesmo tempo velozes. Os mesmo pontos compartilhados com o estilo Hyuuga eram afastados pelas características peculiares do modo de lutar da garota de cabelos loiros.

Naomi não se preocupava em se defender, sua defesa era seu ataque. Agindo de forma rápida não daria o tempo necessário para que o rapaz pudesse contra-atacar, estava ocupando-o com seus movimentos.

Virou-se bruscamente, interrompendo o ataque de Neji. Uma mecha do cabelo claro desvencilhou-se das demais, voando especificamente a frente dos olhos. Assustou-se ao notar o cabelo a sua frente, estava sem a típica boina francesa sobre eles, e só por isso algo assim estava acontecendo. No pequeno segundo em que a mecha deslizou sobre seus olhos, Neji atacou-a em cheio, enfiando brutalmente um golpe contra o peito da garota, jogando-a com força sobre algumas caixas empilhadas próximas a parede de uma loja fechada, fazendo com que toda a poeira do local fosse ao ar em uma nuvem espessa.

As mãos de Hinata estavam trêmulas, mal podia manter o aparelho sobre elas, quanto mais discar o número da polícia. Era impossível, estava nervosa demais para concentrar-se em algo, e utilizava seus últimos esforços apenas para não desmaiar diante de toda aquela situação assustadora. Apenas pedia a Deus para que Neji não matasse Naomi.

O moreno respirava fundo em um misto de cansaço e irritação. Como alguém daquele tipo poderia existir? Ainda mirava a nuvem de poeira com os olhos perolados atentos a qualquer movimento que pudesse surgir de lá, sabia que seu golpe havia sido bom, mas não sabia o que esperar da garota que conseguiu acertá-lo tão rápido. Olhou para Hinata que tremia segurando um celular, e apenas pôde rir ao deparar-se com o estado deplorável da prima. Hinata realmente era fraca, sempre havia sido.

- Acho que podemos continuar. – comentou como se zombasse da Hyuuga.

Hinata levantou os olhos aflitos, assustados ao notar a voz do primo. Estava sentada ao chão, sobre os próprios joelhos, tremendo, chorando, desejando estar em casa para o chá com sua irmã mais nova ou simplesmente na academia sorrindo em meio às confusões dos amigos. Mas não, estava ali, provavelmente junto da pessoa que mais a detestava em todo o mundo.

Os olhos perolados úmidos acompanharam com surpresa o pequeno traço que cortou o vento pegando Neji de surpresa ao atingi-lo na cabeça. A pequena pedra ricocheteou caindo na calçada, sendo fulminada pelo olhar do Hyuuga, que levou a mão ao local atingido massageando-o. Os olhos perolados voltaram-se para a figura que já estava de pé, com uma das mãos apoiadas no joelho, e um sorriso de escárnio nos lábios.

A garota riu do próprio lance, a pequena pedra atingiu-o de forma tão tranquila que ela mesma se surpreendeu. Sentiu o pequeno filete de sangue que escorria pelo canto dos lábios, detestava aquele gosto félico, mas infelizmente havia cortado a parte interna da boca ao chocar-se contra o amontoado de entulho, era uma grande sortuda. O peito ardia, e talvez aquele golpe houvesse afetado sua respiração consideravelmente, talvez! Não iria admitir a dor, não era de seu feitio, ela já havia agüentado coisas bem piores que aquelas.

- Não pense que já pode voltar a assumir essa pose de garotinho-malvado diante da Hinata, nossa conversinha ainda não acabou. – levantou-se, espalmando as roupas que agora estavam imundas, estava mais do que pronta para o segundo round.

-x-¤-x-

O jovem caminhava despreocupado, aos poucos o sol desaparecia dando lugar aos primeiros aspectos da noite, como o vento frio, por exemplo. As pontas da franja do cabelo alaranjado moviam-se com leveza diante das pequenas rajadas do anoitecer. Estava entediado, e definitivamente não gostava de ter que repor aulas de Karatê aos sábados, mesmo que não tivesse outros planos para aquele dia. Por fim fora a aula, e novamente havia se destacado mesmo que sem intenção, aqueles novos alunos o idolatravam e ele queria realmente entender o porquê daquilo.

Não passou muito mais tempo até que ouviu o toque baixo do celular no bolso. Apanhou-o e atendeu a ligação.

