Risada
Depois de duas semanas trabalhando para o FBI na Cyber Division, Nelson estava surpreso ao perceber o quanto se sentia bem.
Na primeira vez em que havia entrado ali, ele imaginou que aquele trabalho seria uma espécie de tortura, ainda pior que a prisão. De nenhuma maneira ele se via a como um White Hat, menos ainda trabalhando com os federais. Naquele mundo, ele sentia-se como um gato em uma família de lobos.
No entanto, surpreendentemente e ao contrário de suas expectativas, ele estava se adaptando. Aos poucos, ele estava se acostumando àquele ambiente, àquelas pessoas.
Raven mais que qualquer um entendia o que ele estava vivendo, e era uma boa companhia; Elijah era amistoso apesar de sua postura de policial mau, e mesmo Krumitz era legal com ele, apesar de seus humores imprevisíveis. Ele sentia-se acolhido e importante como jamais havia se sentido sendo um Black Hat.
E é claro, também havia ela.
Avery não era a chefe arrogante e autoritária que ele havia pensado no começo. Ela era rígida quanto ao trabalho e as regras, mas também era gentil e paciente. Ela o encorajava e o valorizava, e acima de tudo, ela o respeitava.
Nelson não estava acostumado a ser respeitado, e talvez isso explicasse o estranho fascínio que ele estava desenvolvendo por ela.
Era estranho e muito desconfortável, mas ele às vezes ele se flagrava tentando impressioná-la, surpreendê-la, roubar aquele sorriso satisfeito que ela sempre lhe dava quando algo que ele fazia a agradava. Além disso, ele começou a reparar em pequenos detalhes, como a quantidade excessiva de café que ela bebia, como suas mãos eram pequenas e como seus olhos tinham uma cor que ele não conseguia definir. Ele sabia que não devia estar prestando atenção naquelas coisas, mas simplesmente não conseguia parar.
Finalmente, o mais importante dos fatores que o havia levado a mudar seu pensamento eram os criminosos com os quais lidavam. Eram assassinos, Black Hats que hackeavam para ferir pessoas, como o alvo que estavam perseguindo agora. Isso fez Nelson pensar que suas habilidades podiam ser usadas para coisas muito mais úteis e importantes do que causar caos por diversão.
- O sangue que encontramos deu num beco sem saída. - Avery diz aborrecida enquanto entra no laboratório - Preciso que você me leve a um fórum de Black Hat na deep web.
Ele se surpreende pela forma como ela diz, fazendo parecer tão fácil quanto entrar no site do Google.
- Olha... - ele começa a explicar - Não é tão fácil assim. A rede é como o vizinho mau. Você tem que saber que ao entrar deve ser rápido.
- Precisamos de um fórum sobre violência sexual. - ela insiste - Um desses que são estimulados sexualmente por extrema carnificina. É aí que ele está a espreita!
- Você tem que ser convidado. E os administradores que criam e executam o site? Eles levam muito à sério sua exclusividade. Eles vão te bloquear e travar seu computador se não te quiserem no fórum.
- Então crie uma identidade e ganhe a confiança deles. - ela responde como se fosse óbvio.
Ela estava mesmo dizendo isso? Estava mandando-o entrar na deep web quando seu acordo com o FBI o proibia terminantemente?
Às vezes, ela o deixava confuso.
- Mas pelo que eu sei, o acordo que me mantém fora da prisão diz que eu não posso acessar a deep web ou mesmo associar...
- Oh, esqueça isso. - ela o interrompe, agitando as mãos - Estamos trabalhando em um caso. Apenas faça.
- Okay... - Nelson olha para ela, surpreso e animado - Gosto da forma como você manda.
Enquanto vira as costas para ir embora, ela ri.
A risada é curta, mas o som é melodioso, provocante. Leva um tempo até que ele encontre o adjetivo perfeito: sensual.
Um segundo depois, Nelson se assusta com o pensamento. Ele sente seu rosto esquentar e uma imensa confusão toma conta de sua mente ao perceber o quanto aquela mulher estava bagunçando sua cabeça.
Ele começa a trabalhar, esperando esquecer aquilo o mais rápido possível. Não funciona.
A risada de Avery ecoou em sua mente pelo resto daquele dia.
