Capítulo Sete

O dia começou num grande tumultuo. Ginny pensava reunir toda a família e amigos na Toca para poder dar a notícia de que já não ia haver casamento. Mas o 'Profeta Diário' antecipou-se a ela e fez uma grande e espalhafatosa capa onde ela aparecia a sair do apartamento da casa de Harry, de mala na mão e a sorrir. Definitivamente, Ginny não se lembrava de ter sorrido naquela altura. Mas o pior não era isso. O pior era o tom que eles davam àquilo. Falavam da possível relação entre a sua rápida ascensão a Auror e o seu rompimento com Harry em termos muito ofensivos, como se ela fosse uma oportunista! Havia ainda um extenso texto sobre o homem sofredor que existia por baixo daquela 'capa de líder nato e herói', onde a simpática autora insiste em enumerar cada facto, tendo o acto de Ginny acrescentado mais uma chaga à lista. Ginny estava possessa. Aquilo era demais. Ao longo do seu namoro com Harry, Ginny habituou-se com aos artigos constantes sobre Harry que muitas vezes a citavam e até achou engraçada a grande reportagem que fizeram quando anunciaram o seu noivado, apesar de ter sido incómodo. Mas àquilo ela já não achava graça nenhuma. Só agradecia a Deus não terem sequer mencionado Draco. Sim porque sair de um jantar de família com Draco e depois voltar a casa e deixar Harry iria dar que falar.

- É engraçado. Skeeter sempre preferiu atacar Harry e agora… - pensou em voz alta, sentada na cama, no seu antigo quarto. Sim, Ginny foi obrigada a voltar para casa dos pais. Depois de tomar um café da manhã o mais tranquilo que pôde, com o entusiasmo de Luna com o seu 'envolvimento' com Draco, Ginny voltou para a Toca para falar com os pais. Só que quando lá chegou, já toda a tropa Weasley lá estava, todos muito preocupados em saber o que se tinha passado e a pedir explicações a Ginny sobre a matéria no 'Profeta Diário'. Ela teve de dar uma resposta torta a toda a gente e fechar-se no quarto, com encantamento para o som e tudo. Queria pensar na sua vida e não ouvir os lamentos dos irmãos para abrir a porta.

Mas Ginny decidiu esquecer o assunto do final do noivado e ir tratar da sua vida. Aparatou para as ruas movimentadas da Londres mágica.

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Já era meio-dia e Draco tinha acabado de acordar. Coisa estranha. Draco tinha quase a certeza de que tinha dormido lindamente. Há muito que isso não acontecia. Outra coisa estranha era Blaise ainda não ter aparecido. Pensando bem, não era tão estranho assim. Tinha dado a Pansy a morada e o contacto de Blaise. Ele ainda devia estar a aproveitar já que era Domingo. Outro que devia estar feliz. Draco ergueu uma sobrancelha ao seu próprio pensamento. Ele não estava feliz, mas sim satisfeito. Iria passar uma boa noite com Ginny, finalmente. Sem Lupin para interromper, sem Potter para atrapalhar. Só eles os dois. De alguma maneira, eles tinham-se acertado e ele agora podia mostrar-lhe o quanto tinha mudado e a queria. Apesar de não ser uma coisa que ele admitisse em voz alta.

Ouviu as habituais batidas na janela e levantou-se calmamente da cama, para abrir a janela e deixar entrar a coruja. Esta entrou, deixou alguns jornais e a correspondência, recebeu o seu 

pagamento e foi-se embora. Draco pegou no monte que a coruja tinha deixado e dirigiu-se ao escritório. Uma bandeja, com chávenas e talheres com bordas em ouro, esperava-o em cima da secretária. Draco pegou no café e acrescentou uma porção de açúcar, enquanto pegava no primeiro jornal. Ficou aliviado de não ter chegado a levantar a chávena porque tê-la-ia derrubado e manchado o seu pijama de seda com café. Ginevra figurava em grande plano no 'Profeta Diário' a sair, supostamente, do apartamento de Potter, de malas na mão. Ela estava linda como sempre. Letras garrafais com um titulo demasiado óbvio "Ginevra Weasley deixa Harry Potter".

