Capítulo 6


Quarto 204

Holiday Inn Express

Columbus, GA

5:14 a.m.

Os dois simplesmente ficaram lá parados olhando um para o outro pelo que parecia ser uma eternidade. Scully sentiu-se tonta, incerta se isso era por causa da falta de sono, ou pelas notícias que acabara de receber... Ou pela cena que o telefone interrompera.

Finalmente ela se libertou de sua inércia e acendeu o abajur ao lado da cama, viu Mulder entortar os olhos à súbita claridade e murmurou uma rápida desculpa enquanto saía da cama.

Ela se virou para encará-lo. "Andy quer nos encontrar no café às seis da manhã, então vou tomar um banho rápido e trocar de roupa," ela disse. Uma rápida idéia de convidá-lo a se juntar a ela cruzou sua mente, e ela quase pulou surpresa, mas relacionou isso ao cansaço e continuou. "Precisamos decidir o que fazer sobre isso. Um de nós precisa ir até lá."

Nisso, Mulder levantou a cabeça, e uma mão pegou o braço dela. "Não vou deixar você, Scully," ele disse ferozmente. Os olhos ficaram selvagens e desfocados, e o coração de Scully se apertou em seu peito.

Ela pegou a mão dele com a dela que estava livre. "Tudo bem, Mulder," ela disse suavemente, sentindo o aperto dele relaxar sob o toque dela. "Vamos trocar de roupa e falar com Andy, e poderemos resolver tudo. Vai ficar tudo bem."

Depois de um longo momento, Mulder assentiu devagar, tirando a mão do braço dela. Scully lhe deu um aperto antes de soltá-lo e então deu um passo para trás. "Saia, G-man," ela disse ligeiramente. "Vá trocar de roupa. Temos um dia cheio pela frente."

Ele lançou-lhe um meio sorriso enquanto se levantava, e ela sentiu um pouco da tensão saindo de seu corpo. Ele se mexeu para passar por ela, mas então parou e passou uma mão pelo braço dela, do ombro ao pulso. Ele se inclinou até que sua respiração roçar a orelha dela, e Scully escondeu um tremor.

"Obrigado, Scully," ele sussurrou.

Um segundo depois, ele se fora, e ela deixou escapar um suspiro trêmulo. Seus sentidos estavam aguçados, e a mistura de pouco descanso e emoção demais eram um pouco mais do que ela podia suportar.

Mas ela tinha que suportar, não só pelo seu bem, mas pelo de Mulder também. Ela sabia que ele mal estava se agüentando – inferno, sem ela por perto, ele provavelmente teria se perdido completamente – e ela não poderia, não iria, deixá-lo desmoronar. Ela precisava demais dele, e não somente nesta investigação. Ela somente precisava dele, ponto final.

Talvez fosse a hora de ela dizer isso a ele.

Agora, no entanto, não era hora para tais pensamentos. Forçando a mente a considerar o próximo movimento deles, ela mergulhou automaticamente nas preparações matinais, juntando roupas e cosméticos e indo para o banheiro.


Restaurante Silver Dollar

Columbus, GA

11 de Maio de 1999

5:49 a.m.

Scully e Mulder sentaram um na frente do outro em uma das muitas mesas livres. O restaurante estava quase deserto, como disse Andy, já que era por volta de 5:30 da manhã. Ela os encontraria às 6 horas, mas eles saíram assim que estavam prontos e chegaram cedo.

Uma mulher de meia-idade com cabelo loiro claro e seco e muita maquiagem nos olhos aproximou-se poucos segundos após a chegada deles. Encostando-se à mesa, ela os cumprimentou com um amigável "Bom dia para vocês", então pegou o bloco de ordem no bolso do avental. "O que posso fazer por vocês?" ela perguntou.

"Café," ambos responderam juntos, então sorriram um para o outro. Scully acrescentou "Traga três; estamos esperando uma pessoa." Ela olhou para Mulder, medindo sua condição física e mental por um segundo, como estava tão acostumada a fazer, e voltou sua atenção para a garçonete. "E dois sucos grandes de laranja, e também torradas com manteiga, e... Mulder? Dois ovos com bacon, batatas picadas e torrada, certo?"

Ele lançou-lhe um olhar zombeteiro e olhou para a garçonete. "O que ela pediu," ele disse, sorrindo.

A garçonete assentiu, ainda escrevendo o pedido, então piscou para ele. "Tem aveia, entretanto, não batata picada. Tudo bem?"

Scully poderia ver que Mulder estava tentando não desagradar. "Claro", ele disse, dando outro sorriso, muito mais hesitante.

A garçonete sorriu de novo e foi para o balcão, e Scully deixou escapar o riso que estava prendendo. "E quando foi a última vez que comeu aveia, Mulder?" ela perguntou provocando-o.

