Capítulo Sete
The Professor's Intervention
(A Intervenção do Professor)
Harry conseguiu uma série de vitórias em seu jogo de cartas com Ron e, depois de seu sétimo Feijãozinho seguido — para piorar as coisas, (aparentemente) tinha gosto de sujeira de umbigo —, Ron desistiu e começou a organizar a pilha de figurinhas dos Sapinhos de Chocolate que tinham juntado até então.
— Urgh — disse ele. — Morgana de novo; acho que tenho umas seis dela.
— Está brincando — disse Harry. — Eu fiquei com o antigo álbum de figurinhas do meu pai, e ele nunca conseguiu encontrar a dela. — Ron lhe deu uma figurinha e Harry a guardou na mochila. Ele mesmo não colecionava (certamente não do jeito que James fizera), mas quando encontrava uma que não estava no álbum, colocava lá.
— Alguma chance de você ter Agripa? — perguntou Ron, esperançoso. — Eu tenho umas quinhentas figurinhas, mas não a dele nem a de Ptolomeu.
— Acho que tenho umas quatro dele — disse Harry. Ron ficou boquiaberto. — Pode ficar com uma se quiser.
— Eu tirei o Ptolomeu agora há pouco — disse Draco do canto. Tirou a figurinha em questão do bolso, e Ron pareceu dividido entre desgosto por quem lhe dava ou deleite por sua boa sorte. — Quer? — Ron pareceu surpreso e um pouco cauteloso (Harry não o culpava nem um pouco). Draco ofereceu a figurinha, impaciente. — Não se preocupe, Weasley, é de graça — rosnou. — Eu não preciso do dinheiro e você não o tem, então não vou cobrar. — Ron pareceu um pouco ofendido, mas aceitou a figurinha.
— Obrigado — disse. Draco apenas assentiu e voltou a acariciar Perebas. Harry passou um momento o observando; ainda que Draco e Hydrus não fossem próximos, Harry sempre tivera a impressão de que eles se uniriam quando fosse a hora de ir a Hogwarts, para o próprio bem e pelo nome da família. Harry não tinha certeza se eles tinham brigado naquela manhã ou se tinham se separado, se Draco tinha sido afastado pelos outros ou se Draco apenas decidira se afastar... Era difícil saber; Draco não parecia bravo nem chateado, apenas muito deprimido (e isso podia se dar pela presença de Ron), mas, por outro lado, Harry não era muito bom em ler Draco.
Bateram na porta; Hermione voltara. Seus olhos foram para Ron, Harry e, então, pararam em Draco.
— Hermione, esse é o Draco. Draco, essa é a Hermione — disse Harry. Draco ergueu os olhos, curioso. Abriu a boca, franziu o cenho e voltou a fechá-la, parecendo culpado. Harry se perguntou o que ele estivera prestes a dizer.
— Mexa-se — disse alguém, e Hermione foi empurrada (não muito bruscamente, mas decerto inutilmente) para dentro do compartimento. Ela tropeçou nos pés esticados de Draco e provavelmente teria caído se Ron não a tivesse segurado. Harry se levantou na mesma hora.
— Então foi para cá que você veio — disse Hydrus, entrando no compartimento. Olhou para Draco, que não respondeu (ele parecia ainda mais interessado no rato de Ron), e depois para o malão do irmão. — Em um compartimento com um traidor de sangue — o rosto de Ron corou, mas ele não respondeu; ele, como Harry, devia ter notado os dois garotos enormes que seguiam Hydrus, como dois guarda-costas — e o precioso Potter. — Hydrus olhou para Hermione e torceu os lábios. — Bem, mostra o que você sabe, Draco.
Draco continuou a ignorá-lo.
— Dá para saber o sangue de alguém pela aparência; ninguém com pais mágicos teria dentes como esses. — Hermione soltou um som magoado, e Harry viu Draco cerrar o punho, mas ele ainda não respondeu. — Sangue...
— Cale a boca — disse Harry a Hydrus, e Ron também se levantou, parecendo furioso. Ele era o mais alto no compartimento, mas não era tão largo quanto os guarda-costas de Hydrus, cujo sorrisinho ficou maior.
