"As três esferas, a branca, a azul e a vermelha, reluziram em seus olhos enquanto ele as admirava de forma desejosa e maliciosa.

- Estou quase lá. – ele sussurrou fechando o baú e acariciando sua tampa."

Capítulo 7

O Portal

Lílian sentiu a cabeça pesada e não pôde abrir os olhos. Suspirou. Que será que houve? Não tinha idéia. Ela mexeu vagarosamente o braço esquerdo, e sentiu que seu corpo todo formigava. Estava sobre uma cama. Era um lençol de cetim. Ela abriu um olho. Estava tudo escuro.

As imagens da noite anterior vieram a sua mente e ela foi obrigada a fechar novamente o olho. Um grito. Louis nervosa. Um homem mutilado. Tiago lhe abraçando. Louis soluçando. Uma luz na floresta. O homem lhe era familiar, não suportaria que ele morresse. Palavras saindo da sua boca. Uma luz cegante. Puro breu. A voz de Tiago lhe dizendo para ficar boa logo e continuar a enlouquecê-lo. Sorriu e sua cabeça latejou.

Ela praguejou e se mexeu novamente, havia algo impedindo sua movimentação tanto para baixo quanto para os lados. Confusa, franziu a testa e suspirou mais uma vez. Sentou-se vagarosamente. Não adianta, pensou, vou acordar alguém de qualquer modo. Ia deitando-se novamente quando bateu com a cabeça na cama. Foi imediato: o quarto se iluminou fazendo-a levar uma mão aos olhos e outra à cabeça machucada; todos à sua volta se sentaram ou se levantaram.

- Você está bem? – Tiago questionou, preocupado.

- Aconteceu alguma coisa? – Sirius perguntou, escorregando da cama, olhando para a porta e em seguida para a janela.

- O que foi isso? – Remo olhou em torno com os olhos cerrados, procurando a origem do som e sentou-se.

- Quem acendeu a luz? – Alice perguntou, quase caindo da cama.

- Que porcaria é essa...? – Frank perguntou quando viu Sirius sobre ele.

As cinco vozes entraram pelos ouvidos da ruiva como se fossem duzentas. Ela apertou os olhos firmemente e dirigiu suas mãos às têmporas.

- Por Merlin... Falem baixo! – ela sussurrou e sentiu as mãos de Tiago em seu pescoço e em sua testa, medindo sua temperatura.

- Por que temos que falar baixo? – Remo perguntou num sussurro, se aproximando de Lilly.

- Estamos nos escondendo de alguém? – Sirius sussurrou esfregando os olhos.

- É um novo ataque? – Frank sussurrou enquanto empurrava Sirius de cima de si com uma careta e ia até Alice.

- Quem. Acendeu. A. Droga. Da. Luz? – Alice continuava deitada de olhos fechados.

- Não, pessoal. Eu só bati a cabeça quando acordei, foi mal.

- Tem certeza de que está se sentindo bem? – Tiago sussurrou enquanto procurava o galo na cabeça da ruiva e media sua pulsação.

Ela fez que sim com a cabeça.

- Então podemos dormir de novo? – Alice sorriu, triunfante e se deitou, virando-se de lado – Apague a luz, por favor, Frankie?

Eles se entreolharam.

- Ela tem razão. – Lílian se manifestou – Vocês estavam dormindo super bem quando eu os acordei.

- E fez um alarme de ataque surpresa! – Remo resmungou deitando-se entre ela e Alice – Alguém aumenta essa cama? Ainda não sei por quê não fizemos isso mais cedo...

- Não fiz alarme algum... – Lilly deitou-se – Desculpe pelo tombo, Sissi.

- Tudo bem, ruiva. – ele respondeu.

- Esse veado gostou. É a mim que você deve desculpas, Lilly. Não mereço Black no meu colo. Ninguém merece. – Frank falou e aumentou a cama com um movimento apressado das mãos. O móvel passou a ter aproximadamente sete metros de largura por cinco de altura, podendo abrigar os seis amigos.

- Muitas garotas dariam um braço pra me ter no colo delas. (N/A: ignorem a cacofonia!) Ou o contrário. – ele sorriu, malicioso – Boa noite. – Sirius fez menção de se deitar entre Tiago e Lílian, mas o primeiro olhou-o de forma significante e ele foi para o outro lado do amigo.

Frank resmungava algo parecido com "felizmente eu não sou uma garota, imbecil".

- Boa noite. – murmurou Alice, já sonolenta enquanto se virava de bruços e Frank lhe dava um estalado beijo na bochecha, antes de imitá-la e fechar os olhos, cansado.

- Bom sono, pessoal. – disse Lilly ao se deitar e apagar as tochas com um gesto rápido. Todos lhe desejaram o mesmo e, algum tempo depois, estavam em sono profundo.

Apenas a ruiva permanecia acordada. Não conseguiria dormir, pensou completamente entediada. Havia descansado durante horas, e agora só conseguia pensar em comer, ela constatou envergonhada. A festa havia acabado antes do jantar. Ela suspirou calmamente. Acabaria acordando todos com o barulho de seu estômago se não saísse dali, concluiu. Lílian olhou para seu lado esquerdo quando seus olhos se acostumaram à escuridão e viu Tiago. Ele dormia como um anjo. Sorriu ao reparar em como ele ficava lindo enquanto dormia, sem preocupações e sem aquele ar de constante atividade que adquiria quando estava acordado. Sirius ressonava baixinho, parecia muito cansado. Ela olhou para a direita, Remo dormia de barriga pra cima com uma mão sobre os olhos e a outra do lado do corpo, não pôde ver seu rosto. Alice estava depois dele, de bruços e com a boca aberta. Ela vai dormir assim o resto a vida, Lilly pensou balançando a cabeça. Frank estava de lado, abraçando a cintura da namorada. Agradeceu mentalmente por Tiago não tê-la abraçado e prendeu a respiração enquanto escorregava até o fim da cama e pisava suavemente no chão.

Onde procuraria algo para comer? Naquela mesa em que jantara na noite anterior? Não, no cardápio estava escrito que só funcionava até as onze horas da noite, possivelmente elfos domésticos? Ela caminhou, descalça, até a porta e abriu-a lentamente, fechou-a atrás de si com um click e observou o corredor vazio, levemente iluminado. Respirou profundamente. Pra onde? Dando de ombros, caminhou em direção às escadas que levavam ao andar inferior. Cozinhas costumam ser nos andares mais baixos. Ela caminhou lentamente ao longo dos corredores daquele castelo tão pouco conhecido por ela. Já havia descido as escadas que levavam ao andar do vento e agora já podia ver outra escada. Sentia-se tola com a imensidão daquele castelo e seu estômago rugia de fome. Foi quando tropeçou em algo e caiu de joelhos, aparando com as mãos.

- Perdoe-me! Perdoe-me! Não a vi nesse breu! Pensei que estavam todos dormindo! – uma voz muito aguda, mas um tanto melodiosa falou e Lílian se pôs a procurá-la – Estou invisível! Deixe-me ficar normal. – segundos depois, Lilly viu uma pequena elfa bem cuidada e bem vestida. Possuía a pele alva, usava brincos e um chapéu rosa com um laço vermelho posto de lado.

- Você é uma elfa doméstica? – a garota indagou, animada.

- Sim, senhora!

- Pode me dizer onde é a cozinha?

- Posso levá-la lá, senhora! – ela sorriu mostrando dentes muito brancos – Eu estava indo para lá. O caminho é oposto ao que a senhora seguia. – ela informou e começou a andar, ainda falando e gesticulando – Acabo de voltar de uma festa na floresta. Só para elfos domésticos, sabe? Fazemos esses encontros de vez em quando para relaxar, esquecer o trabalho e homenagear a natureza.

- Você não gosta do seu trabalho?

- Cozinhar é o que mais amo! E minha magia facilita as limpezas. Não tenho dificuldades a não ser quando pedem pratos muito incomuns. Somos os melhores e mais rápidos da Ilha, senhora.

- Incrível. – Lílian se lembrou de sua primeira refeição em Insula Magus com Tiago, fora uma questão de segundos para que a comida aparecesse – Você se importaria de fazer um lanchinho pra mim? Houve um contratempo na festa, hoje. Ela acabou antes que pudesse ser servida a ceia.

- Será um prazer servi-la, senhora. – ela arrumou o chapéu sobre sua cabeça e mirou a ruiva – Esqueci de me apresentar, sou Lemina. – ela parou de andar, fez uma reverência puxando o vestido rosado de babados para o lado, e prosseguiu a rápida caminhada.

- Sou Lílian. Pode me chamar de Lilly. – a elfa sorriu e a garota não pôde deixar de fazer o mesmo.

