Dois meses. Depois de dois meses tendo que passar os dias ao lado de Elspeth, era um milagre que Snape não tivesse enlouquecido.
Também era um milagre que eles não tivessem se matado, embora esse milagre pudesse ser explicado pelo simples fato de que eles não dirigiam a palavra um ao outro a menos que fosse estritamente necessário.
Mesmo assim, Snape se sentia muito desconfortável na frente dela. Porque uma vez na frente dela, ele não conseguia parar de olhar pra ela. Quando eles estavam sozinhos, Elspeth sempre parecia achar algo fascinante na parede para observar. Mas ele não conseguia parar de olhar pra ela.
Depois de meia hora tentando não ceder ao impulso de olhar pra ele, Elspeth sentia sua força de vontade diminuindo. Ele estava olhando fixo para ela havia tanto tempo, que ela temia que a qualquer instante, ele a empurrasse para longe ou dissesse algum desaforo a ela.
Porque o Severus Snape que ela conhecia não a encarava a menos que fosse fazer uma dessas duas coisas. Severus Snape não olhava para ela. Não daquele jeito.
Elspeth encarava a parede, pedindo a Merlin que fizesse Snape parar de encará-la antes que ela não conseguisse mais se controlar e acabasse se atirando nos braços dele. Mas ele continuou olhando para ela, que decidiu resolver aquilo pelo método antigo: Brigando com ele.
_Tem algo de errado com a minha roupa?—perguntou ela, ousando encará-lo pela primeira vez em meia hora.
Snape piscou, surpreso. Elspeth devia ser louca. Depois de meia hora em silêncio, ela vinha com aquela pergunta sem sentido.
_Não. —respondeu ele. _Está perfeita, como sempre.
Elspeth registrou o elogio, mas fingiu não ter percebido.
_Então porque você está olhando pra mim desse jeito, desde que eu sentei aqui?
_De que jeito?—ele se aproximou dela, sem perceber.
Elspeth estava tão próxima dele que podia se ver refletida nos olhos negros. Era questão de tempo até que eles se…
_Severus Snape!—exclamou Lorelai. _Até que enfim achei você.
Snape se afastou dela como um raio. Lorelai fingiu não notar o que quase acontecera ali.
_O… O que foi que aconteceu, Lorelai Malfoy?—perguntou ele, nervoso.
_O Lucius está aqui e quer falar com você.
Snape olhou pra Elspeth, tão sem graça quanto ele e saiu quase correndo da sala.
Elspeth lançou um olhar tímido à amiga. Por muito pouco Lory não a pegara aos beijos com Snape. Porque ela não tinha nenhuma dúvida que isso teria acontecido se Lory não tivesse chegado.
_E então, como vão as coisas entre você e o Lucius?
Lorelai sorriu ao ver a ridícula tentativa de Elspeth em desviar sua atenção. Elspeth detestava Lucius, porque ele era o melhor amigo de Severus e ela brigava muito com os dois. Ela só suportava Lucius agora, porque sabia que ele e Lory se amavam muito.
_Não mude de assunto, Ellie. O que eu quero saber é o que estava acontecendo nessa Sala Comunal até eu chegar.
_Nada demais.
Lorelai olhou feio pra ela:
_Não minta pra mim.
_Não estou mentindo.
Lorelai encarou Elspeth, os olhos cinzentos perfurando sua alma.
_Então você não teria nada que envolvesse você e Severus Snape pra me contar, teria?
Elspeth amaldiçoou a parte veela de Lorelai. Era quase impossível esconder algo dela sem que ela percebesse.
_Eu e ele… Nós… nos beijamos. Duas vezes. —contou ela, sem encarar a amiga.
Lorelai sorriu. Sabia que aquela implicância toda tinha um pé na paixão.
_Ellie, você está apaixonada pelo Severus. —declarou ela, sorrindo.
_Apaixonada?!—Ellie quase caiu da poltrona. _Eu não estou apaixonada! Eu só... —ela se calou. Não sabia como definir o que sentia por ele. Ela o odiava, mas também gostava muito dele. E nos últimos tempos, o que ela mais queria era tocá-lo, ela quase enlouquecia quando ficava muito perto dele.
_Você está apaixonada. —insistiu Lory. _Completamente apaixonada.
"Faça o que for necessário pra se certificar de que Elspeth Murray é mesmo quem você pensa que ela é."
Esse era o teste que ele tinha que fazer para se tornar um Death Eater. Lucius fora até ali pessoalmente para lhe entregar essa mensagem de Abraxas Malfoy. Quando ele contara suas suspeitas a Lucius, não imaginara que ele iria averiguar isso com o pai.
Agora sua tarefa era provar sua suspeita para o Sr. Malfoy. Se tivesse sucesso, ele ia levá-lo ao Dark Lord. De todas as tarefas do mundo, lhe arranjaram essa.
Logo essa onde ele teria que se aproximar de Elspeth. Como se ele já não estivesse mais próximo dela do que devia graças a Slughorn e aquela detenção absurda.
Como poderia se aproximar mais da única criatura que ele queria se afastar a qualquer custo, antes que perdesse sua sanidade?
Ora, a quem você está tentando enganar, Severus Snape?
Snape se irritou ao ouvir sua voz interior se manifestar novamente. Ok, então não era sempre que ele queria se ver livre de Elspeth, mas o que ele podia fazer? O que ele sentia por Elspeth talvez fosse o maior mistério de sua vida.
Ele não gostava dela. Não como gostava de Lily Evans. Lily era doce, mesmo sendo temperamental. Já Elspeth… Bem, se a chamasse de temperamental, ganharia o título de Bruxo Bondoso do Ano.
O gênio da garota era, sem dúvida, o pior gênio de todos os mundos. Lily o fazia se sentir em paz e tranqüilo na maioria das vezes. Já Elspeth… ela fazia seu sangue ferver sempre que se dirigia a ele.
Ferver de raiva?
_Sim, de raiva. —ele resmungou. _Ao menos na maioria das vezes. —acrescentou em pensamento. Outras vezes, seu sangue fervia de... —ele sacudiu a cabeça, tentando não se lembrar das vezes em que a beijara.
A situação entre eles era estranha. Algumas vezes, ele não conseguia parar de olhar para ela e ela não conseguia encará-lo de volta, mas quando ela pensava que ele estava distraído, o olhava como… como se estivesse apaixonada por ele.
Na mesma hora ele percebeu o absurdo em que pensara. Elspeth nunca se apaixonaria por ele.
E você, é apaixonado por ela?
Snape teve que se conter para não lançar um feitiço contra a própria cabeça. Ele, apaixonado por Elspeth Marie Synclaw Murray?! Que absurdo!
É a mais pura verdade.
Ao se ouvir dizendo aquilo, Snape se levantou, horrorizado e bateu a cabeça na coluna de dossel da cama.
_Melhor assim. —murmurou ele, deitando novamente e massageando a cabeça.
A voz se fora.
