Capítulo Seis - The Holes Of My Sweater
Quando chegaram no topo da escada, Marina já tinha se arrependido de ter seguido Bruno.
A escada estava mergulhada na escuridão. Só alguns pequenos raios de luz noturna que vinham da rua conseguiam passar pelas janelas quebradas e iluminavam os degraus, que estavam sujos de poeira e vários outros tipos de lixo. Marina e Bruno subiram em silêncio, seus passos ecoando pelo lugar como a batida irregular de um coração.
Não pela primeira vez, Marina se perguntou qual era o plano de Bruno. Será que ele pretendia sequestrá-la e exigir resgate? Esse pensamento a fez rir. Marina imaginou a cara que Bruno faria quando descobrisse que sua mãe não tinha um trocado guardado, e talvez até agradeceria por ele tirar a garota do salão, pois ela atrapalhava demais.
Quando Marina não aguentava dar nem um passo a mais, eles chegaram no topo da escadaria, que terminava numa porta de ferro. Bruno sorriu para Marina e abriu a porta. A garota foi atingida por uma rajada de vento, que foi muito bem recebida depois do tempo que passou caminhando por dentro daquele prédio poeirento.
Bruno passou pela porta, com Marina em seus calcanhares. A garota então percebeu que eles estavam no terraço do prédio. Diferente do interior, aquela parte do edifício estava limpa, apesar das rachaduras e da pintura descascada. Algumas plantas cresciam no chão, mato misturado com ervas-daninha, mas causavam um efeito bonito. Bancos de madeira estavam espalhados pelo lugar, junto com uma ou outra mesa velha.
"Surpresa" Bruno disse. Marina só ficou parada enquanto ele pegava dois bancos, colocava um ao lado do outro, e colocava a bolsa que carregava em cima de uma mesa.
"Que lugar é esse?" ela perguntou, sentando-se em um dos bancos.
"Eu descobri esse lugar duas semanas depois de ter me mudado para o Rio" ele disse de costas para ela, enquanto remexia na bolsa. "Esse prédio antigamente era usado como um cortiço, mas foi desapropriado e provavelmente será demolido em breve."
Marina ficou tensa.
"Ele corre o risco de desabar ou algo assim?"
Bruno riu.
"Claro que não, você acha que eu te traria para algum lugar perigoso?"
Sim, Marina quis dizer, mas ficou de boca calada. Aproximando-se da borda, ela apreciou a vista. Quer dizer, não era exatamente uma vista, o prédio em que estava era cercado por prédios maiores, e tudo o que ela conseguia ver eram as janelas iluminadas de todas elas. Mas ela achou aquilo estranhamente reconfortante. Fechando os olhos, ela sentiu o vento no rosto, um pouco menos poluído que o ar de doze andares abaixo. Também era silencioso, uma coisa que basicamente não existia no Rio de Janeiro.
"É calmo aqui" ela disse, ainda de olhos fechados.
Bruno falou surpreendentemente perto do ouvido de Marina, o que lhe causou arrepios.
"Eu venho aqui para pensar. Quando me mudei para cá, não tinha ideia de que a vida na cidade grande poderia ser tão... movimentada."
"De onde você vem?" ela disse, virando-se e encarando-o. Ele estava sério, mas ainda tinha aquele vestígio de sorriso no rosto.
"Interior de Minas" ele disse, sem pestanejar. "Morava coms os meus avós. Até que meus pais compraram o café aqui no Rio e me chamaram para ajudar. Como queria experimentar novos ares, arrumei minhas coisas e vim. Não sabia que esses novos ares teriam cheiro de fumaça e esgoto."
A garota riu, virando-se para se sentar em um dos bancos.
"E então? É aqui que você faz seus shows particulares?"
"Sim" Bruno respondeu, pegando o violão e sentando-se num banco ao lado dela. "Você é a primeira pessoa que me vê tocar."
"Você deve dizer isso pra todas" Marina disse, alternando entre brincar e falar sério.
"Marina minha cara, só porque tenho um rostinho bonito quer dizer que saio com todas as garotas do mundo?" a menina riu, sem jeito, e ele continuou falando. "Não saio com qualquer garota, não sou desse tipo."
"Então qual o seu tipo?" ela perguntou.
Ele apenas sorriu enigmaticamente.
"Está frio aqui" ele disse de repente. "Já volto."
Ele deu a volta pelo terraço e desapareceu de vista. Marina ouviu alguns barulhos estranhos e, após alguns minutos, Bruno volta com os braços carregados de caixotes quebrados. Ele junta tudo em um montinho organizado e cerca com algumas pedras espalhadas pelo chão. Bruno foi até a mochila e pegou uma pequena garrafa de álcool, encharcando a madeira com o líquido.
"É melhor se afastar um pouquinho" ele disse, antes de colocar fogo. A madeira pegou fogo instantaneamente.
Marina se aconchegou perto da fogueira enquanto Bruno abria a pequena bolsa e tirava vários tipos de doces de dentro. Marina sorriu enquanto pegava um Fini Dentadura.
"As pessoas dos prédios em volta devem estar ligando para os bombeiros achando que o prédio está pegando fogo" ela disse.
"Ou então acham que os sem teto invadiram e estão construindo uma favela no terraço" ele disse, rindo. "O que foi? Não seria a primeira vez."