- Chegamos, senhora... Lilly. – ela sorriu, apontou uma estátua, cutucou-a com o dedo indicador, no que a mesma acordou. Era um homem montado num cavalo, em tamanho natural, tinha uma pose imponente e sorria bobamente para o nada. Tirou a espada da bainha quando foi acordado e encarou-as, seus olhos de prata se tornaram duas pequenas fendas – Boa noite, Cavaleiro.

- Boa noite Lemi. – respondeu ele, baixando a espada.

- Gostaríamos de passar – ela indicou Lílian –, ela está com fome.

Os olhos do cavaleiro de prata se fixaram na jovem ruiva por alguns segundos até que ele coçou o queixo e meneou a cabeça.

- Impossível. – ele murmurou e, em seguida, sorriu, galanteador – Bom apetite, senhoras.

O cavaleiro empinou o cavalo no qual montava e apontou a espada para cima, no que um alçapão se abriu sob as patas do quadrúpede e a estátua desceu por ele.

- Siga-me. – a elfa doméstica disse com sua voz aguda e em seguida pulou dentro do buraco.

Excelente. Era realmente a última coisa que lhe faltava. Lílian suspirou. Que adorável, pular num buraco que nem vejo o fundo.

- Venha, Lilly! – ela ouviu a elfa doméstica gritar.

Bem. Se ela sobreviveu, eu também haverei de sobreviver. O que a fome não nos leva a fazer...

Fechando os olhos, a ruiva pulou no buraco. Logo sentiu que escorregava sobre algo fofo e confortável, relaxou. Mal abrira os olhos e teve que fechá-los novamente, o tobogã terminou e ela voou por um enorme ambiente iluminado para cair delicadamente sobre uma poltrona.

- Boa aterrissagem. – congratulou Lemi – Quando comecei a trabalhar aqui sempre caia fora da poltrona. É deprimente.

- Imagino que sim. – murmurou Lílian se levantando e tirando de sua cabeça o pensamento de que poderia ter caído dentro de uma das bacias de líquido fumegante do lado direito do assento.

- Creio que esses tobogãs tenham sido projetados para pessoas e não para elfos domésticos. – Lemina comentou de forma indiferente – Geralmente caímos antes.

A elfa indicou uma mesa com uma cadeira e fez uma bandeja levitar até ela. Lílian observou em torno. Havia várias pias, dezenas de panelas, facas, colheres e objetos estranhos.

- Então, nunca a vi por aqui. De onde você é? – ela perguntou num tom educadamente interessado.

- Vim de cinco mil anos a frente. – Lílian se sentou e sentiu a boca salivar com o cheiro do frango sobre a mesa.

- Estranho. Acontecem coisas estranhas aqui na ilha o tempo todo, mas ninguém nunca veio do futuro. – Lemi coçou o queixo e trouxe uma jarra de suco de morango até a mesa de Lílian – Espero que aprecie morangos.

- Como assim? – Lílian falou, servindo-se do suco.

- Bem, agora a pouco, nós, os elfos domésticos, estávamos olhando as estrelas e vimos que há uma sombra nos céus. Uma enorme sombra.

- Sombra? – Lílian limpou o redor da boca com um guardanapo e fixou seus olhos na elfa doméstica.

- Sim, senhora. O céu é o reflexo do mundo. Mas só os elfos podem entendê-lo. Não estudou isso em habilidades das criaturas mágicas?

- Não. Pode me falar mais?

- Claro. – a criatura sorriu e se sentou numa cadeira de frente para Lilly – Cada estrela representa uma parte do equilíbrio elemental e, todas elas, representam o equilíbrio entre o bem e o mal. Elas refletem nossas ações e nossas vidas, Lilly.

- Mas o que quer dizer essa sombra? – Lílian estava absolutamente fascinada.

- As sombras são freqüentes quando são pequenas e translúcidas, significam pequenos problemas ou mínimos desequilíbrios. As sombras grandes representam morte, dor, sofrimento e fim. Podem estar em um só elemento ou em todos. Podem estar apenas no bem ou só no mal. Ou podem estar em tudo. E acima de tudo – ela fez uma pausa estratégica e tomou também um gole do suco que servira – elas podem profetizar o fim e o desequilíbrio universal total.

- O apocalipse. – resumiu Lilly mais para si do que para a criatura à sua frente. Aquilo lhe lembrava a bíblia.

- O que disse?

- Nada. É que na minha época, Insula Magus não passa de lenda. Talvez tenha sido destruída.

- Ou selada, querida, o que é mais provável. O senhor Straws jamais permitiria a destruição da ilha.

- Certo... – a ruiva mordeu o lábio inferior e fitou a elfa doméstica com interesse – Que tipo de sombra você viu no céu hoje à noite mesmo?

- Uma enorme sombra, e estava em todos os elementos. Nunca tinha visto uma dessas desde que nasci, Lilly.

- É preocupante. – murmurou Lílian – Bem, estamos aqui para evitar que aconteça algo muito ruim, acho.

- Espero que consigam. O mundo fora de Insula Magus não é tão equilibrado, para nós, elfos.

- Uhum. – Lilly sentiu pena de dizer a ela como eram tratados os elfos de sua época – Lemi, aquele cavaleiro na entrada, quem é?

- Ah! É o famoso Sir Vardov. Ele foi um dos primeiros Magus de fogo, sabe. Foi merecedor de se tornar estátua.

- Como assim?

- A senhorita é realmente desinformada. – ela olhou para a garota numa mistura de ceticismo e pena – Bem, quando um Magus bom, honrado e seguidor do código morre, ele se transforma em uma estátua.

- Não entendo...

- A essência dele passa a habitar uma réplica de seu corpo feita de prata. Assim ele pode passar ensinamentos adiante quando achar necessário e sua alma descansa em paz. – Lemi explicou e levantou-se.

- Incrível... Na minha época apenas os quadros falam e se movem, e qualquer um pode ter um quadro... – Lilly falava entre um garfada e outra.

- Os quadros de Insula Magus estão na sala do conselho. – a elfa sorriu e coçou a enorme orelha – Os quadros dos conselheiros, dos grandes Magus.

- Gostaria de visitar. – ela falou, mais para si que para a outra.

- Posso te levar, se quiser.

- Não vai descansar?

- Claro que vou, depois que a levar, senhora. Elfos domésticos não precisam descansar muito, nosso trabalho é fácil.

- Vou querer sim.

- Sobremesa, Lilly?

- Por favor. – a ruiva empurrou o prato já vazio para o lado e se sobressaltou quando ele flutuou até a pia e começou a ser lavado por duas buchas.

Lemina serviu várias sobremesas para a garota e ficou a observando, era realmente idêntica a Louis, mas emanava mais poder e menos equilíbrio. Era mais jovem também, pensou.

- Você cozinha maravilhosamente bem. – Lílian comentou quando terminou sua ceia e se levantou, minutos depois – Acho melhor irmos ou vai ficar tarde e vão sentir minha falta.

- Como preferir. Venha. – A elfa doméstica sorriu, entrando no tobogã – Lebarte! – a criatura foi sugada para cima.

Lílian revirou os olhos. Se fosse com outra pessoa poderia até ser engraçado, ela pensou risonha. Entrou no tobogã e repetiu as palavras da elfa. Sentiu como se tivesse sendo empurrada por um enorme secador de cabelo e puxada por um aspirador de pó ao mesmo tempo. Em instantes, sentiu seu corpo se chocar com o gelado chão de pedra do castelo. Gemeu.

- Nem tão boa aterrissagem. – comentou Lemi no seu tom avoado e risonho – Você se acostuma.

- Espero que sim. – ela murmurou ajeitando o pijama e os cabelos.

- Venha, é um pouco longe. – a elfa informou tomando a dianteira a passos largos.

Elas caminharam por alguns minutos, subiram escadas, contornaram corredores até que finalmente Lemina anunciou que elas haviam chegado. Lílian viu uma grande porta de vidro a sua frente.

- É a biblioteca. – explicou Lemi – No fim dela há uma sala, é o auditório do conselho.

- Como eu faço para entrar? – questionou Lilly.

- Essa é fácil. – a elfa riu da inocência da Magus – Ponha a mão sobre a marca prateada da porta e ela se abre. Vou indo.

- Você não vai entrar? – a jovem perguntou, temerosa.

- Não, não devo. – e, fazendo uma nova reverência, Lemi seguiu pelo corredor até desaparecer.

- Lá vou eu. – murmurou Lilly para si mesma.

Ela pôs a mão sobre a marca prateada que delineava a palma de uma mão e sentiu a porta tremer, retirou a mão num reflexo e os vidros sumiram. Ela observou curiosa e viu um recinto de enormes proporções, com prateleiras que iam até o teto.

Deu um passo a frente, cautelosa, e sentiu uma mão tocar-lhe o ombro. Pulou de susto.

