SÉTIMA PARTE

Anrika estava sentada em frente ao homem de longas barbas prateadas, que a fitava intensamente. Os acontecimentos da última noite a deixaram confusa, tinha tomado a decisão de que não contaria nada a Severo, por isso resolvera procurar Dumbledore. O diretor analisava, naquele momento, tudo o que Anrika havia lhe contado.

– Parece-me muito claro o que aconteceu, porém, ouso dizer que você está mais envolvida do que pensa - ele a olhou curioso. - Severo tem razão ao dizer que Riddle se interessou por você, não resta a menor dúvida, e agora você está presa a ele sob certo ponto de vista.

– O senhor diz isso por causa da marca, por eu finalmente ter sido admitida entre eles? - o encarou. - Acredite-me, se tivesse que fazê-lo de novo, o faria. O que me assustou foi aquele sonho, sinceramente, diretor, foi muito real, e temo que se repita. Não há como evitar?

– Senhorita, irei fazer apenas uma pergunta, antes de lhe oferecer ajuda - disse num tom paternal. - Espero que seja sincera. Você confia em Severo?

– Sim, diretor, não estou me arriscando a toa, mas ambos sabemos o quão difícil será retirá-lo disso tudo - curvou seus lábios num esboço de um sorriso -, o senhor não confia?

– Estou disposto a ajudá-la justamente por acreditar nele - tossiu. - Contudo, você estará sozinha o tempo todo quando estiver lá, não posso intervir.

– Eu sei. Foi uma decisão minha, mas que talvez possa colocá-lo um passo adiante dele. Eu lhe trarei informações de Voldemort. - fitou seus olhos azuis. - Como vai me ajudar?

– Isso é muito arriscado, mas não nego que nos beneficiaria e muito. - Dumbledore analisou detidamente a figura da jovem a sua frente. - Primeiro, senhorita, seria melhor ensinar-lhe a arte de fechar a mente. Voldemort é um excelente legilimente, isto será de muita valia para impedir que tenha acesso as suas lembranças e até mesmo impedir estes sonhos.

– Certo - Anrika se pôs de pé, e olhando os quadros da parede, perguntou: - Quando começamos?

– Hoje - levantou-se indo até ela e sorriu dizendo: - Mais precisamente, agora. Dumbledore fez um gesto de varinha, a parede ao lado de sua mesa girou, dando lugar a uma peça em forma de bacia, feita de pedra e com as bordas desenhadas. Ele levou a varinha à testa, retirando alguns fios prateados dali e colocando-os dentro do objeto. - Isto é uma Penseira - disse apontando para a bacia. - E isso - retirou outro fio prateado das têmporas -, são lembranças.

Anrika havia se aproximado e se debruçara sobre a Penseira, fitando sua superfície. Imaginava como aquilo seria útil para a tal aula de Oclumência. Uma hora depois não só já compreendera sua utilidade, como também sua cabeça havia sido revirada de trás para frente. Combinaram que Anrika apareceria todos os dias durante o mês que se seguiria. Não houve um dia sem que Anrika não estivesse em frente à Dumbledore por menos de quatro horas ininterruptamente. Por outro lado, seus encontros com Snape se tornaram mais freqüentes e mais cuidadosos, no intuito de manter tudo longe dos olhares do grupo.

Apesar de estar progredindo muito nas aulas, já conseguia impedir que penetrassem em sua mente, Anrika ainda receava um novo encontro com Voldemort. Por algum motivo ele ainda não a tinha chamado, mas tanto Severo quanto ela sabiam que isso não tardaria a acontecer. Seria sua prova de fogo.

Na semana seguinte teve que se ausentar da Inglaterra, seu pai queria explicações sobre o acordo feito, sobre o motivo de sua permanência lá. O senhor Del Buharro era um homem experiente e não se deixava enganar facilmente. Foi assim que ao ouvir tudo o que Anrika tinha para lhe contar, ele se inquietou, apesar de toda sua ambição, não estava disposto a abrir mão da única filha para um lunático.

– Anrika - Pablo havia se colocado de pé, andando pelo escritório -, não a quero mais metida nisso. Você não voltará mais para aquele lugar! Não sei onde estava com a cabeça ao lhe pedir uma coisa dessas... mas está claro que foi um equívoco.

– Acredita mesmo que posso me afastar assim? - e ao dizer riu cínica. - Sim, você cometeu um erro de julgamento, como sempre, só que desta vez vai pagar por isso!

– Você está me ameaçando? - ele havia voltado até à mesa e apoiava seus braços sobre ela.

– Não, aprendi com você a não mandar recados. Estou lhe dizendo que não tem poder de decisão sobre o que vou fazer. Vou voltar. Existem pessoas que dependem disso!

