Levi levanta-se cedo na manhã de sexta feira, vivendo o habitual desagrado da sua vida por alguns segundos antes de se lembrar. Olha para o tecto no brilho âmbar da madrugada que entra pelo quarto através de uma fresta nas cortinas e sorri, pela primeira vez em anos sorri por nenhuma outra razão, apenas por ser o que é, livre de pelo menos uma coisa. Levanta-se rapidamente da cama, vestindo as calças e sentindo a navalha de Erwin ainda no bolso, uma segurança, apesar de todo o seu historial de violência. Ao sair, encontra Farlan na sala escrevendo atarefadamente algo que parece ser uma carta; ele cobre a página assim que repara em Levi, olhando para ele com ansiedade cravada no rosto.

- Não conseguia dormir - diz ele a Levi desnecessariamente, dobrando o pedaço de papel e deslizando-o pelas páginas de um caderno familiar enquanto Levi se senta no cadeirão andrajoso junto à secretária.

- Vai correr tudo bem - diz Levi, de forma igualmente desnecessária, e Farlan apressa-se a acenar.

- Sim, eu sei - concorda num murmúrio. - É só que... Bem, desde que viemos para Dresden eu nunca estive mais do que alguns quilómetros fora deste apartamento.

- Eu sei - diz Levi baixinho. - É estranho pensar no mundo lá fora, até para mim.

Ficam em silêncio, Farlan olhando para o seu caderno e soltando de repente uma gargalhada. - Pensar que eu queria viajar pelo mundo antes disto tudo. Mais do que tudo, queria sair daqui. Itália, Argentina, Egipto, Grécia... - As palavras dele dispersam-se e ele ri de novo de forma amarga.

- Ainda há tempo para tudo isso - diz Levi; não se sentia tão esperançoso e tão cheio de vida desde a sua missão com Erwin. - Se o que o Erwin diz for verdade, se a guerra está mesmo a acabar, poderemos ser livres de poder fazer o que quisermos de novo não tarda. Lembras-te do que dissemos, sobre regressares à universidade e a Isabel trabalhar numa quinta. Tudo isso ainda pode acontecer.

Farlan suspira e encolhe os ombros. - Então e tu? - pergunta, hesitante. - Se a guerra acabar, o que é que vais fazer?

Levi pondera a questão de novo por um momento, tenta imaginar a sua vida além da duração da guerra, mas ainda é difícil pensar nas coisas a mudarem muito; afinal, não foi a guerra que fez as pessoas desprezar os judeus, esse ódio estava lá muito antes do exército alemão atravessar quaisquer fronteiras. A ideia de ficar na Alemanha não é reconfortante, mas sair também não parece uma opção muito melhor, ainda que a súbita ideia de Inglaterra lhe atravesse a mente sem ser convidada. Por um segundo, Levi chega até a imaginar-se regressar a Berlim e recuperar a pequena loja que Kenny costumava ter, mas algo nisso não lhe parece muito certo. Questiona-se se todo este sonhar acordado é mais fácil para Farlan e Isabel porque eles estão habituados a ter mais oportunidades; mesmo quando era criança a viver com Kenny, Levi nunca se conseguia ver a fazer muito mais da vida.

- Não sei - é forçado a admitir. - Pergunta-me de novo quando a guerra acabar.

- Certo - concorda Farlan após atirar a Levi uma amostra de sorriso e regressar ao seu caderno. - Quem sabe? Talvez consigas continuar a trabalhar para o Sturmbannführer.

- Porque é que haverias de pensar nisso? - pergunta Levi, franzindo o sobrolho à frase enquanto Farlan encolhe os ombros de novo.

- Só achei que poderias gostar - explica ele brevemente, mas Levi consegue detectar um novo tipo de tom na voz de Farlan. - Já que tens gostado tanto até agora.

Levi tenta não elaborar a ideia, não só pela sua estranheza mas também porque se lembra subitamente de um dos oficiais nazis a perguntar sobre os britânicos terem empregados masculinos, ao que a resposta de Erwin fora 'E o que fazem com eles fica à imaginação de cada um'.

- Tens razão - diz a Farlan ainda assim; o homem olha para cima, surpreendido. - Tenho gostado até agora.

O outro homem lança-lhe um longo olhar antes de regressar à sua escrita, e Levi interroga-se se ele esperava que Levi o negasse, o prazer que tem ao trabalhar para Erwin. É-lhe óbvio que Farlan está a interpretar a ligação deles como mais do que o necessário, mas as suposições enganosas não o incomodam nem de perto o quanto ele acharia que incomodariam; afinal, o que Farlan acredita é problema dele. Ao levantar-se, Levi consegue apenas distinguir as palavras 'Querido Christofer' no cimo da página onde o homem está a escrever, apercebendo-se que já se passaram anos desde que Farlan enviara alguma carta.

O resto da manhã parece passar sem que Levi se aperceba bem do tempo; Isabel acorda por volta das nove e começa a tratar das coisas que decidiu levar, uma muda de roupa e a colecção de recortes de jornal sobre submarinos, que Levi guarda na mochila gasta que da última vez enchera com os seus escassos pertences na noite em que deixara Berlim. Escolhe algumas roupas para si e guarda-las com as de Isabel, que está a rir alto para a pequena mala de viagem de cabedal de Farlan que, comparada com o saco de pano andrajoso de Levi, parece elegante e formal.

- Os meus pais compraram-ma no meu décimo oitavo aniversário - diz ele a Isabel. - Duvido que eles imaginassem que eu a fosse usar para isto.

- Para ir de férias? - pergunta ela de seguida e ele ergue o olhar, confuso.

- Desculpa - responde, voltando-se para a mala. - Estava a pensar noutra coisa.

Ele retira-se para o quarto depois do almoço enquanto Levi começa a lavar a loiça e Isabel desce as escadas para se despedir da Frau Gernhardt e de Bruno e Hanna, e quando Levi entra trinta minutos depois, encontra o homem à frente de um espelho com uma escova e uma bacia com água, tentando pentear as madeixas mais longas de cabelo que lhe caem à frente dos olhos, sem sucesso. Quando ele vê a expressão desnorteada de Levi através do espelho, larga a escova e suspira.

- O que foi? - atira, e Levi encolhe os ombros quase na defensiva.

- Não disse nada - nota ele, mantendo o tom neutro. - Só me fez lembrar que o meu cabelo está a ficar um bocado comprido. Se eu levar a tesoura importavas-te de mo cortar enquanto lá estamos?

Farlan olha para o seu reflexo durante um momento antes de suspirar profundamente. - Mais vale fazê-lo agora - decide. - Vou estar demasiado nervoso depois. Provavelmente ainda te cortava a orelha.

Tira a tesoura de metal para cabelo da gaveta do lavatório e Levi puxa uma cadeira e uma tesoura, sentando-se no quarto onde a luz é melhor. Farlan penteia-lhe o cabelo gentilmente antes de o dividir ao meio e pegar na tesoura, cortando e acertando as pontas sem esforço antes de começar a rapar a nuca.

- Alguma vez pensaste em fazer disto uma profissão? - pergunta Levi ao homem, que resfolega.

- Gostaria de pensar que as minhas aspirações sempre foram um pouco mais elevadas do que isto - diz de forma quase azeda. - Não fui para a universidade para me tornar num barbeiro, sabes.

- Parece-me tão bom como outra coisa qualquer - resmunga Levi enquanto o outro homem lhe inclina a cabeça para a frente e para o lado para alcançar os tufos de cabelo atrás das orelhas, escarnecendo baixinho sem dizer mais nada.

Ouve a porta da frente fechar-se e Isabel entra a correr, saltando para a cama com os sapatos calçados e deitando-se de barriga para baixo para os ver e recuperar o fôlego. Está a comer uma fatia de pão, uma prenda da Frau Gernhardt sem dúvida, e a cara está a brilhar de excitação quando pergunta que horas são, fazendo Farlan praguejar quando a tesoura escorrega e alguns cabelos mais longos caem devagar para o chão.

- Desculpa - murmura para Levi, que lhe responde com um grunhido.

- O Erwin está quase a vir buscar-nos? - pergunta Isabel agora, e parece estranho a Levi que ela tratasse o homem pelo nome, apesar de não saber bem porquê.

- Só daqui a umas horas - diz-lhe Farlan, soando irritado. - Pareces-te mesmo com a Hanna e o Bruno quando perguntas isso.

Isabel faz uma careta antes de se voltar para Levi. - O casebre é grande, mano? - pergunta-lhe ela e ele abana a cabeça com cuidado, fazendo ainda assim Farlan cacarejar em desaprovação.

- Vamos levar umas duas horas de carro talvez - explica. - Estás nervosa?

Ela abana a cabeça vigorosamente. - Já estive muito mais longe do que isso - diz antes de a expressão se tornar distante; é algo que Levi aprendera a esperar quando ela fala sobre o passado e não lhe faz mais perguntas sobre isso.

- Suponho que seja bom que nenhum de vocês esteja - Farlan resmunga quase mais para si enquanto se move para o outro lado da cabeça de Levi.