- Calma, Lílian. Sou eu, Adam. – o rapaz que a fizera teoricamente desautorizar Tiago estava lá. Era muito bonito, ela pôde reparar mesmo no escuro. Não se lembrava do sobrenome dele. Forçou-se a recordar enquanto punha a mão no peito devido às fortes batidas de seu coração.

- Sparrow? – ela se lembrou – Adam Sparrow? O de mais cedo? Do forró, não é?

- Sim, fico feliz por se lembrar. – ele sorriu – Desculpe pelo susto.

- Tudo bem... Mas o que faz aqui?

- Eu deveria perguntar-lhe isso, não acha? – ele levantou as sobrancelhas com um sorrisinho safado – Você é quem está andando sozinha na penumbra de um castelo desconhecido e na eminência de uma guerra, não é?

- É. Quer dizer, não! Eu tive fome, fui à cozinha e... E... Vim parar aqui.

- Por Augustus, a cozinha é do outro lado do castelo, no primeiro andar. Você deu dezenas de voltas.

- É. Eu sei. Mas me perdi, oras. – ela estava começando a se irritar com a astúcia dele – Então, o que você faz aqui?

- Estou te procurando. Aliás, o castelo está te procurando. – ele explicou e levou a mão esquerda aberta até a altura da boca – Achei Lílian. – ele falou claramente e voltou-se para Lilly depois que algo parecido com purpurina roxa brilhou acima de sua mão – Estão pensando que os rebeldes a pegaram. – ele riu – Por sorte poucos sabem da sua importância do lado de lá.

- Como assim "minha importância" ?

- Já devem ter sentido a mudança, mas não devem saber que você é a chave de tudo.

- Mas eles me viram há duas noites, lutei ao lado de Louis.

- Bem lembrado. – ele passou a mão no cabelo.

Aquele gesto fê-la lembrar-se de Tiago.

- Tiago deve estar tendo um piripaque. – ela falou – Vamos? Não quero deixá-lo preocupado.

Ele olhou-a com atenção. Estava completamente desarrumada, tinha olheiras, seu cabelo estava despenteado e seu pijama amarrotado. Com o que ela se preocupava? Com o tal Potter. Ele sorriu pensando que mais um pouco e ele poderia considerá-la a garota de seus sonhos. Viu-a levantar as sobrancelhas. Ótimo, pensou, devo estar parecendo um tapado desse jeito. Pára de sorrir e olhá-la como se fosse uma coisa estranha, Sparrow!

Adam balançou a cabeça.

- Certo... – ele lançou a ela mais um olhar curioso e começou a andar – Hmmm. Você vem?

- Vou. – ela deu um passo a frente e seus joelhos cederam.

Lílian fechou os olhos ao imaginar a força com que bateria no chão, no entanto não sentiu dor alguma. Abriu os olhos vagarosamente e se viu no ar, flutuando. Adam estava na sua frente com a mão esticada.

- Não devia ter se levantado, Lílian. Ainda está fraca por causa da mágica que fez.

- Eu – ela engoliu seco, estava realmente fraca, mas não daria o braço a torcer – Eu não estou fraca, foi só um mal-estar.

- Gostaria que sim.

- Mesmo assim... – ela esticou as pernas e as pôs no chão – Obrigada.

Ele fez que sim com um gesto da cabeça e baixou a mão. Ela sorriu levemente ao perceber que podia se manter de pé e deu um passo a frente. Estava firme. Relaxou.

- Eu ajudo.

- Já disse que estou bem.

- Não precisa mentir pra mim, Lilly.

- Você está me chamando de mentirosa?

- Não. Quis dizer que não adianta mentir pra mim. – ele sorriu de lado.

- Aposto que adianta. Você não lê pensamentos.

- Quem disse? – o sorriso dele alargou-se.

- Você... Lê?

- Mais ou menos. Certo, não leio. Mas sei se o que você diz é verdade ou não.

- Com que direito? – ela sentiu o rosto esquentar.

- Eu não pedi pra nascer assim. – o sorriso dele desapareceu.

- Desculpe. Pensei que era uma habilidade facultativa.

- Não é. – os olhos verde-claros dele escureceram um pouco – Faça-me um favor, Lílian, me diga a verdade. Sempre.

- Eu... – ela viu que era um pedido e suspirou – Tudo bem. Desculpe.

- Desculpas aceitas. – ele sorriu novamente e ela o imitou: era cativante demais para não fazê-lo – Vamos, ou vão achar que seqüestrei a nova princesa das águas.

- Adam... Obrigada.

- Disponha. – ele abraçou-a pela cintura, ela passou o braço pelo ombro dele e começaram a andar vagarosamente – Ah! – ele parou e mirou-a com um sorrisinho – Você ainda me deve uma dança.

- Certo. – ela desviou os olhos pensando no que Tiago acharia daquilo.

- Será que o seu Potter vai se estressar com nosso passeio noturno?

Ela riu do "seu Potter" e eles voltaram a andar.

- Não sei. Vamos ter que arriscar. Não posso chegar até lá sozinha, não é? – os olhos dele brilharam quando ela olhou novamente pra ele – O que foi?

- Você disse a verdade, foi humilde. – ele falou enquanto desciam uma escada – Isso faz Magus como eu mais fortes.

- Como assim?

- Preciso de verdade, arrependimento, desculpas, sentimentos bons, no geral, pra me fortalecer.

- Que tipo de Magus você é? – ela perguntou enquanto tentava se lembrar de Louis falar sobre algo desse tipo.

- Você vai saber quando for a hora. – ele riu – É bom saber algo que alguém não sabe, para variar.

- Não entendi.

- Não posso mentir. Isso me enfraquece. Então, acabo tendo que dizer tudo o que sei. – ele explicou, paciente, e ela se lembrou da paciência sublime de Remo.

- Mas você está...

- Não estou mentindo, estou omitindo. É diferente.

- Você tem mesmo isso?

- Tenho. Quer ver? – ele parou novamente.

- Quero. – a animação e a curiosidade faiscavam em seus olhos verdes.

- Consegue ficar de pé?

- Acho que sim.

- Então vamos lá. – ele a soltou com delicadeza e esperou para ver se ela realmente ficaria de pé – Tudo bem? Não! Não responda, espere.

Ele colocou-a encostada numa pilastra e se afastou andando para trás e olhando para ela. Abriu os braços, olhou para cima e murmurou algo. Numa velocidade muito pequena foram aparecendo figuras no vão abaixo e acima dos braços dele. Por último, Lílian viu uma aura dourada envolvê-lo.

- Responda agora. – Adam encarou-a – Está tudo bem?

- Mediano.

A aura dele aumentou e a ruiva sorriu.

- Uma mentira agora.

- Você é estranho. – a aura dourada voltou a crescer e ela ruborizou – Tá, foi só um teste.

Ele riu.

- Você é... Feio! – ela disse a primeira coisa que veio à sua cabeça e suas bochechas ficaram ainda mais vermelhas quando a aura em torno de Adam diminuiu drasticamente.

Ele fechou os olhos com força.

Lílian teve medo do que poderia ter feito com ele. As palavras dela pareciam tê-lo atingido com uma força brutal.

- De-desculpe! – ela deu um passo a frente – Não quis fazer isso. Você está bem? – a garota tocou o rosto dele com leveza e a aura dele voltou, devagar, para o tamanho anterior.

Ele abriu os olhos e baixou os braços, murmurando algumas palavras novamente.

- Arrependimento, verdade, sinceridade, preocupação e carinho. Você aprendeu rápido. – ela viu os olhos dele brilharem e, não podia negar, estava fascinada também – Já sabe o que fazer comigo se quiser me prejudicar. Sabe meu ponto fraco. Um deles ao menos. – ele parecia ponderar – Que tipo de Magus eu sou? Estou contando meu ponto fraco para uma desconhecida!

Ela riu.

- Não sou desconhecida, você inclusive já me chamou para dançar.

- Boa resposta. – ele piscou para ela.

- Obrigada.

- Então, acredita agora?

- Vou mentir.

- Isso foi uma mentira.

- Ai, você é muito sensível.

- Verdade.

- Vai ficar me dizendo se o que eu falo é verdade ou mentira?

- Até você acreditar em mim.

- Eu acredito em você, Sparrow.

Ele arqueou as sobrancelhas. Era uma verdade, ele sentira, mas isso afetou muito mais que as verdades comuns.

- Prefiro que me chame de Adam. Gosto mais.

- É um belo nome.

- Acha mesmo?

- Você sabe que sim.

- Você é esperta.

- Eu sei.

- Um pouco convencida?

- Muito realista.

- Resposta errada.

- Ok. Sou pouco humilde às vezes.

- Errado.

- Tá! Sou pouco humilde sempre.

- Bom.

- Quer parar?

- Estou me divertindo.

- Não perguntei isso.

- Mas entendeu a resposta.

