O Peso do Destino
Parte Sete – Admito, Você Faz Falta
Harry estava estressado. Já faria um bom tempo desde que ele deixara para trás a antiga imagem de um adolescente irritadiço, bravo e arredio. De todos os bruxos da sua idade ele fora o que mais tivera pressa para crescer, pressa para aprender a se defender, defender aqueles que amava e para no fim sobreviver aquela guerra.
Mas agora havia Draco, e Draco o desestruturava e o fazia se sentir como um adolescente novamente. E isso estava deixando-o extremamente estressado. Faria poucos dias desde que invadira a Mansão Malfoy e se deparara com o loiro ferido, e desde esse último encontro ambos haviam permanecido em silêncio, numa disputa muda onde um precisaria ceder para que pudessem estar juntos novamente.
Só que Harry já havia pisado demais no próprio orgulho e desde o início fora sempre ele quem correra atrás, sempre ele que puxara Draco para si, impedindo-o de fugir. Mas agora ele estava cansado e sentia-se miserável. Precisava pelo menos uma vez na vida saber que o loiro também era capaz de fazer sacrifícios por ele, que era capaz de abaixar a cabeça, aceitar o que sentia e correr atrás. E será que pedir isso de Draco, naquele momento, era pedir demais?
Ele não sabia, mas precisava arriscar, principalmente por estar disposto a ir longe para amar Draco, por causa disso acreditava que essa prova era o mínimo que merecia em resposta.
E era exatamente por isso que se encontrava com o pavio tão curto. Não conseguia se concentrar, não conseguia formular pensamentos produtivos e mais atrapalhava as missões da Ordem do que ajudava. E o pior de tudo é que alguns de seus companheiros já haviam notado as mudanças nas suas atitudes. Hermione como sempre fora à primeira, sendo seguida por Remus e Harry sabia que logo chegaria o momento em que até mesmo Sirius notaria as mudanças em seu comportamento.
Mas o que ele realmente não esperava era que o padrinho fosse notar tão rápido, por isso foi com certa surpresa que ele viu Sirius adentrar a cozinha de sua casa em uma noite qualquer, parecendo um tigre enjaulado usando uma jaqueta de couro.
- Moody veio hoje comentar comigo como você quase conseguiu arruinar uma missão, Harry.
A primeira reação do moreno foi derrubar um pouco de chá no pires no momento em que pretendia levar a xícara até a boca para tomar um gole.
- Boa noite para você também, Padfoot.- murmurou tentando não fazer uma careta de desagrado ao registrar o que acabara de ouvir.
- Harry, nem tente desviar o assunto. – Sirius retrucou, recostando-se no umbral e afundando as mãos no bolso da calça.
- Como você quer que eu responda a esta acusação, Sirius? Francamente, acredito que Moody deveria aprender a ficar calado. – Harry finalmente retrucou, deixando escapar um suspiro cansado. – E acredito também que você precisa aprender a avisar que está vindo me visitar antes de simplesmente ir invadindo minha casa.
Sirius franziu o cenho ao ouvir isso, parecendo dividido entre uma onda de raiva e outra de culpa.
- E desde quando você se preocupou tanto comigo 'invadindo' sua casa, Harry? – o maroto perguntou e o moreno não deixou de notar o tom ofendido em sua voz.
- Veja bem, Sirius, eu não sou mais nenhuma criança, muito menos um adolescente inconseqüente e por isso adoraria ter um pouco de privacidade.
- Privacidade? Privacidade para quê? Você está escondendo algo de mim, é isso? – Sirius bufou, fazendo com que Harry levasse as mãos as têmporas para massageá-las, prevendo que aquela conversa não tomaria um rumo muito bom.
- Sirius, não se trata de esconder alguma coisa. Parece até que você está me acusando de ter feito algo errado!
- E você fez? – Black questionou com um olhar perspicaz.
Harry sentiu o próprio queixo cair por alguns segundos e tentando disfarçar ergueu-se da cadeira, virando-se na direção da pia para lavar a xícara na tentativa de ocupar as mãos com alguma coisa antes que suas atitudes acabassem entregando alguma verdade que não deveria.