- DAIKI!

Sentiu o ouvido doer, e afastou um pouco o aparelho.

- Hn?

Não obteve resposta, houve um silêncio na linha.

- DAIKI NÃO ME RESPONDA COM 'HN' DIGA QUE ESTÁ AI DROGA! – gritou a voz.

- Estou aqui Natsume. – falou cansado, chutando algumas pedrinhas pela calçada enquanto caminhava.

- O que está fazendo? – perguntou parecendo curiosa. – Estou entediada, é um péssimo sábado hoje!

- Estou chutando pedras... – comentou ao acertar mais uma.

Novamente o silêncio se fez presente na linha.

- Daiki! Aqueles infelizes do primeiro ano marcaram uma reuniãozinha na casa da velha Tsunade e nem nos chamaram! Da pra acreditar?

- Talvez seja porque não somos da sala deles.

- HA! Eu sei disso! Mas é muita falta de consideração! Já faz uma semana que estou treinando aqueles inúteis. Até comprei uns dangos para o último treino.

- E comeu todos sozinha... – interveio.

- Realmente não da pra discutir essas coisas com você!

Os olhos castanhos miraram calmamente a garota que surgiu caída a sua frente, vindo literalmente voando da esquina.

- Daiki?

Ele conhecia aquela garota.

- Natsume tenho que desligar. – seu tom de voz havia mudado.

- Daiki espera! Aconteceu alguma coisa? Onde você está?

Desligou o aparelho sem responder, e guardou-o novamente.

Não esperava ter aquela visão, e muito menos pretendia passar por aquele caminho naquele dia, apenas acabou seguindo algumas pedrinhas sem perceber.

-x-¤-x-

A alguns metros dali, fora da vista dos jovens em 'guerra' em meio à rua deserta, talvez fossem os únicos espectadores presentes do lugar.

O jovem de cabelos avermelhados estava debruçado de forma indiferente, sob o pequeno parapeito da grade que separava o jardim do parque em que estavam da rua à frente, olhando a ação a poucos metros dali. Encontravam-se apenas ele e a companheira de sala, analisando o acontecimento já há algum tempo.

- Acha que deveríamos interferir? – perguntou a garota

- Não. – fora direto.

Estavam naquela rotina há alguns dias, Itachi simplesmente decidira 'vigiar' os passos do irmão depois de descobrir que o mesmo também participaria da disputa pela Taça da Guerra. Itachi acreditava que Sasuke não havia se desligado por completo da Folha, e que, a qualquer hora poderia fraquejar e esquecer o porquê de ter abandonado aquele lugar.

É claro que havia muito mais por trás daquela encenação estúpida do líder da Nuvem Vermelha, e Sasori era esperto o suficiente para perceber isso. Não se importava realmente com os motivos que Itachi tinha para seguir o irmão, o que realmente o irritava era o fato de ele ter que vigiar o irmão de Itachi, quando o líder do grupo simplesmente havia decidido sair para beber com Neel e Deidara.

- Humph...

- O que foi? – perguntou Umi preocupada com a inquietação do companheiro.

- Não é nada.

- Sasuke-san não está mais com o Hyuuga. É realmente vantajoso permanecer aqui?

- Garanto que aqui está bem mais divertido do que seguir aquele garoto. Aquele Hyuuga é interessante, realmente uma ótima aquisição para o Som. – sorriu brevemente, enquanto a garota de cabelos cacheados apenas olhou-o sem entender.

Eles não puderam notar, que alguém havia parado bem próximo a eles, escutando especificamente as últimas falas.

A garota olhava para a dupla atônita, principalmente para Sasori. Os olhos verdes felinos estavam frios e incrédulos com a realidade mostrada. Por um instante os olhares do ruivo e da loira ali parada se cruzaram em uma sensação estranha.

- Você... O que o Neji esta fazendo... – não sabia formular uma fala, mas via claramente ao longe o colega de sala lutando com uma garota desconhecida, e aqueles dois apenas zombando de tudo. – Nuvem Vermelha ou não. Vocês não prestam! – cuspiu as palavras, abandonando-os e correndo na direção da luta.

- Yoshida Akemi, 2º Ano. – Umi falou séria, seguindo Akemi com os olhos.

- Sim, eu sei. – respondeu seco. – Vamos embora.