- Subjetivo demais.

- Mas visível. – ele mantinha as sobrancelhas arqueadas.

- Tem razão. – ela assumiu.

- Eu sempre tenho.

- Engraçadinho.

- Você não viu nada.

- Acha que eu iria gostar?

- Ficaria feliz em dizer que sim, mas não sei. Não é especialidade minha.

- Saber o futuro?

- É.

- Quem sabe o futuro?

- Você faz perguntas demais.

- Você. – ela se aproximou dele – É. – ela apontou o dedo indicador para o peito dele – Muito. – cutucou-o com o dedo esticado e ele não se mexeu, parecia estar se divertindo – Insolente!

- Que pena que você acha isso de mim. Gostaria de ter uma imagem melhor com você.

- Responda-me então! – ela deixou os braços caírem em torno do corpo e continuou a olhá-lo.

- Não posso. – ele abaixou a cabeça.

- 'Tá. Mas quando puder vai dizer? – o tom de Lílian era de admiração.

- Pare de usar minhas fraquezas contra mim! – ele olhou-a um tanto revoltado, mas ao mesmo tempo achando graça.

- Mas por quê?

- Porque é injusto.

- Não saber os fatos é uma fraqueza e você também está usando contra mim.

- Não estou usando para meu ganho. – Adam não podia evitar sentir admiração por ela.

- Quer saber? Não quero mais discutir com você. Você é muito... – a voz dela falhou.

- Lílian?

Os olhos de Adam escureceram quando a viram fraquejar novamente e ele a abraçou para que não caísse.

- Lilly? Fala comigo! – ele passou a mão pelo rosto dela, os olhos da ruiva estavam quase fechados – Eu sou um idiota. Devia ter levado você logo. Vou me redimir, prometo. Eu só queria conhecer você melhor. Passar um tempo com a pr...

Craque.

- O que você fez com ela? – Tiago vociferou para em seguida ir até eles e tomar Lílian delicadamente em seus braços, a afastando do estranho.

Os olhos castanho-esverdeados do recém-chegado mostravam tanta preocupação que Adam não teve coragem de discutir.

- Não fiz nada. Vamos levá-la para o quarto, só está fraca...

- Por que não a levou antes? Faz meia hora que você avisou tê-la achado, já estávamos preocupados. – ele falou olhando para o outro rapaz como se ele fosse um idiota – Com ela. – acrescentou.

- Já entendi, Potter. – os olhos de Adam escureceram mais uma vez – Apenas me siga.

- O que faz você pensar que eu vou obedecê-lo, Sparrow?

- Ela. – ele falou com simplicidade – Anda.

Tiago não contestou, apenas fez Lílian levitar e ficou murmurando palavras doces durante o caminho. Em seu íntimo imaginava o quanto Adam podia saber sobre ele e seu sentimento por Lílian.

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- Qual é, cara? Ele a achou não foi? Então 'tá ótimo. – Remo tentava amenizar o nervosismo de Tiago.

- Pontas, se você mexer essa perna de novo eu vou te azarar! – Sirius ameaçou mirando o amigo perigosamente.

Tiago parou com seu tique nervoso e continuou em silêncio.

- Ela só precisa descansar e repor as energias. Nossa ruivinha basicamente ressuscitou um cara. – Sirius falou – Isso deve ser bem... Cansativo.

- Não gosto disso. Não gosto da idéia do futuro de toda a ilha depender de Lílian. Não gosto de toda essa pressão, de todos esses poderes, dessa confusão...

- Calma, cara! – Frank disse, se levantando – Vai dar tudo certo.

- Tá. – Tiago disse recomeçando a balançar a perna. Não estava convencido, mas não havia porquê discutir com os três amigos. Guardaria aquela preocupação para ele.

- Sabe o que isso está parecendo? – Sirius perguntou, sorrindo de lado.

- O que? – perguntaram Remo e Frank, Tiago apenas olhou questionador.

- A maternidade do St. Mungus. – eles caíram na risada.

- É. Quatro caras esperando ansiosos pra saber o que está acontecendo com as garotas naquela porta. – Frank indicou a porta da enfermaria com um movimento da cabeça.

- Dá pra ver que Pontas é papai de primeira viagem. – Remo disse, ainda risonho.

- Lilly não vai precisar respirar quando engravidar. – Sirius acrescentou – Ele vai fazer isso por ela.

Tiago não pode evitar sorrir. Lílian e ele tendo um filho parecia até um sonho, e visto daquela forma era quase engraçado. Quase.

- Vamos lá, papai. Agorinha a gente ouve o choro das crianças. – Remo brincou.

- Qual é? São gêmeos? – Tiago olhou-o abismado.

- Não. Sirius também está tendo um filho, só que ele disfarça melhor que você.

Sirius baixou o olhar e enrubesceu. Mary havia entrado com Louis, Alice, Saphyra e Lílian dentro da enfermaria. Quando seus olhares se cruzaram ela desviou rapidamente para o chão e ele não sabia o que poderia ter acontecido. Talvez o pai dela tivesse acabado com todas as suas chances. Chances de quê, seu idiota? De vê-la sorrir de novo, ele mesmo respondeu e fez uma careta. Definitivamente precisava de cuidados médicos. De preferência se esses cuidados fossem da morena que se encontrava na porta à sua frente. Pareço um pervertido falando assim. Como se Mary Sullivan fosse do tipo que brinca de medibruxo. Ele sorriu para o nada imaginando aquela cena e imediatamente deu um tapa na própria testa. Precisava parar com isso. Mary deve sonhar com um príncipe encantado de contos trouxas, não com um tarado.

- Alô, Almofadinhas! – Frank passou a mão na frente do rosto do amigo – Cara, você é patético. Você e Tiago são patéticos.

Os dois olharam para ele, indignados.

- Frank tem razão. Vocês não conseguem se apaixonar sem serem ridículos. – Remo falou com uma expressão que beirava piedade.

- Só tive umas discussões internas aqui. – Sirius indicou a própria cabeça – E eu não sei se estou apaixonado.

- Quando você descobrir já vai estar de quatro como Pontas. – Remo alertou – Não seja idiota como ele foi.

- Obrigado pelo que me refere, Aluado. – Tiago fez uma cara de quem não estava achando graça alguma – Temos que contar que eu me apaixonei por ela muito mais novo.

- Conseqüentemente mais idiota. É, "Sissi" – Remo fez sinal de aspas com os dedos –, conseguiu bater o recorde de pateticidade por causa de uma garota do "Titi".

- Sirius era o último que eu imaginava que ia ficar assim. – Frank acrescentou em tom de lamento.

- Calem a boca, vocês dois. – Sirius apelou enquanto passava a mão pelos cabelos que lhe caiam nos olhos e suspirava – Não é nada de disso. Ela só é... Diferente das outras garotas.

- Lílian Evans é a garota mais diferente das outras garotas que eu conheci. Ela me deu um fora. – Tiago piscou para os amigos – Isso a faz quase uma louca.

- Tão engraçadinho. – Sirius comentou.

- Deixa-me enumerar. Ela me dava lição de moral, brigava comigo, não gostava da minha mania de mexer no cabelo, do meu jeito de andar, do meu grupo de amigos, do meu jeito de ver a vida. Ela não gostava do jeito que eu era. E tinha razão, não é? Eu era um pivete mimado como ela já disse inúmeras vezes. Todo mundo sabia disso, mas foi ela quem disse. Ela disse a verdade, foi sincera e tentou me fazer melhorar. Ela foi diferente, com certeza.

- Vai ver é assim. Só as garotas diferentes pra dar jeito nos idiotas galinhas como vocês. – Remo falou sorrindo.

- Diga-me com quem andas e te direi quem és. – Tiago recitou um dos ditados trouxas que Lílian costumava dizer.

- Não! – Sirius falou – Aluado não é dos nossos. Ele tem a garota que quer na mão e não age. Não é coisa que Pontas ou eu faríamos.

- Vocês não são como eu.

- É verdade. Você é idiota, nós não. – Tiago apoiou Sirius, esquecendo-se momentaneamente de Lílian.

- Dois contra um não vale. – Remo cantarolou.

- Dois caras certos contra um lobo errado não vale? – Sirius parecia ter incorporado o advogado.

- 'Tá. 'Tá bem. Eu sei o que devia fazer.

- Mas não faz. Lobão – Remo fez uma careta ao ouvir o nome pelo qual fora chamado –, você não pode deixar seu probleminha peludo interferir nos seus relacionamentos dessa forma. – Tiago sorriu ao terminar.

- Mas eu tenho bons relacionamentos. – Remo contra-argumentou.

- Relacionamentos que não duram uma semana. – Frank entrou na discussão apoiando Sirius e Tiago – Eles estão certos, cara. Superaremos todas as barreiras se estiverem juntos e do mesmo lado. Você e ela podem fazer isso. Você a conhece, sabe que ela jamais se importaria com isso.