- A questão é que... eu quero construir minha vida, pela primeira vez uma vida normal, quem sabe. E você, por exemplo, gostaria que eu ficasse aparecendo sem avisar na sua casa? Correndo o risco de flagrar você e Remus em alguma situação constrangedora?
Harry mesmo de costas pode sentir que o padrinho ficara meio sem jeito com o que acabara de ouvir.
- É diferente, Harry, eu e Remus estamos juntos –
- E só porque eu não estou com ninguém isto te dá o direito de aparecer à hora que você quiser, sem avisar? – o moreno questionou terminando de enxaguar o pires e agora se virando para encarar Sirius enquanto apoiava os cotovelos na pia.
- Olha, eu não quis dizer isso – Padfoot tentou consertar, mas Harry simplesmente cruzou os braços fechando a cara.- Você sabe que eu não faço por mal, só sou um pouco protetor.
- Um pouco?
- Ok, muito. Mas você me dá motivos e a prova disso foi o que Moody me contou.
Harry bufou, assumindo uma postura mais ereta enquanto encarava o padrinho.
- Moody não tinha o direito de sair por aí fazendo fofocas, muito menos sobre algo insignificante. Eu tive um dia ruim, e daí, todos tem seus dias ruins. – ele exclamou vendo a expressão de Sirius ficar ainda mais séria.
- Harry você pode achar que sou alguma espécie de lesma ambulante quando se trata de notar as coisas, mas eu não sou, ok? Todo mundo já percebeu que nessas últimas semanas você tem andado desastrado, aéreo e irritadiço.
O moreno ao ouvir isso preferiu desviar os olhos para os próprios pés.
Sirius observou o gesto e suspirou.
- Você sabe que pode confiar em mim, não sabe? – mais uma vez o bruxo não respondeu e nem fez contato visual. – Harry, por favor, só quero ajudar.
- Sirius, ninguém pode me ajudar, porque eu estou bem. Muito bem na verdade. Mas agradeço por se preocupar.
- Você realmente acha que vou aceitar essa resposta? – Sirius questionou assumindo um tom indignado.
- Sinto muito, Padfoot, mas acredito que terá que aceitar. – e dizendo isso Harry preferiu assumir uma atitude estratégica para se livrar das perguntas do padrinho que provavelmente nunca teriam fim.
- Harry – o maroto tentou mais uma vez.
- Chega, Sirius, este assunto está encerrado. – e aproximando-se do padrinho e dando um leve tapinha em seu ombro, ele o largou na cozinha, dirigindo-se escada acima e indo se trancar em seu quarto.
Sirius ainda no primeiro andar passou uma das mãos pelo cabelo, preocupado e irritado.
- Maldito, Malfoy, o que será que aquele desgraçado fez para você ficar desse jeito.
E pensando furiosamente no que fazer e maquinando formas de torturar o sonserino quando o visse, ele aparatou, preferindo dar um tempo ao afilhado antes de tornar a importuná-lo.
O clima ao redor da mesa estava tenso, praticamente insuportável e tudo isso era culpa de Sirius Black que passara toda a reunião encarando mortalmente um Draco Malfoy, que se esforçava ao máximo para manter uma compostura de indiferença.
Dez dias desde a última vez que o sonserino se encontrara com Harry e contando. Já estava sendo um terror se acostumar a não ver o moreno e se controlar para não ir correndo atrás dele, e agora tinha que aturar um Black muito bravo, estripando-o com os olhos.
Durante todo aquele tempo ele fizera o máximo para não encarar o maroto, permanecera rígido, sentado de forma empertigada, o queixo erguido, fingindo escutar com toda a atenção o que McGonagall estava falando, mas os olhos acinzentados de Sirius eram incansáveis e pareciam estar tentando fazer com que ele entrasse em auto-combustão.
Por isso não foi nenhuma surpresa o alívio que a maioria sentiu quando finalmente foram dispensados.
