Romance.
Divirtam-se
- Você tem algum aliado em mente?
- Talvez. Mas não conte com isso, Hermione. As pessoas têm o péssimo hábito de nos surpreender.
Aparataram fora dos portões de Hogwarts ainda antes das onze da manhã. Quase todos os alunos estavam em Hogsmeade para um agradável sábado de doces e cerveja amanteigada, e os corredores pareciam maiores do que ela se lembrava.
Minerva recebeu Snape com um esgar e Hermione com um abraço sufocante. Ela queria ver Hagrid, Flitwick, o Barão, Murta, e até Filtch e Mme Nor-r-ra, mas McGonagall pediu aos elfos que servissem almoço para duas pessoas em seus aposentos e caminhou de braços dados com Hermione até lá, fazendo perguntas que não esperavam por resposta. Ela teve tempo de lançar um último olhar de súplica para Snape por sobre o ombro da diretora, recebendo apenas um gesto de mãos dele que dizia claramente que ele não poderia salvá-la. Às vezes ele era divertido, mas às vezes ele era como o suco industrializado e as cartas da diretora: não tinha graça nenhuma.
- Conte-me, minha querida, em que tem andado tão ocupada que não teve tempo de fazer-me uma mísera visita em três anos? Espero que esteja feliz em seu mestrado em aritmancia. É uma área bastante desafiadora, escolhida por poucos, mas eu nunca esperaria menos da senhorita.
- Tive muitas saudades daqui, Diretora. Da senhora e de todos os outros. Estão em Hogsmeade com os alunos?
- Ahn? Ah, sim, sim, é claro. Está com fome, certo? Veja só, a senhorita nos abandona por meros três anos e já está só pele e ossos. Pedirei sua sobremesa favorita, pudim de chocolate, correto? Sabia que temos um novo professor de poções? Draco está lecionando para as turmas do primeiro ao quinto ano. Ah, que tolice a minha, deve ser a idade, minha cara, ela chega para todos; é evidente que Severus já te contou isso!
- Na verdade...
- Acho que temos pernil com batatas e legumes assados... ou seriam grelhados? Mas me conte quem são seus professores...
A procissão de perguntas parecia não ter fim. Todo o castelo sofrera com a batalha e fora reformado, mas era tudo como ela se lembrava de seu sétimo ano. Apenas mais vazio. Ela olhou para o corredor que levava às masmorras. Em algum lugar lá em baixo, Snape preparava suas malas para passar três semanas com ela, a última delas em algum lugar da Itália em lua-de-mel. Queria ver como eram seus aposentos, queria ajudá-lo a dobrar suas roupas, queria conhecer o que mais ele vestia, com o que dormia, que cor eram suas cortinas e suas toalhas, saber se usava chinelos em casa, se tinha roupas de banho (é claro que não, Hermione, de quem você acha que está falando? De Viktor Krum?), se sua cama tinha dosséis, se tinha uma estante particular e que livros tinha, o que lia antes de dormir, quais periódicos assinava... Mas Minerva a tinha firmemente presa a seu braço, e continuava falando, e falando...
A Diretora tocou uma tapeçaria com a ponta da varinha e deu passagem a Hermione.
As paredes eram forradas de madeira e pesadas cortinas de veludo se estendiam do teto ao piso ocultando as janelas longas e estreitas. A lareira era encimada e emoldurada por um enorme relógio-cuco sem números, cada ponteiro uma pequena obra de arte. Havia duas portas encimadas por papel de parede cor de vinho. Todo o resto eram livros, fazendo Hermione precisar recorrer a toda a sua boa-educação londrina para não deixar a boa senhora falando sozinha e deleitar-se entre os volumes. "Severus provavelmente tem uma biblioteca quatro vezes maior." Pensou amargurada.
McGonagall fechou a porta atrás de si e um ruído de fechadura despertou Hermione dos seus devaneios. Ela estava... trancando a porta?
- Agora ouça-me com atenção, mocinha. – Em um instante a boa senhora se fora e a austera professora de transfiguração estava de volta em toda a sua altivez, os olhos escoceses faiscavam tanto que Hermione temeu que uma fagulha atingisse as cortinas e toda Hogwarts se tornasse uma bola de fogo. – Todos temos um carinho especial por Severus, mas ele é como um filho para mim e eu nunca admitiria que ele se envolvesse com alguém que não esteja à altura dele. E saiba que isso é muito, muito além do que seus olhos podem enxergar. Não fosse por essa lei estúpida desse Ministério obtuso, ele teria uma escolha e para o seu próprio bem e do excelentíssimo senhor Ministro da Magia, eu espero que fosse mesmo a senhorita. Você está preparada para fazê-lo feliz?
Hermione perdeu a voz. Deixou-se cair na cadeira em frente à mesa retangular, completamente alheia aos pratos que surgiam à sua frente. Não conseguiria desviar os olhos de Minerva nem que quisesse, e temeu fazer movimentos bruscos.
- É melhor ter uma resposta para me dar, Senhorita Granger, pois o seu silêncio aparvalhado não depõe a seu favor. Responda. Quanto esforço está disposta a fazer pela felicidade do homem que quase deu a vida pelo nosso mundo? O que te faz pensar que poderia estar à altura dele? – A diretora caminhava lenta e silenciosamente em círculos em torno de Hermione. Ela tinha certeza de que se respirasse errado a sua querida professora de poções estaria em sua garganta em um milésimo de segundo.
- Prof-professora McGonagall, de toda a Grifinória, por que esse discurso se aplicaria justo a mim? Nenhum de nós nunca o defendeu ou respeitou tanto quanto eu!