Ele balançou a cabeça com um sorriso torto. "Vamos ver, hoje é terça-feira, então seria... nunca?" ele disse.

Scully levantou uma sobrancelha. "Bem, você terá um deleite raro," ela disse. "Apenas tenha certeza de acrescentar muita manteiga e sal."

Mulder fixou-a com um olhar inquisitivo. "E quando foi que *você* comeu aveia, Agente Scully?" ele perguntou.

Ela deu de ombros. "A família da minha mãe é da Virginia," ela disse. "Eles entraram e saíram da minha vida o tempo todo. Não são meus favoritos, mas são ok, desde que você nunca tente comê-los sozinhos."

Mulder encostou de volta no banco, esticando um braço sobre o encosto. "Então me fala," ele disse. "Tem gosto de que?"

Scully chegou para frente, os cotovelos em cima da mesa e juntou as mãos. "Bem, sozinhos, têm gosto do que se parecem," ela disse. "Como pequenos pedaços quebrados de isopor."

Mulder riu e ela continuou. "Então, se você colocar manteiga e sal suficientes, terá gosto de... bem, manteiga e sal, mas mais grosso." Ela parou, então sorriu. "É meio difícil explicar, na verdade."

Antes que Mulder pudesse responder, o sino da porta tocou enquanto alguém entrava, e ambos olharam para ver Andy se aproximando. Scully se mexeu para dar espaço, e Andy deslizou ao lado dela.

A garçonete retornou, café e suco de laranja sendo servidos numa correria – Andy já havia comido – e então eles se voltaram ao assunto em pauta.


6:04 a.m.

"A contagem dos corpos ultrapassou 83," Andy disse sem preâmbulo. Mulder ficou sentado quieto no banco e bebia seu suco de laranja, enquanto ouvia as notícias. A repórter parecia equilibrada, confiante e organizada; a Marinha foi tola ao deixá-la sair.

"Acabei de falar ao telefone com um cara com quem estudei e que trabalha para uma das estações de TV daqui," Andy continuou. "Do que ele me contou, parecia uma cópia exata do que aconteceu aqui: grande enxame, dúzias de vítimas por todo o campo. E agora todas as vítimas desapareceram e parece que ninguém sabe nada a respeito. É quase como se não tivesse acontecido nada."

"Mas com certeza as reportagens --" Scully começou.

Andy balançou a cabeça, calando Scully. "Não há reportagens. Viram o jornal de hoje?" Ambos os agentes balançaram as cabeças. "Nada. Eu escrevi um grupo de discussão de tamanho médio ontem à tarde, baseado no que vimos em Riverwalk. Mas meu editor prendeu." Ela sorriu melancolicamente. "De fato, não está nem no computador mais. Aparentemente, foi apagado por acidente. Ou algo assim."

"Ou algo assim," Mulder concordou, olhando para sua parceira. "Scully, devíamos esperar algo assim, e é evidência adicional de que isso pode ser a coisa real. Controle da mídia nos estágios iniciais seria essencial para o sucesso da operação."

"Você entendeu certo," Andy disse com raiva. "Quando cheguei em casa na noite passada, havia uma mensagem na minha secretária eletrônica ordenando – não pedindo, ordenando – que eu voltasse ao escritório para uma reunião de emergência. Fui até lá às duas da manhã esperando encontrar com Eddie, meu chefe, mas era só um editor e seu assistente executivo. Parecia haver uma pressão do Centro de Controle de Doenças para escondermos o assunto, 'pelo interesse público'."

Scully balançou a cabeça. "E o jornal tolera isso?"

Andy encolheu os ombros em aparente despreocupação, mas suas palavras eram amargas. "Este não é o Washington Post. É um jornal de cidade pequena com um orçamento apertado. O Wal-Mart local fala 'merda', e nós agachamos e perguntamos que cor. E quando é o governo..." A voz dela sumiu e ela encolheu os ombros novamente.

Por um momento ou dois houve silêncio na mesa, e Mulder estava desconfortavelmente alerta de que ele e Scully também eram parte do 'governo'. Mas Andy não parecia ter direcionado qualquer raiva para eles, ele se lembrou. Finalmente, ele limpou a garganta e disse "Bem, isso ainda nos deixa a decidir o próximo passo."

Ele respirou fundo e pegou o olhar da parceira; ele realmente não queria levantar o assunto, mas eles não tinham escolha. "Acho que nós dois deveríamos ir para Iowa," ele disse, tão firme e decidido quanto conseguiu. "Não há mais nada aqui; as equipes de limpeza já fizeram bem seu trabalho. Andy ficará aqui --"

Scully já estava sacudindo a cabeça. "Não, Mulder. De jeito nenhum. Eu sei que sou a que geralmente reclama de ser deixada para trás, mas desta vez, isso tem que ser feito. Ainda há uma perseguição a ser feita na Georgia." Ela acenou para Andy e continuou "Com o CCD, se não houver mais. Conheço umas duas pessoas aqui, e quero ver se consigo fazer qualquer uma delas falar."