Draco percebeu que não aguentaria esperar até à noite para a voltar a ver. Pegou num pergaminho e numa enorme pena e escrevinhou um bilhete.

- Como o amor é lindo… - Uma voz arrastada surgiu por trás. Draco amarrou imediatamente a cara.

- Já disse para não apareceres assim, Blaise. Faz-te anunciar antes de entrar na minha casa. – Disse Draco friamente.

- Eu até consigo adivinhar de onde vem esse teu bom humor Draco. – Blaise ignorou-o e pegou no jornal em cima da mesa. – Realmente ela não é de se dar para trás. Pior para o Potter. Melhor para ti. – deu um sorriso torto e olhou para Draco. Ele é que parecia de muito bom humor. Aquilo irritava ligeiramente Draco. Ele tinha passado uma noite mais descansada, é verdade, mas tinha demorado muito a adormecer depois de Ginevra se ir embora.

- A noite foi boa é? – Draco disse, arrancando o jornal das mãos dele e começando a lê-lo desinteressado.

- Olha que ela é uma mulher e tanto. Muito fôlego. – disse espremendo os lábios, entortando a boca e olhando para cima, cruzando os braços numa estranha atitude pensativa.

- Preocupado de não estar à altura, Blaise? Deves ter estado muito tempo sem mulher… Não faço ideia de como isso é mas imagino que deva ser frustrante. – Disse Draco, troçando dele.

- Não sejas idiota! Eu aguento muito bem. O problema é que ela não sabe fazer outra coisa… Só isso.

- Espera ai! Blaise Zabini com problemas de excesso de sensibilidade? Já percebi o porquê de eu ter passado um mês a aturar-te aqui de manhã, a querer conversar. Estás a transformar-te numa mulher. "Vamos conversar…"

- Mas durante um mês inteiro com aquela mulher não reparaste no facto dela não saber quanto é dois mais dois? – Blaise perguntou ofendido.

- Claro que sim! A questão é que eu não a queria para mais nada além de sexo e posar para fotógrafos. E não te deixes levar muito por ela. Ela não é burra. Ela faz-se.

- Eu sei que a nossa amizade já tem anos Draco então eu posso-te dizer isto. O teu mundo vai mudar. Apaixonaste-te por uma grifinória bem inteligente, então tu vais ter de ter mais cuidado que eu. – Com a varinha, Blaise convocou o pedaço de papel que se encontrava preparado para ser colocado num envelope muito elegante e levar o selo dos Malfoy's. – "Querida Ginevra…" – Não pode ler o resto porque Draco convocou de volta o papel com uma cara furiosa. – Mas que dizia eu! Tu já não precisas de ter cuidado, Draco. Tu já foste apanhado e muito bem apanhado, devo dizer. – Fez um sorriso trocista. – A última vez que me lembro de teres sido tão 'amoroso' com alguma mulher foi quando a tua mãe convenceu o teu pai a comprar-te a vassoura para venceres o Potter.

- Vamos fazer assim Blaise. Eu sei que estás aqui para fazer tempo antes de ires ter outra vez com a Parkinson. Mas vais ter de ir fazer tempo para outro lado, porque hoje tenho muito que fazer.

- Draco, hoje é o teu dia de folga. E não estou a fazer tempo. Estou a dar-te apoio moral por causa da Weasley… Ah, pois, a Weasley. Ok, eu vou andando. – Deu um adeus rápido, ao ver a cara de Draco, que de momento preparava-se para levantar a varinha e usá-la nele, e saiu rápido.

- Foi a saída mais rápida que eu já vi de Blaise. – Disse, agora novamente bem-disposto.

Draco pegou no papel e pô-lo dentro de envelope, selando-o. Foi à gaiola que estava pendurada ao lado da grande varanda do escritório e mandou a grande coruja cor de caramelo que se encontrava dentro dela, entregar a carta.

