Capítulo 07: Just Like in the Movies
-
Afundou o rosto no travesseiro, deitado de bruços e suspirando longamente. Estava com sono, afinal tinha chorado quase o restinho da tarde inteira e sempre ficava com sono quando chorava. Além da dor de cabeça, claro.
E não é como se não tivesse previsto que acabaria daquele jeito. Só não imaginou que fosse doer tanto desistir de Yuu, se conformar e aceitar que nunca passaria de uma diversão para o moreno.
Chegava a ser ridículo a forma como tinha se deixado ficar tão vulnerável, desejando um pouco de atenção e com aquela esperança estúpida de que um dia Yuu acordasse e descobrisse que tinha se apaixonado por ele.
Ouviu alguém bater na porta do quarto, mas ignorou. Devia estar com o rosto inchado e vermelho de tanto chorar, a voz embargada. Mesmo assim uma de suas irmãs entrou no quarto após não receber reposta alguma, chamando-o baixinho.
- Kouyou-kun, tem visita pra você lá em baixo.
- É o Kira? – perguntou, tentando manter o tom de voz firme. – Se for o Kira manda ele subir.
- É outro rapaz. E não parece ser do colégio.
Kouyou passou as costas da mão pelo rosto, tentando enxugar as lágrimas e respirar fundo. Não tinha muitos amigos apesar de ser popular no colégio. Os rapazes que conhecia e com quem às vezes trocava idéias ou eram do grêmio estudantil, ou do futebol, ou os amigos do kendo de Akira. E nenhum deles ia até sua casa.
Mas a outra possibilidade era irreal demais. Yuu não seria louco de aparecer em sua casa, ainda mais sem avisar.
- Quer que eu diga que você está dormindo? – sua irmã perguntou. – Mas ele disse que tinha um assunto importante pra falar com você.
Tentou pedir para que ela dissesse justamente isso, mas não tinha muito controle quando se tratava da chance de ver Yuu, por mais cansado que já estivesse de tudo aquilo. Suspirou, irritado consigo mesmo e murmurou, a voz saindo abafada por ainda estar com o rosto no travesseiro:
- Diz que já estou descendo.
E só foi ouvir o barulho da porta se fechando que respirou um pouco mais aliviado por finalmente se ver sozinho, tentando por os pensamentos em ordem. Não queria ver Yuu e seria embaraçoso demais aparecer com os olhos vermelhos devido ao choro.
Levantou, enxugando as lágrimas e fungando um pouco, sem a menor coragem de ir confrontar o mais velho.
Já era difícil o bastante tentar se desapegar sem ele por perto. Mas quem sabe Yuu não tinha ido ali para finalmente colocar um ponto final naquela relação e deixá-lo chorar suas mágoas em paz.
Ainda assim essa idéia não o animava nem um pouco. Então se jogou na cama, relutando em descer.
Yuu que esperasse uma eternidade.
Não foi bem uma eternidade.
Mas só uma meia hora depois foi que Kouyou decidiu descer, após se certificar que não estava mais com o rosto vermelho, meio inchado e capaz o suficiente para manter uma conversar sem começar a chorar.
Ao chegar ao pé da escada, respirou fundo e silenciosamente, já vendo Yuu sentado no sofá, sozinho na sala. Aproximou-se com calma, murmurando sem meias palavras e sem olhar diretamente para o rapaz mais velho.
- Vamos lá pra fora.
Yuu levantou do sofá ao escutá-lo, fitando-o meio apreensivo ao notar que Kouyou não o olhava, sentindo o estômago embrulhar em ansiedade, sensação essa que já tinha se tornado presente nos últimos dias. Saíram pela porta e sem dizer nada, o mais novo se sentou no terceiro degrau da pequena varanda, esperando que o outro fizesse o mesmo.
Agora que estava ali, Yuu não tinha idéia do que falar. Havia planejado cada palavra durante uns dois dias e chegado ao cúmulo de treinar em frente ao espelho, mas tudo parecia ter fugido de sua cabeça assim que viu Uruha aparecer na sala.