— E se eu não calar? — perguntou Hydrus.
— Você não está sendo muito legal — disse Hermione, atrás de Harry. — Você me empurrou e foi muito grosseiro; vou contar a um professor...
— No trem? — zombou Hydrus. — Você realmente não sabe nada desse mundo, não é, sangue...
Harry nunca saberia se Moony tinha algum tipo de sexto sentido para encontrar problemas (o que era totalmente possível, dado seu antigo grupo de amigos) ou se ele passou pelo compartimento por acaso, mas tudo o que Harry sabia era que, ao erguer a varinha para amaldiçoar Hydrus pelo termo que estava prestes a usar com Hermione, sua mão doeu.
— Algum problema por aqui? — perguntou Moony suavemente, olhando com desprezo para Hydrus e seus guarda-costas. O rosto de Hydrus estava cômico; ele pareceu aterrorizado, então envergonhado e, por fim, conseguiu recuperar sua expressão arrogante.
— Não, professor — zombou. — Nenhum. — Hydrus deu aos ocupantes do compartimento (a todos eles) um olhar de superioridade, antes de assentir para os outros dois, que o seguiram para fora. Moony não saiu, como Harry meio que esperara que ele fizesse, ou falou algo sobre o assunto. Em vez disso, ele acenou a varinha e a dor na mão de Harry sumiu.
— Para que foi isso? — quis saber Harry.
Moony olhou ao redor do compartimento, para Hermione, que parecia aliviada por ele ter interferido, para Ron, que ainda estava em pé e parecia bravo, e para Draco, que ainda prestava atenção em Perebas. Inclinou a cabeça e Harry franziu o cenho, olhou para os outros — torcendo para que Ron e Draco não se matassem ou a Hermione enquanto não estivesse ali — e seguiu Moony para o corredor, fechando a porta atrás de si.
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As poucas pessoas que estavam no corredor e não acomodadas em seus compartimentos sumiram rapidamente quando Remus reapareceu e, assim, ele e Harry ficaram sozinhos no corredor. Harry massageava a mão e Remus sentiu uma pontada de culpa, antes de se lembrar que tinha sido para o melhor. Por mais que tivesse certeza de que havia um bom motivo para Harry ter erguido a varinha, havia vários outros melhores para justificar sua intervenção.
— Bem? — perguntou Harry, mal-humorado.
Remus suspirou. Ele e Harry passavam muito tempo juntos, mas Remus nunca se intrometera nos cuidados paternais. Ficava feliz em oferecer conselhos ou comentários como "essa é mesmo uma boa ideia?", ou ajudar Harry com o dever de casa ou lhe contar uma história, mas sempre deixara Sirius lidar com... bem, os assuntos sérios. Não era Remus quem Harry procurava quando queria conversar sobre seus pesadelos ou se precisasse de alguém com quem desabafar; essa era totalmente a área de Sirius.
— Pense — suspirou Remus. — Você não é uma celebridade em casa, Harry, mas você não está mais em casa. As pessoas estão te observando. — As pessoas estavam observando a todos eles ultimamente (Sirius e Remus há anos, mas Harry tinha sido protegido até agora). — E se sair por aí jogando feitiços nas pessoas, principalmente no filho de Lucius Malfoy, vão começar a comentar. — Harry não respondeu. — Não vai pegar bem para você e não vai pegar para Sirius, como um Auror, que você saia jogando feitiços em todas as oportunidades que tiver. Você nem saiu do trem ainda, pelo...
— Não estava jogando feitiços nas pessoas — disse Harry com uma carranca que fez Remus desejar que Sirius estivesse ali, para que ele pudesse lidar com isso. Remus ergueu uma sobrancelha. — Sabe do que ele chamou... ou começou a chamar Hermione? Aquela palavra.
— O idiotinha fez por merecer; você não ouviu o que ele disse, Moony! Ele chamou Lily daquilo como se não fosse nada!