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Sim, definitivamente, o dia prometia. Ginevra já estava arrependida de ter tido a triste ideia de sair da cama naquele dia. Não só os seus irmãos não queriam aceitar a decisão, como toda a gente parecia contra a separação do casal. A doceira com que andava em negociações para o enorme bolo de casamento que se iria fazer, recusava-se em cancelar o pedido de Ginny, dando inúmeras desculpas, uma delas era que já tinha comprado um "elegantérrimo" vestido para o casamento para ir à união daquele casal perfeito, e que por ser um casal perfeito não se devia separar. Por outro lado, partido como o excelentíssimo Harry Potter não cai do céu. Ginny ficou maldisposta e teve que combinar falar com a senhora outro dia, tinha a certeza que a mulher ficaria sem razão para o penteado ridículo que tinha, se ela lá ficasse mais tempo.

Outro motivo para o dia de Ginny estar a começar tão mal era o facto da urgência dela ser tão grande. Queria desfazer todo aquele mal entendido que era a relação dela com Harry, e a única maneira de isso acontecer era cancelar o casamento e deixar toda a gente bem esclarecia em relação ao assunto. Claro que com algumas pessoas isso podia ficar para depois.

Ginny, naquele momento, preparava-se para ir à Madame Malkin para lhe dizer que já não queria o vestido de noiva, que, por acaso, já se encontrava pronto para a última prova. "Tantos meses da minha vida desperdiçados nesta merda…"Pensou Ginny. Sentiu uma lufada de ar e olhou para o lado. Uma coruja linda cor de caramelo posou na mão que Ginny estendeu automaticamente. Ginny reconheceu o selo e rasgou-o logo, abrindo o elegante envelope.

- Ah… - foi o que Ginny conseguiu dizer, face à surpresa que a dominava. Malfoy convidava-a para almoçar, muito cortês e ao mesmo tempo, íntimo. Era tão bizarra aquela deleitante sensação de frio na barriga. Resistiu à enorme tentação de combinar o restaurante e escrevinhou num pedaço de papel uma desculpa. Ainda não era altura. Passou por uma geladaria e resolveu comprar um gelado. Era para se sentar e descansar na esplanada da geladaria, mas havia um grupo de mulheres que tinha o profeta diário na frente e começaram a apontar para ela e a abanar a cabeça. Ginny, com muita pena, pôs o gelado todo na boca e saiu. Finalmente entrou na loja da Madame Malkin. A senhora apareceu por detrás de uma porta do lado de lá do balcão, como habitualmente e dirigiu-se, muito contente, a Ginny.

- Finalmente apareceste por aqui, Ginny. Já pensava que nunca mais vinhas provar o teu vestido. Já viste uma noiva sem vestido? – E sorriu preparando-se para pegar num vestido que se encontrava mesmo no principio da linha de vestidos brancos, atrás do balcão, pendurados num longo e velho varão.

- Madame Malkin, ainda não leu o jornal hoje pois não? – Disse Ginny pouco à vontade.

- Bem, não. Porquê? Passa-se alguma coisa? – Disse a Madame Malkin, preocupada.

- Eu já não vou casar. – Deixou escapar num murmúrio muito tímido.

- Como não?! Falta um mês e… Mas deve ser um engano… Isso deve ser só uma fase… Mas o que aconteceu, querida? – Ginny abanava a cabeça a cada início de frase dela. As duas tinham-se tornado muito próximas, não só por causa da proximidade momentânea, mas também por causa da amizade que a Madame Malkin tinha com a Senhora Weasley.

- Acabou, pura e simplesmente. Eu não me quero casar com o Harry. – Sentou-se num banco.

A Madame Malkin empoleirou-se no balcão e disse-lhe.

- Eu sempre suspeitei que para ti, casar com o Jovem Potter não era o mais importante. E quando é assim não vale a pena seguir em frente, filha. – A Madame Malkin disse pensativamente.

- Obrigada pelo apoio, Madame Malkin. Não tenho tido muito, sabe?

- Eu imagino… - E ficou outra vez pensativa.

- Obrigada pela paciência, Madame. Eu volto mais tarde para acertarmos as contas. – Ginny disse, levantando-se e acordando a Madame Malkin dos seus pensamentos.

- Ora essa. Até me ofendes, Ginny. Os tecidos facilmente se aproveitam e depois, talvez não demore tanto assim para me vires pedir outro… - Brincou.