- Vai ser tão bom - diz Isabel, apoiando o queixo nas mãos. - O Erwin disse-me que há uma quinta lá perto. Disse que me pode levar lá para ver os animais se eu quiser.

- Disse? - pergunta Levi, surpreso, e Isabel acena de novo, rebolando para ficar de costas.

- Estava a pensar em perguntar se eles teriam trabalho para alguém como eu - diz-lhes ela. - Não para agora agora mas para depois, quando a guerra acabar. Este é um sítio tão bom para viver.

- Porque é que gostas tanto de quintas? - pergunta-lhe Farlan mal disposto. - Os meus pais levaram-me a uma quinta quando era mais novo e tudo o que me fez foi dar comichão no nariz e os olhos lacrimejar.

- Eu gosto de estar ao pé de animais - respondo Isabel de forma sonhadora. - Não são como as pessoas. Nunca te magoam se os tratares bem.

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As horas seguintes passam num género de antecipação ansiosa com Farlan a andar agitado pelo apartamento e Levi e Isabel tentando imaginar qual será o destino mais provável deles num mapa de Dresden e arredores. Seguem o Elba com os dedos, espreitando as linhas de estradas nas suas margens, encontrando pontos de referência e perguntando-se se os conseguiriam ver das janelas do carro na viagem. Levi deixa a mente apanhar alguma da excitação de Isabel e sem considerar a missão que se aproxima começa a sentir-se entusiasmado com isto, a sua primeira viagem de sempre ao campo, um género de férias como deve ser, do tipo que ele nunca pensou que pudesse experienciar.

Quando finalmente ouvem bater à porta, Isabel salta da cama e corre para a abrir, cumprimentando Erwin alto quando este entra, sem chapéu mas a envergar o uniforme cinzento. Pela primeira vez Levi não se incomoda muito, apercebendo-se de como isto deverá parecer aos vizinhos, ainda que consiga sentir através do remexer de Farlan na sua mala que não sirva de nada para apaziguar os nervos do homem. Levi atira a mochila sobre o ombro antes de trancar a porta e seguir os amigos pelas escadas. Encontra-se com Erwin no segundo andar onde ele parara à sua espera.

- Cortaste o cabelo - diz o homem baixinho, mas as palavras ainda ressoam pelo patamar.

Levi passa os dedos pelo cabelo quase rapado da nuca sem dizer nada, recordando-se de como a memória de Erwin funciona, cada detalhe gravado na perfeição, como uma fotografia na sua mente. Sentindo o cabelo hirsuto sob os dedos, Levi lembra-se de repente e enfia a mão no bolso, entregando hesitantemente a navalha ao homem, sentindo-se por algum motivo relutante por a largar.

- Tirei-a do teu lavatório na terça feira - admite enquanto Erwin olha para ele, perplexo. - Acho que me fez sentir um pouco melhor com aquilo tudo.

- Perguntava-me onde ela tinha ido parar - diz o homem, alterando o peso sobre os pés. - Já fui comprar uma nova. Devias ficar com ela.

- A sério? - pergunta-lhe Levi, passando o polegar pelo punho de imitação de marfim.

- Não é uma herança de família - responde Erwin com um sorriso, fechando a mão à volta da de Levi por um instante, quente e grande contra a sua. - Além disso, assenta bem na tua mão.

Levi acena ao homem sem dizer uma palavra antes de voltar a guardar a navalha e descem o resto das escadas em silêncio, emergindo para a entrada do prédio soalheira e quente onde Erwin deixara um carro; Levi reconhece-lo da sua primeira missão e deseja poder perguntar ao homem a quem o carro pertence. Isabel e Farlan estão parados junto da bagageira, e Erwin aproxima-se para a abrir, ajudando-os com as malas antes de entrar no carro. Seguem-no rapidamente, Levi sentando-se à frente enquanto Farlan e Isabel se esgueiram para o banco de trás. Quando olha para cima para o prédio, Levi vê várias caras a espreitá-los através de cortinas afastadas e acena-lhes em reconhecimento, fazendo os vizinhos coscuvilheiros desaparecer - todos menos a Frau Niemeyer, que o fixa em retorno mas não lhe devolve o cumprimento.

Quando Erwin gira a chave na ignição por fim Isabel mal consegue estar quieta e as mãos de Farlan estão a agarrar os joelhos com tanta força que Levi fica surpreso por não ouvir os ossos estalar sobre o rugido do motor enquanto eles descem a rua e seguem para a cidade. Levi acompanha as casas a flutuarem na sua janela, protegendo os olhos do sol da tarde, sem ter a certeza como ou quem ser perto de Erwin e dos seus amigos. A única que parece estar completamente certa de si própria é Isabel, que continua a apontar para edifícios e perguntando para que servem, contente com as explicações que Erwin está aparentemente feliz por lhe dar por entre mudanças de engrenagens e de direcção. Tanto quando Levi saiba, Farlan não disse uma palavra desde a chegada do homem, e pelo seu comportamento Levi pode apenas presumir que ele tencione manter as coisas dessa forma.

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Mal se afastaram cinco quilómetros da cidade quando encontram um posto de controlo, uma pesada viga apoiada em postes com dois jovens soldados de guarda, as espingardas apoiadas contra uma pequena cabine enquanto eles pontapeiam uma bola de futebol. Erwin trava o carro e acena aos soldados antes de se voltar para Isabel e Farlan, cujas caras se tornaram brancas.

- Volto já - diz-lhes calmamente, parecendo quase alegre. - Chamo-vos se houver necessidade.

- Ok - concorda Isabel de imediato enquanto Farlan mal consegue dar um fraco aceno.

Levi vê Erwin sair do carro e caminhar para os soldados, que tinham parado de jogar e, ao verem o uniforme do homem, se voltaram para ele em continências idênticas, que Erwin ignora de forma quase despreocupada. Tira a sua cigarreira do bolso e acende um cigarro, oferecendo o resto aos outros homens, ambos aceitando com prazer. Levi mal consegue ouvir a conversa com a respiração pesada de Farlan e a inquietação de Isabel. Erwin parece estar a expressar a sua solidariedade para com os soldados por terem sido colocados aqui quando poderiam estar a beber cerveja e a namoriscar raparigas na Alberstadt. Eles concordam hesitantemente, ganhando coragem com a graceja.

- É o mesmo com aquele - diz Erwin, acenando para o carro. - O loiro no banco de trás, o filho da minha prima. Disse-lhe que o levava ao campo, ensinar-lhe a atirar antes de o enviarem para a frente.

- Estou a ver. Ele vai em breve, então? - pergunta um dos soldados, espreitando para o carro e acenando com a mão desleixadamente, um gesto que não obtém resposta de nenhum deles.

- Segunda - grunhe Erwin, fumando longamente antes de expirar devagar. - Disse à minha prima que ele estaria melhor a embebedar-se e a despejar os tomates numa tipa qualquer mas ela não quis ouvir nada disto.

Os soldados trocam olhares e riem de forma quase incrédula, como se mal acreditassem que um oficial dissesse tais coisas, especialmente na presença do que Levi supõe serem soldados de infantaria de baixa patente.

- Jesus Cristo - murmura Farlan entre dentes no banco de trás e Levi volta-se para o mandar calar baixinho.

- Vocês dois sabem do que estou a falar, não sabem? - pergunta Erwin aos soldados, ambos que se apressam a acenar.

- Oh, sim. Claro - confirma um deles, expirando uma nuvem de fumo. - E concordo consigo, senhor, ele estaria muito melhor assim. Vão ensinar-lhe a disparar para onde ele vai, lá isso vão, mas mulheres... Bem, não é provável que ele vá ver muitas para aqueles lados.

Erwin concorda com um curto aceno. - Será um triste dia para as senhoras de Dresden quando eu abandonar a Personalhauptamt, posso garantir-vos isso.

- Está na Personalhauptamt, Herr Sturmbannführer? - pergunta um dos soldados e Erwin grunhe de novo de forma arrogante.

- Ainda que tenha de admitir que já estou farto de trabalhos confortáveis de secretária - confessa-lhes e continua a fumar. - Vai saber melhor ter uma arma nas mãos de novo em vez de uma caneta. Mas sabem como é, vamos para onde somos precisos e fazemos o que nos mandam. Não é assim?

Os soldados acenam com entusiasmo em acordo com as palavras enquanto ele dá uma última grande passa no cigarro e antes de o deixar cair no caminho de terra batida e o esmagar com a bota. Então, suspira quase exausto e tira a cigarreira de novo, oferecendo-a aos soldados uma segunda vez.

- Vamos, mais um para o caminho - diz-lhes ele e ambos tiram um hesitantemente. - Tenho tanta pena de vocês desgraçados aqui.

- Obrigado, Herr Sturmbannführer - dizem em coro enquanto Erwin lhes acena uma última vez antes de regressar ao carro, parando de repente antes de abrir a porta, a mão no bolso de novo.

- Rapazes, quase me esqueci de vos mostrar os meus papéis - diz, dando alguns passos na direcção dos soldados até um deles acenar com a mão.

- Está tudo bem - diz ele do posto. - Pode passar.