Por um momento, não era Harry parado na frente de Remus; era James. James, com o maxilar igualmente tenso, olhos bravos e o tom cheio de raiva, como o de Harry, tentando explicar para um Remus recém (naquela época) nomeado Monitor, que tinha deixado a pele de Regulus prateada porque ele chamara Lily de sangue-ruim. Harry olhava com raiva para o chão, e Remus relutava em falar e quebrar o momento, perdendo a reencarnação temporária de James, mas, por fim, encontrou sua voz.
— Isso não é motivo para você reagir do jeito que reagiu; há sempre um jeito melhor de lidar com essas coisas.
— Além de ele nos amaldiçoar, qual poderia ser um motivo melhor?
A resposta de Harry, entretanto, foi diferente daquela de seu pai; ele não falou, mas Remus sentiu seu cheiro e ele cheirava à traição. Culpa apertou o peito de Remus, que quase se desculpou, antes de balançar a cabeça. Era a "madrinha" de Harry, mas também era seu professor e isso precisava ser sua prioridade, pelo menos pelos próximos dias, até que o escrutínio (da reaparição de Harry Potter e do professor-lobisomem Remus) diminuísse. Hydrus Malfoy era, Remus tinha certeza, um pé no saco, mas não podia fazer vista grossa para crianças amaldiçoando umas às outras, especialmente não quando Harry conhecia feitiços que podiam machucar de verdade... tinha cometido esse erro nos seus dias na escola.
Remus respirou fundo e indicou o compartimento de Harry, onde estava a combinação mais estranha de crianças que já vira na vida.
— Vou ficar lá na frente com o maquinista — disse quando Harry não respondeu; ele olhava para o céu que escurecia, talvez pensando, talvez apenas evitando contato visual. — E pode querer vestir seu uniforme; chegaremos em uma hora.
Harry assentiu e voltou para o compartimento. Remus colocou as mãos nos bolsos, sentindo-se incerto de toda a conversa e desejou, mais uma vez, que Sirius estivesse ali para mediar. E Dora, também, não pela mediação, mas apenas por sua companhia. Suspirou e começou a ir em direção à frente do trem.
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O resto da viagem passou sem alardes. Draco, depois de ter ficado horrorizado ao descobrir que Perebas não tinha uma gaiola e ficava no bolso de Ron mesmo em viagens longas, tinha mandado sua coruja para casa, pedindo que seus pais lhe mandassem a antiga gaiola de seu rato e devolveu Perebas ao dono. Ron ficara surpreso com esse gesto gentil e passou a maior parte do tempo depois disso observando Draco cuidadosamente, como se repensasse suas opiniões sobre ele.
Draco, ao contrário de Hydrus, parecia mais interessado do que ofendido pela linhagem de Hermione — algo que Harry achou ser um alívio — e começara a questioná-la sobre vários aspectos da vida muggle. Coisas estranhas como "famílias muggles jantam juntas?" e "o que, exatamente, os muggles fazem?" vinham à tona frequentemente, e Hermione parecia confusa, mas feliz em responder. E, encorajado pelas perguntas de Draco — talvez percebendo que qualquer coisa que dissesse não poderia ser tola em comparação —, Ron também começou a fazer perguntas a ela, embora suas perguntas fossem mais específicas. Ron queria saber como muggles cozinhavam e limpavam, e como eles jogavam Quadribol se não tinham vassouras.
Harry ficou sentado em silêncio, rindo às vezes quando alguma pergunta engraçada era feita, mas estava pensando mais no que Moony tinha dito. Harry não tinha pensado muito nessa história de ser uma celebridade, além de pensar que preferia não ser famoso, e certamente não tinha percebido que estava sendo observado como se fosse o Pomo de Ouro. Ele também pensou que, ainda que Moony estivesse certo sobre existirem jeitos melhores de lidar com Hydrus além de amaldiçoá-lo e que ele merecia por ser tão horrível, teria que começar a seguir as palavras de Padfoot no futuro: não seja pego.
