Capítulo 7 – Exército escolar – Anette Schmidt
Estava na hora da minha primeira aula do Clube de Artes Marciais. Olhei ao redor para saber com quem eu treinaria pelo resto do ano. Não reconhecia a maioria delas, exceto... Andei em sua direção e bati continência.
- Soldado Schmidt, apresentando-se para o Clube de Artes Marciais, senhor!
Notei que o Alemanha-sama[1] não estava usando seus óculos. Pelo o que eu viria a perguntar depois, o Alemanha-sama usava óculos de leitura e sempre os tirava quando não fossem mais necessários.
- Você sabe que não precisa fazer isso toda vez que me encontra, não sabe, Schmidt? – Alemanha-sama suspirou. – Aliás, eu nem sou o professor!
- Como uma alemã patriota, senhor, é inevitável que eu demonstre imensurável respeito pela minha pátria, mesmo que seja idolatrando sua personificação! – abaixei a mão e permaneci em posição de sentido. – Com todo o respeito, senhor, mas o senhor superou todas as minhas expectativas de quando soube que poderia encontrar com a Alemanha em pessoa, senhor!
- Mesmo assim, isso não é motivo para me tratar como um general, Schmidt...
- Mas...! – meio decepcionada, relaxei a posição. – O Itália chama o senhor de capitão e o senhor não fala nada...
- Mas o Itália é o Itália... – Alemanha-sama ficou meio sem jeito. – Eu realmente treinei o Itália como um soldado, então tem um fundamento. Bom, é por isso que eu despachei o Itália para a aula de defesa pessoal... Ele ainda tem muito que aprender.
- Então! – reassumi a posição de sentido. – Permita-me treinar com o senhor, Alemanha-sama!
Alemanha-sama se assustou. Considerou por algum tempo antes de responder.
- Sehr gut[2]! Soldado Schmidt, a partir de agora você faz parte do meu esquadrão! Prepare-se para um treinamento intensivo, desde o nível Itália-bebê-chorão até o nível Japão-dedicação-extrema! – Alemanha-sama bateu continência.
Bati continência em resposta. Alemanha-sama deu o comando para descansar e eu o fiz, enquanto eu via um meio sorriso aparecer no rosto dele.
- Agora, antes que o professor chegue... Cem flexões de braço! E a cada vez que cair, mais dez serão acrescentadas!
- Sim, senhor!
Depois do horário da aula, continuei meu treino particular com o Alemanha-sama durante todo o tempo da segunda aula extra. Resultado: meu corpo doía das unhas dos pés até a raiz dos cabelos quando eu cheguei no meu quarto.
- Anette-san! Eu achei que você só tinha uma aula hoje, nós estávamos preocupadas! – disse Seychelles, assim que eu cheguei.
- É verdade, só tenho uma aula. – Ajeitei meus óculos. – Eu estava treinando com o Capitão Alemanha-sama.
- Ah, o Alemanha-kun converteu mais um pro exército dele? – perguntou Bélgica, rindo.
- Acho mais fácil a Anette-san ter seguido o Alemanha-san até que ele aceitasse... – disse Seychelles, rindo também. Eu senti meu rosto pegando fogo.
- Eu não fiquei seguindo ele!
- Mesmo que ela tivesse seguido, o Alemanha-kun não se dá por vencido tão fácil assim em... Dois dias? – Bélgica fez uma cara pensativa. – Nossa, já fazem dois dias que começaram as aulas...
Ajeitei meus óculos novamente e virei o rosto para o lado esquerdo, o da minha cama, e lado oposto ao que elas estavam sentadas.
- Ele disse que eu fui muito bem no treinamento... – murmurei.
- Ah! Bélgica-san, ela foi elogiada! – Seychelles bateu palmas.
- O rosto dela está vermelho! – cantarolou Bélgica.
- ... para uma mulher... – continuei.
- Eh? Que machista! – Seychelles parou de bater palmas, enquanto Bélgica continuava cantarolando.
- ... melhor do que o Itália.
Seychelles arregalou os olhos e levantou da poltrona num salto. Sacudiu a cabeça lentamente antes de começar uma lista interminável de xingamentos contra os homens. Bélgica se aproximou de mim e colocou uma mão sobre meu ombro.
- Desculpe, Anette-chan, mas qualquer um é melhor do que o Itália-kun. – O rosto fechado de Bélgica transformou-se em seu sorriso típico. – O Alemanha-kun não parece ser muito bom com elogios!
Empinei o nariz com um sonoro "humpf" e larguei minhas coisas em cima da minha cama. Seychelles parou subitamente seus xingamentos e chamou a minha atenção e a de Bélgica.
- Vocês estão com fome? Prometi ao Inglaterra-san que iria jantar com ele essa noite. – Seychelles deu de ombros. – Acho que ele não vai se importar se vocês forem comigo.
- Com o Inglaterra? Por quê? – perguntei.
- Bom, como antiga colônia inglesa, nós nos conhecemos há um bom tempo e, bem, faz outro bom tempo que não conversamos direito. Então, ele me convidou para jantar hoje, em prol dos velhos tempos – respondeu Seychelles.
- Tenho quase certeza que não foi bem assim, Sey-chan... – disse Bélgica.
- Bem... – Seychelles coçou a parte de trás da cabeça. – Eu disse "há quanto tempo a gente não conversa direito, né?" e ele disse "é". Eu disse "a gente podia jantar juntos um dia desses, né?" e ele disse "é". Aí eu disse "esse dia podia ser hoje, né?" e...
- E ele disse "é"? – perguntei.
- Não. Ele se assustou, recusou, tentou gaguejar uma desculpa, não conseguiu e acabou aceitando.
- Ah, agora sim, é o Inglaterra-kun que eu conheço – disse Bélgica.
Nós três fomos para o refeitório da Academia, e Inglaterra já estava esperando em uma mesa.
- Ei, Seychelles, você não falou nada sobre outras pessoas – grunhiu Inglaterra.
- Ah, você queria que fosse só nós dois, Inglaterra-san? – brincou Seychelles.
- É óbvio que não! De onde você tirou essa ideia estúpida?
Quando Inglaterra terminou de falar (e de grunhir também), dois garotos se juntaram à mesa sem cerimônias. Um, reconheci como sendo o França, da minha classe. O outro, deduzi ser América, baseado nos cumprimentos que ele recebeu. Aparentemente, Inglaterra realmente não estava disposto a jantar sozinho com Seychelles. Comemos os seis em um clima amigável, mas ao mesmo tempo, com os garotos jogando indiretas uns aos outros a todo o instante. E com a Seychelles piorando a discussão entre o Inglaterra e o França...
[1] -sama (様): como indicado na nota 23, é um honorífico japonês que indica muito respeito.
[2] Sehr gut: "muito bem", em alemão.