-Duvido. – Ginny riu. Não conseguia imaginar-se a comprometer-se já, quanto mais casar. Malfoy de certeza que tem outros planos sem ser propriamente casar… - Até mais, Madame Malkin.

- Adeus, querida.

Ginny virou costas e saiu da loja. Não tinha dado nem dois passos e embateu numa parede que, estranhamente, a segurou para não cair.

- Ginevra, espero que não estejas a precisar de óculos. Far-me-ia lembrar demasiado do Potter. – Ele estava lindo. O Sol da manhã batia-lhe nos cabelos loiros fazendo-o ficar com uma aura amarela esbranquiçada em volta da cabeça, e os olhos parecia munidos de electricidade, percorrendo-a de cima a baixo. Tudo aquilo com aquela habitual camisola preta, fazia-a ficar sem fôlego. Ginny levou alguns momentos a recompor-se.

- Ah… Tu é que apareceste na minha frente de repente! – Ele ainda tinha os braços em volta dela. Ginny sentiu a pressão da mão dele no seu ombro que a estava irritar. – Mas o que estás a fazer aqui?

- Bem, como disseste que não podias ir ter comigo, vim ter contigo. – Disse simplesmente, finalmente chegando-se ele à frente e dando-lhe uma coisa mais parecida com um encontrão do que um abraço.

- Draco, eu tenho que fazer hoje. Não combinámos encontramo-nos logo à noite? –Ginny tentou ignorá-lo, afastando-se.

- É, pois foi. Mas não me apetecia esperar. – Ginny preparava-se para lhe responder mas Draco estendeu o braço para ela, agarrou-a firmemente e aparatou.

Logo que tocou o chão, Ginny fez um ar de zangada para o seu acompanhante. Este ostentava um ar insolente que a enervou ainda mais. Para tentar acalmar-se, olhou em volta. Encontravam-se num elegante club com restaurante de elite da comunidade bruxa. Pelo ar, só mesmo a elite da elite frequentava aquele club. O que até era bom. Ginny não se sentia muito à vontade para andar por ai com Draco, no dia a seguir à separação com Harry, correndo o risco de ser vista com pessoas que conhecesse. Podia ser muito mal interpretado. Então ali teriam mais privacidade, o que, por outro lado, podia ser ainda pior interpretado por olhos mais atentos.

- Não te preocupes, Ginevra. Aqui só passam pessoas que euconheço. – Draco sorriu ao ver o ar de preocupada de Ginny. Ginny não sabia como interpretar aquilo. Ele não estava preocupado pelas pessoas que o pudessem ver com ela, suposta traidora de sangue. Pelo contrário, parecia até gostar da ideia.

Draco encaminhou-se para uma mesa afastada, sendo seguido por Ginny. Ginny olhava em volta e reparou nas pessoas em volta. Foi ai que reparou na roupa que vesti-a. Ela contrastava de maneira tão horrível com as mulheres bem vestidas e de cabelo arranjado da sala, que teve vontade de sair dali a correr. Como é que ele a podia levar ali e sentir-se bem? Draco percebeu a hesitação dela e segurou-lhe na mão. Segurou-lhe na mão. Ginny achou o acto, vindo de Malfoy, surreal. Ele tinha-lhe segurado na mão! E agora levava-a pela sala, como se eles estivessem juntos. Juntos! Aquilo quereria dizer alguma coisa? Ginny não sabia ao certo. Mas para ela parecia-lhe bem.

Draco cumprimentava quase toda a gente. E toda a gente esticava o pescoço para ver melhor a acompanhante de Draco Malfoy. E ele, mais uma vez não parecia incomodado, puxando Ginny mais para si.

Chegaram perto da mesa e Draco pegou na cadeira e afastou-a para que Ginny se sentasse, como um perfeito cavalheiro, e voltou a empurrá-la de seguida, para junto da mesa. Deu a volta à mesa redonda e mal ele se sentou, apareceu um sujeito demasiado bem vestido para ser empregado do restaurante.

- Draco! O que te trás por cá? – Pôs-se nas costas da cadeira de Draco e sorriu maliciosamente para Ginny.