Comprimiu os lábios não gostando muito do jeito do mais alto e se sentou ao lado dele tentando pensar em algo para dizer. No entanto foi o loiro que acabou por falar primeiro, ainda sem fitá-lo, os olhos fixos em um ponto qualquer no chão.
- É aquela história de 'precisamos conversar'? Porque você não precisa me dizer nada, era só ter sumido e pronto.
Yuu suspirou resignado.
- Em parte é sim o 'precisamos conversar', mas não do modo como você deve estar pensando – murmurou, virando o rosto de lado para poder encarar o mais novo.
- Estou ouvindo, é só você dizer logo o que é.
- Você não respondeu minhas mensagens, nem atendeu minhas ligações esses dias... Na verdade desde a última vez que esteve lá em casa não nos falamos mais.
- Meu celular quebrou... comprei um novo ontem... – se limitou a responder, o semblante neutro. – E eu estive pensando... Talvez seja melhor a gente não se ver mais.
Yuu sentiu as mãos gelarem assim que ouviu o que o outro dizia. E o mais cauteloso quanto possível, começando a achar que já era tarde demais, perguntou:
- Você se cansou de mim, Kou-chan?
Foi a vez do mais novo suspirar e virar o rosto para fitá-lo diretamente pela primeira vez aquele dia.
- Não cansei de você, Yuu. Cansei de toda essa situação – respondeu, tentando manter a mesma expressão calma, mas já sentindo a tão conhecida aflição que vinha junto com a vontade de chorar quando pensava naquele assunto. – Eu estou sempre aqui esperando você. Esperando a hora que você vai decidir vir me ver e passar algumas horas comigo... Esperando acontecer algo que você já decidiu que não vai acontecer, porque sequer dá uma chance para que aconteça naturalmente – desviou os olhos, sentindo um aperto na garganta e desejando que aquela conversa terminasse o mais rápido possível para que pudesse correr até o quarto e chorar novamente.
- Eu não fazia idéia que você se sentia tão mal com isso.
- Ah, Yuu, eu acho que você tinha idéia sim, só não queria enxergar – murmurou sem pensar muito, querendo colocar logo tudo para fora, assim quem sabe não conseguia finalmente se desvencilhar de Yuu. – Eu sei que você nunca me prometeu nada e nem me enganou, mas você sempre viu o quanto eu me prejudicava com isso no final. Eu quase perdi uma amizade de anos, tenho mentido para os meus pais e negligenciado minhas responsabilidades, tudo isso para poder ficar com você e no final eu não ganhei muita coisa além do fato de você me levar pra cama...
- Então você não me quer mais por perto? – foi a vez do moreno abaixar os olhos, começando a se dar conta de todo o estrago, do quanto devia ter deixado o outro esperançoso e ao mesmo tempo desacredita em uma relação entre os dois.
- É.
Yuu abriu a boca para falar algo, mas desistiu decidindo respeitar a decisão dele. Levantou, ignorando a sensação estranha e desconfortável no peito, pronto para ir embora.
Mas nem havia lógica em fazer aquilo, se tinha finalmente enxergado e admitido para si o quanto era apaixonado pelo loiro.
Retrocedeu os poucos passos que nem havia notado que tinha dado, virando-se e ficando de frente para Kouyou, que ainda estava sentado no terceiro degrau. O loiro ergueu o rosto para cima, fitando-o e sem entender por que ele não tinha ido logo embora. Arqueou uma sobrancelha ao ver Yuu se abaixar com um sorriso nos lábios e se sentar no degrau debaixo, logo ao lado de suas pernas.
Certo, ele sabia que o moreno era um pouco lento, mas não ao ponto de não ter entendido o que havia falado.
- Eu passei esses dois dias planejando o que falar e eu não posso ir embora sem dizer nada...