Por fim, Hermione escapou das perguntas ao dizer que precisava vestir o uniforme e, quando ela saiu, os meninos se trocaram e colocaram as vestes por cima. Harry notou Draco estudar as vestes de segunda mão de Ron, que estavam um pouco curtas, mas ele não falou nada, apesar de Harry ter certeza de que ele queria.
Em vez disso, Draco mordeu o lábio e se virou para olhar pela janela, onde montanhas e árvores passavam rapidamente. Mas Harry achou que elas estavam cada vez mais visíveis; o trem perdia velocidade.
— Vamos chegar a Hogwarts dentro de cinco minutos. Por favor, deixem a bagagem no trem, ela será levada para a escola.
Do lado de fora, as pessoas se moviam pelos corredores, suas conversas animadas passando pela porta.
— Nós simplesmente...? — perguntou Harry, indicando o corredor.
Ron, que estava muito pálido, apenas deu de ombros e disse:
— Acho que sim. — Draco não falou, mas os seguiu pela multidão, ficando perto de Harry. O trem parou completamente alguns momentos depois, e Harry se viu ser empurrado para o ar da noite por alunos mais altos e mais velhos.
Estremeceu e procurou pelos outros. Hermione não estava em nenhum lugar, mas Ron e Draco — vermelho e branco, sob a fraca luz — tinham conseguido ficar juntos, e Harry foi direto até eles, antes de começar a procurar por Moony.
— O que... — começou Ron, mas parou quando uma luz (na forma de um lampião flutuante) encheu a plataforma.
— Alunos do primeiro ano! Primeiro ano aqui! — Acabou que o lampião não estava flutuando (Harry decidiu que estava acostumado demais com magia), mas na verdade era erguido por Hagrid. Ele sorriu para eles e cumprimentou Harry ao vê-lo. — Vamos, venham comigo... mais alguém do primeiro ano? — Harry começou a procurar por Blaise, mas estava escuro demais e havia muita gente a sua volta. — Olhem por onde andam! Alunos do primeiro ano, me sigam!
Hagrid mostrou o caminho por uma trilha estreita — e bastante íngreme —, e os alunos o seguiram. Ninguém tinha muito a dizer, exceto Hydrus que, de algum lugar atrás deles, perguntava em um tom alto se Hagrid estava os sequestrando para comê-los. Draco riu disso e, então, viu a carranca de Harry e ficou quieto.
— Vocês terão a primeira visão de Hogwarts em um segundo — disse Hagrid à frente —, logo depois dessa curva. — Do outro lado da curva, estava a borda do lago e, do outro lado da água, estava Hogwarts, grande e alta, com as luzes brilhando pelas janelas como estrelas douradas no céu escuro.
Harry não foi o único a soltar um som impressionado; várias pessoas soltaram sons de "oooh", e uma garota no fundo chegou a guinchar antes de ser silenciada por suas amigas.
— Só quatro em cada barco! — avisou Hagrid e, pela primeira vez, Harry notou uma frota de barcos parada junto à margem. Ele, Ron e Draco entraram em um barco e uma garota que Harry não conhecia se juntou a eles. Hermione e Neville entraram no barco ao lado com a garota que estivera com Bones e outro garoto. — Todos acomodados? — gritou Hagrid. — Vamos!
Os barcos atravessaram o lago suavemente. Harry se acomodou na lateral e olhou para o castelo — já tinha visitado a escola antes, mas só estivera do lado de fora uma vez e não à noite ou de longe—, bebendo a imagem da sua nova casa.
A voz de Hagrid o trouxe de volta ao presente, mas não registrou as palavras. Ergueu a cabeça para tentar ver à frente, antes de Draco empurrar sua cabeça para baixo. Passaram por uma cortina de hera e entraram numa caverna larga e iluminada por tochas, que parecia abrigar algum tipo de caís escondido.
— Quer perder a cabeça? — sibilou Draco quando o barco parou com um barulho de madeira contra madeira, e Ron e a garota saíram.
— Não realmente — murmurou Harry em resposta. — Obrigado. — Hermione e Neville se aproximaram (Hermione perguntava se Neville ainda estava com seu sapo e ele assentia timidamente) e os cinco se juntaram aos outros alunos do primeiro ano. Hagrid os guiou por uma passagem que dava no gramado úmido e subiu alguns degraus de pedra.