Erwin acena em agradecimento antes de entrar no carro e ligar o motor, conduzindo devagar pelo entrave, ganhando velocidade assim que chegam à estrada. Levi dá um longo suspiro de alívio, notando no cheiro a fumo de cigarro que o homem trouxera consigo.

- Se ao menos fosse sempre assim tão fácil - murmura Erwin ao virar para uma estrada mais pequena. - Provavelmente conseguiria levar-vos até ao Canal.

Levi olha para ele antes de se virar para Farlan e Isabel. - Vocês estão bem? - pergunta baixinho, dando um sorriso como resposta ao aceno enfático de Isabel.

- Pode dar-me um cigarro? - pergunta Farlan, falando alto o suficiente para se ouvir sobre o rugir do motor. - Se faz favor?

Levi consegue ver Erwin olhar de relance para o rosto pálido do homem através do espelho retrovisor antes lhe passar a cigarreira e um pacote de fósforos, que Farlan aceita, as mãos a tremer tanto que mal consegue acender o cigarro. Quando finalmente consegue, fecha os olhos após as primeiras tentativas de inalar, enchendo o interior do carro com cada expiração e fazendo Isabel tossir.

- Abre a janela - diz-lhe Levi e ele obedece depois de limpar a testa rapidamente com a mão direita, inclinando a cabeça quase para fora do caro antes de dar outra passa no cigarro.

Isabel desliza mais para o meio do banco traseiro e apoia a bochecha contra as costas de Levi. - Erwin? - chama ela baixinho, esperando pelo som de reconhecimento do homem antes de continuar. - O que significa 'despejar os tomates'?

Ao lado dela, Farlan começa a tossir de forma tão violenta que por quase meio minuto Erwin não precisa de se preocupar com a resposta. Levi arqueias as sobrancelhas pelo ar de desconforto na cara do homem enquanto Farlan volta a puxar a cabeça para dentro do carro, praguejando em voz baixa.

- Deixei cair do cigarro - resmunga ele quando Erwin aclara a garganta.

- Não te preocupes com isso, Isabel - responde ele de forma evasiva. - Seja como for, lamento pela minha rudeza.

Levi consegue ouvir Isabel sussurrar a pergunta a Farlan depois de regressar ao seu lugar, mas ele atarefa-se com a janela do carro e deixa-a sem resposta. Ficam todos em silêncio durante um grande bocado e Levi volta o olhar para a paisagem que passa ao lado deles, acompanhando a variação de florestas e campos com um interesse flutuante enquanto outros carros passam assobiando na direcção oposta. Recorda-se da viagem de comboio de Berlim para Dresden há todos aqueles anos, quando conhecera Farlan; que estava, se possível, ainda mais nervoso do que está agora. A sua atenção também não se prendera na paisagem nessa altura; estivera a tentar fazer um plano para o resto da sua vida, encontrar alojamento, encontrar trabalho. Cruzar-se com Farlan nessa altura quase fora suficiente para fazer Levi acreditar que afinal Deus existia, já que significara que não precisaria de passar as primeiras noites na cidade encolhido debaixo de uma ponte algures.

Conduzem através de uma pequena vila, parando numa pousada para esticar as pernas e usar os lavabos, ainda que Farlan se recuse a ambos e permaneça dentro do carro, pedindo a Erwin outro cigarro e fumando-o com satisfação, esticando os braços para o lado de fora da janela. Levi segue Isabel quando ela corre para a casa de banho das senhoras, entrando na dos homens e encontrando Erwin de pé contra o urinol. Quando ouve a porta abrir atrás dele o homem volta-se, parando para fitar Levi, que se apercebe pela expressão no rosto do homem que ele também se recorda disto. O pensamento não atravessara a mente de Levi antes, mas parece-lhe agora estranho a forma tão diferente que uma situação destas poderia terminar há apenas meia dúzia de anos. Olham um para o outro durante um momento, expressões algures entre o embaraçado e e divertido antes de Levi entrar num dos cúbiculos e fechar a porta antes de aliviar a bexiga. Quando sai para lavar as mãos, encontra Erwin a fazer o mesmo.

- Queria falar contigo em privado - sussurra Erwin, as palavras mal se ouvindo sobre a água a correr, clarificando desnecessariamente: - Sobre a missão, refiro-me-

- O que é? - pergunta Levi, abrindo a torneira. - Não me digas que a cancelaste de novo.

- Não, nada disso - assegura-lhe Erwin, forçando o sabão sob as unhas. - De acordo com os meus cálculos, o percurso a pé até aos carris deverá demorar-nos cerca de hora e meia, mas quanto mais em cima da hora de partida do comboio for, melhor, pois deixará muito pouco tempo ao inimigo para se certificar que o caminho de ferro está intacto.

- Só por curiosidade - diz Levi - calculaste as hipóteses de sucesso desta pequena façanha?

- Pessoalmente, sinto-me muito optimista quanto a isto - diz-lhe Erwin com um sorriso. - E claro, a tua presença só aumenta as chances.

- Claro - arrasta Levi, escarnecendo com ironia pelo elogio. - Suponho que não devia enganar-me e ver isto como umas férias.

- Oh, não sei - responde o homem alegremente. - Afinal, é como nós o quisermos encarar, não é? Não vejo nenhuma razão para não nos empenharmos nesse papel.

Levi resfolega. - Tu sabes tudo sobre empenhares-te em papéis - diz. - É uma pena que não tenhamos arranjado uma tipa qualquer tão em cima da hora. Podias despejar os tomates e aperfeiçoar a tua prestação.

- Tão divertido como sempre, estou a ver - Erwin mal murmura antes de sair da casa de banho com Levi colado aos calcanhares.

Durante a meia hora seguinte, Erwin e Isabel enchem o carro com uma conversa animada para a qual Levi contribui ocasionalmente enquanto Farlan fica calado, a razão que tanto podia ser mau humor ou exaustão. Olhando para ele, Levi consegue imaginar como ele seria há dez anos atrás, sentado no banco de trás do carro dos pais enquanto eles conduziam para Rügen vindos de Berlim para uma semana ou duas de férias de verão, e na sua imagem do jovem Farlan Levi acrescenta-lhe um livro de poesia alemã ao colo com uma carta secreta escondida em segurança por entre as páginas. Gostaria de lhe perguntar se a imagem que criara na sua mente estava correta, mas olhando para a expressão cansada do homem, eventualmente decide não o questionar.

- Algum de vocês conhece bem esta parte do país? - pergunta-lhes Erwin de repente e Levi abana a cabeça. O seu conhecimento do seu país natal está limitado a alguns bairros de Berlim e a maioria da cidade de Dresden.

- Vim acampar aqui uma vez quando estava na Hitlerjugend - responde Farlan, para surpresa de Levi. - Lembro-me porque foi em Novembro e alguns dos rapazes mais velhos tiraram-me a roupa e não me deixaram entrar na tenda antes que eu tivesse memorizado o parágrafo de abertura do Mein Kampf. Quando disse a um dos supervisores, ele disse que o tinham feito para me ensinar uma lição, e que eu deveria aprender com isso.

Por um momento, o carro fica cheio de um silêncio desconfortável para Levi, que olha para o sobrolho franzido de Erwin enquanto o homem parece reflectir nas palavras. - Quando me mudei para a Alemanha, já era demasiado velho para a Jugend - responde. - Mas ouvi dizer que têm essa prática. Suponho que tenha o objectivo de separar os membros fracos do grupo. Apenas mais um dos exemplos das ilusões destrutivas da ideologia nazi.

- O que queres dizer com isso? - pergunta-lhe Farlan, inclinando-se para mais perto do banco da frente para o ouvir melhor.

- Simplesmente que, mesmo sem a guerra, a sociedade que os nazis estão a tentar construir é insustentável - explica. - Mesmo se a Alemanha conseguisse ganhar a guerra, nunca conseguiria haver um Reich de mil anos como Hitler o imagina. Uma sociedade infeliz e não-cooperativa nunca pode ser uma sociedade produtiva, especialmente se depender de trabalho escravo, o que estaca o progresso e a capacidade de invenção. Além disso, uma sociedade gerida por medo e controlo funciona melhor com uma ameaça externa. Que ameaça seria essa se a União Soviética, a Inglaterra e a América fossem todas derrotadas, com a Itália e a Espanha fascistas a serem as únicas partes da Europa fora das fronteiras do Reich? África? Ásia? São demasiado distantes para captar o interesse do público da mesma forma que o Exército Vermelho. E agora que o Reich está supostamente livre de judeus e bolcheviques e outros indesejáveis, também já não há mais ninguém no interior para os nazis culparem.

- Tenho de dizer, não sei se concordo contigo - responde Farlan passado um momento de hesitação. - Não acho que a maioria das pessoas seja infeliz sob o regime nazi. Na verdade, acho que a maioria das pessoas acha que estão melhores agora do que antes. Não vejo porque isso haveria de mudar só porque não estão cercados de exércitos hostis.