Draco mais do que depressa se ergueu indo apanhar o próprio casaco para sair dali, mas a sorte aquele ano praticamente nunca estava ao seu lado, por isso não foi nenhuma surpresa quando uma mão, muito forte por sinal, o agarrou pelo colarinho logo no corredor, virando-o e o jogando contra a parede.
O loiro imediatamente conteve qualquer som de dor que ameaçou escapar por sua garganta para não dar nenhum sentimento de satisfação a Sirius Black e sua cara de poucos amigos.
- Sabe, Malfoy, eu nunca me deixe enganar por essa sua carinha pálida e fresca. – Padfoot começou a dizer, o cenho franzido ameaçadoramente.
- Reconfortante saber disso, Black, mas sério mesmo? Eu francamente não estou interessado nesse tipo de informação.
Sirius praticamente uivou ao ouvir isso, puxando-o para frente pela roupa para logo em seguida empurrá-lo para trás, ouvindo o som mordaz da cabeça platinada se chocando contra a parede.
- Não se faça de desentendido, fuinha maldita, o que você andou aprontando?
Dessa vez foi à vez de Draco franzir o cenho confuso.
- Black, eu não sou do tipo que não se recorda das coisas erradas que costumo fazer, por isso eu acho que você pegou o cara errado.
- O cara errado? Meu afilhado está há semanas agindo como um zumbi atrapalhado e a única pessoa em quem consigo pensar quando tento encontrar um culpado é você, então me dê um motivo concreto para eu estar acusando o cara errado?
Draco piscou algumas vezes ao ouvir isso, não sabendo exatamente como registrar a notícia.
- Harry não está bem? – foi só o que ele conseguiu formular, conseguindo arrancar uma expressão de surpresa de Sirius, que ficou muito confuso ao notar que Draco realmente não fazia idéia do que ele estava falando. – Black, eu adoro ser enforcado no meu tempo livre, acredite, mas agora que você tem minha atenção eu adoraria que me contasse o que está acontecendo e soltasse a minha roupa.
Ouvindo isso o maroto o largou e o sonserino maquinalmente, ainda sem deixar de encarar o outro bruxo, começou a arrumar a própria camiseta.
- Como você não sabe de nada? – Sirius questionou confuso, os olhos brilhando na penumbra do corredor.
- Última vez que chequei, Black, ser onisciente não faz parte da minha infinita lista de qualidades.
- Mas vocês estão juntos, não estão? – o maroto argumentou, comprimindo os lábios.
Draco ao ouvir isso teve a decência de corar, se concentrando agora em tirar alguma espécie de pó imaginário que pousara em seus ombros.
- Malfoy... – Sirius observou a atitude, indignado, começando a se irritar novamente.
O loiro deu um suspiro cansado ao perceber o tom e vendo que não tinha muitas escolhas no instante, se preparou para tentar dar uma resposta não muito completa, mas que apagasse o fogo irracional que parecia queimar furiosamente dentro da cabeça de Sirius.
- Nós não estamos exatamente juntos, eu acho.
Os olhos acinzentados de Sirius, uma herança muito valiosa de gerações a fio, se arregalaram sem nenhuma cerimônia.
- Você terminou com ele? – o maroto praticamente bufou, como um touro furioso, pronto novamente para nocautear Draco, que agradeceu profundamente aos céus quando um Remus muito sério surgiu no fundo do corredor, não muito contente ao ver o namorado pronto para dar o bote no sonserino.
- Padfoot, por favor, me diga que você não está novamente fazendo alguma besteira.
Sirius grunhiu com uma raiva claramente reprimida.
- Eu não estou fazendo nada, Moony, só tendo uma conversinha casual com meu amigo Malfoy, não é mesmo? – Black comentou parecendo estar sendo estrangulado ao ser obrigado a dizer isso.
Draco apenas ergueu uma sobrancelha, virando-se para ver um Remus muito desconfiado olhando-o de cima em baixo.
