Capítulo 7

- Sinto muito Anna. – disse Castiel.

- Não, você não sente. Está apenas cumprindo ordens. – Anna respondeu sarcástica enquanto observava os movimentos de Castiel e Uriel. Naquele exato momento Alastair, um do demônios mais temidos do inferno, entra naquele celeiro arrastando Ruby.

A luta havia começado e Castiel percebeu naquele instante o que iria acontecer. Enquanto todos estavam distraídos e Uriel lutava com outro demônio, Anna rapidamente tirou das mãos dele o frasco que continha sua Graça. Encontrada exatamente no lugar onde Anna havia caído, anos atrás.

Ao quebrar o frasco Anna pediu que Sam, Dean e Ruby fechassem os olhos e finalmente explodiu em milhares de raios luminosos. Castiel viu os olhos em brasa de Anna e suas asas abrindo-se vigorosamente enquanto ela tornava-se uma anja mais uma vez. Alastair foi desintegrado no processo e tão rápido quanto aconteceu ela desapareceu. Aquela batalha havia acabado. Certamente tudo acontecera daquela forma por causa dos Winchester, mas não havia nada que Castiel ou Uriel pudessem fazer a respeito disso. Ao fim ambos apenas deram as costas aos outros de saíram dali.

Castiel agora não sentia-se tão culpado. Não era certo que Anna recuperasse sua Graça como se nada tivesse acontecido, entretanto ao menos agora não precisaria matá-la. Eles costumavam pertencer ao mesmo "grupo" antes que ela se tornasse humana e uma parte muito pequena dele sentia falta dela. Talvez por causa de tudo o que havia acontecido entre ele e Melissa finalmente poderia enxergar Anna com outros olhos. Castiel sentia até mesmo um certo tipo de compaixão por ela.

Naquela noite Castiel dirigiu-se solitário até o pequeno quarto do hotel barato em que havia se hospedado há algumas semanas. Nunca havia ficado tanto tempo em uma mesma cidade, mas também nunca tivera um motivo para isso. Ele sentou-se por um momento, praguejando baixo o fato de a cada dia agir mais como um mero mortal do que como o anjo que era. Novamente longe de Melissa ele podia se perguntar se valeria a pena tudo aquilo. Mas com o passar do tempo essa pergunta começou a fazer menos sentido, mesmo distante dela.

No dia seguinte, exatamente uma hora antes de Melissa terminar seu expediente, Castiel entrou no pub. Nem por um segundo ele pode desviar seus olhos dela. Linda, como sempre, emandando sua aura dourada e pura ao redor do corpo perfeitamente esculpido pelo seu Senhor. Castiel encostou-se no balcão enquanto ela terminava de atender um cliente.

- O que posso trazer para você? – brincou Melissa, inclinando-se para beijar Castiel.

- Uma xícara de café e você pelo resto da noite? – Castiel alisou o rosto de Melissa, sentindo sua pele extremamente macia em contraste com suas mãos ásperas.

- Desculpe, o café acabou, mas em relação ao resto da noite... eu não poderia dizer "não". – Melissa riu mergulhando prazeirosamente nos olhos azuis de Castiel.

- Não poderia mesmo. – Castiel beijou Melissa mais uma vez antes que ela tivesse que sair às pressas para atender outro cliente.

Os últimos minutos do expediente se arrastaram para Melissa, ela particularmente estava ansiosa demais para estar mais uma vez nos braços de Castiel. Faziam alguns dias desde a última vez que ela o vira, mas havia prometido que não faria tantas perguntas sobre seu lado "sobrenatural". Além de prometer manter seu segredo, é claro. O que parecia um pouco mais complicado agora que sua irmã resolvera demonstrar tanto interesse na vida de seu namorado. Melissa estava ficando cansada de se esquiva das perguntas de Estella, mas sabia que era um fardo mínimo a carregar se fosse comparado com o de Castiel.

Logo depois ela tirou então seu avental e saiu do pub acompanhada de seu anjo. Sentiu-se confortada pelo braço dele que a envolvia trazendo-a para perto. Ainda assim, ela notara alguma coisa diferente nele agora que estavam ali fora. Ele parecia preocupado, mais calado do que o usual.

- Aconteceu alguma coisa? – Melissa perguntou não conseguindo reprimir mais sua curiosidade.

- Nada extremamente importante. – Castiel fingiu uma voz mais calma e segura.

- Então, para onde vamos hoje? – Ela claramente desistira do tópico anterior, decidida apenas a aproveitar seu tempo precioso com ele.

Com um movimento brusco Castiel virou sua cabeça para encarar uma mulher que acabara de aparecer atrás dos dois. Melissa virou sua cabeça, segurando firme a mão de Castiel e sentindo uma puxada forte quando ele se desvencilhou dela. Castiel ia na direção da mulher que pela primeira vez Melissa analisava. Sua pele era alva e reluzia em contraste com a noite escura que os envolvia. Seus cabelos lisos e intensamente vermelhos caiam graciosamente por seus ombros e descansavam eu seu peito. Melissa sentiu-se instantaneamente ameaçada pela mulher que sorria gentilmente para Castiel.