- Mas não podes negar que as pessoas estão assustadas. - contrapõe Erwin calmamente. - E pessoas que vivem em medo constante nunca podem ser verdadeiramente felizes. Quando todos os dissidentes mais flagrantes... judeus, comunistas, homossexuais e por aí em diante... tiverem todos sido retirados, o controlo social vai voltar-se para quem quer que reste. As pessoas vão ser encorajadas a voltarem-se umas contra as outras sob a mais pequena discrepância fora da doutrina, o que irá aumentar o medo e a suspeita e fazer as pessoas representar um papel em vez de viverem. Afinal, tenho a certeza que todos podemos concordar que o super-humano ariano não existe nem pode existir como uma variação natural da raça humana. Levar uma nação inteira a alcançar um ideal impossível não vai produzir uma sociedade auto-sustentável.

- Mas acabaste de te contradizer - argumenta Farlan, movendo-se para mais perto de novo. - Acabaste de dizer que uma sociedade gerida sob medo precisa de uma ameaça externa, mas o medo que acabaste de falar agora foi todo interno.

- Uma sociedade gerida pelo controlo e medo externo pode funcionar por muito tempo - diz-lhe Erwin - porque depende de uma dicotomia do 'nós' perceptível contra o 'eles' perceptível. Medo externo liga uma sociedade, dá às pessoas uma causa comum, um inimigo comum, reforçando a sua fé nas estruturas de poder presentes. Na ausência de um 'eles' perceptível, uma sociedade baseada em formas extremas de controlo social volta-se contra si própria. Especialmente uma sociedade onde toda a gente é encorajada, não só pelas normas gerais mas também pelo governo, a encaixar num molde pré-fabricado, e fazer distinções entre grupos de pessoas torna-se mais difícil. Para além disto, uma nação definida pelos seus militares irá perceber que é difícil manter os seus ideais hiper-masculinos sem a necessidade real de homens a defender o país.

- De novo, não concordo - diz Farlan, e Levi mal consegue acreditar que ele está a sorrir; a conversa lembra-lhe Kenny e os seus rabis e não fica muito satisfeito por perceber que ainda entende menos desta conversa agora do que entendia há dez anos, se é que isso é possível. - A maioria das pessoas não se importa que lhes digam que têm um certo papel a desempenhar. A maioria das pessoas ficam perfeitamente satisfeitas por encaixarem num molde e desempenharem um papel.

- Tens razão quanto a isso - concorda Erwin, demorando uns segundos a espreitar um sinal na estrada. - As pessoas podem ser encorajadas a desempenhar certos papeis de forma relativamente fácil através de expectativas e ideais, e socializando-os para que sigam as normas prevalecentes na sociedade. Manipulação das artes, literatura, cinema, até publicidade pode ser usada com este objectivo, e acho que é claro que os nazis têm-no feito desde o primeiro momento, não só através da produção da sua própria propaganda mas também por limitarem as hipóteses das pessoas serem expostas ao que quer que seja que contradiga o seu dogma.

- Então admites que, através de propaganda eficiente, as pessoas podem acreditar estarem felizes por desempenharem funções numa sociedade dependente de formas extremas de controlo social?

Erwin demora um grande bocado a considerar as suas palavras seguintes. - Acho que funcionaria durante algum tempo - admite por fim. - Mas não consigo ver isso como uma solução sustentável. Acho que há sempre uma parte da pessoa que é livre e única, uma parte que resiste a todas as tentativas de ser definida por uma força exterior. Não há propaganda forte o suficiente para sufocar esta característica da humanidade, nem de forma colectiva ou individual.

- Sinto como se estivesses a falar sobre a alma, ou pior que isso, algum género de alma do mundo - diz Farlan, o tom quase acusatório. - E se é esse o caso, então receio que a conversa se esteja a tornar demasiado teórica para mim.

Erwin dá uma gargalhada. - Tenho de admitir, já se passou muito tempo desde que tive a oportunidade de ter uma discussão como esta - diz a sorrir. - Já me tinha esquecido do quanto gosto disto.

- Também acho que é simplesmente demasiado estranho ouvir alguém como tu declarar opiniões como essas - responde Farlan e diz com sarcasmo: - É como ver o Führer com patilhas peiot como os judeus.

Erwin ri de novo. - Ora aí está uma imagem - diz, voltando-se para Levi. - Alguma vez tiveste dessas?

Levi escarnece. - Não - diz ao homem com simplicidade, tentando ignorar Farlan a mover-se agitado no banco de trás; já fazia muito tempo desde que qualquer um deles se referira àquilo de forma tão directa. - Que merda de pergunta estúpida é essa?

- Desculpa, suponho que foi bastante idiota da minha parte presumir isso - diz Erwin, a sorrir em desculpa. - Em que universidade andaste? - pergunta a Farlan a seguir, e o homem parece agradado, não só por Erwin assumir tal coisa dele mas também pela mudança de assunto.

- A universidade Frederick William em Berlim - responde. - Estava a tirar uma licenciatura em literatura.

- Deve ter sido muito interessante. E numa escola tão prestigiada - diz Erwin, olhando através do espelho retrovisor de novo. - Lamento que não tenhas conseguido terminar os estudos.

Farlan afasta o comentário com um aceno com a mão, que chama a atenção de Levi pela sua súbita efeminidade. - Deixa estar - mal diz, inclinando-se para trás no banco.

- Já chegámos? - pergunta Isabel de repente, fazendo Erwin rir mais uma vez.

- Quase - diz-lhe gentilmente e olha para Levi, que não consegue evitar sorrir também; de repente, parece mesmo umas férias a sério, ou pelo menos o que Levi sempre imaginara que férias a sério seriam.

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Durante os últimos dez minutos, conduzem ao longo de uma pequena estrada de terra batida que foi quase tomada por tufos de relva e remendos verdes de trevos entre dois sulcos que levam ao casebre; Levi consegue ver pedaços do telhado coberto de musgo por entre a folhagem das árvores enquanto se aproximam e torna-se difícil conter a excitação. Olha para Farlan e Isabel, que abrira o vidro e fechara os olhos, cheirando o ar fresco da floresta. Quando Erwin pára o carro por fim é ela a primeira a saltar para fora, deixando as bagagens para Levi enquanto ela vai disparada para o portão da altura da cintura que está na cerca de madeira que rodeia o jardim. Ajoelha-se de imediato junto da horta coberta de ervas para ver de mais perto os rebentos que saem da terra.

Levi atira a mochila sobre o ombro antes de pegar num dos sacos grandes de papel cheios de comida que Erwin trouxera consigo da cidade. Entrega o outro a Farlan, que parece ligeiramente chocado mas rende-se ao seu destino quando vê Erwin a debater-se com a velha e enferrujada fechadura da porta. Quando finalmente a consegue abrir, tem de inclinar o pescoço um pouco para conseguir passar pela ombreira baixa enquanto os outros o seguem. Farlan está muito menos apreensivo do que Levi pensou que estaria.

- Faz-me lembrar aqueles velhos contos de fadas. Sabes, aqueles onde as crianças são apanhadas por bruxas e quase queimadas vivas - murmura ele a Levi, que suspira.

- Esses tinham finais felizes - relembra ele ao homem, que concorda, rabugento, pousando a sua mala no chão.

Entraram num género de sala de estar com ripas de madeira escura cruzadas contra o tecto alto pintado de branco e umas escadas curvas imediatamente à direita que levam a um género de varanda com vista para o espaço abaixo, que está fresco após o calor do carro. Levi conta duas portas, uma aberta do outro lado da sala através da qual consegue ver uma pequena cozinha, e outra no canto debaixo das escadas. Do lado oposto está uma grande lareira com uma selecção de poltronas de cabedal ao estilo inglês e um sofá em frente com um tabuleiro de xadrez e duas cadeiras no canto esquerdo. Uns tapetes simples foram atirados contra o chão escuro de madeira, a cor ecoando com os paneis na parede que estão cobertos por papel às riscas verde-floresta. A Levi, não se parece nada com um casebre de caça até ver um par de chifres de veado na parede ao lado de uma velha pintura que retrata cães e cavalos com homens a soprarem cornetas às suas costas. Levi passa um dedo pela madeira polida ao longo do corrimão das escadas, agradavelmente surpreendido pela quantidade relativamente pequena de pó que encontra, antes de avançar pela sala e pousar a mochila no sofá a caminho da cozinha para onde Farlan o segue com a comida.

Levi pousa o saco de papel num velho fogão a lenha em frente de um forno de alvenaria construído com tijolos vermelhos, dando uma olhadela ao resto da divisão: uma pequena mesa rectangular e quatro cadeiras, um lava-loiça de porcelana quebrado sob três armários, um alçapão para uma cave em frente da janela do outro lado da cozinha, e uma prateleira para pratos sobre uma pequena cama de solteiro atrás da porta. Há outra porta entre o lava-loiça e a janela voltada para o jardim, e mais outra ao canto aos pés da cama. Levi avança para ela e espreita para uma casa de banho escura, as tábuas pintadas da cozinha transformando-se em lajes de pedra direita na ombreira. Não há tampo na sanita, só um simples lavatório com um espelho por cima, uma banheira de bronze ao longo da parede mais afastada e um forno de madeira para aquecer água ao canto.

- Sem bruxas - diz, voltando-se para Farlan que revira os olhos enquanto Erwin entra na divisão, as botas a fazerem um barulho alto e pesado contra o chão de madeira.