- É, exatamente isso. – ele disse por fim, sabendo que seria muito mais vantajoso simplesmente fingir uma paz inexistente, porque só assim poderia sair dali o mais rápido possível.
- Conversa casual? – Remus comentou, os olhos revelando mais do que ele falava.
- Só estava comentando com Black aqui sobre a nova missão, coisas do tipo. – Draco disfarçou escondendo o rosto enquanto afastava-se de Sirius e finalmente alcançava o local onde seu casaco estivera pendurado. – Mas como estou atrasado para outro compromisso, acredito que teremos que terminar nossa conversa outro dia, certo?
Sirius ouviu a última frase com uma indignação velada, mas manteve o teatro, fazendo uma cara de desgosto enquanto confirmava.
- É, outro dia, Malfoy.
Draco tentando conter um suspiro de alívio simplesmente abotoou rapidamente alguns botões da capa, fazendo um gesto de cabeça para os dois marotos enquanto apanhava a própria varinha, mais do que desesperado para sair dali.
- Então até o próximo encontro. – disse praticamente sem fôlego, girando nos calcanhares a passos largos na direção da porta de entrada.
Remus ficara encarando Sirius o tempo todo, praticamente ignorando a saída estratégica do loiro.
- O que foi? – Sirius perguntou por fim, tentando de todas as formas não fazer contato visual com o lobisomem.
- Eu não sou nenhum idiota, ouviu, Padfoot? – Lupin avisou, cruzando os braços sobre o peito.
- Moony, não faço a mínima idéia do que você esteja falando. – Sirius comentou, pegando o próprio casaco da mesma forma que Draco fizera minutos atrás.
- Eu só espero, Sirius, que você perceba antes que seja tarde demais que agir como você está agindo não está ajudando em nada Harry e que ele não é mais uma criança. Isso só faz com que ele se afaste de você.
- Afastar, Moony? – Sirius deixou escapar uma risada amarga sem querer. – Acho que é meio impossível que ele se afaste ainda mais. – completou entre dentes, ajustando o colarinho e dando as costas para Remus.
O lobisomem suspirou após assistir a atitude infantil de Sirius. Por mais que os anos passassem e o maroto ficasse mais velho, ele continuava sendo um teimoso, cabeça-dura que tenta fazer tudo ser da forma que quer e acaba estragando tudo.
Remus só desejava que Padfoot no final das contas não estragasse aquilo para Harry, porque até ele conseguia enxergar que aquilo era muito importante para o bruxo. E para que isso não acontecesse ele não deixaria o companheiro em paz um minuto sequer, se fosse preciso o estuporaria e o prenderia numa cela.
Draco tentara de todas as formas possíveis se acalmar, mas a conversa nada calorosa que tivera com Sirius continuava se revirando dentro de sua mente.
Sabia desde o início que as coisas entre ele e Harry não andavam exatamente cem porcento e que ambos encontravam-se em um impasse mudo para ver quem daria o braço a torcer primeiro, mas ele nunca imaginara que isso estava afetando tanto o grifinório.
E agora, pensar em como Harry estava o deixava maluco, principalmente porque o moreno não deveria andar muito bem, já que até mesmo a anta mitológica que era Sirius Black notara que havia algo errado.
Já faria horas que ele andava de um lado para o outro dentro do próprio quarto, sentindo o tempo passar enquanto a lua lá fora atingia seu ápice no céu. Ele estava confuso, amargurado e mais do que tentado a esquecer aquela briguinha idiota que vinha tendo com Potter para simplesmente ir vê-lo.
Eles não eram mais crianças, certo? Eles não tinham mais o direito de agir como dois garotos bobos e aquela briga era tão tola e insignificante.
Passando uma das mãos pelo cabelo e sentando-se na ponta da cama, Draco bufou enquanto sua mente viajava furiosamente nas diversas possibilidades que existiam.
Harry ao final de tudo poderia acabar desistindo dele, ele imaginou. Não era como se seu comportamento fosse exatamente exemplar, ou que ele fosse o companheiro mais adorável de todo planeta.