Você se lembra que já tivemos um passado?

Consegue lembrar-se que foi alguém importante?

Você mudou...

... Mas eu também não sou a mesma.

Não teve tempo para finalizar o ataque, já que, quando finalmente conseguiu apanhar o braço da garota com uma das mãos, seus olhos se voltaram para Tenten, que caminhava em sua direção, rendida pela Kunai apontada contra suas costas pela garota que antes estava com Hinata.

- Tsc! – a garota desvencilhou o braço do aperto do jovem, aquela luta estava acabada, e ela entendia isso. Caminhou até Hinata, ainda em silêncio, ajudando a garota a se levantar.

- Tenten. – murmurou quando a garota se aproximou dele, enquanto os demais pararam próximos a Hinata.

- Não dá mais Neji, acabou... Ele está aqui. – falou vencida, levemente ofegante e ferida.

Os olhos perolados miraram a nova figura que apareceu no local, enfrentando o par de olhos castanhos serenos.

- Daiki. – murmurou.

- Neji...

- Não esperava te ver aqui. – comentou em um leve descaso, colocando as mãos nos bolsos.

- Você mudou Neji, antigamente as coisas não tomavam rumos assim, havia mais sabedoria em você. – o garoto olhou de relance para Sora que naquele momento perguntava se Hinata estava bem.

- As pessoas mudam, eu não sou o mesmo de antes e isso não deveria ser uma surpresa.

- Sim, tem razão.

Sora estava com as roupas sujas, e um pequeno corte na bochecha. Sua luta com Tenten renderia alguns hematomas para o dia seguinte, mas fora finalmente encerrada quando Daiki apareceu. Não entendeu bem o motivo da reação da usuária de armas, mas agora estava claro que todos estavam se comportando daquela forma estranha porque um dia já haviam pertencido ao mesmo lado.

- HYUUGA! – gritou uma garota ofegante, finalmente parando de correr. – O que pensa que está fazendo?

Neji olhou-a irritado, dando as costas para o grupo.

- Um dia resolveremos nossos problemas Hinata. – falou mesmo de costas. – E você. – encarou a garota recém chegada rapidamente. – Não se meta na minha vida.

- Seu..! – iria xingá-lo, mas fora interrompida pelo olhar de reprovação de Tenten.

- É melhor deixá-lo em paz agora Akemi, estamos voltando para os dormitórios. – falou enquanto passava por ela, seguindo Neji.

Viu-se sozinha diante o grupo de desconhecidos a sua frente, enquanto Neji e Tenten iam embora, encarou-os desconfiada por um instante, dando as costas e saindo em seguida.

- Ei, Neji! – Daiki chamou-o, fazendo-o virar-se brevemente para encará-lo. – Você ainda pode sair do caminho errado.

- E qual caminho seria o certo? – perguntou de volta, não dando muita atenção àquilo.

- Isso só você pode descobrir. – sorriu, ao vê-lo se virar e continuar a andar, desaparecendo ao longe.

Estava emburrada, encostada em uma parede próxima, agarrando a sacola branca que antes abandonara ao chão fortemente contra o peito, tentando disfarçar seu conteúdo.

- Naomi-san eu simplesmente não acreditei quando você apareceu! – falou Sora surpresa. – Você é realmente ótima!

- Hum. – murmurou. – Você não parece ser tão ruim também, de qualquer forma nem sabia que você lutava.

- Er.. hehehe. – riu Sora sem graça diante do comentário.

- Você está bem? – perguntou Daiki com o olhar vago, sem encarar a garota a morena.

- V-vou ficar.– disse baixo, virando-se para olhá-lo. – Você e Neji-niisan...

- Não importa, está no passado. – respondeu calmo.

A Hyuuga não entendeu, mas o que menos esperava naquele momento era entender algo. Iria acreditar que apenas havia sido um dia ruim, um péssimo sábado e que com muita sorte havia terminado sem muitos danos.

-x-¤-x-

Sul de Tóquio – proximidades da Academia da Areia – 22h00min

O táxi estacionou a frente do grande portão que dava entrada para a mansão. O ruivo desceu do veículo acompanhado da irmã, visivelmente abatido pelo cansaço, afinal, haviam passado mais de quatro horas enfiados em uma delegacia lotada para prestarem depoimento sobre o ocorrido na Academia. Um absurdo. Toda a situação, a lentidão com que foram atendidos e toda a desorganização daqueles policiais, Gaara estava irritado e não fazia questão alguma de não demonstrar aquilo.