- Eu acho óbvio, Blaise. E tu o que te trás por cá? Não tens coisas para tratar? – Draco disse azedo, chateado pela interrupção.

- Sê mais cortês, Draco! Não me apresentas a tua amiga? – E voltou a sorrir para Ginny.

- Ginevra, este é Blaise Zabini. Blaise, esta é Ginevra Weasley. – Disse rapidamente e contrafeito. Blaise tentou dar a volta para cumprimentar Ginny mas Draco impediu-o com o braço. – Acho que já estás satisfeito. Podes ir embora, agora.

- Que mau humor, com uma companhia tão agradável… – E voltou a sorrir para Ginevra. Ginevra, de repente, lembrou-se de onde o conhecia. Ele era colega de casa de Draco em Hogwarts. – Deixo-vos a sós, então.

- É teu amigo? – O empregado vinha a caminho.

- Pode-se dizer que sim. – Draco deixava o acontecido para trás. – Só que tem um péssimo hábito de se meter na minha vida.

O empregado chegou e Draco fez o pedido, o mesmo para os dois. Ginny não fazia ideia do que se poderia pedir num restaurante como aquele. Passaram algum tempo em silêncio até virem as bebidas e aperitivos durante o qual Draco ficou a olhar para Ginny, enquanto esta observava o restaurante, distraída.

- Não fazia ideia que fosses tão rápida Ginevra. – Draco falou quebrando o silêncio.

- Em quê?

- Em acabar com o Potter.

- Achas que eu sequer tinha aceitado o convite de hoje à noite se não tivesse essa intenção?

- Ao que parece... – Draco observava a expressão séria dela.

- Vamos esclarecer uma coisa Draco. O final do meu noivado com Harry não tem nada a ver contigo. Eu acabei uma coisa que estava condenada há muito tempo, agora vejo isso. – Dizia-lhe aquilo não por pensar que ele se podia sentir culpado, nem lhe passava pela cabeça uma coisa dessas, mas porque não queria equívocos ali. – "Nós" é uma coisa à parte.

- E o que é "Nós"? – Disse depois de um demorado gole no seu copo de vinho branco. Draco olhou mais atentamente para ela, divertido com a situação.

- Bem… ah… não sei… acho que… era suposto percebermos isso hoje à noite, certo? – Ginny ficou perdida com a pergunta. Então, virou-se para ele e perguntou – O que é que tu achas que é?

- Acho que ainda não é. Ainda vamos ter de o fazer. – Pegou na mão dela que estava em cima da mesa, junto ao copo. Ginny corou abruptamente. A mão dele estava a ferver.

- Tu fazes ideia das implicações das coisas que me dizes, Draco? Porque, como deves supor, eu não trato das minhas relações da mesma maneira que a Pansy Parkinson, por exemplo.

- Ginevra, eu sei disso. E não te estou a pedir em casamento. Mas também nunca te compararia a nenhuma mulher, nunca, percebes? Então também não o faças. – Aquilo parecia importante para ele. Apertou mais a mão dela. – Pára de desconfiar de mim como se eu fosse algum inimigo teu, porque se algum dia fui, já não sou mais. – Draco dizia com fervor aquelas palavras.

- Desculpa, é que tu já me deixaste uma vez e é difícil…

- Desta vez é diferente, Ginevra. - Ele parecia continuar a gostar do nome dela. Dizia-o a toda a hora.

- Mas para mim não. Deixaste-me sozinha. – Retirou a mão debaixo da dele e virou a cara.

Draco suspirou, levantou-se e pegou numa cadeira. Por momentos pensava que ele se ia embora, mas ele pegou na cadeira e sentou-se ao lado dela, virado para ela.

- Ginevra, eu sei que te deixei, e desculpa-me por isso, mas eu tive as minhas razões. – Ginny olhou para ele. – Eu prometo que vai tudo correr bem, só tens de confiar em mim. – sussurrou Draco. Pegou, então, na cara dela, virou-a para si e beijou-a. Um beijo que facilmente se transformaria em algo mais, se não estivessem onde estavam.