— Estão todos aqui?
Então, ele ergueu um punho enorme e bateu na pesada porta do castelo três vezes. A porta foi aberta imediatamente. Apareceu uma bruxa alta de cabelos negros e uma expressão severa, estudando os alunos do primeiro ano. Seus olhos penetrantes pousaram em Harry várias vezes, mas sua expressão não mudou. Ele assentiu para ela; a encontrara uma vez antes, brevemente, no julgamento de Padfoot.
— Alunos do primeiro ano, professora McGonagall — disse Hagrid.
— Obrigada, Hagrid. Eu cuido deles daqui em diante. — Ela terminou de abrir a porta e todos entraram. A tagarelice de Hermione sobre fatos que lera em Hogwarts: Uma História cessou ao ver o enorme Saguão de Entrada e a imponente escada de mármore.
— Se eu me lembro bem — Harry ouviu Hermione dizer —, o Salão Principal, onde os alunos fazem as refeições, é por aquelas portas.
Harry olhou para a porta à direta que ela mostrava a Neville e pôde ouvir o burburinho de centenas de vozes. A professora McGonagall os levou a uma sala vazia ao lado do Saguão. Pela primeira vez desde a plataforma, Harry se sentiu ansioso... por nenhum motivo em especial, achou só estar sendo influenciado pelos outros. Trocou um olhar com um Ron desgostoso, e Draco não falara, mas ele ainda estava por perto.
— Consegue ver o Blaise? — murmurou ele para Hermione. Ela esticou o pescoço e olhou ao redor, antes de balançar a cabeça.
— Bem-vindos a Hogwarts — disse a professora McGonagall. — O banquete de abertura do ano letivo vai começar daqui a pouco, mas antes de se sentarem às mesas, vocês serão selecionados por Casas. A Seleção é uma cerimônia muito importante porque, enquanto estiverem aqui, sua Casa será uma espécie de família em Hogwarts. Vocês assistirão a aulas com o restante dos alunos de sua Casa, dormirão no dormitório da Casa e passarão o tempo livre no Salão Comunal. As quatro Casas são chamadas Grifinória, Lufa-Lufa, Corvinal e Sonserina. Cada Casa tem sua história honrosa e cada uma produziu bruxas e bruxos extraordinários.
"Enquanto estiverem em Hogwarts, os seus acertos renderão pontos para sua Casa, enquanto os erros a farão perder. No fim do ano, a Casa com o maior número de pontos receberá a Taça da Casa, uma grande honra. Espero que cada um de vocês seja motivo de orgulho para a Casa à qual vier pertencer. A Cerimônia de Seleção vai se realizar dentro de alguns minutos na presença de toda a escola. Sugiro que vocês se arrumem o melhor que puderem enquanto esperam." Seu olhar se demorou na capa de Neville, que estava afivelada debaixo da orelha esquerda, e nos rostos de Harry e Ron; tarde demais, Harry se lembrou que devia estar coberto de cinzas. Esfregou o rosto com a manga, e os lábios finos de McGonagall se esticaram. "Voltarei quando estivermos prontos para recebê-los. Por favor, esperem em silêncio". Com um farfalhar das vestes esmeraldas, ela saiu.
— Cerimônia na presença do resto da escola? — perguntou Harry, olhando para os outros, horrorizado. — Você sabe como eles nos selecionam para as Casas? — perguntou. Tinha perguntado a Padfoot e Moony algumas vezes, mas eles não tinham respondido, mas isso não tinha o incomodado porque assumira que seria algo particular.
Ron deu de ombros, pálido sob suas sardas, e disse:
— Algum tipo de teste, acho. Fred diz que dói à beça, mas acho que ele estava brincando. — Harry assentiu, mentalmente revisando todos os feitiços que aprendera e que poderia precisar. Não conseguia vê-la, mas conseguia ouvir Hermione fazer o mesmo. Tentava se lembrar do encantamento para um feitiço escudo básico quando vários alunos gritaram.