Draco sabia que ele era uma maçã estragada tentando conviver ao lado de uma bastante saudável e brilhante, e às vezes, por mais que tentasse esconder, ele tinha medo que no futuro pudesse acabar estragando o que Harry tinha de belo.
Esfregando as palmas da mão no rosto, ele suspirou frustrado. Ele não sabia o que havia de errado com ele. Ele amava Potter, isso já era um assunto dado por encerrado e por mais que ele não saísse falando isso, já admitira para si mesmo e aprendera a conviver com essa verdade.
Mas além disso, ele não sabia pelo o que estava guerra, estarem em lados opostos, tudo isso complicava o relacionamento deles, mas ele também não se esforçava para melhorar nada.
E agora parecia que Harry se tornara um zumbi desastrado como Sirius o chamara e Draco sabia que era culpa dele, que era sua responsabilidade fazer alguma coisa. Mas fazer o quê?
Se jogando na cama e olhando para o teto, ele sentiu suas costas nuas rasparem contra o lençol macio do colchão e sua mente mais do que imediatamente começou a imaginar o que Harry estaria fazendo. Será que o moreno já fora dormir? Será que estava trabalhando até tarde? Será que estava com insônia?
Grunhindo com a própria curiosidade, ele virou o rosto para o lado, focalizando a escrivaninha e todo o conteúdo sobre ela.
O que é que ele estava esperando? Se perguntava. O que é que ele queria, desejava? Parecia que estava perdendo tempo com coisas tolas e provavelmente estava, mas era tudo tão novo e difícil e complicado.
Piscando demoradamente ele deixou os olhos passearem pelas lombadas de alguns livros, pela pena pousada no tinteiro até finalmente se deparar com o pequeno pomo de ouro que Harry lhe dera.
Aquele pomo significava tanta coisa. Significava confiança, significava amor, significava dependência e Harry dera o pequeno objeto dourado para ele. Aquele pomo significava eles.
Draco finalmente desviou os olhos do objeto e tornou a encarar o teto, o coração agora disparado por nenhum motivo em especial. Será que era certo ele ficar ali simplesmente parado, pensando em tudo? Não seria mais correto ele agir e fazer o que tinha vontade?
Franziu o cenho vendo que já faria horas que se encontrava naquele debate interno e que o sono realmente não planejava abençoá-lo naquele dia. E quase que por vontade própria sua cabeça tornou a virar para o lado, sua bochecha esquerda repousando sobre a superfície macia da cama enquanto seus olhos navegavam novamente na direção do pomo.
Harry estava em casa, sozinho. E ele estava ali na Mansão, igualmente sozinho, sem conseguir dormir.
Ele deveria ser muito burro para no final das contas ainda continuar ali, certo?
E no segundo seguinte, sem pestanejar, ele deixou o impulso agir sobre o próprio corpo, e antes mesmo que ele pudesse pensar no que realmente estava fazendo, ele ergueu-se e apoderou-se do pomo, olhando para o objeto fascinado e ofegante, sentindo logo depois que era tragado pelo turbilhão da uma chave de portal.
Draco não soube exatamente como ele foi capaz de chegar tão furtivamente até a frente do quarto de Harry. Só de olhar para porta ele começava a sentir-se incerto, um frio furtivo disseminando-se pelas pontas dos seus dedos e caminhando ao longo de seus braços, fazendo com que seus ombros ficassem ainda mais pesados e com que sua cabeça rodopiasse.
Ele não sabia determinar se era medo ou excitação, mas tinha certeza de que uma grande carga de adrenalina corria por suas veias neste exato instante e que aquela porta fechada era como um obstáculo gigantesco que ao ser derrubado poderia trazer algumas surpresas.
Quando apanhara a chave de portal, ele não pensara nas conseqüências de seus atos ou que visitar Harry poderia transformar aquela situação em algo pior do que já estava, afinal de contas eles poderiam acabar brigando novamente e tudo iria por água abaixo, fazendo-os andar em círculos. Mas naquela noite em especial ele estava cansado de lutar contra as próprias vontades e sentimentos e ele realmente precisava ver Harry, nem que fosse para levar um safanão.