Remo jogou-se na cadeira e enterrou o rosto nas mãos. Por quê diabos começara aquela discussão idiota? Sentiu seus olhos ardendo ao se lembrar de Natalie. Ele não a merecia. Ela era linda demais, inteligente demais, comunicativa, doce, carinhosa, amorosa, fiel e tudo o que poderia haver de bom. Ela era tudo demais e ele era um lobisomem pé rapado que não poderia oferecê-la nada. Nada do que quero de verdade dar a ela. Natalie Banks merece ser tratada como princesa de contos de fadas, como a garota incrível que é e eu não posso fazer isso. Posso?

- Sabemos o que você vai dizer, Aluado. – ele abriu os olhos e viu Tiago, Sirius e Frank abaixados ao seu lado – Sabemos que vai dizer que ela merece algo melhor.

- E lamentamos dizer. – Frank falou com ironia.

- Mas só o que ela quer é você. – Sirius completou.

- E como nós somos marotos e gostamos de unir o útil ao agradável... – Tiago continuou – Pense comigo – ele fez o ar pomposo que Remo sempre adquiria em suas explicações – se ela gosta de você e você gosta dela.

- Se ela quer você e você também a quer. – Frank imitou Tiago e aproximou os dois dedos indicadores.

- Rapaz, é só correr pro abraço! – Sirius completou abrindo os braços enquanto Frank simulava um beijo não muito decente com os dois dedos.

Eles riram.

- Tá. – Remo falou e seus amigos se levantaram para fazer a dancinha da vitória – Vou pensar.

- Aaaaaah! – Tiago esticou as mãos para o céu – Você pensa demais, Aluado!

Sirius pegou o amigo pela gola e levantou-o da cadeira.

- Quando voltarmos você vai agir como um homem, vai chegar nela, pegar ela de jeito e fazer tudo o que devia ter feito desde o 5º ano! – ele sacudiu Remo enquanto falava.

- Hey, Almofadinhas! Assim também não, né? Vai matar a garota com todo o amor acumulado do Aluado. – Frank exclamou e eles riram novamente.

- Eu sei, mas é que essa lerdeza do lobinho me faz querer partir pra agressão. – Sirius explicou soltando Remo e batendo nas costas dele num pedido mudo de desculpas.

- Bem, ele vai pensar. – Frank concluiu e lançou um olhar para a porta – Eu também vou pensar e como resgatar Licinha de lá.

- É. Estão demorando demais. – murmurou Tiago.

- Que tal se a gente entrar lá? – Sirius sugeriu.

- Ah, sim. E tomar uma surra aguada da Louis. Você 'tá é doido, Almofadinhas. – Remo retomou seu tom sarcástico e racional.

- Elas falaram pra não entrarmos. – Frank disse – O que podemos fazer é esperar.

- "Só mulheres". – Sirius imitou a voz de Louis – Qual é, isso não é o clube da Luluzinha!

- Sei lá, caras. Vai que é preciso fazer algo mais... Íntimo. – Remo ponderou.

Os outros três se sentaram e pareceram pensar no assunto. Levaram um susto quando a porta se abriu violentamente e Carl e Adam entraram.

- Onde está Mary? – Carl perguntou e Sirius se levantou como um cachorro quando ouve o nome chamado pelo dono.

- Pra quê? – ele respondeu perguntando.

- Onde estão Mary e Lílian? – Adam perguntou buscando obter mais êxito que o outro.

- Elas estão ali dentro, mas não podemos entrar. – Tiago informou, desinteressado.

- Ótimo, fiquem aí. – Adam falou e juntamente com Carl rumou para a porta. Podia-se ver sorrisos nos cantos dos lábios do dois recém-chegados.

- Ah, qual é? A gente não pode entrar, por que vocês dois poderiam? – Sirius perguntou no que pareceu mais um rosnado.

- Porque nós podemos e vamos ajudar. – Carl falou pondo a mão na maçaneta e, vendo que estava trancada, batendo na porta – Louie, somos nós.

A porta se abriu imediatamente.

- Entrem, entrem. Mary não conseguiu, preciso da ajuda de vocês. – Louis falou nervosamente.

- Cuide da Mary, Carl. – Adam ordenou enquanto seguia para o leito em que Lílian se encontrava.

- Eu pedi que vocês ficassem lá fora! – Louis exclamou.

- Se eles entram a gente também pode, não é? – Sirius perguntou sem tirar os olhos da morena de olhos azuis deitada no segundo leito, parecia desacordada.

- Tudo bem, mas façam silêncio, sim? – eles concordaram com a cabeça e fecharam a porta.

Saphyra e Louis se afastaram e encostaram-se à parede, observando os dois rapazes. Alice abraçou o namorado como um animalzinho acuado e fungou.

- Nós conversamos um pouco quando a achei. – falou Adam enquanto tirava o lençol que cobria Lílian – Acho que consigo sim. Ela confiou em mim, Louie.

- Acredito que sim. Espero que não tenha falado demais também. – Louis estava cansada – E você, Carl?

- Dou conta do recado, você sabe. – ele sorriu de modo triste para Louis e debruçou-se sobre o leito de Mary – Sinha... – ele chamou com a voz baixa – Apenas me diga onde. Mostre onde.

A reação foi a mais surpreendente possível para os garotos de Hogwarts. Mary começou a puxar o vestido para cima com um certo esforço e parou mordendo o lábio inferior.

- Tudo bem, já entendi. – ele sussurrou – Logo você vai estar boa, Sinha, eu prometo.

A garota moveu os lábios no que deveria ser um sorriso. Carl sorriu de volta, passou o dedo polegar na bochecha dela e subiu o resto da barra do vestido. Sussurrou algo e a meia-calça e as outras roupas que ela vestia sumiram deixando apenas as belas pernas amorenadas de Mary e a combinação curta.

- Qual. É. A. Dele? – Sirius perguntou baixo e enraivecido para Tiago.

- Não sei. Só espero que o Sparrow não resolva fazer o mesmo com Lilly. – Tiago falou levando a mão aos cabelos e, ao notar o movimento que faria, baixando-a imediatamente.

- Tem idéia de onde está, Saphyra? – Adam perguntou, nervoso.

Saphyra murmurou negativamente.

- Vou ter que procurar, então. – o jovem iniciou uma busca pelos braços da ruiva passando os dedos lentamente e murmurando palavras.

- Difícil. – comentou Carl enquanto ia para o outro lado da cama e começava a fazer o mesmo que Adam na perna direita de sua prima – Vamos Sinha... Mostre... Isso!

Carl sorriu quando uma pequena marca vermelho sangue aparecia na coxa direita da prima. Ele virou-se para Louis.

- Bom saber, não? – ele sorriu mais ainda. Sirius se perguntou qual era o motivo do sorriso do rapaz antes de voltar a olhar para a marca de Mary – E então Ad?

- Estou sentindo. – ele respondeu – Sei que estou perto.

Adam deslizou dois dedos pelo ombro de Lílian e balançou a cabeça, desceu para o colo.

- Você não acha que está indo longe demais, Sparrow? – Tiago soltou.

- Não sei do que está reclamando, Potter. – ele subiu novamente os dedos e pousou-os na nuca da ruiva – Aqui. – ele sorriu e olhou para Louis e Saphyra – Já estava pensando que não conseguiria achar.

- Fraco. – debochou Carl.

- Vou lhe mostrar quem é fraco daqui a pouco.

- Ora, Adam, haja mais e fale menos.

- Grande exemplo você está dando. – debochou Adam.

As faces de Sirius, Remus e Tiago iam de um para o outro como num jogo de tênis. Não conseguiam compreender nem metade do que eles diziam ou faziam e suas mentes trabalhavam freneticamente.

- Deixa-me cuidar da minha Mary, porque é mais lucro do que discutir com você. – Carl passou o polegar esquerdo por toda a marca na perna da prima três vezes, sussurrou o encantamento, pressionou levemente e o símbolo brilhou.

Foram três longos segundos em que ele se manteve daquela forma até que Mary apertou os olhos com força e respirou fundo.

- Já pode parar, Carl. – ela sussurrou.

- Sinha! – ele sorriu, quebrou o contato com a pele da morena e ajudou-a a se sentar com as pernas para fora da cama.

Ela sorriu fracamente de volta.

- Obrigada. Sempre você, não é?

- Não. Sempre você. – ele levou os lábios à testa da prima e fechou os olhos.

- Carl? Você exagerou, não é? – ela afastou seu rosto do dele e viu que as mãos dele estavam apoiadas firmemente na cama, uma de cada lado dela, como se fizesse um enorme esforço para se manter em pé – Ainda está visível. Dê-me a sua mão.