Um grupo de fantasmas passava pela parede, conversando entre si.
— ... perdoar e esquecer, eu diria — dizia um fradinho gorducho —, vamos dar a ele uma segunda chance...
— Meu caro frei, já não demos a Pirraça todas as chances que ele merecia? Ele mancha nossa reputação e, você sabe, ele nem ao menos é um fantasma... Nossa, o que essa garotada está fazendo aqui? — Um fantasma, que usava uma gola de rufos engomados e meiões, de repente reparou nos alunos do primeiro ano. Ninguém respondeu.
— Alunos novos! — disse o freio Gorducho, sorrindo para eles. — Estão esperando para ser selecionados, imagino? — Algumas pessoas, Harry entre elas, assentiram. — Espero ver vocês na Lufa-Lufa! — disse gentilmente. — A minha casa antiga, sabem?
— Vamos andando agora — disse a professora McGonagall, severa, fazendo uma garota gordinha com marias-chiquinhas pular e gritar. — A Cerimônia de Seleção vai começar. — Os fantasmas saíram voando pela parede, fazendo vários alunos voltarem a conversar, nervosos. — Agora, façam duas filas e me sigam. — Harry entrou na fila atrás de Ron. Draco estava ao seu lado, parecendo calmo, mas resignado.
— Boa sorte — murmurou Harry. Draco se virou para olhá-lo, parecendo confuso.
— Obrigado? — disse depois de um momento. — Boa sorte para você, também.
A professora McGonagall os levou para fora da sala, através do Saguão de Entrada e pelas portas que Hermione indicara quando chegaram. Era facilmente tão grande quanto o Saguão de Entrada e tinha quatro longas mesas às quais os alunos mais velhos estavam sentados, e uma mesa do outro lado, à qual se sentavam os professores.
Dumbledore estava sentado ao centro da mesa, sorrindo para eles, e Snape estava à sua esquerda — o lugar à sua direita estava vazio e devia ser da professora McGonagall —, e Moony estava ao lado de Snape. Ele sorriu para Harry ao vê-lo, e Harry, apesar de ainda estar um pouco frustrado, acenou e sorriu de volta. Harry não reconheceu os outros professores, mas havia um homem minúsculo ao lado do lugar vago de McGonagall, e uma bruxa com óculos enormes e cabelos despenteados na ponta da esquerda olhava intensamente para o fundo de sua taça.
Sobre as mesas, milhares de velas flutuavam no ar, banhando o Salão com sua luz dourada e, sobre elas, estava o teto, que era aveludado e negro, salpicado de estrelas. Hermione contava a Ron — que parecia aterrorizado demais para realmente prestar atenção — que o teto tinha sido enfeitiçado para parecer o céu da noite. Harry escondeu um sorriso. Ao chegarem na outra ponta das mesas, McGonagall voltou carregando um banquinho e um chapéu gasto.
Os alunos mais velhos observavam o chapéu ansiosamente. Harry trocou um olhar confuso com Ron — Draco e Hermione olhavam para frente e não encontraram seus olhos — e ergueu os olhos a tempo de ver um rasgo junto à aba se abrir. O Chapéu começou a cantar:
Ah, vocês podem me achar pouco atraente,
Mas não me julguem só pela aparência
Engulo a mim mesmo se puderem encontrar
Um chapéu mais inteligente do que o papai aqui.
Podem guardar seus chapéus-coco bem pretos,
Suas cartolas altas de cetim brilhoso
Porque eu sou o Chapéu Seletor de Hogwarts
E dou de dez a zero em qualquer outro chapéu.
Não há nada escondido em sua cabeça
Que o Chapéu Seletor não consiga ver,
Por isso é só me porem na cabeça que vou dizer
Em que casa de Hogwarts deverão ficar.
Quem sabe sua morada é a Grifinória,
Casa onde habitam os corações indômitos.
