** Quinze dias após o reencontro **
De mal humor, como de rotina, Isa caminhara a passos largos em direção a um restaurante para almoçar.
Seu estômago reclamava, e o tempo era curto.
Tinha muitos trabalhos, como sempre, para fazer.
Mas isso era bom... O ruim era o pouco tempo para desenvolver as tarefas.
Sua chefe estava se aproveitando da sua inteligência.
"Talvez por não ter uma própria", pensara.
E talvez de sua paciência, que aliás, ela não conseguia determinar se algum dia já teria tido.
Sentara-se no restaurante de sempre, e pedira o mesmo prato de costume.
Tudo em sua vida seguia o caminho mais rotineiro possível...
A rotina lhe dava segurança.
Com a rotina, ela não seria traída, ferida, abandonada.
Lhe passava a segurança de não arriscar fazer nada que fizesse sua vida desmoronar... de repente, sem aviso prévio.
Como quando perdera a razão de viver... há 10 anos atrás.
Começara a almoçar, a comida tinha o mesmo sabor peculiar.
O mesmo gosto de sempre... de rotina...
Há 2 anos seguidos almoçava no mesmo local. Desde que havia entrado no trabalho atual.
Isa permanecera divagando sobre seu hábito alimentar pelos próximos 5 minutos, até que ...
Sentira alguns dedos pequenos e macios interromperem a sua visão.
Lhe trouxeram uma sensação peculiar.
Conhecia aquelas mãos... mesmo que não pudesse vê-las, podia senti-las.
Sentia a temperatura... eram dedos quentes... peculiarmente, quentes.
E uma voz surgira do seu inconsciente:
"Pensei que não nos veríamos novamente", pensara, traindo-se num misto de decepção e felicidade.
Reconhecera quem era antes mesmo que a pessoa se aproximasse, ainda impedindo sua visão, e falasse em seu ouvido:
"Olha quem eu vejo de novo"
Raíssa tirara suas mãos, sorrindo.
Isa a olhara sem nenhuma surpresa.
E sem nenhuma expressão.
Na verdade, sem nenhum sentimento.
Nem acreditava que a veria de novo, mas acabara de acontecer, simplesmente, e ela ainda estava processando a informação.
Em algumas situações, principalmente.
"Duas vezes em um mês..."
"Sei a que se refere. Coincidência estranha né?", indagava, estranhando as coincidências que houvera em sua vida no último mês.
"É. O que será que o destino está querendo dizer pra gente?", Raíssa a olhara fixamente, observando a sua evidente expressão de descrédito no olhar.
"Não sei. Eu não acredito nisso"
"Antes você acreditava..."
"É... Antes." - fez uma pequena pausa enquanto observava a expressão incrédula de Raíssa - "Antes eu acreditava em muita coisa. Mas o tempo nos ensina o que é real ou não". - a loira agora estava levemente ruborizada.
"Nossa! Você deixou de acreditar no que mais? Deixou de acreditar no amor também?", dissera brincando. Nem imaginando a resposta que viria a seguir.
"Não sei. Talvez..."
Raíssa ficara levemente pálida.
Voltara à face uma expressão pensativa, longe. Quase triste.
Pensara no quanto sua ex namorada estava mudada.
Seria ela a responsável por tanta mudança?
O que fizera à pessoa que mais amara na vida?
A única que realmente a fez sentir-se feliz.
A pessoa que a ensinou o que era amor, e que lhe deu um motivo pra viver.
A pessoa que ela nunca conseguira esquecer, por mais que tentasse.
"Então, posso me sentar?"
Isa a olhara, envergonhada.
A outra ainda estava em pé.
Não tinha convidado-a para sentar com ela.
Tinha sido muito rude, novamente.
"Claro"
Isa forçara um sorriso embora, bem lá no fundo, estivesse realmente feliz em revê-la.
Raíssa sentara ao seu lado, enquanto Isa voltara para o prato, tentando se alimentar.
Mas após rever Raíssa, e com ela ao seu lado, definitivamente era impossível.
"Então... pelo visto, você não está namorando?" perguntara, impassível, disfarçando qualquer interesse.
Embora Raíssa tenha disfarçado o interesse no momento da pergunta, provocara em Isa uma expressão tensa.
Uma tensão extra ao fato de estar encontrando novamente a pessoa que mais amou e que mais a magoou em toda sua vida.
Isa pensara que aquela seria uma pergunta muito "pessoal". Uma "curiosidade inapropriada", depois de tantos anos.
A consideraria uma daquelas perguntas que as pessoas sabem que não devem ser perguntadas, a menos que haja uma amizade entre elas.
Entretanto, mesmo pensando em tudo isso, não conseguira deixar de responder. Pareceria rude...
"Não", Isa respondera secamente e sem retornar a pergunta.
Tentara não dar brecha alguma para que Raíssa respondesse.
Por alguma inexplicável razão, Raíssa sorrira.
Isa ficara ainda mais tensa.
Começara a achar estranho.
Imaginara o que viria a seguir.
"Eu também não..."
Fez-se silêncio.
Isa não perguntaria, e nem queria que ela dissesse.