Pagou o taxista, agradecido por finalmente poder descansar em sua casa, quando a irmã tocou seu braço de leve, fazendo-o virar-se e notar a moto que estava encostando a frente deles.

O veículo era espetacularmente belo e exótico, parecia ter sido tirado de um filme de corrida, definitivamente não era comum ver algo como aquilo circulando pela cidade, pelo menos não sem chamar atenção.

O indivíduo que trajava roupas escuras levou as mãos ao capacete, retirando-o e deixando que a cascata de cabelos castanhos caísse sobre as costas preguiçosamente.

- Nakamura? – perguntou Gaara levemente surpreso.

- Yo! – respondeu sorrindo, Aya saltou da moto e colocou o capacete sobre ela. – Vocês estão com caras de velório assustadoras. – deus alguns passos, parando em frente da dupla com as mãos na cintura.

- Você diz isso porque não teve que ficar em uma delegacia por horas para dar um depoimento de cinco minutos. – reclamou Temari.

- Já fiquei em uma delegacia por muito mais tempo Tema-chan hehe – sorriu, tapando o riso repentinamente. – Err... Mas não vamos falar sobre essas coisas. Qual era o lance da polícia na frente da Academia? Pensei em passar lá pra ver o que foi discutido na reunião, mas o clima estava estranho então fui jogar vídeo-game em casa.

Gaara olhou para a jovem em silêncio, enquanto Temari colocou uma das mãos sobre a testa.

- Fomos atacados hoje à tarde. Acreditamos que pode ter sido uma das outras academias.

Aya arregalou os olhos, perplexa com as palavras que ouvia.

- Como assim? – exaltou-se. – Aqueles miseráveis decidiram partir para o lado sujo da coisa? Descubra os nomes dos cretinos que farei uma bela visitinha para a Folha e o Som na minha primeira hora de tédio! – o olhar adquiriu um brilho assassino, enquanto a garota estalava os dedos do punho determinada.

- Isso vai ser difícil. Não fomos atacados por outros alunos, eram profissionais, possivelmente contratados. – falou Gaara com sensatez.

- Merda! Os infelizes não têm coragem nem de virem eles mesmos para a briga! Bando de covardes! Arghh! – gemeu remoendo-se em ódio. - Como odeio pessoas assim!

- É melhor ficar calma. No fim vai ser difícil descobrir quem ordenou o ataque, podemos apenas treinar e nos prepararmos para caso isso se repita. – Temari cruzou os braços quando terminou de falar.

Aya estava brava, não gostava de atitudes como aquela, ainda mais quando ela não estava presente, porque se elaestivesse lá definitivamentetorturaria cada um dos cretinos para que entregassem o covarde que havia pagado pelo ataque, para que depois é claro, fosse atrás deles com duas espadas para fatiá-los.

- É tão óbvio que me da vontade de gargalhar! – esboçava um sorriso assassino.

- O que é óbvio Aya? – Temari sabia que deveria encerrar aquela conversa antes que algum tipo de extorsão começasse.

- Nós temos que contra-atacar! E fazê-los pagarem uma ótima quantia é claro, pelo desaforo de terem mandado inúteis nos atacar! – falava perplexa.

- Estou cansado, vou dormir.

Gaara deu as costas enquanto caminhava rumo ao portão, abrindo-o.

- Hey Gaara! Volte aqui e vamos planejar as coisas primeiro! – gritou Aya.

- Ele está certo Aya, estamos cansados, hoje foi um dia péssimo. Nos vemos na segunda. – falou rápida, seguindo para acompanhar o irmão.

- Temari! Não vem com essa! Você me deve dinheiro, o mínimo que poderia fazer era ouvir meus planos! – gritou irritada. – Vou acrescentar juros ouviu? Juros!

Chacoalhou os cabelos pela irritação, bagunçando-os, e caminhou até a moto, ligando-a e saindo.

Gaara bocejou enquanto caminhava em meio ao pequeno jardim de entrada, tateando o bolso a procura das chaves da porta da frente, e franzindo as sobrancelhas ao notar que não as possuía.