- Penso que todos vamos querer - diz ele. - Tenho a certeza que não sou o único que acha que estaria mais confortável se eu estiver a usar outra coisa que não isto.

Farlan acena sem uma palavra enquanto Levi resfolega. - Não é exactamente um prazer olhar para ti neste momento.

Erwin parece prestes a dizer algo, mas acaba por simplesmente dar uma gargalhada. - Não, suponho que não - diz, franzindo ligeiramente a testa. - Quanto à distribuição de camas, além desta na cozinha há dois quartos, um no piso de cima e outro em baixo. Suponho que vocês os dois prefiram o primeiro.

Levi olha para Farlan, cujas sobrancelhas escalaram um pouco na direcção do cabelo desalinhado. - Porque haverias de achar isso? - pergunta ao homem.

- Bem - responde Erwin, e parece que está a achar estranho ter de se explicar. - Tem mais privacidade comparado com os outros quartos, e achei que vocês poderiam preferir.

Levi olha para Farlan de novo, que parece estar a conter o riso, os lábios puxados para um largo sorriso enquanto um silêncio embaraçoso enche a cozinha.

- Ah, peço desculpa - diz Erwin por fim, aclarando a garganta e o olhar a saltar entre os dois. - Parece que interpretei alguma coisa mal.

- Eu durmo na cozinha - decide Levi firmemente enquanto Farlan olha para o lado de fora da janela. - Vai ser bom a Isabel dormir num quarto a sério, para variar.

- Não, por favor, és meu convidado - apressa-se Erwin a contestar. - Deixa-me dormir na cozinha. Podes ficar com o outro quarto.

- Qual de nós vai caber melhor naquela cama, tu ou eu?

Erwin olha para a pequena cama de solteiro e parece reconsiderar.

- Tens a certeza-

- Sim - diz-lhe Levi de forma curta. - Agora pára de fazer um filme. Já dormi em sítios muito piores do que este, acredita.

- Bem, tenho a certeza que sim - concorda do homem, suspirando audivelmente. - Vou mudar de roupa.

Farlan volta-se para Levi assim que o homem sai, as sobrancelhas ainda arqueadas como se estivesse a exigir algum género de explicação.

- Nunca lhe disse nada sobre ti - diz-lhe Levi. - Suponho que não seja uma conclusão assim tão estranha, vendo como vivemos.

- Não te preocupes - responde Farlan. - Não é estranho que um homem como ele fosse reparar. E tens razão, não é uma conclusão infundada, e não muito longe da verdade, em alguns aspectos, pelo menos. - Prepara-se para sair da cozinha, voltando-se quando chega à porta. - Suponho que tinhas razão. Ele é muito mais como nós do que parece.

Levi consegue ouvi-lo subir as escadas enquanto ele começa a desempacotar a comida e a descer para a pequena cave para guardar os perecíveis e uma garrafa de vinho nas prateleiras antes de dar uma volta pelos armários e encontrar um balde e alguns trapos esfarrapados debaixo do lava-loiça. Começa de imediato a limpar, pegando num pano e começando pelas superfícies horizontais. Quando volta à sala de estar, Erwin emerge da porta debaixo das escadas, franzindo o olhar para Levi instantaneamente.

- Não precisas de trabalhar este fim de semana - diz ele a Levi de forma quase severa. - Pensei que tínhamos concordado, é suposto isto ser umas férias.

- Vou ficar muito melhor quando isto estiver limpo - responde Levi, olhando para as calças e camisa branca simples que o homem está a usar e sorrindo.

- Bem, deixa-me pelo menos ajudar-te - insiste Erwin mesmo quando Isabel entra a correr vinda do jardim com grandes manchas castanhas nos joelhos.

- Erwin - diz ela sem fôlego. - Podes vir comigo e dizer-me o que são todas estas plantas?

O homem olha para Levi que acena na direcção da porta. - Claro - diz à rapariga e segue-la para fora do casebre; Levi consegue ouvi-los falar enquanto limpa os parapeitos da janela, explorando a flora que luta para brotar por entre as ervas.

Depois de limpar o pó e varrer o chão, Levi pára para ajudar Farlan a tratar do jantar. Vão ao jardim juntos através da porta da cozinha, encontrando um pequeno poço perto do pomar e um casebre para lenha junto de uma latrina na orla da floresta. Enchem os braços com troncos secos antes de regressarem à cozinha onde Levi deixa Farlan a começar o fogo no fogão e a remexer nos armários à procura de panelas e frigideiras. Encontra outro balde na casa de banho, saindo em direcção ao poço para encher os baldes antes de despejar a água para o grande recipiente no aquecedor, já a sonhar com um banho quente. Mal acabara de sair para voltar a encher os baldes quando Erwin e Isabel dão a volta à casa e o homem exige a Levi que o deixe ajudar, e passa o restante quarto de hora a andar para trás e para frente enquanto Levi ateia um fogo no aquecedor para aquecer a água. Juntam-se então a Isabel na mesa da cozinha, onde ela está a descascar e cortar cebolas para Farlan, que por sua vez está ocupado a espicaçar os toros incandescentes e a mover pratos de ferro sobre os bicos do fogão para impedir que o tacho com as batatas comece a transbordar.

Comem o jantar com bom humor. Levi, Farlan e Erwin bebem um copo de vinho cada com a salsicha, batatas, cebola frita e uma fina mas saborosa camada de molho. Os outros dois homens discutem política e filosofia de novo enquanto Isabel conta a Levi sobre o jardim. Após o jantar, Levi lava a loiça, ouvindo com pouca atenção Erwin e Farlan continuarem a sua conversa na sala enquanto Erwin começa um fogo na lareira. Isabel encontrara um velho livro de botânica na prateleira e está a ler, interrompendo os argumentos de Farlan de vez em quando para lhe perguntar o significado de alguma palavra maior que não saiba o significado.

- Pergunta ao Levi - bufa Farlan por fim quando ele se junta a eles no sofá, claramente irritado pela constante interferência.

- Eu também não sei palavras caras - diz-lhe Levi, sincero. Parara de ouvir a conversa deles quando deixara de fazer sentido para ele. - Nem toda a gente estudou na universidade, sabes.

- Que tipo de educação recebeste? - pergunta Erwin de repente, parecendo genuinamente interessado; o calor do fogo deixara-lhe as bochechas vermelhas, e Levi consegue ver manchas escuras sob os seus braços de novo.

- Sei ler e escrever e contar até cem - responde Levi, exagerando na sua falta de conhecimento e ignorando Farlan a revirar os olhos nas costas de Erwin. - Que mais é que uma pessoa precisa?

- Alguma vez pensaste em aprender um ofício?

- O meu tio tinha uma loja em Berlim - diz Levi ao homem, ciente da amargura na sua voz. - Ensinou-me a geri-la e a tratar da contabilidade. Claro que até a ideia de eu poder ficar com aquele buraco de merda minúsculo era desejar muito.

- Estou a ver - responde Erwin baixinho. - Suponho que a tua educação tenha sido travada pela lei contra o excesso de entradas nas escolas e universidades.

- Nunca gostei muito de ler mesmo - mal diz Levi, e não tem a certeza se está a mentir ou não. Orfãos filhos de prostitutas não vão longe na vida; Kenny fora sempre o primeiro a recordar-lhe, e sonhar com algo mais do que tecto em cima da cabeça e comida no estômago não era para pessoas como eles. Ainda assim, sem nunca ter seriamente considerado tornar-se muito mais, Levi sente raiva e desilusão por lhe ser recusada a opção.

- Então e tu, Isabel? - pergunta Farlan de repente e parece a Levi que ele está a tentar mudar de assunto, já que questionar Isabel sobre o seu passado raramente dera frutos antes. - Foste à escola?

- Às vezes - responde ela, para surpresa de Levi. - No inverno, maior parte das vezes. E a minha titia ensinou-me a ler e a escrever nas outras alturas. Ela tinha uma perna má.

- Gostavas da escola? - continua Farlan após um momento de silêncio espantado.

Ela abana a cabeça. - Não gosto de ficar sentada quieta muito tempo - explica ela, folheando as páginas do livro. - Acho que nos faz mal.

- Acho que tens razão - concorda Erwin, esticando as costas. - Passo o dia sentado no escritório e nunca me fez bem algum.

- Só a olhar para ti, nunca imaginaria que tens um trabalho de secretária - diz Farlan, voltando-se para Erwin e beberricando o seu copo de vinho. - Deves exercitar, pelo menos.

Erwin dá uma risada. - Obrigada. Faço natação com frequência, de facto.

Farlan sorri para o seu copo sem dizer mais nada, mas Levi apanha-o a lançar um olhar na sua direcção quando olha para ele, franzindo o sobrolho ao namorico que parece totalmente despropositado. Ainda assim, a imagem de Erwin a mergulhar numa piscina de água pura e turquesa surge indesejada na mente de Levi e ele permite-la, aprecia a limpeza da imagem, a superfície intacta segundos antes do impacto, a rigidez dos músculos do homem ao inclinar-se para o salto. Talvez seja uma imagem que se enterrara na sua mente anos atrás e encontrara este momento para se formar. Quando Levi olha para Erwin de novo, o rubor das bochechas parece de repente um corar, como se tivesse adivinhado os pensamentos de Levi e os achasse tão embaraçosos quanto ele próprio os achava, estes sentimentos que parecem pertencer a uma época diferente.