Preferia não saber. Não sabia como poderia se sentir.
Mas ela disse.
Permanecera séria, diferente de Raíssa.
Bem lá no fundo - inconscientemente -, ela ficara ligeiramente satisfeita.
"Isa... Agora há pouco quando tapei sua visão..." – disse, pausadamente.
"Sim?", perguntou quase que sem voz.
Mais e mais tensa...
Começara a olhar em volta novamente.
Uma saída de funcionários.
Banheiro.
E saída de incêndio.
Precisava ter algo ali... mas nada tinha.
"Eu achei que fosse te surpreender... Mas não surpreendi, não foi?"
"Realmente não. Eu te reconheci antes..."
Isa a encarara...
Pela primeira em toda a conversa, encarou Raíssa fixamente ao respondê-la.
"Hmm..."disse, pensativa, apresentando um mini sorriso na face.
"Te conheço o suficiente pra isso, não?" disse, com uma voz firme, 100% certa do que dizia.
"Na verdade, não..."
Isa esperara pela continuação.
Como não a conhecia? Pensava no que Raíssa queria dizer com aquilo.
Raíssa a encarara profundamente, deixando-a levemente vermelha.
"Você me conheceu muito bem, sim. Mas conheceu uma criança. Agora sou uma mulher."
"Isso é verdade..."
[longa pausa em silêncio, as duas permaneciam se olhando]
"Sem contar que talvez... Eu nem tenha conhecido tanto assim", considerou Isa.
Silêncio.
Lembraram-se do passado.
Um vulto de tristeza e decepção o embassara.
Um passado que por muito tempo fora um presente bom, mas que no final, tudo se perdera.
Raíssa, que até então permanecera sorrindo, se calara novamente, com uma expressão facial séria, quase melancólica.
Isa observara, numa outra sensação de satisfação porém, dessa vez, consciente.
"Da outra vez... que nos encontramos...", disse, pausadamente, e em pausas longas.
"Hm" dissera rapidamente e em um fio de voz, desejando profundamente nem relembrar aquele terrível episódio
"Eu quis te dizer uma coisa... mas... foi rápido, e de repente... nós não esperávamos...", continuara sua fala, em pausas cada vez mais longas.
Raíssa ruborizara-se gradualmente a cada frase dita.
"E?", adiantara-se Isa, já irritada pela demora de tocar no assunto, querendo que Raíssa fosse direto ao ponto de uma vez.
As duas pararam um instante, e sorriram levemente, com a constatação inusitada que tiveram.
Elas permaneceram a mesma e o tempo que passara de repente lhes parecera inútil.
Enquanto que uma permanecia com as repetições e explicações enroladas, confusa sobre como dizer as coisas, Isa permanecia "meio" impaciente para aturá-las, e absolutamente firme ao explicar as coisas.
Aliás, Leia-se "meio impaciente" como alguém definitivamente incapaz de aturá-las. Insuportavelmente sem paciência.
No entanto, no fundo, as duas sempre adoraram essa diferença no comportamento, que se mostrara por todo o tempo de relacionamento, desde que elas se conheceram, e que acabara tornando-se o grande segredo da relação persistir por tanto tempo.
"Eu achei você tão bonita... foi como se o tempo não tivesse passado. Senti como se..."
"Você também... parece como sempre. [pausa tensa] Não mudou nada fisicamente"
Isa interrompera Raíssa, que escutara um elogio feito da maneira mais superficial e apática possível.
Evidentemente forçado. Porém, Raíssa a conhecia o suficiente para saber que ela também sentira o mesmo.
E sorrira levemente com o canto da boca.
"Sabe, Isa. Eu andei lembrando da gente nesses dias após o reencontro. Pensando em tudo que aconteceu..."
"E?"
"Acho que nunca pedi desculpas a você apropriadamente."
"Raíssa." dissera em um tom firme, tentando evitar uma retratação desnecessária. Após uma pausa, observando-a, continuou. "Isso é passado."
Dissera novamente em uma entonação firme, que podia ser facilmente confundida com ter sido rude.
"Não importa... Gostaria que você soubesse"
"Tudo bem", permanecera em seu firme, gélido e levemente irritada.
"Você não acha que eu mudei, não é?" - questionou Raíssa, observando os olhos de Isa arregalarem.
"Sinceramente? Não, realmente não"
"Por que?"
"Depois do que você me fez? Você ainda me pergunta?"
Escapara. Um grande rancor saíra em sua voz, nada disfaçado.
Demonstrara a raiva, a mágoa e todas as sensações ruins que tem em seu coração.
Tudo saíra naquela frase.
Agora os dados tinham sido jogados, apenas cabia a Raíssa pegá-los ou não.
E ela os pegou.
"Eu sei que errei muito com você, Isa..."
"O que você está dizen...?"
Isa parecera estar chocada.
Raíssa a interrompera pela primeira vez até então.
Estava decidida a continuar, não importasse o que Isa dissesse.
Não se deixaria vencer assim tão facilmente.
Iria tentar até o final, não importando o que acontecesse.
"Mas estou disposta a compensar meus erros"
Isa permanecera paralisada, sem saber muito o que dizer.