- Droga. – murmurou entre os dentes.

Aproximou-se da porta, e vencido tocou o pequeno botão ao lado da mesma, desejando que não demorassem em abri-la. Podia ouvir enquanto aguardava que alguém destrancasse a porta uma leve batida de música que parecia vir de dentro da casa, achou estranho e ignorou. Temari se aproximou olhando estranhamente para a porta.

- Está ouvindo o barulho? O que será?

- Não sei. – respirou fundo. – Estão demorando para abrir.

- Hoje é folga dos empregados Gaara, se alguém pode abrir essa porta este alguém é nossa adorada irmã. – falou sarcástica.

Temari estava se virando para verificar se a porta que dava para os fundos estava aberta, quando ouviu alguns passos fortes se aproximando, e o pequeno barulho da porta sendo destrancada.

Gaara se aproximou para entrar quando a porta de madeira se moveu, mas teve os ouvidos tomados pela música alta que escapou do interior da casa, notou a garota descalça a sua frente que segurava uma garrafa de Vodka nas mãos e tinha o rosto levemente corado. Os olhos verdes do ruivo miraram ao fundo, vendo algumas pessoas que passavam correndo pela sala.

Olhou para a garota de cabelos loiros a sua frente que sorria.

- Kaminari o qu...!

A mão pequena agarrou sua camisa em um lapso, e antes que pudesse perceber sentiu lábios macios e quentes contra os seus. A garota abandonou a garrafa de bebida ao chão, fazendo o líquido se espalhar pelo lugar, passou o braço livre em volta do pescoço do rapaz enquanto o outro puxava o corpo contra si.

Gaara tinha os olhos estáticos, estava paralisado, não sabia que reação tomar.

Temari virou-se ao notar que a porta havia sido aberta, entrando quase em colapso ao deparar-se com a cena a sua frente.

Kaminari afastou os lábios da boca de Gaara, abraçando-o enquanto erguia-se na ponta dos pés, aproximando-se de seu ouvido.

- A festa está só começando irmãozinho...

continua...


Oh! Que capítulo foi esse minha gente? Sério, não sei dizer se amei escrever ele ou odiei mesmo... Se no capítulo passado em que eu escrevi duas folhas a mais que meu normal e quase entrei e pânico, nesse onde foram seis folhas a mais eu posso dizer que estou morta e enterrada rs. Mais um pouco e eu dividia ele em dois sério, pensei muito em fazer isso, mas ia ser maldade com vocês e eu queria mesmo postar o finalzinho com o acontecimento GaaraXKami!

Nesse capítulo foi mostrada uma Mina relativamente perturbada, um Kaito ainda misterioso (sim, eu mesma não entendi de que lado ele está afinal, hum...), lutinhas SoraXTenten, HinataXNeji (que por sinal, eu tentei incorporar o bad Neji da época do Chuunin Shiken, foi fail mas foi o que saiu sorry.), NaomiXNeji, coisas estranhas que o pessoal da Nuvem Vermelha está fazendo, e sim, se vocês não perceberam Akemi e Sasori vão ter uma historinha (spoiler da Unni omg, milagre...).

Demorei um pouquinho a mais para postar já que fim de semana passado simplesmente não deu, mas como presente de começo de ano veio esse capítulo mutante maior que os outros x_x.

Cheguei em uma parte da história onde finalmente vou começar a explorar o passado dos personagens e quem sabe as pinceladas de romance comecem..., parece estar meio confuso em algumas partes mas essa é a intenção, muita coisa ainda vai ser falada e explicada, e tem muitaa lenha pra queimar, são mais de dois meses para 'correr' na história até que chegue a disputa pela Taça da Guerra, que por sinal envolve um turbilhão de segredos :)

- quanto a abertura de possíveis fichas no decorrer da fanfic, SIM ELAS VÃO SER ABERTAS, eu percebi que tenho planos onde vou precisar de dois ou três personagens novos, mas não agora, agora é impossível, ainda tem personagens originais do Anime que também vão dar as caras por aqui e aprontar mais ainda.

É isso, post rápido apenas para upar o capítulo novo, vamos ver se semana que vem apareço com o próximo, vou tentar! Caso contrário daqui 15 dias sem falta :x

Mil beijos, Unni.