- É melhor eu voltar para o meu lugar. – Sorriu maliciosamente. Depois de mais alguns minutos a saborear o bom vinho português, o empregado trouxe o prato principal.

- Eu quero saber uma coisa, Ginevra. O Potter não te magoou ontem, pois não? – Disse em tom de aviso.

- Não. Ele ficou um pouco chateado, - como Ginny era simpática. – mas o mais irritante é que estava surpreso. Não parecia reconhecer que me tinha magoado ou feito algo de mal, mas sim, que eu o tinha traído contigo. E foi essa a razão que ele apontou para eu o deixar. – Ginny disse com a testa enrugada. - Acho que tens razão. Ele está a ficar doido.

- Alguém que me dá razão, finalmente. - Ginny riu.

- Mas eu estou realmente preocupada com o que ele possa fazer a seguir, Draco. Tenho medo do que ele pode fazer quando está fora de si.

- Não precisas de ter medo. Eu vou estar sempre aqui. – E voltou a pegar-lhe na mão provocando-lhe uma reviravolta no estômago de Ginny. Mas Ginny adorava a temperatura da mão dele. Parecia revitalizante e ao mesmo tempo relaxante, dando-lhe a sensação de segurança.

- Eu também tenho medo por ti, Draco. Sabes que ele te tem uma raiva cega. Este seria apenas mais um motivo para te atacar. E ele é um dos bruxos mais poderosos, senão o mais poderoso! – Ginny enrugou mais a testa.

- Obrigado pela parte que me toca. – Disse, fingindo zangar-se. Ginny voltou a rir.

- Não estou a desdenhar das tuas capacidades. Apenas digo para teres cuidado.

- Eu sei que tens razão. Eu vou ter cuidado, não te preocupes. Quero é que não te aproximes demasiado dele. Tenta não ficar sozinha com ele, pelo menos. – Parecia genuinamente preocupado. Ginny sorriu-lhe.

Passaram uma agradável hora na companhia um do outro. Draco contou a Ginny que andou a viajar pela Europa desde que tinha deixado o largo Grimmauld Place. Falou-lhe dos vários países porque passou, contando histórias e curiosidades ocasionalmente. Ginny também lhe contou do seu curso de Auror, de como de tinha saído bem e do bom emprego que o Ministério lhe oferecia no Departamento de Aurores. Quando já bebiam o café e Ginny percebeu que seria altura de ir embora, Draco pura e simplesmente levantou-se e foi atrás dela para puxar-lhe a cadeira.

- Não pedes a conta? – Levantou-se surpreendida.

- Ginevra, isto é um club privado onde poucos são aceites. Os membros têm contas aqui. – Disse Draco como se fosse algo óbvio.

- Ah, ok. – Ginny deu de ombros.

Draco olhou para ela enquanto voltavam a atravessar o restaurante. Não tinha dúvida, Ginevra era algo de diferente. Não era só o cheiro irresistível ou o corpo de sereia. Ela tinha algo mais que não se encontrava por aí. Tinha espontaneidade, não fingia nada, era verdadeira, e mesmo assim conseguia ter aquela malícia que o deixava louco. Sim, a partir dali queria poder olhar para ela o quanto quisesse, o tempo que quisesse, sem que nada o impedisse.

Viu algumas cabeças virarem-se na direcção deles novamente, apesar de passarem discretamente. Não olhavam apenas por ser Draco Malfoy quem passava, e Draco tinha consciência disso. Olhavam também pela beldade de cabelos de fogo que seguia à sua frente. Draco fez um esgar para cada um deles.

- Bom, Draco, vamos despedirmo-nos aqui. – Disse quando já estavam na recepção do club. – Eu adorei o almoço, adorei a conversa e adorei a companhia. – Disse vendo a sobrancelha levantada dele. Ginny olhou em volta, verificando se havia pessoas em volta, e inclinou-se para Draco, sacando-lhe um beijo estalado muito rápido. Draco olhou para ela ainda sem saber o que o tinha atingido e logo de seguida desatou a rir. Uma gargalhada muito viril, por sinal. Ela olhou para ele indignada.