Ousadia e sangue-frio e nobreza
Destacam os alunos da Grifinória dos demais;
Quem sabe é na Lufa-Lufa que você vai morar,
Onde seus moradores são justos e leais
Pacientes, sinceros, sem medo da dor;
Ou será a velha e sábia Corvinal,
A casa dos que têm a mente sempre alerta,
Onde os homens de grande espírito e saber
Sempre encontrarão companheiros seus iguais;
Ou quem sabe a Sonserina será a sua casa
E ali fará seus verdadeiros amigos,
Homens de astúcia que usam quaisquer meios
Para atingir os fins que antes colimaram.
Vamos, me experimentem! Não devem temer!
Nem se atrapalhar! Estarão em boas mãos!
(Mesmo que os chapéus não tenham pés nem mãos)
Porque sou único, sou um Chapéu Pensador!
O salão inteiro prorrompeu em aplausos quando o Chapéu acabou de cantar e fez uma reverência para cada uma das quatro mesas.
— Então só precisamos experimentar o chapéu! — murmurou Ron para Harry, soando aliviado. — Vou matar Fred; ele não parou de falar numa luta contra um trasgo!
Harry assentiu, mas imaginou se seria realmente seguro; ele era o Fiel do Segredo, afinal — não que ainda estivessem se escondendo — e sabia demais sobre coisas como Horcruxes e sobre as missões de Aurores de Padfoot, e várias outras coisas que não achava que um chapéu precisasse saber. Seus pensamentos foram interrompidos pela professora McGonagall, que segurava um longo rolo de pergaminho.
— Quando eu chamar seus nomes, vocês porão o chapéu e se sentarão no banquinho para a seleção — disse. — Abbott, Hannah! — Uma garota de rosto rosado e marias-chiquinhas louras (a que gritara quando McGonagall voltara) saiu aos tropeços da fila e pôs o chapéu.
Houve uma pausa momentânea e o chapéu gritou:
— LUFA-LUFA! — Uma mesa à direita de Harry, todos com gravatas amarelas e pretas, comemorou quando Hannah se sentou.
— Bones, Susan! — A garota que estivera com Bones naquela manhã se aproximou, mas Harry não prestou muita atenção; perguntava-se onde "Benson, Blaise" estava. Olhou ao redor, mas não conseguia ver muito além dos alunos do primeiro ano e desistiu a tempo de ver Susan tirar o chapéu e ir se juntar a Hannah à mesa de Lufa-Lufa.
— Boot, Terry!
— CORVINAL! — A reação da Corvinal foi um pouco mais discreta (bateram palmas ao invés de gritar), mas vários alunos mais velhos apertaram a mão de Terry quando ele se sentou ao lado de uma linda garota asiática. Mandy Brocklehurst, uma garota alta com um rabo de cavalo castanho curto, foi se sentar ao lado Terry à mesa de Corvinal e, um momento depois, uma garota com cabelo castanho encaracolado, chamada Lavender Brown, foi se juntar à mesa de Grifinória, que explodiu em aplausos. Millicent Bullstrode, uma garota alta com o maxilar quadrado, foi a primeira a se juntar a Sonserina.
Justin Finch-Fletchley — o garoto que estivera com Hermione e Neville no barco — se tornou um Lufo.
— É o que ele queria! — sussurrou Hermione, antes de pular ao ouvir seu nome ser chamado.
Ela ficou com o chapéu por mais tempo do que todos até agora, e Harry ficou surpreso quando ele finalmente falou — GRIFINÓRIA! —, porque realmente esperara que ela fosse para a Corvinal. Encontrou os olhos dela e sorriu, esperando mais do que nunca que também fosse para a Grifinória.
Quando Neville Longbottom foi chamado, ele levou um tombo a caminho do banquinho.
O chapéu demorou muito para decidir, mas finalmente anunciou:
— GRIFINÓRIA! — Harry ficou um pouco surpreso (achara que Neville fosse um Lufo), mas bateu palma com todos os outros. O próprio Neville parecia surpreso, mas satisfeito, ao sair correndo com o chapéu ainda na cabeça. Ele teve de voltar em meio às risadas para entregá-lo a "MacDougal, Morag".