- Ora, querida, porque você não é mais uma aluna, não é mesmo? – A senhora se sentou na cadeira oposta a Hermione e começou a servi-la do almoço com tanta delicadeza que ela suspeitou que estivesse alucinando. – agora você é a noiva dele. – Automaticamente Hermione colocou o guardanapo de linho no colo, mas não fez menção de comer. – O homem que foi obrigado a defender a sua vida e a de seus amigos com a dele própria agora é seu orgulhoso noivo e eu não estaria esperando demais em desejar que a senhorita seja capaz de retribuir-lhe o favor, não?
- D-diretora, é claro que eu...
- Nada é claro aqui, minha querida. Não vê? Os melhores de nós viraram as costas para Severus. Não apenas uma vez, não apenas durante a guerra, mas durante toda a vida dele. Você ouviu isso, senhorita? Não, não deve ter ouvido. Eu disse "Toda. A. Vida." Pense em duas vezes a sua parca idade de abandono, humilhações, abuso físico, mental, emocional... e você ainda não terá a menor ideia do que Severus sofreu. Por anos eu não soube como aquele homem que você se acha no direito de desposar conseguia se aguentar sobre suas próprias pernas. – Hermione engoliu em seco. Entre não estar preparada para ouvir aquilo e não querer saber de nada que Snape não quisesse lhe contar, ela precisava fazer Minerva se calar. – Desde a infância, tudo que ele conheceu foi dor e sofrimento. Ele era o garoto que escondia as marcas das surras que levava sob mangas longas durante todo o verão.
- Professora ele...
- Não acho que você algum dia compreenda o que eu digo, mas ele não precisa de uma garota mimada para fazer exigências em sua cama, senhorita. – aquilo estava muito, muito perto de ir longe demais. Minerva tinha o rosto muito vermelho e falava de dentes tão cerrados que poderiam se quebrar a qualquer momento – Eu nunca permitiria que ele se casasse com alguém que se acha boa demais para ele, simplesmente porque não há no mundo ser humano bruxo ou trouxa melhor que ele. Saiba que se você ferir ou magoar Severus Snape, eu vou ferir você. Se pensa que tirou a sorte grande, encontrando alguém para fazer todas as suas vontades... Pense. De. Novo.
- Chega! – Hermione tremia dos pés à cabeça, mas as palavras, de alguma forma, encontraram o caminho para fora de sua boca. – Minerva, acaso acha que eu sou uma adolescente voluntariosa? Acaso acha que quero um escravo ao invés de um marido? Aliás, acaso acha que eu quero um marido? Eu não quero um marido, Minerva, eu quero o homem com quem vou me casar, Severus Snape. Seja ele o maior herói da Segunda Guerra Bruxa, seja ele o mais rigoroso professor de Hogwarts, seja ele o homem mais infeliz do mundo! – Ela precisou conter um soluço. Não tinha se dado conta das lágrimas que caíam de seus olhos. – Duvido muito que absolutamente qualquer mulher no mundo não se sentisse orgulhosa de tê-lo como esposo, caso se permitisse conhecer dois minutos da sua vida, eu sei. Mas mais que orgulhosa, eu estou consciente da minha responsabilidade, do meu dever de compensar seus quarenta anos de infelicidade e ingratidão e culpa e abusos. Não preciso de seu tinteiro para sublinhar os meus deveres, Minerva. E se me permite, não quero saber da sua boca nem mais uma palavra sobre a vida dele. Se, um dia, ele me achar digna de conhecê-lo a esse ponto, ele me fará pela segunda vez a mulher mais feliz do mundo, mas não me interessa o que ele não deseja que eu saiba. Por favor, não passe por cima da vontade dele como todos sempre fizeram. – Hermione limpou os olhos vermelhos no guardanapo branco e respirou fundo algumas vezes; uma infinidade de verdades que gostaria de falar a McGonagall desfilando atrás de seus dentes, mas achou melhor dar o assunto por encerrado. – O almoço parece delicioso, diretora. Nada como a comida de Hogwarts para por um coração no seu devido lugar, não é? – Certamente a diretora não era a única grifinória com o direito de ter dupla personalidade.
Minerva recostou-se na cadeira, finalmente permitindo que um grande e sincero sorriso brotasse lenta e continuamente de seus lábios finos até que enfim tomasse todo o seu rosto.
- Não, Hermione. Nada como a comida de Hogwarts.
Snape bateu à porta da diretora precisamente duas horas depois de deixá-las a sós. Hermione sorriu ao vê-lo passar pela porta e Minerva sorriu ao vê-la sorrir. Não era necessário ser um grande legilimente para notar que algo estranho se passara ali, o clima estava pesado e Hermione tinha marcas prateadas descendo dos olhos.
- Diretora McGonagall. – acenou ele, brevemente – Hermione. Podemos ir?
Ela concordou e se postou agilmente ao seu lado.
- Foi um prazer reencontrá-la, Minerva. Tenha certeza que não me esquecerei de nada que você me disse. Espero que possa encontrar uns poucos minutos daqui a duas semanas para me conduzir ao altar. Seria uma honra e uma imensa alegria para mim. – e quis dizer cada palavra que disse.
Snape caminhou pelos corredores em silêncio, uma mão mal tocando o ombro de Hermione, a outra carregando com facilidade uma mala de couro que parecia incrivelmente pesada. Ao alcançarem os jardins, ele não pode mais se conter.
- O que foi aquilo?
- Nada, Severus. Só uma conversa amigável entre duas leoas.
- Achei que ela tentaria persuadi-la a desistir do casamento.
- Ah, mas ela tentou, meu querido, ela tentou. Só não pelos motivos que você imagina. – dizendo isso, ela tomou-lhe o braço e continuou a caminhada com o rosto suavemente pousado no ombro dele.