Ele por sua vez parou na frente dela, sério. Fitava seus olhos medindo as próximas palavras.

- Anna? - Castiel sentiu-se atordoado por um momento ao vê-la parada ali.

- Sim, há algum tempo eu desejo sua companhia Castiel. - Anna aproximou-se de Castiel suavemente, colocando suas mãos nos ombros dele. Castiel pegou as mãos de Anna, passando seus dedos levemente nos dela.

- Um momento. - Ele respondeu virando-se então para Melissa. Anna continuou parada esboçando um sorriso nas lábios enquanto Castiel ia em direção à Melissa.

- Um momento?! O que exatamente vai acontecer em um momento? - Melissa não tentava parecer simpática enquanto aquela mulher descaradamente desdenhava de seus modos torcendo os lábios.

- Me desculpe Melissa, mas não poderei ficar com você essa noite. - Castiel respondeu sem vontade.

- Quem é ela? - Melissa perguntou indignada.

- Uma velha amiga, queridinha. - Anna respondeu sarcasticamente.

Melissa encarou Anna com raiva, ignorando-a completamente e virou-se novamente para Castiel colocando suas mão no peito dele.

- Não vá!

Castiel se afastou mais uma vez dizendo-lhe:

- Não posso ficar com você agora. Me desculpe Melissa, apesar de tudo, meu lugar não é este. - sua voz era fria, Melissa não pôde ver o lado humano que a confortava, mas sim o anjo calculista que agora lhe dava as costas.

- Castiel! - Melissa gritou apavorada, enquanto via ele andar calmamente ao lado daquela mulher. Não sabia ao certo se era pelo choque ou por vontade dele mas não pôde se mexer por alguns segundos. Tempo suficiente para que Castiel desaparecesse na escuridão com sua nova parceira.

Melissa ajoelhou-se então deixando rolar algumas lágrimas antes de se levantar rumando sozinha para casa. Enquanto caminhava sentia o frio daquela noite cortar-lhe o rosto molhado pelas lágrimas de raiva que trilhavam seu caminho furiosamente. Melissa começou a se perguntar então por que exatamente Castiel fizera aquilo. Por que ele a abandonara daquela forma. E assustava-se ainda mais ao lembrar de seu olhar, nem humano, nem do anjo pelo qual se apaixonara.

Depois de alguns minutos, visivelmente mais calma, Melissa tentou lembrar-se mais uma vez da ruiva que pedira a companhia de Castiel. "E se ela não fosse humana?" pensou. Era uma hipótese plausível, uma vez que a mulher parecia conhecer Castiel. Ponderou então sobre quaisquer outros humanos que poderiam ter tanta intimidade com Castiel e finalmente chegou à conclusão de que Anna só poderia ser uma anja. Era estranho pensar nisso, mas certamente fez com que Melissa se sentisse mais calma. Continuou então seu caminho seguindo pelas ruas escuras de sua pequena cidade.

"Por que ele simplesmente não me disse isso?" perguntou-se Melissa. Mas ao pensar sobre isso achou que talvez Castiel não tivesse permissão para falar sobre outros anjos. E isso começou a levantar questões na mente de Melissa as quais ela nunca havia pensado.Absorta em seus pensamentos Melissa não reparara em um homem que se escorava na parede suja de um prédio a apenas alguns metros dela. Pela aparência deveria ser algum mendigo. A princípio Melissa não viu ameaça alguma, continuando seu trajeto.

O homem cuidava sem nenhuma discrição os movimentos de Melissa, vendo-a se aproximar lentamente. Naquele momento ela percebeu que era observada e quando fez menção de atravessar a rua escutou:

- Não precisa fugir belezinha. - disse o homem estralando os lábios para Melissa. Ela por sua vez virou-se assustada para o outro lado da rua deserta rezando para que nada de mal acontecesse.

No mesmo instante o homem, de aparência maltrapilha rapidamente atravessara a rua postando-se em frente a ela. Melissa levantou a cabeça para ver o rosto do homem e deparou-se com seus olhos completamente negros. Ao vê-los Melissa gritou, apavorada até que o homem tapasse sua boca com força.

- Mais um "pio" e eu arranco suas tripas agora sua vagabunda! - o homem deixou seus dentes podres à mostra enquanto segurava Melissa que se debatia. Ela tentou sem muito sucesso fugir quando mais uma vez ele disse:

- Quieta sua puta! Que peninha, mas o anjinho tá fudendo aquela outra vadia. Agora cala a boca antes que alguém apareça! - Melissa olhou apavorada para o homem que a segurava de costas para ele, pelo pescoço. - Que foi! Nunca tinha visto um demônio?!

Ele passou as mãos sujas sobre as pernas de Melissa dizendo:

- Agora eu sei porque o filho da puta resolveu brincar contigo. É bem gostosinha até. - dizendo isso o demônio lambeu o pescoço da Melissa pouco antes de dar uma pancada em sua cabeça.

No mesmo instante Melissa caiu no chão, desacordada, com um sutil filete de sangue escorrendo por seus cabelos. O demônio pegou-a pela cintura e apoiou-a no ombro enquanto carregava ela para longe.