O resto da noite parece arrastar-se lentamente; não há relógios na parede ou nas prateleiras e Levi deseja que tivesse um relógio de pulso para poder ter alguma noção do tempo. Tenta descansar tanto quanto pode, em preparação para a noite sem dormir que o espera, mas tal como Isabel, não está habituado a ficar quieto por muito tempo, e enquanto os minutos passam, Levi começa a procurar ansiosamente por sinais dos seus amigos a ficarem cansados. Quando Farlan e Erwin acendem os seus cigarros, Levi escapa para a cozinha, pensando em preparar um banho para passar o tempo e pondo mãos à obra após acender umas quantas velas na divisão às escuras. Levando mais água do poço para a banheira demora-lhe tempo suficiente para Farlan chegar e ver o que está a fazer; o homem não se oferece para ajudar, simplesmente apoia-se no lavatório e observa Levi a andar para trás e para a frente, a transpirar pelo calor da noite e o esforço da tarefa.

- Acho que estou a começar a ver o que tu vês - diz a Levi baixinho quando ele finalmente despeja os últimos baldes de água para o aquecedor.

- Sobre? - pergunta-lhe Levi, e Farlan acena sem palavras para a sala de estar.

- Lembra-me pessoas que costumava conhecer - diz o homem, olhando para trás. - Ou talvez me lembre quem eu costumava ser. É bom conversador.

- Vocês gostam de dar à língua, não gostam? - murmura Levi irritado, fazendo Farlan franzir o rosto.

- Não estás com ciúmes, ou estás? - pergunta num sussurro, a voz cheia de verdadeira curiosidade.

- Porque haveria de estar? - atira-lhe Levi de volta, ainda que algo nas palavras de Farlan o faça ponderar. Seria só mesmo a amargura de ser negado uma educação que o estava a irritar, ou teria o comportamento de Erwin perto de Farlan recordado-lhe de todas as formas como as suas vidas são diferentes?

Farlan encolhe os ombros. - Não sei - diz, arrastando as palavras. - Quero dizer, só trabalhas para ele, não é?

Levi encontra os olhos do homem sem hesitação. - Sim - responde enfaticamente. - Eu só trabalho para ele.

- Então tenho a certeza que não há problema - declara Farlan com firmeza. - Tenta divertir-te. Penso que era esse o propósito deste fim de semana.

Ao fechar a porta atrás de si e começar a tirar a água do aquecedor para o seu banho, Levi considera a pergunta de novo, tentando manter a cabeça fria. Ainda assim é difícil apontar com precisão o que há no comportamento de Farlan que o irrita tanto. As insinuações da interpretação errada de Erwin também não fizeram nada para ajudar. Enquanto esvazia os baldes um a seguir ao outro para a banheira, fazendo vapor subir contra a cara, Levi sente como se os seus sentimentos fossem como o balde quente que está a segurar, impossível de agarrar confortavelmente sem queimar os dedos. Pousando-os ao lado, despe-se, parando de repente quando ouve um som suave quando as calças embatem contra as pedras cinzentas. Levanta-las e enfia a mão no bolso, puxando da navalha e revelando a lâmina, passando o polegar cuidadosamente pelo rebordo suave.

Sem olhar de novo para a banheira, Levi enche o lavatório em frente do pequeno espelho na parede, descobrindo uma lata de espuma de barbear e um pincel numa pequena gaveta no armário. Salpica a cara com água, as mãos a delinearem o minúsculo começo de barba na face antes de pegar no pincel e aplicar uma generosa camada de espuma branca na cara e no pescoço. Levanta a lâmina até à pele, deslizando-a sobre a face, estremecendo quando gotas de sabão começam a escorregar para o peito e para a barriga, chegando rapidamente às coxas no seu trilho desobstruído. A lâmina sabe bem na sua mão, extremamente afiada mas segura, de tal forma que quase consegue acreditar que nunca se vai cortar a usá-la. Este acto de barbear é um apoio, uma segurança, abrandando o seu raciocínio e forçando a sua atenção em algo tangível e prático. Ter tanta atenção quanto a cortes e marcas na cara apenas aumenta essa sensação e quando finalmente desliza para a banheira Levi sente uma ligeira tensão nos músculos do pescoço e dos ombros.

A água quente envolve-o, tranquilizadora e limpa, e apesar de Levi saber que o mais provável ser sujar as mãos mais tarde, deixa que o pensamento flutue para longe quando o calor lhe purga a pele. Ao olhar pela superfície para o corpo nu obscurecido pelas sombras que caem na divisão, não consegue evitar perguntar-se que instante de insanidade possuíra a mãe quando ela decidira circuncisá-lo. Seria ela mesmo ainda tão obediente à tradição após ter sido posta de lado pela sua própria gente? Levi tem dificuldade em compreender, nunca tendo sentido essa noção de pertença, nunca tendo ansiado por isso, mas se o comportamento do tio fora algum indicativo, Levi supõe que não seja algo fácil de se fugir. Passa o polegar pela cicatriz tentativamente e algo o faz sentir como se o estivesse a fazer pela primeira vez, e nesse momento pára antes de de facto começar, prendendo as mãos entre os cotovelos e o lado do corpo em vez disso - ainda agora o conforto sabe melhor do que o prazer.

Permanece na banheira por tanto tempo quanto o calor dura, saindo por fim da casa de banho relaxado mas relutante, recordando-se da sua vida em Berlim onde todos aqueles longos banhos nas noites de domingo eram o único ritual que Levi obedecia com uma devoção quase religiosa. Assim que ouve as vozes de Isabel e Farlan na sala, a mesma inquietude começa a tomar conta de Levi e começa a interrogar-se que horas serão. Ao pendurar a toalha para secar nas costas de uma cadeira, Erwin entra na cozinha vindo do jardim, braços cheios de troncos.

- Pensei em levar uns quantos lá para cima - explica sem que Levi pergunte. - Só para o caso de ficar frio durante a noite.

.

Passam mais algumas horas até Farlan começar a dormitar no canto do sofá e subir as escadas cansado com Isabel a arrastar-se atrás dele, inclinando-se sobre o corrimão para lhes desejar boa noite antes de desaparecer para o quarto. Ao lado de Levi, Erwin boceja também, os olhos meio abertos a olhar para as brasas a brilhar na lareira, mas apesar do calor e do conforto Levi sente-se completamente desperto, olhando para o relógio de pulso de Erwin de vez em quando, impaciente.

- Devias ir descansar também - sussurra o homem assim que Isabel e Farlan saem da sala. - Vai e dorme umas horas. Eu acordo-te quando estiver na hora.

Levi abana a cabeça. - Não estou cansado - mal diz, e Erwin não insiste. - Além disso, pareces precisar mais do que eu.

Erwin dá uma gargalhada. - Sim, bem - murmura. - Admito, não dormi muito a noite passada.

Levi arqueia uma sobrancelha, recordando-se de repente da maneira como Lilian inclinara a cabeça para trás quando rira. - Pois - diz e resfolega. - Se queres dormir, devias ir agora.

O homem parece considerar as suas opções por um momento antes de retirar o relógio do pulso e o entregar a Levi. - Se não me levantar daqui a três horas, acorda-me - diz antes de se levantar e desaparecer pela porta debaixo das escadas.

Na sua ausência, Levi tenta deitar-se no sofá e descansar, os olhos colados ao relógio enquanto vê os segundos passar, tentando não pensar e pensando ainda assim, sobre a missão, sobre Isabel e Farlan a dormir lá em cima, sobre Erwin a puxar as roupas de Lilian, manchando o batom dela com a boca, guiando-a para a sua cama como fizera com aquele soldado nazi. Essa noite parece agora distante a Levi, ainda que se tenham passado apenas alguns meses desde isso.

Afasta os olhos do relógio para deixar o olhar vaguear pela sala de novo, a mobília de madeira escura, os chifres na parede, o brilho baço do corrimão das escadas e levanta-se desajeitadamente. Anda pelo casebre à luz de uma vela, primeiro espreitando os livros na prateleira, depois voltando a ver os armários da cozinha, até desce à cave antes de sair para a privada para cagar. Vagueia inquieto pelo exterior do casebre, sob ramos pesados da maceira no pomar, espreitando para os confins escuros do poço antes de regressar para dentro e continuar a sua caminhada agitada até já não aguentar mais.

Abre a porta do quarto com cuidado e sem barulho antes de entrar, envolvido por um instante pelo cheiro quente e abafado de sono. Consegue ver o vulto de Erwin na cama, a respiração baixa amplificada pelo silêncio à sua volta. Levi aproxima-se, olhando através da escuridão para o peito nu a subir e descer, o tufo de pêlo debaixo do braço do homem, as feições definidas pacificas no seu sono. Inclina-se devagar, tocando gentilmente com a mão no ombro de Erwin, chamando o nome dele num sussurro baixo e rouco. Ele abre os olhos de imediato, focando-se instantaneamente em Levi, que retira a mão com relutância.

