No cap. anterior: Snape chutou a lateral do carro e teve vontade de chorar, mas se segurou. Pessoas com uma vida como a dele deveriam sorrir, pois ele era rico e com dinheiro se comprava até a felicidade. E foi isso que ele fez: tirou os sapatos enxarcados dos pés e jogou-os o mais alto que pôde, fazendo que caíssem no meio da rua...começou a gargalhar como um insano, e abriu os braços, atirando a cabeça pra trás, se rendendo aos ventos e ao falhos e agradáveis raios de sol.
E ali ele chorou, contra o orgulho que rasgava seu interior, vendo que sua vida estava realmente uma merda...
7. Mudanças
St. Lu
"Também somos ricos das nossas misérias. " Antoine de Saint-Exupéry
E a grande e fétida merda foi se acumulando com o passar da semana. Sua última e infeliz semana de férias.
Após ter sido ultrajado por completos marginais no maldito domingo, ter escutado um milhão de baboseiras e ainda por cima ter seu carro rebocado por problemas que, segundo o tal mecânico foram por total negligência de sua parte ao não perceber um tal de termostato piscando alucinado no sofisticado painel de controle, ainda teve que aturar à impertinente de sua empregada lhe questionando se estava com algum problema, ao vê-lo chegando em casa na carona de um ghincho, completamente encharcado e descalço.
Sua vontade foi de tocá-la pela escada abaixo. Ao invés da infeliz estar preparando um banho digno de sua pessoa, ficava o amolando com perguntas ignorantes de respostas óbvias.
- Não, estou ótimo!
A infeliz ainda o olhou desconfiada. Snape concluiu que ela não sabia o significado da palavra 'sarcasmo'.
- O Senhor precisa de algo? - lhe questionou prestativa, fezendo com que o homem retezasse seu corpo e contasse até três para se acalmar. Ele não pagava seus empregados para conversar, mas para trabalharem de maneira eficiente, coisa que ela não estva sendo.
- Preciso que a senhorita se cale e vá imediatamente arrumar meu banho.- Mirou-a com os olhos estreitos. - Agora! - exclamou ao perceber que a mulher colara no chão como uma estátua de cristal. Imediatamente ela subiu a longa escadaria e rumou à suíte do patrão, obedecendo sua ordem.
E maldizendo sua sina, as horas foram passando lentamente, como se debochando do homem de longos cabelos sedosos e negros como a noite sem estrelas. Os olhos mais pareciam abismos sem fim, onde ele apenas via no reflexo do espelho a queda livre e sem para-quedas para o proteger da batida com o solo.
Seu domingo apenas não foi pior porque, de noite, ao se deitar em sua imensa cama king size, passando pela programação dos vários canais de sua 'tv' por assinatura, encontrou um filme bem sugestivo que o fez ficar animado e completamente ligado. Porém, como já estava se acostumando, um inicio de depressão passageira se apossou de seus sentimentos ao olhar para o lado e perceber que não tinha com quem praticar todas aquelas cenas sensuais que observava na enorme tela suspensa na parede de seu quarto.
Caiu em um sono tumultuado por imagens suas e de alguém que não conseguia reconhecer. Estava desfocado na zona facial, como se alguém tivesse baforado no vidro em um dia frio. Mas algo ele tinha certeza: era um homem, e parecia feliz de estar em sua companhia.
E assim a semana foi se indo embora, lenta e dolorosamente. Sim, porque torcer o pé em um buraco oculto na grama, se queimar com o café e descer a escada de bunda não deveria ser nada menos do que doloroso.
Mas apesar de tudo, Severus riscava mentalmente os dias que passavam com um genuíno sorriso cobrindo sua face. A maldição, se é que fosse isso mesmo, com certeza acabaria assim que os primeiros minutos de domingo lhe brindassem com sua presença e magnitude. E então lhe restariam apenas as glórias e o poder de ser quem é. E faria com que todos que riram e o humilharem durante a ultrajante semana pagassem em quádruplo pelo sentimento depressivo que o fizeram passar.
SóPoRquEVocÊquEr
Harry sempre fora um garoto relapso, se assim podia-se dizer. Porém, ao ver de Molly, o seu grau de aluagem estava batendo todos os recordes ultimamente.
Tinha o chamado três vezes e nada do seu menino escutar. O fato era que, desde que voltara da sessão de pevisões a qual ela mesma o ordenou ir, o garoto estava com o olhar perdido pelas paredes, olhando as estrelas, suspirando para o nada...estava estranho e a curiosidade, não, curiosidade não...a 'zelosidade' que toda a mãe tem por seus filhotes a estava corroendo as entranhas. Que raios que as cartas desvendaram para seu pequeno Harry? As empresas iriam mal naquele ano? Fracassariam? Teria que decretar falêcia? Bateu três vezes na madeira ante o pensamento.
– Harry? - tornou a chamá-lo com a voz mais entonada. O rapaz que até então estava escorado no mármore de uma das sacadas de seu quarto, desencostou levemente e virou seu rosto em direção à Molly.