Por isso quando ele finalmente criou coragem para abrir a porta, a única coisa que conseguiu fazer foi respirar fundo e calar todas as idéias mirabolantes que cruzavam sua mente.
Não havia motivos para tanta reflexão, dentro daquele quarto estava Harry, o homem pelo qual ele se considerava apaixonado, a pessoa que fizera com que ele mudasse todos os planos já feitos para o resto de sua vida, o único ser no mundo capaz de tirá-lo do sério para minutos depois arrancar suspiros de seus lábios.
Aquele era Harry, seu Harry, por isso não havia espaço em seu corpo para dúvidas, temores e vergonha.
Foi pensando nisso, tentando acalmar seu coração desesperado que ameaçava saltar pela boca, que ele finalmente empurrou a porta, tendo uma visão ampla do quarto escuro e divisando no meio da cama a figura encolhida do grifinório, que parecia perdido em sonhos sem nem se dar conta que tinha naquele instante um Draco Malfoy muito instável na frente de seu quarto.
O primeiro sentimento que o loiro teve com aquela imagem foi ternura. Assistir a luz noturna invadir a janela e repousar sobre uma das mãos descoberta de Harry fez com que um leve sorriso emergisse sem aviso em seus lábios. Mas o momento rapidamente foi deixado para trás quando um pequeno sentimento de tristeza mesclado com raiva dominou seus pensamentos e ele começou a se sentir posto de lado.
Sirius dissera que Harry se encontrava mal, provavelmente sofrendo e fora exatamente isso que Draco esperara encontrar ao ir visitar o moreno. Mas agora que estava ali, vendo que o grifinório dormia pacificamente alheio a todas as turbulências mentais que o acometiam, isso o deixa bravo, o fazia se sentir pequeno e insignificante, como se somente ele sentisse qualquer coisa dentro daquele relacionamento.
Mordendo os lábios e apertando os punhos, ele não conteve as próprias pernas e se permitiu aproximar da cama, caminhando levemente sobre o tapete, os ruídos de seus pés descalços quase imperceptíveis dentro do silêncio do quarto.
Draco não compreendia. Harry respirava demoradamente, seu rosto descoberto pela proteção dos óculos mostrando uma expressão contente, seus cabelos cobrindo a cicatriz que cortava a sua testa. Era uma imagem tão avassaladora e ao mesmo tempo tão reconfortante que ele simplesmente não encontrava uma reação adequada para aquele momento.
Ele deveria acordá-lo? Deveria ir embora? Deveria estar feliz ou bravo ou estressado?
Draco não conseguia se definir, por isso continuou parado do lado da cama de Harry, observando-o adormecido, os cabelos loiros desgrenhados caindo por sobre seus olhos, seu queixo rígido demonstrando o quão apertado ele mordia e ainda havia aquele bolo no topo de sua garganta, como se fosse uma vontade de gritar, mas ele não sabia ao certo se era isso, porque poderia ser também uma vontade contida de chorar.
E alguns minutos se passaram e ele continuou ali, imóvel, firme e ao mesmo tempo indeciso. Parecia que nada no mundo existia, só a imagem angelical de Harry e ele, perturbado por todo aquele furacão sentimentos. Por isso que foi praticamente um choque quando o silêncio do quarto foi quebrado sem aviso, trazendo-o de volta a realidade.
Em um piscar de olhos, mas sem realmente prestar atenção, ele assistiu um Harry muito confuso sentar-se de súbito na cama, olhando diretamente para ele, parecendo estar completamente acordado e sem nenhum vestígio de ter estado em um sono profundo alguns segundos atrás.
- Draco – foi só o que ele disse, com a voz muito rouca, apertando os olhos para enxergar o loiro sem os óculos e naquele breu.