- Que horas são? - pergunta Erwin, sentando-se na cama e esfregando os olhos.

- Ainda não é uma - responde Levi baixinho. - Podemos ir?

O homem parece processar a informação, esticando o pescoço e gemendo do esforço. - Devíamos esperar um pouco mais - responde. - Quando mais tempo estivermos fora, maiores são as chances do teus amigos-

- Não quero saber - diz Levi, sabendo que deveria importar-se. - Quero ir, agora.

Erwin olha para ele pela escuridão, sobrancelhas franzidas, como que a calcular os resultados antes de assentir devagar. - Tudo bem - concorda, levantando-se e remexendo na mochila de cabedal e retirando uma camisa verde escura, entregando outra a Levi. - Devias vestir isto. O branco é demasiado fácil de ver.

Levi agarra a sua camisa branca pelo colarinho e puxa-la sobre a cabeça antes de voltar a vestir, as mangas chegando até à ponta dos dedos.

- Ah, as minhas desculpas - diz Erwin com uma nota de embaraço entrelaçado com a gargalhada na voz. - O tamanho é mais uma vez-

- Não te preocupes - interrompe Levi, dobrando as mangas até aos antebraços. - Pelo menos é muito melhor do que as últimas roupas que me arranjaste.

Saem do casebre sem fazer barulho depois de Levi escrevinhar uma nota rápida para Farlan e Isabel só para o caso de ser necessário, um pedaço de papel que diz 'fiquem aqui' e nada mais. Caminham para o carro, Erwin tira uma mochila do porta-bagagem e avançam pela floresta, o raspar baixo dos seus passos o único som que Levi consegue ouvir na noite. Passam por clareiras e prados, a parte de baixo das calças a tornar-se fria e húmida do orvalho enquanto marcham sem falar, até Erwin travar de repente no início de um pequeno monte, após o que parecem ter sido horas.

- Devemos estar quase a encontrar os carris - sussurra ele no escuro, limpando o sobrolho com a manga da camisa. - Vou à frente. Devias ficar aqui.

Sentindo-se exausto, Levi retira o peso dos seus pés dormentes e não reclama, aceitando a arma que Erwin retira da mochila e lhe entrega, acenando quando o homem se certifica que a sabe carregar e disparar. Quando Erwin se afasta, Levi inclina-se contra o tronco de um grande castanheiro, deslizando para o entalhe entre as raízes cheias de nós e inspirando o cheiro rico da terra molhada, estremecendo quando o frio da madrugada começa a entranhar-se nos ossos. Na altura em que o homem regressa, Levi está a cerrar os dentes para impedir que tremam e quando Erwin se senta e lhe passa um frasco Levi bebe de bom grado um trago do licor no seu interior.

- É melhor esperarmos mais uma hora - diz-lhe o homem num sussurro. - Tanto quanto tenha visto, os carris não estão a ser vigiados, mas isso não nos deve deixar muito confortáveis.

- Acredita, confortável é uma das últimas coisas que me estou a sentir neste momento - diz-lhe Levi amargamente, enrolando os braços à volta do copo para se aquecer enquanto Erwin ri baixinho.

- É um sítio estranho para se estar - comenta ele, bebendo um trago do frasco e olhando à sua volta para as árvores altas.

- Mais estranho para ti, imagino - pensa Levi em voz alta, bebendo mais um trago, hesitando por um momento antes de perguntar: - É muito diferente, o sítio de onde vens?

Erwin demora um momento a pensar. - Sim e não - responde por fim. - Depende de que parte do país estejas. Mas há natureza muito semelhante a esta.

- Tens saudades? - pergunta-lhe Levi agora, tentando ver a expressão de Erwin pelo perfil desfocado que apanha do canto do olho.

- Menos agora do que costumava - diz-lhe o homem, e ficam calados até Erwin voltar a falar. - Desculpa por antes. Não devia ter assumido-

- Não há problema - corta Levi. - Não é assim entre nós mas não te culpo por pensares isso, e ele também não.

- Ainda bem - murmura Erwin, empurrando o frasco de volta para a mochila.

- Mas foi uma ideia estúpida como a merda - comenta Levi, fazendo o homem voltar-se com o olhar franzido. - Teria sido muito mais difícil esgueirar-me.

Erwin fica calado por um bocado antes de dar uma gargalhada baixa. - Suponho que não tinha pensado muito bem - admite timidamente. - Acho que me foquei em tentar melhorar a tua estadia, já que estavas tão relutante em te juntares a mim.

Levi resfolga mas não fala, sentindo uma picada de culpa por se ter esquecido tão rapidamente da razão por detrás da sua relutância.

- Acho que todos geriram a situação extraordinariamente bem - diz-lhe Erwin com gentileza. - Sei que não é a altura nem o lugar, mas adoraria saber a história, de como todos vocês se conheceram.

- Não é uma história assim tão longa - diz Levi, flectindo os dedos dentro das botas de cabedal castanhas. - Conheci o Farlan no comboio para Dresden. Imaginei que ele estivesse a fugir, já que parecia prestes a borrar-se sempre que alguém de uniforme passava. E a Isabel veio viver connosco há menos de dois anos. Ela andava a pedir dinheiro na rua-

- Em Dresden? - pergunta Erwin, e Levi acena. - Sabes como é que ela chegou lá?

- Não - admite Levi em voz baixa. - Ela raramente fala sobre o que quer que seja que tenha acontecido antes. Porquê?

- Ela deve ter feito uma longa viagem - diz o homem. - O alemão dela é bastante bom, mas quando a ouves falar por um bocado, torna-se claro que não é a sua língua materna. Notei no jardim hoje. Ela não sabia os nomes de muitas plantas que qualquer nativo alemão da idade dela deveria saber.

- De onde achas que ela é? - pergunta Levi, questionando-se se esta seria a razão por que nunca tinham sido capazes de identificar o sotaque dela.

- Não posso dizer com certeza - diz Erwin. - De início, pensei conseguir ouvir traços eslavos na forma como ela fala, mas há algo que não parece encaixar-se. Não que isso restrinja muito as alternativas.

Levi concorda com um resmungar baixo e ficam ambos calados até Erwin lhe tocar no ombro e se levantar; Levi segue-lhe o exemplo, mal se lembrando de pegar na arma que pousara no chão. Caminham mais silenciosamente agora, tentando evitar a vegetação rasteira sempre que possível enquanto deslizam pela escuridão. Levi mantém os olhos nos pés e o fim da floresta apanha-o de surpresa quando finalmente levanta o olhar e vê Erwin a travar e a acocorar-se perto de uma moita. Os carris estão à frente deles, a alguns metros da berma das árvores, com a paisagem a abrir para montes que se prolongam.

- Vou tratar dos carris enquanto tu vigias - diz-lhe Erwin, remexendo na mochila enquanto Levi muda a arma de mão. - Se precisar da tua ajuda, vou pedir.

Levi acena, sentindo a pontada de nervosismo quando os membros começam a entorpecer enquanto passam sem barulho pela folhagem e para os carris. Olhando à sua volta, Erwin aponta uma lanterna para o chão enquanto caminham, parando e ajoelhando-se quando vê uma placa de metal que fora cravada no caminho de ferro onde os carris estavam. Deixa a mochila cair e remexe no interior enquanto Levi se mantém atento, tentando ver a maior extensão possível pelos carris. Olha para trás onde Erwin retirara um pé-de-cabra e uma grande chave inglesa e começara a desenroscar os parafusos que mantinham as placas de metal no sítio, respirando ruidosamente quando as roscas enferrujadas resistem aos seus esforços para as soltar. Levi consegue sentir o coração a bater desenfreado no peito quando a ferramenta faz um som estridente que parece ser levado pelo silêncio.

Enquanto se debate para ver através da escuridão à volta deles, Levi rapidamente sente os outros sentidos a disparar: consegue ouvir cada tinir da chave inglesa contra o metal, consegue cheirar a madeira ensopada e a terra molhada e não tarda até o suor de Erwin, consegue sentir o frio do ar que não consegue provocar-lhe arrepios na pele, quente pela excitação nervosa. Os olhos analisam a linha das árvores, saltando inquietos de sombra em sombra, perdendo direcção entre árvores individuais a alguns metros em ambas as direcções. Levi franze o olhar e tenta ouvir para além do sangue a bombear-lhe nos ouvidos, mas a respiração forçada de Erwin continua a roubar-lhe a atenção enquanto ele puxa os parafusos agressivamente para os remover.

Tal como no terreno com Mike, Levi perde rapidamente a noção do tempo e começa a pensar que os quatro parafusos demoraram a Erwin perto de uma hora, apesar de ser impossível dizer se a sua estimativa está sequer perto de estar certa. Continua a olhar para trás para o homem cuja camisa se tornara escura nas costas com a transpiração a repassar; o seu cheiro quase toldara os outros cheiros e Levi consegue vê-lo limpar a testa de forma quase desesperada para impedir que as gotas de suor caiam para os olhos. Agarra exausto um dos parafusos com ambas as mãos e puxa-o para o libertar, sentando-se nos carris para recuperar o fôlego.