Eles ficaram em silêncio enquanto comiam os doces. Marina olhou de soslaio para Bruno. O fogo fazia seus olhos reluzirem, e ela recebeu que seus olhos eram de um castanho muito escuro, e não pretos. Ele tinha uma pequena pinta abaixo da sobrancelha direita, e seu cabelo parecia muito escuro, brilhando por causa das chamas.
"O que foi?" ele disse, e Marina percebeu que estava encarando Bruno com aquele seu olhar idiota. Virando o rosto para o outro lado, ela apenas disse "Nada".
"Tenho uma coisa para mostrar à você" ele disse, pegando o violão. "Esses últimos dias eu venho treinando uma música nova. É de uma banda praticamente desconhecida, mas..."
"Qual banda?" Marina perguntou, porque ela gostava de artistas desconhecidos. Podia parecer besteira, mas ela sentia ciúmes de tudo o que gostava, então quanto menos pessoas gostando da mesma coisa que ela, melhor.
"The Neighbourhood."
Marina soltou m gritinho histérico. Obviamente ela conhecia a banda, era uma de suas favoritas. Porém ela se limitou a falar "Já escutei umas músicas."
O rosto de Bruno se iluminou.
"Bem, então você vai conhecer essa" ele disse enquanto levantava e colocava o pé no banco, que ele usou para apoiar o violão. "Sweater Weather."
Ela não falou nada, pois se abrisse a boca, seria para gritar. Essa música era uma de suas preferidas, e Bruno estava ali parado à sua frente, afinando o violão, buscando o tom perfeito.
"Se estiver ruim, você me diz, okay?" ele disse. Marina confirmou com a cabeça.
E então ele começou a tocar.
Primeiramente Marina só observou. O menino tocava o violão com uma habilidade absurda, parecia que tinha nascido para aquilo. Ele começou a cantar, e sua voz mais uma vez se encaixou perfeitamente no som que saía do violão. Ele não errou nenhuma nota, era incrível, algo que merecia ser admirado.
Quando chegou no refrão, um impulso tomou conta de Marina, e ela começou a cantar com ele. Bruno não mostrou surpresa, apenas acompanhou. Em um determinado momento da música, o que era um solo virou um dueto entre Marina e Bruno se alternando entre as rimas da música, e no final eles já estavam completamente entrosados, um olhando fixamente para o outro, tomados por um sentimento único, que apenas se intensificou quando a última palavra foi cantada e a última nota foi tocada.
Marina se levantou ao mesmo tempo que Bruno, um sem tirar os olhos do outro. Eles andavam lentamente, como se um campo de força gravitacional os puxasse para um ponto em comum, e logo a colisão seria inevitável. Quando estavam perto o suficiente, Bruno pegou na cintura de Marina. A garota passou a mão pelos cabelos dele, algo que sempre teve vontade de fazer, porém sempre sentiu vergonha. Mas naquele momento não havia nada, nem vergonha, nem medo, nem hesitação, ambos eram dominados por um sentimento indefinido, ambos eram escravos de um pensamento primitivo, ilógico, primordial.
"Tem certeza de que nos conhecemos a alguns dias atrás?" Bruno perguntou, suficientemente perto de Marina para a garota conseguir sentir seu hálito.
"Acho que nos conhecemos a vidas atrás" era verdade. Ela sentia como se conhecesse Bruno a séculos - ou talvez só estivesse louca.
E como era de se esperar, o telefone de Marina tocou.
Ela sentiu como se algo em volta deles se quebrasse, como se ambos estivessem dentro de uma redoma, e ela se estilhaçasse em mil pedaços. Marina piscou, atordoada. Se afastou de Bruno e pescou o celular de dentro da pequena bolsa que levava.
"Oi mãe" ela disse, atendendo o telefone.
"Marina! Onde você está?" ela perguntou, parecendo preocupada.
Marina pensou em algo para dizer. Obviamente não podia contar para sua mãe que estava em um prédio abandonado com um garoto que havia acabado de conhecer - mesmo que esse garoto seja o cara que Marina esperou à vida inteira.
"To saindo do shopping" ela respondeu, dando de ombros para Bruno como quem diz 'desculpa', "Já estou indo para casa."
Sua mãe pareceu aliviada.
"Tudo bem, não demora" ela disse. "Tenho uma coisa para te contar."
A garota ficou tensa.
"Aconteceu algo com o papai?"
"Não" a mãe dela a acalmou. "Não é nada grave, muito pelo contrário. É algo que você vai adorar."
Um peso desapareceu do estômago de Marina, mas ela continuou tensa.
"Já vou" ela respondeu, desligando.
"Você precisa ir" Bruno disse antes que Marina abrisse a boca.
"Desculpa" Marina falou, "é que eu não avisei à minha mãe que ia sair e..."
"Tudo bem" Bruno respondeu, e ela viu que estava tudo bem. "Nos vemos no sábado? Na festa da Bianca?"
"Você vai?" Marina estava chocada, nem sabia que o garoto conhecia Bianca.
"Acho que toda a cidade vai estar lá, ela distribuiu alguns convites lá no café" ele disse, meio sem jeito.
Marina pensou um pouco.
"Tudo bem, eu vou."
Bruno sorriu.
"Ótimo!" ele disse, dando um abraço apertado na garota e beijando-lhe a bochecha. "Eu vou ficar para arrumar essa bagunça."
"Okay" ela disse, virando-se. "Até o dia da festa, então."
"Okay" Bruno respondeu, e Marina entrou no prédio, sentindo-se mais leve e feliz do que nunca.