Malfoy o observou franzir o cenho, como se tentasse entender toda a situação e isso o fez sentir-se estranhamente acanhado, como uma criança sendo pega roubando doces, e antes mesmo que pudesse evitar ele abaixou a cabeça e virou o rosto de leve para o lado, escondendo os olhos.
Um silêncio pesado tornou a preencher o quarto, havendo apenas o ruído das respirações de ambos. Draco imaginava o que se passava pela cabeça de Harry, provavelmente nada muito agradável, afinal despertar repentinamente e se deparar com uma pessoa descalça e sem camisa do lado de sua cama não era exatamente uma experiência alegre.
Mas foi com certa surpresa que ele sentiu a mão calejada do moreno encontrar a dele naquele escuro, os dedos ásperos deslizando até se prenderem aos seus muito pálidos e longínquos, como um encaixe quase perfeito.
Em um breve segundo ele sentiu o coração dar um solavanco seguido de uma pontada de algo indefinido, uma mistura de esperança, felicidade e saudades. Fora por conta destes sentimentos que ele criara coragem para ir ali, naquela mesma noite. E exatamente como ele esperara, um simples toque de Harry conseguiu tirá-lo de todas aquelas amarguras que por muito tempo naquela semana povoaram sua mente, impedindo-o de pensar, sentir ou fazer qualquer coisa direito.
Por isso, foi com uma nova sensação de apreciação que ele finalmente se fez encarar Harry e a luminosidade de suas íris verdes, sentindo-se tenso e ao mesmo tempo encantado.
O moreno assistindo esse movimento de aceitação rapidamente se reposicionou na cama, sentando-se na borda enquanto sua mão presa a de Draco caminhava na direção de seu pulso, indo finalmente pousar em seu antebraço.
Antes mesmo que o sonserino previsse o próximo passo, Harry o puxo para baixo, envolvendo seu torso despido em um abraço carinhoso enquanto sua outra mão ia para parte de trás da cabeleireira loira.
Draco permitiu-se levar pelo momento, apoiando o queixo no ombro de Harry e sentindo o suave perfume do moreno invadir seus sentidos, uma nova tranqüilidade dissolvendo por entre suas feições enquanto os dedos daquela pessoa tão querida se embrenhavam por entre seus cabelos, massageando com suavidade seu coro cabeludo.
Harry permitiu-se sorrir de leve ao notar a entrega do loiro, uma felicidade nova invadindo todo seu corpo enquanto ele sentia em cada célula a importância daquele momento.
Draco permitiu-se agarrar aquela situação, mordendo os lábios para conter todas as emoções que começavam a entrar em ebulição dentro de si. Ele não sabia explicar da onde vinha tanta coisa, tanto amor, tanta necessidade reprimida e antes mesmo que pudesse evitar, suas mãos se fecharam com intensidade em volta dos dois braços de Harry, enquanto ele virava o rosto e afundava a própria face em seu pescoço, aspirando sua essência enquanto seus lábios levemente trêmulos começavam a beijar aquela pele sensível.
O bruxo pego de surpresa pelo o gesto, permitiu-se deixar escapar um suspiro diante da provocação, apoiando a testa no ombro de Draco enquanto este continuava beijando toda a extensão da curva de seu pescoço. O loiro notando que não era repelido afastou-se depois de um tempo, procurando imediatamente pelos olhos de Harry.
Por um tempo eles permaneceram naquela posição incomoda, se encarando intensamente, em busca de respostas ou qualquer outra coisa, mas nenhum dos dois sabiam o quê, até que Draco, cansado demais daquele jogo, levou uma das mãos até a nuca de Harry, puxando-o com certa pressa para um beijo.
O moreno deixou-se levar e permitiu a aproximação, fechando os olhos e sentindo os lábios de Draco cobrirem rapidamente os seus, ávidos por aquele contato. Durante alguns segundos o loiro simplesmente permaneceu com a boca pousada sobre a de Harry, a respiração de ambos descompassada, enquanto as mãos do grifinório subiam dos ombros nus de Draco para irem se apoiar de cada lado de seu pescoço.
