CAPITULO 6
Confissões do Senhor da Guerra
- A senhorita é jovem demais para entender... – dizia o secretário geral.
Um homem já de idade, com cabelos grisalhos ralos e penteados para trás. Seus óculos pendiam na ponta de seu nariz. Estava rodeado por outros homens com o mesmo estereótipo de Newman. Ali estavam os donos do mundo, todos ouvindo a jovem Saori Kido.
- Por maior que seja a influência da Fundação Graad, nada vai nos convencer do contrário, senhorita.
- Senhor Newman, peço que repense a situação. Um ataque massivo ao Iraque e Arábia Saudita ao mesmo tempo? Isso é loucura! – argumentava Saori, que se via acompanhada de seus assessores, todos quieto no momento.
- Precisamos ser drásticos. A cada dia perdemos mais soldados naquela terra selvagem! São jovens americanos, Senhorita Kido!
- Eles não precisavam ter ido. A crise do petróleo, que deu início a esse conflito todo, poderia ser resolvida por via diplomáticas.
Newman tirou os óculos e os pôs sobre a mesa. Coçou os olhos e voltou a falar.
- Aquele povo não conhece a diplomacia. As mulheres andam cobertas dos pés à cabeça e as pessoas morrem por crimes banais! Você sabia que roubo é crime para pena de morte lá? Isso é selvageria! Aquela gente não pode viver mais daquele jeito.
- Senhor Newman! – Saori exaltou-se – É a cultura deles! Nós não temos direito de julgar se é certo ou errado! Temos que respeitar, assim como eles respeitam a nossa. E não seja hipócrita! Seu país não pretende salvar ninguém! O interesse são as fontes de petróleo.
Os velhos se entreolham, espantados com a audácia da jovem.
- Senhorita Kido, eu lhe respeito muito pelo grande homem que seu avô foi. Mas controle suas palavras.
- Não estou certa?
Newman respirou fundo e olhou para os outros, que davam de ombros.
- Pois bem... Queremos o petróleo sim! Não é justo que ele fique nas mãos de bárbaros como eles. Não é justo que nossas jazidas tenham se esgotado e tenhamos que depender daqueles selvagens.
- E quem são os senhores para julgar algo?
Newman inclinou-se para olhar fundo nos olhos da jovem.
- Somos os donos do mundo, Senhorita Kido. Estamos defendendo nossos interesses. E vamos atacar. Isso não é questionável.
Saori abaixa a cabeça, pesarosa.
- O senhor sabe qual o poder da bomba de hidrogênio, que pretender lançar naqueles países?
- Sim, senhorita. O poder de destruição equivale ao de 100 toneladas de TNT, ou de 50 bombas atômicas. Varreria tudo que houvesse na superfície. E quer saber mais? Hoje conseguimos fazer com que essas bombas não deixem vestígios radioativos. Ou seja, só precisamos lançá-la, tirar aquele povo imundo dali e em seguida invadir. Não haverá ninguém para nos segurar.
Saori estava abismada com a frieza de Newman. Não podia aceitar aquilo. Tinha que impedir o ataque. Ela sabia que se o ataque ocorresse explodiriam atentados pelo mundo inteiro, os muçulmanos se vingariam da civilização ocidental e seria o fim. Ares teria o pretexto para tomar o controle.
- Vai matar toda uma nação por causa de petróleo?
- Duas nações, senhorita Kido.
- Vocês são loucos! Loucos!
- Acalme-se, Senhorita. Você não entende de economia. Será melhor que o petróleo fique nas nossas mãos, saberemos cuidar melhor deste bem tão precioso. Será melhor para todos nós. Você verá.
Saori inflamou-se de raiva e levantou-se abruptamente.
- Não vou conseguir mesmo convencê-los do contrário não é?
- Não, Senhorita Kido – respondeu calmamente Newman.
- Pois bem! Não reclamem quando ele vier e tomar o poder! Já estou farta! Rirei sadicamente do Olimpo quando sem derem conta do que fizeram! – e irada ela sai da sala de reuniões, seguida pelos assessores.
Os senhores ficam a se entreolharem, desconcertados.
Saori chorava no quarto do hotel. Arrependera-se amargamente do que disse. Foi apenas um impulso. Ela jamais abandonaria os humanos e o mundo dos mortais. Ou pelo menos acreditava que não.
Por alguns momentos nuvens de desesperança pairaram sobre Athena e ela pensou em desistir de tudo. Seria até mais fácil voltar ao Olimpo e deixar que os humanos se entendam com os deuses. Mas não tinha coragem de deixá-los para trás.
Principalmente por que amava um dos mortais.
- Não são uns ignorantes? – reverberou uma sedutora voz masculina no quarto.
Logo Athena sentiu o aroma de canela. Enxugou as lágrimas e virou-se para Ares, sentado em uma poltrona, com as pernas cruzadas, trajando seu impecável terno e fumando seu cigarro.
- Não tome uma parte pelo todo. Os mortais não são como o asqueroso Newman. – respondeu ela.
- Não seja teimosa, Athena... Você sabe que não há solução. O único jeito é tomar o controle.
Athena se levanta da cama e aproxima-se do deus ruivo.
- O que exatamente quer dizer?
Ele tragou uma vez e inclinou a cabeça, soltando a fumaça cinzenta e cheirosa para o alto.