Mulder tentou interromper, mas ela continuou antes que ele tivesse a chance. "E um de nós *tem* que ir para Iowa, o mais rápido possível. O rastro já está esfriando; amanhã de manhã não haverá mais nada, se esta operação for tão bem organizada quanto a daqui tem sido."

Mulder sabia que ela estava certa, e ele sabia que ia perder essa discussão, mas ele tinha que tentar mais uma vez. "Eu entendo o que está dizendo, Scully," ele disse, tentando manter a voz nivelada e racional. "Mas dividindo suas forças na cara de um inimigo superior, nunca é uma boa idéia." Ele olhou para Andy. "Você era militar; diga pra ela."

A repórter assentiu devagar. "Você está certo, é claro; concentração de força é uma das regras cruciais de planejar uma ação de sucesso. É uma lição que fizeram mesmo com que a gente aprendesse." Ela parou e olhou para Scully, e então de volta para Mulder. "Mas às vezes você tem que fazer o que tem que fazer. Tempos perigosos pedem medidas perigosas, e tudo aquilo."

Scully esticou uma mão sobre a mesa e segurou uma de Mulder. "Vai dar tudo certo, parceiro," ela disse. "É só por um dia ou dois, e manteremos contato pelo celular tanto quanto... quando precisarmos manter."

Agora era a vez de Mulder acenar relutantemente. Ela estava certa, é claro, e ele sabia disso desde o começo. Mas este conhecimento não fazia nada para aliviar a dor do pressentimento que ele sentia na boca do estômago. Mais do que qualquer coisa, ele queria enrolar os braços ao redor dela e protegê-la e mantê-la segura, mas isso não era uma opção. Se eles fossem perseguir isso, eles deveriam se arriscar, e aparentemente separação a este ponto parecia ser um desses riscos.

Finalmente, ele disse muito baixo "Tudo bem, Scully. Tudo bem. É assim que vamos fazer."


Interestadual 85

Norte de LaGrange, GA

7:44 a.m.

Mulder ganhara em um ponto: Scully e Andy cederam a direção para ele, pelo menos até chegarem ao aeroporto. O vôo mais cedo que ele pôde conseguir foi o de 8:35 para Cedar Rapids passando por Minneapolis, e ainda assim era o mais perto possível. Eles teriam que voltar ao motel para pegar a mala, e ainda tinham meia hora para ir até lá.

A idéia dele funciona, afinal de contas, e ambas as mulheres estavam cochilando agora, Scully no banco ao lado dele e Andy no banco de trás. Ele as convencera de que era cedo demais para fazer ligações, a menos que elas *quisessem* incomodar as pessoas, e sugerira que elas dormissem um pouco na viagem.

O plano era para elas se despedirem dele no aeroporto – não realmente necessário, e ele ficou um pouco surpreso quando Scully não contestou sua sugestão – e então continuarem pelo centro até o CCD para ver o que conseguiam descobrir. Mulder procuraria pelo contato de Andy em Cedar Rapids quando ele pousasse para ver o que descobriria lá. Eles se falariam no meio da tarde pelo celular.

Mulder suspirou suavemente no silêncio do carro. Ele não estava realmente cansado, após um cochilo na noite anterior, e duas xícaras e meia de café mandaram muita cafeína para seu corpo para mantê-lo acordado. Mas a paisagem era a mesma do dia anterior, só que ao contrário, e ele já havia memorizado da primeira vez. Assim, apesar de suas melhores intenções, sua mente começou a vagar para lugares que ele não queria.

Ele repassou o momento no quarto de Scully naquela manhã quando ele percebeu que ela ia beijá-lo – ou deixá-lo beijá-la, o que fosse. Os olhos dela eram suaves e brilhantes na escuridão enquanto ela olhava para ele; os lábios dela suaves e convidativos.

Foi somente a segunda vez que eles quase concluíram essa... *coisa* que ficava pairando entre eles há tanto tempo. Claro, eles costumavam ignorar, colocar de lado, tirar do caminho. De tempos em tempos, ele quase podia acreditar que isso tinha acabado de vez, mas então ressurgiria, geralmente nas horas mais inoportunas. Como esta manhã.

Por que era sempre quando eles estavam em situações medonhas que a atração deles vinha à tona? Por que não podia aparecer quando as coisas estavam relativamente tranqüilas, quando eles poderiam prosseguir sem interrupções?

Mulder suspirou de novo, um pouco mais alto, então congelou e segurou a própria respiração quando Scully se mexeu no banco do passageiro. Ele tinha medo de acordá-la, mas ela se ajustou de volta num momento, e ele relaxou novamente.

Mas poucos minutos depois ela se mexeu de novo, e desta vez ela levantou a cabeça e abriu os olhos.