O sonserino aproveitou este instante para abrir um pouco os olhos, que antes fechara sem nem mesmo perceber, e foi com um frio na boca do estômago que ele observou a expressão intensa na face de Harry, a forma como este apertava os olhos e o quão convidativos se encontravam seus lábios.
Perdendo-se novamente no momento, ele finalmente decidiu parar de pensar em troca de agir, e cerrando as próprias pálpebras, ele mordiscou a boca de Harry com suavidade, ao mesmo tempo que apoiava um dos joelhos na cama e começava a empurrar o moreno contra o colchão.
O grifinório se deixou levar e aproveitou o momento para abraçá-lo, seus lábios agora entreabertos, convidando Draco para um beijo mais explícito e íntimo.
Malfoy não soube dizer exatamente quando perdeu a completa noção de tempo e espaço, mas sabia que com poucos segundos Harry o trouxera de volta a vida, dando-lhe respostas para perguntas que nem ele sabia existir. E foi assim que ele finalmente se entregou, o beijo que era para ter começado tranqüilo dando espaço para um contato mais desesperado, suas mãos antes preocupadas em acariciar a face do companheiro, agora sedentas por seu corpo, deslizando por sobre sua roupa, buscando brechas para tocar a pele morena tão bem guardada.
Em breves momentos, sem romper por um minuto sequer o beijo, Harry dedicou-se a tentar desvencilhar Draco de suas calças enquanto o sonserino imitava o gesto. Logo depois, como se emergidos de um profundo desespero, ambos se viram nus diante um do outro, não apenas fisicamente, mas também no emocional.
Nenhum deles seria capaz de por em palavras a intensidade daquele momento. Não era um ato sexual qualquer que iria promover uma fantástica reconciliação, era mais que isso, era amor que ao mesmo tempo se confundia com entrega. As mãos dos dois não tocavam simplesmente a pele um do outro, elas se reverenciavam, dançavam em meio aos corpos enquanto os beijos significavam o resto, as palavras. Eles estavam conversando em silêncio, se entendendo e aquilo era o que precisavam, era o que durante todo aquele tempo estiveram procurando.
E no fim do ato, quando o orgasmo se tornou inevitável e Draco se viu ofegante, sobre um Harry feliz que lhe acariciava a face, satisfeito e terno, ele sabia que estava completo e aquilo fez com que seu coração se apertasse e com que ele tivesse que segurar as lágrimas. Chorar naquele momento não era a resposta e ele sabia disso.
Por isso a única coisa que conseguiu fazer foi sorrir, e não um sorriso qualquer. Era praticamente um novo gesto de lábios, que tomaram Harry de surpresa e fizeram com que o coração do moreno estancasse em seu peito e se inundasse de amor. Aquela era a resposta que ambos estiveram buscando por toda uma vida e agora estava ali diante deles, e pela primeira vez eles podiam estender a mão na direção certa sabendo que certamente iriam alcançá-la.
Nota da Autora: Capítulo doido, yay, yay, eu sei, mas espero que tenha ficado bom xD.
De todas as formas quero agradecer a todo mundo que leu e – quem sabe – se divertiu.
Muito obrigadas pelas reviews e pelo apoio, é algo muito valioso para mim.
E beijo para as pessoinhas abaixo, que carinhosamente deixaram comentários no último capítulo, agradeço de coração:
Debbie – Eles são bobos, principalmente o Sirius, mas são fofos, né? Amo eles também. xD
Simca – Não seqüestre o Draco, se vc fizer isso como fica o pobre Harry? Hhauahuaa. Vai ser só depressão.
Leo-Shaka – Up até rápido dessa vez, nê? Espero que curta este capítulo também. =D
tsuzuki yami – Não posso dizer se alguém morre ou não huaihaiuhaiua, mas só afirmo que matar os dois é algo que não farei, ainda não achei essa veia de maldade em mim... ainda. E para me redimir, postei este capítulo mais rápido, por isso espero que se divirta =p.
E agora, boa noite para todos que já são 3 da manhã =x
Read & Review xD