A morena pôs a mão esquerda do rapaz novamente sobre a marca em sua perna e dessa vez ela mesma sussurrou os encantamentos. A marca brilhou e ele ficou ereto.

- Não precisava, você sabe que me recupero fácil.

- Você não pode simplesmente me passar mais da metade da sua energia, Carl.

- Você está bem não está? – ela balançou a cabeça respondendo afirmativamente – Então valeu a pena.

Ela olhou para ele mais uma vez e seus olhos se fixaram. O azul dos dela no verde claro dos dele.

- Ah, que palhaçada é essa? – Sirius parecia prestes a explodir e suas unhas curtas já perfuravam a carne de sua mão – Vou acabar com isso. E quem ele acha que é pra ficar com a mão na coxa dela? Ontem ela me disse que ele merecia uma lição. Qual é a deles?

- Vai lá perguntar se ela 'tá bem, Almofadinhas. – Remo sugeriu pacientemente.

- É. É o que vou fazer. – ele resmungou e seguiu até o casal de primos.

Mary e Carl falavam baixinho um com o outro.

- Não se preocupe. Foi só uma discussão boba.

- Não, Sinha. Eu fui imaturo e idiota. Não queria tê-la magoado.

- Já disse que não foi nada. E se era, agora estamos quites. – ela sorriu e afagou o rosto dele – Amigos, como sempre?

- Sempre. – ele sorriu de forma apaixonada.

- Hem-hem. – Sirius pigarreou desconfortável – Vim ver como você está.

Mary sorriu abertamente e Carl resmungou algo parecido com "grande coisa" enquanto se afastava um passo dela.

- Estou bem, obrigada. – ela pulou da cama e se postou frente a ele.

Ele se aproximou mais dela.

- Você disse – ele baixou o tom de voz e Carl se afastou mais, dando privacidade aos dois – Você disse que ele merecia uma lição...

- Estávamos brigados, Sirius. – ela olhou para o primo que agora estava com Adam no leito de Lílian – Mas sempre fomos muito unidos. Quando precisamos é um com o outro que contamos.

- Estou vendo. O que ele fez na sua perna?

- Transferência de energia. Eu usei a minha para ajudar Lilly e enfraqueci. Nunca fui boa nisso, mas fui a Magus que mais se aproximou dela, com exceção de Louie. Louis não poderia tentar, claro, poria o equilíbrio da água em risco.

- Por que não pediram Tiago ou Alice?

- É uma mágica difícil e seria a primeira vez deles, não poderíamos arriscar. Adam é mais experiente e tem facilidade. Aposto como se deram bem logo de início. – ela sorriu de lado.

- Tudo bem. – ele deu de ombros – Você está mesmo bem?

- Vou ficar tonta às vezes, mas é normal. – ela sorriu pegando-o pela mão e puxando para a cama de Lílian.

Adam estava tendo muitas dificuldades em transferir energia para Lilly porque, aparentemente, ela havia fechado qualquer tipo de entrada de encantamento em seu corpo. Ele estava admirado pelo fato dela conseguir fazer aquilo mesmo tão frágil. Precisaria falar com ela. Mas com Potter o olhando daquela forma não iria se concentrar. Até parecia que estava fazendo mal à garota.

- Ela precisa se abrir para que eu entre. Está completamente fechada. – Adam informou.

Tiago achou aquela informação um total despropósito. Que história era aquela de Lilly se abrir pra ele entrar? Ele resmungou um "vai vendo" baixinho.

- Peça a ela. Funcionou com Mary, só que ela estava levemente consciente. – Carl sugeriu.

- 'Tá. – ele se abaixou próximo ao ouvido da ruiva – Lilly? Lílian... Você precisa confiar em mim e me ajudar a te ajudar. Vamos lá, por favor.

A ruiva não se mexeu.

- Se esforce Lílian. Basta ordenar a si mesma que permita a transferência. Será rápido e indolor, eu prometo.

Tiago se aproximou do outro lado da ruiva. Ela parecia tão frágil e ele nunca teve tamanha necessidade de ouvir seu nome da boca dela. Estava tão pálida que o que ele mais queria era vê-la corar com suas indiretas. Tão silenciosa e bela que chegava a ser doloroso vê-la daquela forma.

- Lílian... – ele sussurrou segurando a mão da garota – Sou eu, Tiago. – ele revirou os olhos – Como se você não soubesse, não é? Só o que você ouviu de alguns anos pra cá foi a minha voz. Talvez você me conheça melhor por Potter. Sei lá, Lilly. O apanhador do time da Grifinória que te enche a paciência há anos. Que te magoou. Mas já te pediu desculpas milhares de vezes. Vamos, melhore. Por favor, Lílian! Não me deixa nessa agonia. Você sabe como eu sou quando estou nervoso. Eu chuto coisas e brigo com Almofadinhas. E fico azarando o ranho...Snape. Ou qualquer infeliz que me torre a paciência. E agora que me descobri um Magus eu devo cuspir fogo também. – ele riu nervosamente e apertou a mão dela com força.

Os outros presentes viam aquela situação tão íntima e se sentiam constrangidos de presenciá-la. Aos poucos eles se afastaram da cama de Lilly e ficaram próximos à parede. Com exceção de Adam, que se mantivera do outro lado do leito, todos ouviam apenas murmúrios.

- Lembra quando você caiu da vassoura no terceiro ano? Ficou no hospital assim, sem falar comigo. Eu quase pirei, sabia? Estava me sentindo o pior dos amigos. Quer dizer, fui eu quem sugeriu que você voasse. Lílian Evans, como você me suportava? Como você me suporta, aliás? – ele umedeceu os lábios com a língua e engoliu a saliva – Lembro quando Remo levou montes de filmes trouxas e um vídeo cassete lá pra casa. Nós fizemos um gato no vizinho trouxa, sabia? E assistimos aos filmes. Num deles havia um cara que conversava com a esposa, ela estava ingoma. Ou insoma, não sei. Bem, ela não falava. Mas ele dizia que ela podia ouvi-lo e que ele ficaria ali dizendo o quanto a amava enquanto pudesse. Bonito, não? Acho que e o tipo de coisa meiga que as garotas gostam de ouvir. Lembra quando vimos aquele filme da garota chata que tinha câncer e do cara anjoado? Ele cismou com ela assim como eu cismei com você. E não sossegou até que ela cedesse. E ele fez aquelas coisas sem graças. Ou românticas, no seu ponto de vista. Bem, não importa o filme, importa que estou parecendo um idiota descontrolado aqui falando com você e você nem pode ouvir. E eu nem sei o que é ingoma. Ou se é assim que se fala. Sei que você parece estar ingoma, mas graças a Merlim não está com aqueles tubos horríveis no nariz. Aluado falou que era tecnologia trouxa. Assim como aquela caixa em que aparecem as imagens e sai o som. A tevelisão. – ele respirou profundamente – Você também tem uma tevelisão? Poderíamos ver muitos filmes melosos juntos se você melhorasse. Na tevelisão da sua casa. Ou da minha, tanto faz. Basta você dar uma ajuda para nosso amigo Sparrow aqui e deixá-lo transferir energia pra você. Faça isso, Lilly. E, como eu dizia há um ano atrás, você vai ter Tiago Potter só pra você.

- Ti. – Lilly falou num sopro.

Adam e Tiago ficaram de pé num pulo e o primeiro procurou novamente a marca na nuca dela. Disse os encantamentos após passar o dedo indicador três vezes sobre o símbolo e a marca cintilou.

- Lílian! – o sorriso de Tiago Potter nunca fora maior – Você me ouviu, meu lírio? – a mão dele ainda segurava a dela e começava a suar – Ela está mais quente. – informou – Vamos, Lilly. – os olhos da ruiva se abriram fracamente e Adam quebrou o contato com a marca dela.

- Tiago... – ela falou fracamente enquanto apertava a mão dele.

- Sim?

- Não é ingoma, é em coma. E também não é tevelisão, é televisão.

Ele conseguiu aumentar ainda mais seu sorriso e pulou sobre ela abraçando-a.

- Como é bom ter você me corrigindo como antes. – ele ajudou-a a se sentar depois de abraçá-la com força – Tudo bem?

- 'Tô bem melhor. – ela apertou os olhos e os abriu de novo.

- Você estava me ouvindo?

- Eu ouvi algumas partes. – ela encarou-o, incrédula, mas divertida. Tinha as sobrancelhas arqueadas, os olhos bem abertos e o canto esquerdo da boca levemente virado – Algo sobre Tiago Potter só pra mim, inclusive.

Ele olhou para baixo e passou a mão pelo cabelo rapidamente. Lílian Evans achou aquele gesto extremamente fofo e buscou não deixá-lo envergonhado.

- Então, pessoal, sentiram minha falta? – ela falou, virando-se para os outros.

- Fico feliz que tenha voltado, ruiva. – Sirius falou, brincalhão.