Ela estava parada na porta que dava acesso para a dita sacada, com seus cabelos flamejantes já meio esbranquiçados pela ação dos tempos. Trajada com um vestido até os joelhos, com aspectos florais nas cores vermelho e amarelo, ela o observava minunciosamente, com uma mão amparada na cintura e a outra caída ao lado do corpo.
– Oh? Oi, Molly. – cumprimentou-a com um sorriso morno em seus lábios. Ela imediatamente desfez sua pose de durona e se aproximou de Harry, dando-lhe um afago nos cabelos e parando ao seu lado.
- Harry, o que está acontecendo? Você voltou estranho depois da sua 'consulta'. - pausou ao reparar que uma certa coloração rosa atingia as bochechas de seu menino. - O que a mulher lhe falou? Alguma previsão ruim para os negócios? Porque se for isso, você sabe que pode ligar para o Remus que ele...
Harry fez um gesto negativo com a mão direita, sinalizando que não era nada do que estivesse pensando. Antes de respondê-la, fez um gesto para que ela se sentasse em uma das cadeiras que possuía em sua ampla sacada, de ferro pintadas de branco e com almofadas com delicadas flores violetas impressas no tecido amarelo. Uma pequena mesa de centro se fazia presente entre as cadeiras, no mesmo estilo da mesma e como adorno, em cima da mesinha, um vaso com um pé de orquídea de cacto amarela ¹ plantada.
– Não é isso, Molly. Segundo as cartas, as empresas continuarão bem, com seus altos e baixos como qualquer outra empresa de qualquer outro ramo. Mas no geral, o ano será positivo para os negócios.
– Então o que há de errado, meu filho? - viu o moreno ajeitando os óculos, meio sem jeito e envergonhado, ela podia perceber. – Você sabe que pode me falar qualquer coisa, não precisa se preocupar.
Harry deu um sorrisinho amarelo. Se ele falasse qualquer coisa mesmo pra ela, Molly ficaria com os cabelos em pé. Imagina se ele comentasse que intimamente preferia bananas à maçãs? A velha enfartaria...
– É que bem, a mulher não falou apenas sobre as empresas...sabe, eu me assustei. Do nada ela começou a falar sobre minha vida intima e como ela mudaria drasticamente neste ano... Falou que minha alma e a de outra pessoa já se cruzaram várias vezes e em certa ocasião até se chocaram, só que daqui pra frente, nossas almas irão primeiro se reconhecerem, depois se amigarem pra só então se amarem. Ah, e também disse que já estamos confinados, só que ainda não percebemos... - Terminou com a voz quase sumida, olhando para Molly e vendo com esta encarava com boca aberta e balançava seu corpo de maneira quase engraçada.
– Nossa, Harry! Veja isto... - estendeu os braços para o moreno. - Me arrepiei com tudo isso. Mas como pode...? Quem é ela? Não me diga que você anda apaixonado por uma garota e não me contou? Por isso que o senhor andava suspirando pro nada estes ultimos dias, ahn?! - deu um apertão na bochecha do moreno, que nesta altura já estava escarlate e quase pegando fogo, tamanho constrangimento que o apossava.
– Não, Molly, não gosto de ninguém, ainda. E não sei não, acho que é pura baboseira este negócio de cartas. – Viu que a mulher fazia uma careta de descontentamento com as suas palavras. - Como pode alguns desenhos em cartas retiradas ao léu definirem e dizerem, melhor, preverem o futuro de alguém? Isso não existe², Molly!
– Não duvide das forças ocultas, Harry. Há muita coisa neste mundo, mas só porque não podemos ver ou ouvir e até mesmo tocar, não quer dizer que não existam ou sejam menos poderosas...há muita coisa entre o céu e a terra, mais do que podemos crer, mas nem por isso, desacreditá-las.
E com estas palavras ditas em tom de mistério, Molly se levantou da cadeira e rumou para a ampla cozinha da casa, apenas para analisar se as empregadas tinham tudo em ordem, mas principalmente para deixar seu menino um pouco sozinho, pensando em suas palavras.
SóPoRquEVocÊquEr
Harry ficou um tempo ainda sentado, pensando nas palavras de sua 'mãe'. E se realmente fosse verdade? Não, não poderia! Ele não possuía nenhum interesse em quem fosse, ao menos não ultimamamente. Claro que já olhou para algumas garotas e até para uns garotos, apesar de apenas há pouco tempo se tocar que realmente olhava aos meninos também com interesse e não com mera curiosidade.
Sim, às vezes se auto explicava criando justificativas bobas para sua própria consciêcia. Não é como se deveria ter algum interesse sexual ao observar a calça dos garotos em uma determinada parte frontal e também traseira. Tentava desculpar a si mesmo berrando aos neurônios que tudo não passava de uma simplória pesquisa comparativa. Coisa que todos os garotos/homens fazem. Mas já admitia para si que era muito mais que isso. Era uma contemplação e não uma mera comparação.
Mas daí pra acreditar que algum dos garotos que observara seria companheiro de sua alma, era...tosco demais. E ele tinha certeza, fosse o que fosse, seria do sexo masculino. E ele absurdamente estava aceitando sua condição e disposto a se abrir, se necessário fosse.