– Como ousa me desafiar? - ele bateu com os punhos cerrados na mesa. - Sou seu pai e lhe dei uma ordem!

– Tem razão, ainda é meu pai - disse ao se levantar e se dirigir à porta -, mas agora obedeço a Voldemort, esqueceu? - finalizou abrindo a porta e saindo.

– Anrika? - ele gritou sem que sua voz chegasse até os ouvidos dela.

O dia estava chuvoso. Anrika chegou a Londres relativamente cedo. Foi direto para o hotel onde estivera hospedada há dias atrás. Para sua surpresa, assim que girou a maçaneta, pôde ver a figura de Snape de pé na saleta. Ela sorriu, foi até ele, e para sua decepção, Severo esquivou de seus lábios.

– É bom ter certeza do que fez - ele a fitou com os olhos negros cintilantes – Hoje a noite, sairemos...

– Estou pronta, Severo - respondeu sorrindo, e desta vez alcançando seus lábios.

– Não. Não está, mas vou estar ao seu lado - e puxando-a para si beijou-a.

Anrika sabia que se Snape pudesse ter impedido que ela participasse da sessão solene de admissão efetiva no grupo de Comensais, ele o teria feito. Contudo, sabia também que se quisesse estar em vantagem para ajudar Dumbledore e Snape, ela teria que fazer muito mais do que aquilo. E foi assim que ao entrar naquela casa, nos arredores de Hogsmeade, viu arrastarem pelos cabelos, uma menina morena, que fitava a todos totalmente desesperada. Enquanto via os olhos verterem copiosas lágrimas, Anrika lançou-lhe sua primeira maldição da morte, e teve que se controlar ao extremo, pusera em prática toda a teoria das aulas com Dumbledore, mas nem isso a absolvia de seu primeiro crime.

Quando retornou mais tarde com Severo para o hotel, só queria esquecer aquele olhar de súplica da menina, mal esperou Snape fechar a porta atrás de si e se jogou de joelhos no chão, não demonstrando qualquer sentimento quando eles bateram secos no piso de granito. Severo acocorou-se atrás dela e a abraçou. Sentir Anrika aninhada em seus braços daquela forma lhe deu a certeza de que ela voltara por ele. Seu único medo era que talvez fosse tarde demais para se voltar atrás...

Anrika mantinha em segredo sua ligação com Dumbledore, e durante mais de um ano, suas informações foram bem aproveitadas, apesar dos crescentes ataques e do número cada vez maior de seguidores do Lorde das Trevas. A ambição de Voldemort não conhecia limites. As investidas dele sobre Anrika aumentaram. Não restava dúvida de que estava com o firme propósito em tê-la ao seu lado a qualquer custo. Anrika resistiu o quanto pôde...

Houve mais uma festa na Mansão Malfoy, a comemoração dos sucessivos feitos do grupo mereceu a atenção especial do próprio Voldemort, e para espanto da maioria, ele apareceu acompanhado de Anrika. Snape permaneceu a um canto, circunspeto como sempre, sem demonstrar qualquer emoção com a entrada do casal. Por várias vezes seus olhares se cruzaram e ela o olhava com tal desprezo, que ele temeu não agüentar uma rejeição mais uma vez. Muito antes do fim da festa, um vulto envolto numa longa capa negra foi visto deixando a casa e aparatando ali perto. Anrika não tinha como avisá-lo, não tivera tempo de pensar muito sobre o assunto, e estava novamente o tratando com desprezo na tentativa clara de afastá-lo dali. Foi quando a voz de Voldemort a trouxe de volta a realidade, fazendo-a estremecer.

– Acho que podemos ir, não? - deu-lhe um sorriso afetuoso.

– Se é isso que deseja - respondeu polidamente.

– Boa menina - disse sussurrando ao ouvido dela.

A expressão de Anrika continuava impassível, aprendera isso com Severo. Voldemort a levou para a Mansão de seus pais, o que a fez se sentir desconfortável pelo que estivesse por vir. Ele a conduziu para uma sala ricamente decorada onde a lareira estava acesa e enchia o ambiente de calor. Anrika retirou a capa analisando tudo a sua volta.

– Bonito, não? - disse jovialmente. - Nunca achei que eles tivessem bom gosto, me surpreendi com este aposento - e sorriu.

– Não me trouxe aqui para conhecer sua mobília - Anrika disse cáustica -, não depois do que descobriu...

– Você tem razão. Não sou um homem de perdoar facilmente - e se aproximou. - Eu deveria matá-la pelo que fez, qualquer outro receberia essa punição, mas você...

