Interlúdio
Noite mais uma vez. Hogwarts estava em perturbador silêncio, um silêncio incomum e massivo, mesmo a magia que naturalmente emanava daquelas grossas paredes milenares parecia mais sutil que o normal.
Nas profundezas do castelo jazia um único homem sentado em seu escritório diante de papéis e uma solitária garrafa de uísque.
Ele odiava aquele silêncio opressivo tanto quanto amava aquela escola. Uma quietude oca, ecos de vozes que não mais ali estavam e o vento soprando as janelas davam ao castelo um aspecto ainda mais amedrontador.
O homem ponderava sobre os acontecimentos de mais um ano letivo terminado. Muitas coisas haviam ocorrido, em muitos momentos a situação fugiu de seu controle e ele poderia se considerar com sorte por tudo ter acabado com o mínimo de danos.
Voltou-se então a pensar sobre o garoto que havia quase imediatamente tomado sob sua asa. A criança era incrível. Dumbledore soube desde a primeira vez que o encontrou naquela maldita noite a anos atrás que o garoto seria grande. Quando o viu adentrar o salão principal surpreendeu-se novamente, seus olhos espertos brilhavam de poder misturado a prazer e ele soube imediatamente que o menino era especial, talvez ainda mais especial que ele próprio.
Os dias passaram e cada vez mais o garoto parecia destacar-se dos seus pares, sua reunião periódica com o corpo docente unida ao seu olhar atento sobre ele o empolgava dia após dia. Harry compreendia melhor que qualquer um de seus colegas a forma que a magia funcionava e o que era um sonho se transformou um pesadelo com os acontecimentos ocorridos no dia das bruxas.
O garoto havia se voltado às artes das trevas muito mais cedo do que Albus previu, ele soube disso imediatamente, os olhos do garoto estavam anormalmente poderosos aquela noite, seu rosto transparecia uma pitada de nojo de si próprio. Magia poderosa deixava marcas e tais marcas permaneciam intocadas naquele banheiro para quem fosse sagaz o suficiente para vê-las.
Albus sentiu a culpa em não ter previsto que algo assim aconteceria e se apressou para corrigir suas ações. Suas medidas juntas aos escrúpulos de Harry deram resultados. Ainda que o garoto aprofundasse muito seus conhecimentos ao longo dos meses não tinha voltado a utilizar das artes até o fim do ano, quando novamente se viu em meio a uma situação difícil.
Albus suspirou.
Havia sido um desastre, o garoto provavelmente não sabia, mas Voldemort preparou uma armadilha especial em algum lugar nas masmorras, Harry havia passado por um encantamento de compulsão que aparentemente tinha a função de remover princípios. Dumbledore não conhecia o feitiço de forma aprofundada, porém sabia que era uma artimanha escura e perigosa. Era um feitiço de utilização rara, mas quando usado da forma correta costumava trazer grandes traumas.
Foi então distraído de seus pensamentos pelo companheiro de todos os diretores, a maior invenção de Godric.
"Sobre o que está pensando velho tolo?" Perguntou o chapéu com curiosidade.
"Sobre Harry meu caro." Disse Albus tomando outro gole de sua bebida.
"É claro, o garoto." Falou o chapéu de forma misteriosa. "Grande mente, muita coragem, potencial para lealdade apesar de seriamente atrofiado." Fez uma pausa antes de continuar. "E é claro, ambicioso, talvez nem ele saiba ainda, sua ambição apesar de forte, está escondida embaixo de muitos traumas e pensamentos confusos."
"De fato." Disse Albus distraído.
"As vezes me pergunto." Começou novamente o chapéu. "Se o coloquei no lugar certo."
O velho parecia curioso agora.
"Realmente? Acho que o tempo dirá, não é mesmo?" Falou levantando-se para ir até sua fênix.
Fawkes começava a mostrar sinais de velhice, provavelmente passaria por um renascimento em breve.
"Sim, sim…" Respondeu o chapéu. "O garoto tem um destino sombrio pela frente."
Dumbledore lembrou-se de um dos muitos dons do chapéu, um dos que ele costumava não pensar.
"Você vê alguma coisa?" Perguntou Albus hesitante.
O chapéu demorou a responder.
"Eu sempre vejo." Respondeu de forma esquiva o objeto. "Mas não muito, devo admitir. Vejo dor, sofrimento, traições." Disse o chapéu de forma sombria, Dumbledore estremeceu. "Vejo algo interessante porém. Uma relação que nasce de uma ação corajosa. Algo bonito quem sabe?" Questionou a si mesmo o chapéu.
Dumbledore suspeitava que talvez soubesse de quem o chapéu estava falando, ele vira os olhares entre Harry e a garota que havia sido salva por ele.
"Talvez algo bom venha de tudo isso então." Disse o diretor com tristeza enquanto o sol surgia pela sua janela. "Faça companhia para Fawkes, seu começo de velhice costuma ser conturbado, tenho assuntos a tratar durante essas férias." O chapéu grunhiu.
O primeiro ano de Harry havia sido conturbado, mas no fim Albus não o considerou um desastre absoluto, além da grandeza florescente de Harry seu relacionamento com Sarah e principalmente com Neville eram pontos de luz na escuridão. Dumbledore não pode deixar de desejar um próximo ano mais tranquilo, no entanto sabia que suas esperanças eram ingênuas na melhor das hipóteses.