- Pontas quase teve um filho, aliás. – informou Remo, no que Tiago lançou-lhe um olhar assassino – Não adianta fazer essa cara, você não teve um treco porque nós o distraímos.

- Alice também quase morreu de preocupação. – Frank falou, ainda abraçado à loira, que fez que sim com a cabeça.

- Ora, Licinha, você acha que eu a deixaria sozinha nessa loucura? – Lílian pôs os dois pés no chão, apoiada em Tiago.

- Ok, eu só tive medo. – Lice falou timidamente – Ah, caramba, eu não sei o que faria sem você, Lil! – ela se soltou do namorado e abraçou a amiga – Você é minha mãe, minha irmã, minha amiga, minha tudo!

Lilly sorriu e conseguiu manter-se de pé para abraçar a amiga.

- Também te amo, loirinha. – elas se soltaram e Lilly se virou para Adam, depois de dirigir um sorriso para Saphyra e Louis – Meu herói?

- Não gosto dessa designação. E não fui eu quem a curei, foi Tiago. – ele lançou um olhar para o referido rapaz – Sou o segundo no ranking de importância aqui.

Adam preferiu não demonstrar sua insatisfação de ter alcançado apenas o segundo lugar.

- Mesmo assim, obrigada. – a ruiva disse simpaticamente.

- Foi um prazer, Lilly.

Craque. Philip e uma medibruxa aparataram sobre o leito em que Mary estivera e o primeiro sorriu vitorioso.

- Eu disse que conseguiria. – Phil falou risonho enquanto a moça lhe mandava um olhar de desgosto – Vamos, Sandra, não foi tão ruim. E você sabe que não me impede de fazer o que quero.

- Claro, esqueça. Faça o que quer então, mas não me procure se deslocar o ombro novamente. – ela desceu da cama e cumprimentou todos para depois ajudar o seu "paciente impaciente", como ela o denominou, a se levantar.

- Então, Lílian, soube que andou deixando muitos Magus malucos de preocupação nas últimas horas.

Houve um murmúrio de confirmação à fala de Philip no quarto.

- O que aconteceu? – ele continuou.

- Bem... – ela pigarreou, pouco à vontade – Eu acordei e assustei o pessoal mais cedo, falei para eles voltarem a dormir e assim eles fizeram. Só que eu não consegui, estava com muita fome e sabia que não poderia comer nada na mesa da nossa suíte. Levantei e saí à procura da cozinha. – ela se sentou sobre a cama com a ajuda de Tiago – Encontrei uma elfa doméstica que me fez uma ceia maravilhosa na cozinha do castelo e... E voltei a procurar os meus aposentos. – ela lançou um olhar para Adam, ele se manteve impassível à omissão da ruiva – Então, me perdi e Adam me encontrou. Tive uma pequena tontura e fomos andando vagarosamente até meu quarto depois que ele avisou que havia me encontrado. Conversamos um pouco e de repente eu desmaiei.

- Eu fiquei muito nervoso. – afirmou Adam – Comecei a chamá-la e Potter aparatou bem próximo de nós. Trocamos algumas palavras e fomos até o quarto deles.

- Sparrow me deixou lá e eu, Remo, Sirius, Alice, Frank, Louis e Paul esperamos alguns minutos para que Lílian acordasse, no entanto, ela não acordou. – Tiago prosseguiu – Louis usou alguns encantamentos e resolveu trazê-la para cá e chamar Saphyra. Entrou no quarto e nos deixou lá fora. – ele lançou um olhar resignado para Louis no que foi acompanhado pelos três amigos.

- Mary tentou lhe transferir energia, mas não conseguiu. Chamei Adam e Carl. – Louis prosseguiu sem se importar com a expressão indignada de seus visitantes – Carl reanimou Mary e Adam não conseguia reanimar Lílian, ela o estava bloqueando. Tiago conversou com ela, que voltou à consciência e desbloqueou a entrada do encantamento de Ad. Foi isso.

Philip sorriu, matreiro.

- Como se sente? – perguntou.

- Ótima. Pronta para outra. – os amigos lançaram-lhe olhares repressores e ela sorriu envergonhada – Vou tomar mais cuidado, prometo.

- Ótimo. Acredito que devo minha vida a você. – Phil disse se aproximando de Lílian, se ajoelhando com um gemido e jogando os cabelos ruivos cheios e repicados para trás – Meus agradecimentos.

- Não faça isso, sr. Straws! – Lílian levantou-o com algum esforço – Nem sei como fiz aquilo.

- Não importa. Você fez, não é? – ele sorriu, carinhoso e ela viu os olhos dele brilharem e reparou: eram iguais aos dela.

- Fiz. Acho que fiz. Nesse caso, bem, estou a disposição. – Philip riu.

- Ótimo, ótimo. O mesmo no que me diz respeito. E por favor, Lílian, não me chame de "senhor Straws", sou Philip. Phil para você.

Ela confirmou e eles iniciaram uma discussão sobre o que fariam.

- Bem, eu tenho uma descoberta para contar a vocês. – Mary falou e, ao notar todos os olhares em si, prosseguiu – Quando eu estava procurando Lílian no salão de festas do andar do vento eu senti presença de magia e... Acho que encontrei o portal que leva vocês à sua escola.

Houve um alvoroço geral entre os alunos de Hogwarts.

- Porém – começou a morena, novamente – Acredito que se vocês forem, o portal se fechará – ela fez uma pausa enquanto ponderava e lançou um olhar de esguelha para Sirius – para sempre.

O silêncio invadiu o recinto.

- Isso me leva a crer – ela prosseguiu olhando para os presentes – que, para que o portal não se feche, vocês terão que levar algum de nós. Assim haverá alguém do passado no futuro e o portal não se fechará.

O cômodo explodiu em suspiros de alívio e logo depois, em opiniões.

- Pessoal, vamos nos organizar. – disse Lílian sobrepondo a voz dos outros e todos silenciaram – Temos que voltar para Hogwarts. Vão dar por nossa falta em algum momento, isso se já não o tiverem feito.

Murmúrios de concordância foram ouvidos.

- Por outro lado. – Tiago continuou – Temos um compromisso com Insula Magus. E, pelo menos eu, irei honrá-lo.

Mais murmúrios de concordância.

- Como vamos fazer, então? – perguntou Alice.

- Podemos levar alguns Magus para Hogwarts. – sugeriu Sirius – Assim podemos manter nossas vidas e ajudar aqui.

- Como vamos aparecer com pessoas desconhecidas no colégio? – questionou Frank.

- Vamos conversar com Dumbledore. Tenho certeza que ele encontrará uma solução para a nossa vida dupla. – Remo falou – Sei que podemos facilmente misturá-los com os alunos.

- Dumbledore não negaria aprendizado a ninguém, mesmo que viesse de séculos antes. – Tiago ponderou – É. Pode ser.

- Em todo caso. – Sirius falou e olhou para Mary – Vocês vão conosco.

- Sim. Não vamos deixar que o portal se feche. – Tiago disse – Não é?

Os amigos concordaram.

- É. – Lílian falou depois de um tempo em silencio – A questão agora é: quem vai?

- Não vi tanta importância nisso. – Tiago disse.

- Ah, claro que não. Tiago, estamos falando de ir para uma sociedade completamente diferente enquanto se tem uma guerra em sua própria sociedade. – Lílian argumentou.

- A preocupação não é essa. – Louis interrompeu, finalmente – Os rebeldes não vão atacar, estão temerosos. Agora que sabemos o que eles querem, as esferas, sabem que tomaremos cuidado especial com a esfera que nos resta. Eles não atacariam sem uma grande estratégia e um bom treinamento. – ela suspirou profundamente – A minha preocupação é o quanto isso pode atrapalhar vocês.

- Não vai nos atrapalhar. – Sirius disse prontamente – Podemos tranqüilamente estudar, tomar conta dos nossos "intercambistas" e treinar magia Magus.

- Pode ser. – comentou Remo – Temos obrigações de monitores, deveres de casa e milhares de desculpas para inventar.

- Qual é, Aluado? Não quer que eles... – Sirius reclamou no que foi interrompido.

- Claro que quero, só acredito que devamos pensar em todas as possibilidades, em todos os fatos e chegar à melhor solução.

- Ele está certo. – Mary falou jogando os longos cabelos para trás – Devemos ser francos.

Mary olhou para os presentes e parou em Louis, como que perguntando o que ela achava.

- Sim... Se vocês acham que podem fazer isso, tudo bem. – Louis falou – Quem se dispõe a ir?

- Eu, se papai deixar. – Mary falou.

- Eu também. – Adam disse.

- Com certeza. – afirmou Carl.

- Susie também vai querer. – Mary disse.

- Se mais alguém se interessar pode ir durante a noite para conhecer. – Alice disse.