Não que sairia pela porta de casa com uma faixa "Sou gay" ou usando pulseiras de arco-íris, mas já não via mais este assunto com asco ou nojo, como sempre observou. E por mais vergonhoso que fosse para admitir, após o episódio em que viu durante suas férias, a coisa toda passou a ser mais digestiva. Óbvio que era meio dificil imaginar certas situações ente dois homens, mas aos pucos ele ía se acostumando com a idéia. Foram várias horas de vários dias levantando os prós e os contras de ser ou não ser, assumir ou não a latente e crua homossexualidade.
E só tinha uma forma pra saber se era isso o que ele realmente desejava: experimentando. Já estava na hora de deixar o medo e a vergonha, a extrema timidez de lado e passar a encarar as pessoas e aceitar as aventuras que lhe eram propostas. Tocar, beijar, sentir. Apesar que falar era uma coisa e praticar era outra. Ás vezes achava que desmaiaria se alguém aparecesse pelado em sua frente, ou então se tivesse que aparecer assim para outra pessoa.
Não se achava bonito o suficiente, muito menos coordenado. Do contráro, era desleixado e muito desajeitado. Teve que rir, ainda sentado na mesma cadeira em sua sacada, ao recordar do dia em que uma garota, colega sua de faculdade, chegou lhe convidando para um encontro. Primeiramente ele ficou pasmo, e quando o raciocínio foi se desenvolvendo em seus neurônios, a palidez tomou conta de sua face que facilmente foi sendo vencida pela cor púrpura, enquanto a garota permanecia com um sorriso nos lábios, lhe encarando.
– Na-ão posso. Tenho um compromisso. – e saiu mais rápido que um raio, deixando a garota estancada no mesmo lugar, de certo se perguntando o que tinha feito de errado.
É...Hary tinha sérios problemas pra resolver. A começar por sua estima. E talvez se começasse a sair, se divertir, andar com gente de sua idade e não ficar constantemente preso entre concretos e papéis. Mas era tudo tão fácil na sua imaginação...
E foi com vários pensamentos bailando por sua cabeça, que Harry viu a semana se indo lentamente. Sua última semana de férias. Apesar de estar pensando em mudar drasticamente de conduta, se assim podia-se dizer, ele simplesmente não conseguiria abrir mão de um hábito tão encrustado em sua rotina. Mas fez um acordo consigo mesmo: só passaria 'de vem em quando' para ficar informado de como andavam os negócios. Não que precisasse fazer isso ou até mesmo desconfiasse, mas averiguar e se mostrar presente era uma boa ação.
Mas uma coisa ele tinha certeza: queria mudar, nem que fosse apenas no quesito íntimo, o que já seria um grande passo...
SóPoRquEVocÊquEr
Severus Snape se acordou de maneira o calendário e comprovou que era domingo, ou seja, o primeiro dia em que não sofreria nehuma azaração por maldição que fosse. O relógio digital marcava que eram nove e quarenta e sete da manhã, e que por sinal, uma bela manhã. Através das cortinas, podia-se observar os raios de sol tentando vencer as barreiras que o impediam de adentrar de vez aquele recinto.
Severus se mexeu preguiçosamente debaixo das macias e perfumadas cobertas de algodão egipcio. Estava tão confortável e quentinho ali, que o sono até parecia querer lhe dominar novamente. O frio também permanecia, ao menos do lado de fora, contastou, mas só em pensar em encostar seus pés num piso frio, o arrepio já lhe percorria a coluna.
Pegou o telefone que ficava no criado mudo ao lado de sua enorme cama e apertou a tecla número 'dois', que dava direto na copa de sua majestosa residência. Após dois toques, uma voz feminina o atendeu:
– Bom dia, Senhor. Em que posso ajudá-lo?
– Ótimo dia! - exclamou o homem para espanto da empregada. Acaso era o mesmo patrão ou mudou e não a avisaram? – Prepare o meu banho, e com bastante espuma, de preferência!- terminou com um amplo sorriso em sua face.
– Sim, Senhor.
– E me traga champanhe! - completou antes que a mulher desligasse.
Escutou a porta de seu quarto sendo aberta, assim como a que dava para o banheiro. Aos poucos, o agradével cheiro de seus sais de banho foi entrando em contato com suas natinas, lhe provocando uma sensação de bem estar. Uma sensação que até já estava se esquecendo após a última miserável semana.
Mas agora tudo mudaria. Ele tinha certeza.
¹ Eu tenho um pé de orquídea assim, mas não sei o nome. Suas folhas são cheias de pontinhas espinhosas e só dá um raminho de flores...
² Me lembrei do padre Quevedo... XD
o0o0o0o0o0o0o0o0o0
N/A: Olha! Quase que consegui cumprir minha meta...creio que esteja perdendo o foco da história, mas tudo bem!!! E para quem possa interessar, o primeiro verdadeiro encontro será no próximo capítulo! Assim espero, ao menos...
E um agradecimento muito especial à: Tehru e Fabianadat. Espero que tenham gostando ao menos um pouquinho deste cap...
Bjx!!!