- Troca comigo por um minuto - diz ele a Levi num sussurro áspero, levantando-se e aceitando a arma para ficar de vigia.

Levi agarra a chave inglesa e encaixa-a em torno de um dos dois parafusos que restam, puxando o cabo sem o parafuso sequer se mover. Muda de posição e empurra, colocando todo o peso no movimento e conseguindo que a ferramenta toque no chão. Após repetir isto mais algumas vezes, Levi está cercado pelo seu próprio fedor e ao olhar para Erwin não pode evitar perguntar-se quanta força o homem tem naqueles braços largos; o parafuso mal está a meio caminho fora do furo. Range os dentes e continua a trabalhar até sentir um toque suave no ombro. A arma e a chave inglesa mudam de mãos de novo e Levi levanta-se, pestanejando quando pontos de luz toldam o campo de visão por um momento antes da escuridão regressar mais impenetrável do que Levi se recordava.

Atrás de si Erwin continua a tarefa, o esforço fazendo-o grunhir e arfar por ar enquanto Levi tenta que os ouvidos façam o impossível, que ouçam o som ténue de alguém a aproximar-se a várias centenas de metros. Quando finalmente ouve baque metálico e o grunhir satisfeito de Erwin, o suspiro de alívio de Levi fica preso na garganta quando vê uma centelha de luz na floresta, um segundo de luz que desaparece assim que repara nele. Por alguns segundos hesita, perguntando-se se o sangue a ribombar na cabeça ainda está a toldar-lhe a visão.

- Acho que vi qualquer coisa - sibila por fim a Erwin, ajoelhando-se ao lado dele e apontado para a floresta enquanto homem pára de puxar os pregos das vigas. - Uma luz ali.

Os olhos de Erwin revistam os arredores calmamente por um momento antes de ele regressar ao trabalho, esgravatando a madeira das pranchas para encaixar o pé-de-cabra na cabeça do parafuso.

- Vê se volta a aparecer - diz baixinho.

Levi levanta-se devagar, levando a mão esquerda para apoiar a arma na mão direita enquanto a respiração acelera e as pernas começam a enfraquecer sob o seu peso. Olha para as sombras das árvores, imóveis no ar estanque da noite, e de cada vez que ouve uma pancada alta atrás de si jura que consegue ver as sombras a moverem-se. Ouve Erwin grunhir audivelmente quando finalmente consegue encaixar o pé-de-cabra na falha entre os carris, aplicando o seu peso nele e afastando-os alguns centímetros. Levi tenta apanhar outro som além desse, mas a sua própria pulsação parece encobrir o que o esforço e gemidos de Erwin não toldam. Move o dedo para o gatilho da pistola, franzido o olhar para a secção de escuridão onde vira a luz, os olhos a humedecerem-se enquanto tenta ver.

O tiro faz o silêncio explodir com o badalar da bala a ressaltar nos carris, falhando Erwin pela distância de um braço. Antes de o homem ter hipótese de se virar, Levi avançara para frente dele, a arma subitamente estável na sua mão, a respiração a cair para um ritmo lento e estável ao olhar para a moita, vendo nada a não ser negro por dois segundos até alguém lá se mover, movendo-se na escuridão com ele. Apenas parcialmente ciente de si próprio, Levi aponta a arma e dispara uma vez antes de apontar uma fracção para baixo e disparar de novo. Apesar de parecer que mal ouve os ecos das explosões, Levi consegue ouvir cada raspar das folhas antes de um silêncio anormal cair sobre a cena de novo, e acabara tudo.

- Ajuda-me com isto - diz-lhe Erwin sem perder um minuto, as mãos agarradas ao pé-de-cabra que encravara entre os carris.

Levi ajoelha-se instantaneamente e larga a arma, posicionando os pés contra os carris intactos e levando as mãos até à estreita falha. À contagem de Erwin começa a empurrar, endireitando as pernas pouco a pouco quando o metal começa a mover-se e a ceder sob os esforços conjuntos. Quando o homem está feliz com o resultado, acaba o trabalho ao pontapear e enterrar o agora torcido pé-de-cabra para o chão entre os carris, deixando uns bons vinte centímetros a saírem para fora para apanharem as rodas do comboio.

Respirando com dificuldade e limpando a testa, Levi consegue sentir o cheiro acre do suor de Erwin enquanto o homem avança para ele e passa ao seu lado, avançando para a floresta. Levi segue-o devagar até onde ele parou para espreitar para lá da moita para o jovem homem de costas, olhos esbugalhados voltados para o céu da noite. Levi demora um momento a ver o uniforme, mas quando o faz não se sente de maneira diferente. Parece não haver nada além da dormência, nenhum arrependimento, nenhum remorso, apenas aquele instinto de comer ou ser comido.

- Estás bem? - pergunta-lhe Erwin e ele acena calmamente antes de avançar para o cadáver; as balas trespassaram-no na cabeça e no peito, tal como Levi pretendera.

- Alguém deve ter ouvido os tiros - declara com simplicidade. - O que quer que seja que decidamos fazer com ele, é melhor fazermos agora.

Erwin suspira profundamente. - Agora é mais provável que venham conferir os carris de novo, especialmente quando este não regressar da ronda - diz, soando cansado de repente. - Mas ainda acho que as nossas hipóteses de sucesso são maiores se o encontrarem em outro lugar.

- O que é que sugeres? - pergunta Levi, descarregando a arma nos poucos segundos que Erwin demora a decidir.

- Devíamos levá-lo para o rio - diz ele - e tentar cobrir o sangue com o que conseguirmos.

Levi acena novamente, desabotoando o casaco do soldado rapidamente para arrancar duas longas tiras de tecido da camisa dele, dividindo-as em dois e enfiando os quatro bocados nos buracos deixados pelas balas, limpando as mãos nas calças do homem enquanto Erwin envolve os braços em torno do corpo, içando-o e deitando-o alguns metros mais à frente. Junta-se a Levi a retirar ramos e a revirar terra para atirar sobre as poças e salpicos nos arbustos e na terra, que na escuridão parecem mais poças de óleo ou tinta. Depois disto, começam o caminho de regresso em silêncio, o corpo pendurado grotescamente no ombro de Erwin enquanto ele anda, balançando para a frente e para trás com os passos. Param para descansar mais do que uma vez, alternando entre carregarem o corpo juntos ou Erwin carregá-lo sozinho. Não demora muito para começar a sangrar pelas ligaduras, e na altura que alcançaram a parte baixa do rio, as manchas na camisa de Erwin já não são só transpiração.

Levi cai na relva exausto e ensopado em suor enquanto Erwin pousa o corpo gentilmente antes de se sentar. Olham para o Elba, que corre devagar, reflectindo o intenso azul do céu; nenhum deles diz alguma coisa, nem sobre o corpo do jovem ao lado deles ou sobre a missão. Levi respira profundamente, sentindo o amanhecer na forma como o mundo parece vazio e novo. Interroga-se se devia sentir-se mal, ou sentir alguma coisa pelo menos, mas parece idiota tentar forçar algo que simplesmente não está lá. Decide que é suficiente não se sentir bem com aquilo por agora. Ao seu lado, Erwin debate-se para se levantar e olha para baixo para o corpo impassivamente.

- Foi para ali que fizeste pontaria? - pergunta ele a Levi, que se volta para olhar os buracos ensanguentados na cabeça e no peito do jovem homem.

- Sim - responde, igualmente apático, sentindo um género de aprovação no aceno de Erwin.

- Vou levá-lo para mais longe da margem - sussurra o homem, despindo-se rapidamente e carregando o corpo para dentro de água.

Levi observa enquanto Erwin se afasta cada vez mais com cada braçada, permanecendo quieto até o fedor do seu corpo se tornar intolerável. Deixa as roupas ao lado das de Erwin e desce pela margem até à agua, o frio de repente tão purificante como o calor fora antes. Mantém Erwin sob olho enquanto avança na água, os pés a procurarem as pedras no fundo quando salpica água para a cara, braços e pescoço. Ainda se está a lavar quando o homem regressa e sai da água, deitando-se na margem despido e exausto. Levi não olha para ele, por respeito ou decência ou por outra razão qualquer, nem quando se lhe junta na relva e pega na roupa. Só quando ouve Erwin mudar de posição na relva é que levanta o olhar e vê as faces coradas do homem, a causa do embaraço aumentando com rapidez entre as suas pernas.

Olham um para o outro por alguns segundos tensos antes de Erwin se levantar de novo e regressar ao rio; Levi vê-o mergulhar quando a água lhe chega à cintura, grato pela solidão enquanto luta para se enfiar nas calças. Nenhum deles diz uma palavra no caminho de regresso e o silêncio segue-los até à cozinha do casebre onde Levi veste uma camisa lavada, sentando-se pesadamente na pequena cama de solteiro e gemendo quando Erwin lhe diz que horas são.

- Vou começar a preparar o pequeno-almoço - diz-lhe o homem, e sorri. - Tenta descansar.

A última coisa que Levi regista antes de adormecer é um embate ressoante ténue, mas na sua mente confusa não lhe é claro se é o som distante do comboio a escapar dos carris ou Erwin a acender uma chama no fogão.

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AVISOS:

- linguagem obscena

- morte