- Ginevra, desculpa. Mas, por momentos vi a adolescente que há em ti. – Draco disse num fôlego e voltou a rir. Ginny aproveitou para absorver aquela gargalhada em segredo. Era linda e tão quente como a mão dele. – Eu estou a sentir-me um adolescente. Então vai ser assim, namoro em segredo?

- Estás a pedir-me em namoro Draco Malfoy? – Ginny disse.

- Bem, sim…

- Então sim. Vai ser em segredo.

- E também vamos jantar com alguém a vigiar-nos ou vamos poder ficar sozinhos.

- Draco, para mim é assim. Acabei ontem com Harry. Vamos ter de ir com calma.

- Ginevra. Eu gosto de ti, já deves ter percebido, espero. Há qualquer coisa aqui… - fez um movimento com o braço dele para Ginny. - Mas eu não quero ter de me esconder, principalmente do Potter. – Draco foi directo.

- Eu não digo para nos escondermos, nunca te pediria isso, mas temos de ir com calma, pelo menos em público. Também não quero magoar ninguém desnecessariamente, então quero ver afinal o que é este "nós", primeiro.

- Ok, Ginevra. – O nome dela sabia a mel. – Mas vem cá…

Draco pegou na cintura dela e trouxe-a para perto dele. Beijaram-se sofregamente, numa autêntica troca de saliva e sensações fortes. Ginny sentiu as pernas a derreterem-se.

- Vai lá então. – Ginny não desejou o final do beijo e Draco tinha um sorriso nos lábios por causa disso. "Ainda vou sofrer bastante nas mãos dele…"pensou Ginny - Vejo-te à noite.

- Adeus. – Ginny virou-se com um sorriso nos lábios e foi-se embora.

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Logo que Ginny saiu do chique club, decidiu finalmente ir falar com os pais. Os irmãos já deveriam ter ido todos trabalhar e não podia ficar sem dar nenhuma explicação. Não tinha certeza de como eles reagiriam e também não sabia o que é que Harry lhes poderia ter dito. Então, mais cedo ou mais tarde teria de ir enfrentar a fera. As feras neste caso. Quando lá chegou a casa estava quase vazia, como imaginou, apenas a sua mãe se encontrava na cozinha a acabar de lavar os pratos do almoço, coisa que só fazia quando precisava de se distrair de algum assunto.

- Filha! – A Senhora Weasley largou imediatamente a loiça e foi abraçá-la. Uma torrente de palavras começou a jorrar da sua boca. – O que acontece? Como é que ainda não vieste aqui para me dizer alguma coisa? Ontem foste-te embora e nem te despediste e o Harry disse que saíste com o Draco. Onde dormiste afinal? – finalizou apontando para o jornal em cima da mesa da cozinha.

- Tem calma mãe. Eu já te explico tudo, só preciso que te acalmes, ok? – E sentou-a ao seu lado.

- Fala, filha. – disse a Senhora Weasley, olhando-a nos olhos, cheia de apreensão.

- Para começar mãe, quero que me digas o que é que o Harry vos contou.

- Bem, falou de uma história estranha de o teres deixado por causa do Malfoy… de teres dormido com ele, ontem… - Olhou desconfiada para a filha, esperando que esta a esclarecesse.

- Sim, eu deixei-o especado no jantar de ontem e saí com o Malfoy, e não, eu dormi em casa da Luna. – A Senhora Weasley estava prestes a interrompê-la para falar. – E antes que perguntes, agi assim por causa disto. – E levantou as duas mangas compridas para que os hematomas ficassem à vista.

A Senhora Weasley arregalou muito os olhos olhando fixamente para as nódoas negras.

- Ginny, querida. Estás a querer dizer-me que o Harry te fez isso? – Ginny abanou a cabeça. – Impossível! – exclamou a senhora, levantando-se e dando a volta à minúscula cozinha, fazendo Ginny revirar os olhos. – O Harry que eu conheço nunca faria uma coisa dessas! Tens a certeza que foi ele, filha? Isto é um assunto muito sério. – Disse em tom de aviso.