- Sim. Mas apenas com aviso prévio. Deixe seu espelho aqui, Tiago. – Remo sugeriu – Poderemos manter contato e marcar "visitas".

- Estamos realmente contando com a possibilidade do professor Dumbledore resolver nosso problema, não é? – Lílian disse no que seus amigos concordaram – Então vamos para Hogwarts esta tarde.

- Não é muito rápido? – perguntou Saphyra, preocupada.

- Imagina: temos que conseguir uniformes, varinhas, autorizações e explicar muitas coisas. – Remo enumerou.

- E vamos ter que arranjar lugares para eles ficarem. – Frank lembrou.

- Vão ficar na Grifinória, claro. – Sirius disse.

- Tenho certeza que podemos aumentar os dormitórios para que caibam mais duas pessoas cada um. – Tiago sentenciou – Vai dar tudo certo. Faremos todos o sétimo ano da escola de magia e bruxaria de Hogwarts.

- E matricularemos eles nas mesmas aulas que nós. – Alice disse.

- Eu sugiro que quem tiver menos responsabilidades fique "responsável" por Mary, Susie, Carl e Adam. – disse Phil.

- Sirius pode ficar com Mary quando as meninas não puderem. – sugeriu Tiago – Ele não faz nada além de ir à aula e jogar quadribol, e eles já se entenderam de certa forma.

- Natalie e Eve vão gostar de ajudar Carl e Adam. – Lílian disse – Posso ajudar também.

Phil cochichou algo no ouvido de Louis.

- Visto isso, tenho uma coisa para perguntar. – Louis falou em tom de voz baixo.

- O que é, Louie? – Alice perguntou.

- Vocês estão interessados em se tornarem Magus? Em fazer as aulas, experimentos, treino, provas e tudo o mais para aprender sobre a magia Magus? Se tornarem verdadeiros guerreiros Magus de corpo alma e coração?

- Acredito que falo por todos quando digo que sim. – Remo falou de imediato.

- Certo. Essa situação ainda vai durar muito tempo aqui na ilha, poderemos treiná-los melhor e ensiná-los o que aparentemente seus ascendentes mais próximos não puderam ensinar. – ela concluiu.

- Podem nos explicar como funciona o espelho? – Phil sugeriu.

Tiago e Sirius ensinaram a eles como usar o espelho de duas faces e utilizaram o objeto para contatar Pedro e avisar sobre as recentes decisões. Quando terminaram de discutir estavam todos com fome e bastante ansiosos.

Depois de um almoço reforçado e tranqüilo, algumas piadas e visitas de outros parentes excêntricos, eles se encontravam prontos para partir.

Todos estavam parados no salão maior, esperando que Mary mostrasse o portal a eles.

A morena deu um passo à frente e ergueu a palma da mão, lá, surgiu uma espécie de pó prateado e ela jogou-o para o alto.

Por um instante o pó contrariou a lei da gravidade e ficou parado no ar, no entanto, logo depois, se agrupou junto à parede mostrando uma espiral de um fluido azul prateado com cerca de um metro de diâmetro.

- Vos apresento: o Portal. – Mary disse de modo orgulhoso enquanto todos observavam o fluido mover-se como o líquido de uma penseira.

- Eu vou primeiro. – anunciou Remo – E sugiro que depois vá alguém daqui para que tenhamos certeza de que está tudo certo.

Todos concordaram e ele entrou no Portal, primeiro os braços, depois a cabeça, e, dando um impulso com os pés, todo o seu corpo desapareceu.

- Eu vou. – Adam disse e, depois de trocar um olhar com Phil, imitou Remo.

- Agora eu e Frankie. – Alice disse enquanto puxava o namorado pela mão e entrava no Portal.

- Vamos acabar logo com isso. – Carl falou enquanto olhava de relance para Mary e repetia o que o amigo fizera.

- Vem Susie, nossa vez. – Mary disse depois de beijar as faces do pai e da mãe – Quando os garotos chegarem diga que mandei um beijo e que ficarei bem. Verei a todos em breve. – os pais assentiram.

Mary pegou a prima pela mão e as duas mergulharam no abismo do Portal.

- Nos veremos em breve. – Lilly se despediu no que foi imitada por Tiago e eles entraram no portal.

- Sirius – Samuel chamou e o rapaz olhou para ele – Cuide de Mary para mim.

Sirius meneou a cabeça em concordância e sorriu de leve. Sabia que não era um pedido, era uma ordem e ele estava plenamente disposto a cumprir. Ainda com a expressão séria, ele entrou no portal e sentiu o fluido gelado passar por seu rosto e corpo. Girou no breu do interior do portal e caiu de pé no chão da sala secreta.

- Dez novamente. Ninguém se perdeu, então. – Remo falou aliviado – Vamos até Dumbledore?

- É melhor. – Tiago falou – Espero que não encontremos ninguém no caminho, essas roupas de vocês vão chamar muita atenção.

- Ora, Pontas, obliviate serve pra quê? – Sirius sorriu de modo safado e seguiu para a primeira portinha redonda, levando Mary e a prima consigo e ajudando-as a entrar pela passagem.

Eles caminharam rapidamente pela passagem e seguiram para as gárgulas que guardavam o escritório do diretor.

- Maravilha. – disse Frank – Qual é a senha?

- Das trezentos e cinqüenta e sete bilhões de vezes que viemos pra cá eram nomes de doces. – Sirius informou.

- Vamos ficar aqui falando nomes de doces? – Alice perguntou – Quem sabe eu não deva buscar um folder da Dedosdemel?

- Vai demorar. A gente precisa de sorte. – Tiago falou.

- Feijoesinhos de todos os sabores, sapos de chocolate, canetas de açúcar, tinteiro de menta... – Sirius começou a dizer.

- Vocês não queriam um doce quando foram parar em Insula? – perguntou Mary.

- Sim. Lilly queria borboletas de caramelo. – Remo respondeu e a gárgula saltou para o lado.

A enorme escada rolante que levava ao escritório começou a girar.

- Bingo, Mary! – Sirius exclamou enquanto saltava para a escada e era seguido pelos amigos.

- Espero que ele não se importe de não marcarmos hora. – comentou Lilly, pensativa.

- Dumbledore é legal, Lílian. – Tiago falou.

- É a melhor pessoa que conheço. – Remo acrescentou.

- Aposto que vai, inclusive, achar divertido. – Sirius comentou, já aproximando-se da porta e batendo três vezes na mesma.

Alguns segundos se passaram e eles ouviram passos do outro lado, uma porta de armário sendo aberta e depois fechada, e novamente passos. A porta foi aberta e um alto homem com uma grande barba branca, óculos em meia lua e vestes roxas pôde ser visto pelo grupo.

- Ora, ora. Pensei que não viriam. – ele disse com sua voz rouca e grave, o olhos azuis brilhando astutamente – Entrem, entrem, suponho que tenham uma boa história para contar, estou ansioso.

Ele deixou a porta aberta e seguiu para trás de sua escrivaninha, onde se sentou e conjurou mais cadeiras. O bruxo balançou a varinha e fez dois bules fumegantes aparecerem sobre sua mesa juntamente com onze xícaras róseas.

- Não é nada elegante deixar um velho curioso como eu esperando. – ele comentou enquanto pegava o bule de chá e servia. Quando terminou, mirou os jovens estupefatos à sua porta com atenção, e pronunciou amavelmente: – Chá ou café?

Continua...


Olááá! Bem, sei que faz um tempão que não apareço por aqui mas a culpa é toda do cara inútil que corrige a fic (vulgo: beta) e da minha mudança de cidade.

Então, esse capítulo não é lá uma grande recompensa pela demora, mas... Bem, agora vai ter um pouco menos de adventure/action, já que eles estão em Hogwarts e não podem dar bandeira quanto à magia Magus. Mesmo assim, espero que gostem.

Às novas leitoras: Sejam muuuuito bem vindas!

O cap oito está pronto, no entanto tem que esperar a boa vontade do supra citado pra poder postar, logo... bem, vocês entendem. Acho.

Feliz Natal, Feliz Ano Novo, atrasadíssimo pra todos.

Ah! Vou responder as reviews por e-mail hoje, com exceção da Nina Black (achei seu nick tãão fofo).

Nina, Eu REALMENTE demorei a atualizar mas, bem, atualizei, né? Que bom que você gostou. O mundo bruxo antigo devia ser assim, apesar de que os Magus são um pouco especiais por assim dizer. Adoração à natureza é algo inspirado nas nossas antigas civilizações, achei que seria interessante. Pode chamá-los como quiser (incluindo perfeitilindos), eu também adoro cada um deles. Mais uma vez obrigada e... que achou desse? Se você não tiver, faz uma account no pra receber atualização por e-mail, é bem útil. Um beijão.

Um grande beijo,

Diana.