Não conseguia tirar da cabeça o que havia sido dito, e o tom que havia sido usado por Raíssa.
Estranhamente lhe parecera uma declaração. Uma bastante atrasada declaração.
"O que você quer diz...?" - Questionara, totalmente confusa. No entanto, depois de poucas palavras, sua voz simplesmente fora embora, dando lugar ao silêncio.
"Eu sempre lembrei de você, por todos esses anos, nunca consegui te esquecer"
O momento de choque passou, e Isa se percebera processando as últimas palavras de Raíssa.
Uma profunda raiva lhe subiu à cabeça, lembrando de tudo que Raíssa tinha feito a ela no passado.
"VOCÊ ESTÁ LOUCA?!", gritou levantando-se da cadeira, e atraindo olhares curiosos de todos em sua volta.
Uma lágrima de "ódio" saíra de seus olhos.
"Ódio". Fora o que Isa pensara até então.
Mas apenas o destino poderia dizer... com o tempo.
"Hoje eu sei o que quero...", disse Raíssa firme, porém sem sair do tom, a observando atentamente.
Fez-se uma pausa.
Isa forçara um silêncio para tentar se acalmar, e parar de chorar.
As lágrimas desciam, enquanto sua expressão ficava cada vez mais enfezada.
Voltara a se sentar.
Não queria passar por outro constrangimento em público, então precisava se acalmar.
Raíssa continuara:
"E eu quero você, Isa"
"Você não sabe de nada" - criticou, Isa, em um penoso suspiro.
"Sei. E eu sempre soube. Mas fui uma criança tola."
"E estúpida...", acrescentara. Não podia deixar de acrescentar... na raiva que se encontrava.
"Sim. Tola, estúpida, e tudo mais que você disser."
Fez-se um minuto de silêncio.
Isa sentira-se satisfeita por Raíssa ter aceitado suas críticas tão bem.
Isa apenas lembrara do restaurante...
Olhara em volta.
Totalmente fechado, sem saídas de escape.
"Restaurante inútil", pensava.
"Raíssa, não sei o que você está querendo com isso. Mas..."
"Isa..."
Algo a fez parar.
Isa se deixara interromper.
Apenas ouvira seu nome, não precisava parar.
Por que parara, pensara...
Não fazia sentido.
Ouvir a voz de Raíssa lhe chamando fora o suficiente para silenciá-la.
Começara a se sentir confusa.
E cada vez com mais raiva.
"Eu mudei muito. Por sua causa... Por tudo que eu fiz... E pelo quanto eu te amava..."
Isa a encarara.
Estava vermelha.
Vermelha de raiva.
Sentira-se petrificada, como se estivesse assistindo a alguma cena de um filme de terror.
Um filme assustador que a lembrasse de todos os momentos ruins que tivera na vida.
Tudo que teria acontecido em decorrência de uma cena só.
Isa culpava Raíssa por tudo que acontecera de ruim na sua vida.
Todos esses anos vinha alimentando essa loucura que agora começara a lhe parecer uma estupidez.
Mas ainda sofrera. E ainda fora traída. Raíssa, de qualquer maneira, tinha sido má.
Tinha a magoado, e a feito sofrer. Daquela maneira tão sórdida. Tão suja. Tão...
Por mais que tentasse, Isa não encontrava palavras para definir o que Raíssa lhe fez.
"E ainda amo"
Isa a olhara de uma maneira impossível de ser traduzida.
Parecera um grande misto de emoção, raiva, nojo, felicidade e desprezo.
Sorrira, sarcasticamente, como se aquilo nem merecesse ser comentado, seguido de um silêncio.
"Todos esses anos eu fiquei pensando em você... em nós... e hoje eu tenho certeza que se..."
"Raíssa, por Deus, chega!", dissera grosseira e pausadamente, mas em um tom baixo para que só fosse escutada por ela.
"Não!"
Raíssa levantara a voz pela primeira vez na conversa.
Uma lágrima caíra de seus olhos, assustando Isa, que permanecera imóvel, e chocada, diante daquela cena.
Pouquissimas vezes, em todo o tempo que elas foram amigas e/ou namoradas, teria presenciado Raíssa chorar.
E, embora quando terminaram, não tenha se impressionado com isso, diante do estresse do momento, agora percebia.
E se chocara. Raíssa realmente sentia? Pensara... Começara a ficar confusa.
Confusa com seus próprios pensamentos. Com seus desejos.
Quisera, por um instante, abraçá-la, pra tirá-la daquela dor... que ela aparentara.
E, seu choque, lhe deixara muda.
"Eu tenho certeza que..."
Os olhos de Raíssa ficaram vermelhos, iguais aos de Isa.
Parecera que ela esteve prendendo seus sentimentos por um bom tempo.
E, de repente, teria chegado a seu limite.
Isa tentara dizer algo que a bloqueasse, mas não conseguira.
Simplesmente não conseguira.
Sentira-se paralizada.
Confusa.
Literalmente arrasada.
E simplesmente fechara os lábios, permitindo que a outra continuasse.
"Hoje se namorássemos seria tudo diferente"