- Eu lhe disse que se a situação lhe fugisse do controle, eu tomaria as rédeas. Pois fugiu. Agora é minha vez de tentar. Não posso permitir que aqueles homens dizimem duas nações por pura ganância!
- Não faça nada, Ares! Ainda posso fazê-los mudar de idéia!
O senhor da guerra perde a paciência e se levanta da poltrona, fazendo-a virar para trás.
- Não, você não pode! E sabe disso, criatura ignorante! Pare de tentar enxergar o que não existe! Acabou! Não há mais chance! Se eu não intervier eles vão soltar a bomba, matarão todas aquelas pessoas e continuarão a matar quem se opor a eles! Eu vou fazer alguma coisa!
Athena redime-se.
- O que... O que exatamente vai fazer?
Ares se acalma também.
- Poder político, Athena. Assumirei o controle das nações. Ditadura autoritária. Eu ditarei as novas regras. Quem quiser viver me seguirá.
- Está louco? – Ela ergueu o tom de voz, mas logo o baixou novamente – Não pode fazer isso... Os humanos têm uma aversão ao totalitarismo! Se fizer isso vão explodir guerras em todo canto! Ninguém vai aceitar.
- Pois então eu entro na guerra. Derrubarei qualquer um que se opor a mim.
- Vai acabar tendo que matar todos os humanos!
- Pois que assim seja... Para preservar o planeta, não é um preço alto acabar com essas pragas.
Houve um silêncio momentâneo. Instaurou-se um pesado clima de tensão.
Athena caminhou pelo quarto, pensativa. Ares tragou mais algumas vezes seu cigarro.
- Pois bem! – enfim disse Athena, quebrando o silêncio – Irá destruir quem quer que se oponha a você?
- Sim... – respondeu o deus da guerra.
- Eu me oponho! Nos enfrentaremos então! Quem vencer terá o controle sobre o mundo!
Ares espantou-se com o desafio de Athena. Levantou-se da poltrona em um rompante. Pela primeira vez pareceu alterado.
- Está louca? És minha irmã! Como vou erguer meu exército contra ti!
- Não és o senhor da guerra? Pois então... Sou capaz de guerrear contra qualquer um para preservar este mundo maravilhoso!
- Por Zeus! Como você pode se sacrificar por estas criaturas imundas? Não vê que elas não valem a pena? Isso de amor não passa de uma tola ilusão em que poucos são os que realmente acreditam...
- E é por esses poucos que irei lutar...
Ares parecia inconformado. Não conseguia compreender a atitude de sua irmã. Achou que teria seu apoio após a reunião com Newman. Mas estava enganado.
- Os homens não fazem por merecer. Eles são uma ameaça para o planeta. Estão se destruindo! Prometeu sacrificou-se para entregar a eles o poder do fogo e da ciência... E olhe o que eles fizeram. Construíram bombas para destruir o seu próprio mundo! É justo deixar que eles continuem a fazer isso?
Athena permaneceu alguns segundos em silêncio. Por alguns instantes só o vento gelado uivava lá fora, na noite escura em Nova Iorque. Da janela de seu quarto se podia ver o grande prédio da ONU, onde tivera a reunião com Newman.
- E quem é você para julgar os humanos? – indagou ela, quebrando o silêncio.
- Sou Ares, o deus da guerra por excelência! E como um deus não posso permitir que os humanos se destruam e carreguem com ele o planeta!
Athena se manteve em silêncio. Ares se mostrava revoltado.
- Não consigo lhe entender, irmã... Juro que tento. Mas não consigo.
- Você não os conhece como eu. Amo a humanidade e jamais desistirei desse amor...
- Ama a humanidade ou um humano em especial?
Athena surpreendeu-se com as palavras de Ares e mostrou-se ofendida.
- Como ousa?
- Você sabe do que estou falando... Está fazendo esse esforço todo pela humanidade ou apenas por um humano? Por um homem pelo qual esse seu corpo jovem se apaixonou?
- Está falando besteiras...
- Você sabe que não estou...
Seguiu-se um novo silêncio. Ares ficou encarando-a por alguns instantes. Seus olhos brilhavam o vermelho de seu cosmo. Incandescente, flamejante. E pesaroso.
- Afs... – suspirou o deus da guerra. Puxou outro cigarro de seu paletó e acendeu.
- Não vou convencê-la, não é?
Athena fez que não com a cabeça. Ares suspirou fundo. Lamentava ter que tomar aquela atitude.
- Meu Santuário está na ilha Volcano. Eu e meus dez Generais da Guerra esperaremos pelos seus ataques.
Ares aproximou-sede Athena. Olhou-a firme nos olhos. Levou sua mão até o fino pescoço dela e a puxou para perto. Deu-lhe um carinhoso beijo na testa.
- Espero que saiba o que está fazendo, irmã. Esteja preparada para ver seus cavaleiros morrerem. Acabou de declarar guerra ao deus dela.
O corpo dele se encobriu por chamas vermelhas e desapareceu nas próprias cinzas.
Continua...
Palavra do Autor
"Pois é, espero que tenham gostado. Esta é uma introdução da situação mais séria que vai rolar daqui para frente. Vamos ver algumas batalhas e as meninas em ação nos próximos capítulos. Espero que gostem! Abraços! E reviewem!" Pingüim.Aquariano