- Claro que tenho a certeza, mãe. Ele chateou-se com o facto de Malfoy cá ter estado e de não o ter tentado expulsar como ele e o Ron fizeram. Para mim chegou. Não vou aturar mais as birras dele. Quero outra coisa para mim. – Ginny disse decidida.

A senhora de cabelo grisalho, baixinha e gordinha, de entre as muitas reacções que Ginny imaginou que ela tivesse, começou a chorar. Aproximou-se da filha, sentou-se de novo e as lágrimas corriam silenciosamente pela sua face. Não gemia nem soluçava. Apenas fazia um esgar com a boca e deixava as lágrimas escorrerem-lhe pela cara, enquanto fitava os olhos temerosos de Ginny.

- Filha… Eu lamento tanto. – Teve um tremor no peito. – Tu e o Harry amavam-se tanto, faziam um casal tão bonito. – Outro tremor. – O teu futuro com ele era tão risonho… eu ainda não acredito que isto possa ter acontecido… é tão triste. – A sua voz saia tremida e as lágrimas continuavam a cair, lembrando a Ginny o motivo de nunca ter terminado tudo com Harry antes. – Mas eu só quero o melhor para ti, minha querida. És a minha filha única e eu nunca me perdoaria se não fosses tão ou mais feliz que eu, algum dia. – Agora já tinha uma voz mais clara, tentando limpar as lágrimas. – Vem cá Ginninha. Abraça-me. Tens a certeza de que é isso que queres?

- Sim, mãe. Na verdade eu… - Ginny não sabia se devia dizer aquilo, não queria magoar mais a mãe. Abraçou-a com força. – Eu estou bem agora, não sinto que esteja a perder nada, pelo contrário. Agora vejo um mundo de oportunidades para ser feliz. – Afastou-se e sorriu. – Eu estou bem, mãe.

A Senhora Weasley olhou-a também vendo algo de diferente no sorriso da filha.

- Onde foste, ontem de noite, com Draco? – Não falava de forma inquisidora. Apenas queria saber.

- Hum… fui a casa dele. – Ginny ansiou pela resposta da mãe.

- Draco Malfoy parece gostar de te ajudar. – Já não tinha lágrimas na cara e sorria para Ginny. - Agora se me dás licença tenho de ir tratar de um assunto. – E começou a tirar o avental com uma expressão subitamente séria.

- Onde vais mãe?

- Falar com Harry. – E já tinha saído. – Há certos tipos de comportamentos que não se admitem, minha filha.

Ginny sentiu-se ligeiramente culpada. No final de contas, Harry ainda era aquela criança órfã que aterrou na vida deles que via a sua mãe como sua também. E não era provável, pela cara de Molly, que ela fosse falar com ele para lhe pôr paninhos quentes. Decidiu não pensar no assunto até que fosse estritamente necessário.

De tarde Ginny teve de fazer tempo na Toca para que a Senhora Weasley chegasse e lhe desse a lista de coisas que já tinha organizado para o casamento. Ao chegar, Ginny não teve coragem de lhe perguntar sobre a conversa com Harry. Devia ter sido extremamente difícil para ela ter de censurá-lo e esse pensamento fez com que Ginny se sentisse ainda mais culpada.

Ao olhar para a lista deixou escapar um suspiro. A sua mãe devia querer que tudo saísse na perfeição no seu suposto grande dia. Nem teve, por isso, nenhuma surpresa com a quantidade de coisas que tinha ainda de cancelar, desde enormes encomendas de flores até uma quantidade considerável de puzzles encomendados para entreter os convidados, prevendo os atrasos do copo de água. Era incrível. Felizmente que Luna se mostrou verdadeiramente prestável e a ajudou prontamente na maneira mais fácil de despachar as encomendas: por carta. Ginny sabia que era rude, mas de momento queria acabar aquele assunto o mais rápido possível e não lhe apetecia ver as caras de censura que sabia que encontraria. Preferia enfrentar as perguntas insistentes de Luna sobre o almoço com Draco.

N/A: Aqui estão mais dois capítulos. A história está a dar mesmo mt gozo escrever.

Obrigadíssima a quem comentou, dá muito alento D

Beijo e não esqueçam de comentar :)