Draco foi chamado logo em seguida. Todos à mesa de Sonserina se empertigaram ao ouvir seu sobrenome. Ele saiu de seu lugar ao lado de Harry e foi até a frente. O Chapéu — que cobria a maior parte de sua cabeça — ficou quieto por um longo tempo, mas Harry achou ter ouvido Draco conversar com ele.
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O coração de Severus estava em sua garganta quando Draco se aproximou do banquinho e se sentou. Ao seu lado, Lupin provavelmente conseguia sentir o cheiro, porque ele parecia compreensivo. Dando as costas para o lobisomem, Severus se focou em seu afilhado, que nem parecia nervoso.
Perguntou-se se Draco ficaria nervoso se sequer sonhasse com o que Severus e Narcissa tinham feito com ele nos últimos anos. O garoto que estava sob o Chapéu agora parecia o mesmo que fora ao escritório de Severus para reorganizar prateleiras de livros, mas ele era completamente diferente. Tinham colocado ideias em sua cabeça, mudaram-no lentamente, mudaram a maneira que ele pensava e agia... Draco, intocado e deixado para crescer da mesma forma que Hydrus, seria muito parecido com o irmão, embora Severus suspeitasse que ele seria um pouco mais gentil; Draco sempre tivera essa tendência.
Houve silêncio, mas olhares confusos começavam a ser trocados entre amigos e colegas.
Ensine-o a sobreviver, Narcissa tinha dito. Então, Severus ensinara o menino a mentir, a perceber mentiras e a organizar, para que, quando ele tivesse treze anos, conseguisse aprender Oclumência sem dificuldades. Ele teria as habilidades únicas de Severus. E, se Severus e Narcissa tivessem feito seus trabalhos direito, ele teria essas habilidades, uma gravata Grifinória e a amizade de Harry Potter.
E, com essas três coisas, ele teria uma escolha e, assim, a liberdade que poucos tinham; quando chegasse a hora, ele poderia servir ao Lorde das Trevas de seu lugar na Grifinória, do jeito que Pettigrew fizera. Ou, talvez, como Severus, ele mudaria de lado e seria um agente duplo. Se Potter fosse ainda que um pouco parecido com sua mãe — e, a muito contragosto, precisava admitir que havia algumas semelhanças —, então a amizade dele não seria algo fácil de se recusar... Ou pelo menos não seria se Draco conseguisse evitar cometer os mesmos erros que Severus.
Mas qualquer que fosse o lado que ele escolhesse — e Severus torcia fervorosamente para que fosse o de Potter, o de Dumbledore e o seu, para que não precisasse matar seu afilhado —, isso poderia ser um segredo se assim Draco escolhesse e, com ambiguidade, vinha a segurança...
Mas tudo dependia da próxima palavra do Chapéu. Eles já tinham uma amizade hesitante, mas se Draco não fosse selecionado para a Grifinória, ele nunca conseguiria — não de verdade — entrar no círculo de amigos de Potter, nunca teria a chance de se oferecer como um espião ou teria os motivos para recusar o Lorde das Trevas. Ele não teria outra escolha que não seguir os passos de seu pai e se ajoelhar aos pés do Lorde das Trevas, e ele teria uma vida de servidão quisesse ou não.
Isso era o que Narcissa temia, o que ela queria evitar, independente do custo.
Severus, é claro, queria que Draco tivesse uma qualidade de vida melhor do que "Comensal da Morte", mas, acima de tudo — e nunca admitiria isso para ninguém e, principalmente, não a Dumbledore —, só queria que Draco fosse feliz, fazendo o que gostava, ou passando o tempo na companhia daqueles que gostava.
E, Severus sabia, graças às suas manipulações e as de Narcissa, havia apenas um lugar onde ele encontraria isso.
Se é que isso serve de alguma coisa, pensou, eu sinto muito, Draco.
Severus suspirou, cruzou os dedos em seu colo e pensou com toda a vontade: Grifinória. Por favor, por favor, que seja Grifinória.
Continua.
Nota: partes deste capítulo foram copiadas diretamente da tradução original de Harry Potter e a Pedra Filosofal. Créditos dados a quem de direito.