Anrika estava de pé no meio da sala, o vestido deixava seu colo nu, e Voldemort falava tão próximo ao seu ouvido, que podia sentir a respiração. Ela fechou os olhos lembrando do sonho, o rosto dele, a sensação de calor, o quarto a sua volta. Sentiu as mãos dele enlaçaram sua cintura, enquanto a trazia para perto do corpo, e com as bocas quase coladas ele completou baixinho:

– Você, Anrika, é capaz de me fazer perde o juízo!

Os lábios se tocaram ardentemente, ela afundou as mãos nos cabelos dele e ao abrir os olhos para fitá-lo, pôde perceber que estavam no mesmo quarto da outra noite. O rosto de Tom Riddle sorriu para ela e não desviou o olhar. Ele a pegou no colo, deitando-a na cama suavemente, e iniciou beijou-lhe os lábios, depois o pescoço, os ombros, enquanto suas mãos escorregaram até os botões do vestido, desabotoando-os. Anrika sentia-se mais uma vez inebriada pela presença daquele homem, desta vez seria mais difícil manter o controle sobre si mesma. Com as mãos trêmulas, num misto de desejo e medo, ela despiu-lhe a blusa, e sentiu o calor do toque da pele dele na sua. Ele escorregou a língua quente até os seios, lambendo-os ternamente, beijando-lhe o ventre e descendo até a parte úmida e quente entre as pernas dela. Anrika gemeu, se entregou completamente as sensações que Riddle lhe proporcionava, e minutos depois se sentiu arquear nas mãos que a seguravam.

Riddle se ergueu, debruçando-se sobre ela, e penetrou-a. Foi quando Anrika voltou a si, lembrando-se de com quem estava, fitou seu rosto de linhas jovens, que se contraía conforme se intensificavam os movimentos de seus quadris, e ele atingiu o clímax. Deixou-se ficar deitado sobre ela, até recuperar suas energias.

– Vou lhe dar uma escolha - disse pegando a blusa e retirando de seu bolso um objeto com dois círculos inscritos. - O que você fez comigo foi alta traição, fazer-se de espiã de Dumbledore? Achou mesmo que eu não descobriria? - tomou-lhe o rosto entre as mãos, fazendo-a encará-lo. - Eu lhe darei uma escolha... só uma, Anrika.

Ela fitava Voldemort envolta nos lençóis vermelhos.

– Este vira-tempo está adulterado, é uma passagem apenas de ida para uma época distante - a fitou longamente, tocando-lhe os cabelos. - Sei que ama alguém, seus sentimentos são conflitantes, posso senti-los, e Dumbledore lhe ensinou bem... Mesmo assim, serei generoso. Invejo quem quer que seja... aquele que você ama. Eu daria o mundo para ter... - de repente, soltou uma gargalhada fria. Uma longa pausa e depois disse: - Dê oito voltas no vira-tempo. Nem mais, nem menos, entendeu?

Anrika o fitava assustada.

– Não vou dividi-la com ninguém! E se você ficar... terei que matá-la, assim como a ele. Então, o que me diz?

O silêncio reino. Ela hesitava.

– Você é uma comensal, não devia ter medo.

– Está bem - disse recolhendo as roupas do chão e vestindo-as.

– Tinha certeza disso - sorriu soltando-lhe o rosto. - É realmente uma pena que termine assim - ele pareceu sentido de verdade.

De volta a sala que entraram havia horas, Voldemort a olhou fixamente, parecia que iria impedi-la de girar os círculos com as mãos trêmulas, mas não o fez. Quando alcançou a volta de número oito, um vulto negro entrou na sala. Anrika desaparecia no ar como uma miragem, seus olhos ainda se encontraram, mas somente viram uma nota velada de angústia. Snape permaneceu de pé no beiral da porta, uma figura impassível com o coração sangrando.

– Não quero comentários sobre o que viu, entendeu, Severo? - ameaçou Voldemort com friamente.

– Sim, Mestre - disse destituído de qualquer emoção.

– Bom. E a que devo uma visita sua por esta hora? - falou ríspido.

– Ouvi algo... que irá lhe interessar, algo sobre uma profecia... - ele escolheu as palavras que usaria.

– Conte-me - ordenou. Snape relatou parcialmente o que ouvira, e percebendo que Voldemort estava aturdido com as informações que lhe trouxera, deixou a sala.

O dia amanheceu negro em Spinner's End, onde o jovem Severo andava de um lado para outro da sala. Não conseguira dormir, Anrika havia sumido bem debaixo de seus olhos, algo estava errado, e precisava de ajuda para achá-la... uma ajuda que ele só encontraria em Hogwarts. Iria procurar Alvo Dumbledore, mas estaria disposto a pagar por seus erros? Sim! Por Anrika ele faria qualquer coisa... até mesmo arriscar sua vida!