- Yuu... Eu já sei o que você vai dizer. Sei que você não tem culpa e que não queria que tivesse sido desse jeito pra mim, mas agora já foi... Você não precisa se desculpar e nem achar que me deve algo.
- Não é nada disso, Uru. Eu sinceramente não viria aqui se fosse só um passatempo, eu não me daria ao trabalho de pedir desculpas e nem de tentar conserta algo que eu sei que não tem mais conserto. Eu nunca fiz isso, porque eu faria agora?
- Eu não estou entendendo – disse, sem esconder a impaciência no tom de voz. Yuu estava ali, sorrindo para ele e deixando claro que não sentia culpa alguma. E apesar de ter dito ao moreno que ele não precisava se desculpar de nada, saber que ele se sentia um pouco que fosse culpado era o mínimo que podia esperar.
- O que eu quero dizer... É que eu fui tão cego todo esse tempo – negou com um aceno, uma das mãos apoiadas no joelho esquerdo de Uruha em um gesto inconsciente. – Sempre esteve lá... As preocupações, os carinhos, a forma como eu sorria quase o tempo inteiro quando via que iria conseguir sair mais cedo do trabalho e ia poder ver você... Todas as vezes que você mandava alguma mensagem, preocupado ou dizendo que estava com saudades. É tudo tão simples... – riu baixo, pendendo um pouco a cabeça para frente e deixando o loiro ainda mais confuso.
- Yuu...
O rapaz mais velho ergueu a cabeça, aquele sorriso bobo e perfeito que tinha se tornado comum nos últimos meses.
- Eu amo você, Kouyou.
Kouyou arregalou os olhos, franzindo um pouco a testa, sem acreditar no que ouvia.
- Você só pode estar brincando comigo – disse incrédulo, desviando os olhos e não acreditando que Yuu tinha ousado dizer aquilo.
- Eu amo você.
- Não diz isso, Yuu...
- Kou...
- Você não precisa me enganar assim, sabe disso – reclamou, um bolo enorme se instalando bem no meio da sua garganta. Yuu não tinha o direito de magoá-lo daquele jeito.
- Eu não estou te enganando – se inclinou um pouco na direção de Uruha, toda a incredulidade do mais novo sendo palpável e fazendo-o se preocupar com a reação dele. – Eu amo desde o momento que vi você. Só não sabia disso... Eu fui tão idiota todo esse tempo com você. Com nós dois.
- Você não pode estar falando sério... – murmurou com a voz entrecortada.
- Eu nunca enganaria você, ainda mais agora, sabe disso, Uru – aproveitando que Kouyou ainda parecia em choque com tudo que tinha escutado, afastou a franja da testa dele em um gesto carinhoso e natural, sorrindo de leve. – Você pode me chutar agora se quiser, mas eu não podia ir embora sem falar, não depois de demorar todo esse tempo pra perceber o quanto eu sou apaixonado por você.
O loiro riu, em um misto de nervosismo, sem saber se chutava mesmo Yuu ou se sentia raiva dele, as palavras escapando muito mais rápido do que o quê havia compreendido.
- Se eu não te chutei antes, Yuu, por que eu chutaria justamente agora? – e ele não seria burro ou orgulhoso demais a ponto de se afastar do outro justamente quando tinha acontecido o que mais desejava.
O mais velho sorriu, acariciando o rosto dele, deixando escapar um riso baixinho e gostoso.
- Quando você saiu do meu apartamento aquele dia, veio tudo de uma vez... Quer dizer, eu já andava desconfiado, por isso vinha evitando você. Então eu resolvi pensar em tudo o que havia acontecido entre a gente e não tinha como não enxergar mais.
- Aposto que você ficou chateado – murmurou, descendo um degrau para ficar ao lado do moreno.
- Na verdade eu acho que fiquei feliz, rindo sozinho... Como em filme, sabe?
- Ainda não acredito... Eu já estava conformado, começando a lidar com o fato de você ser um bastardo idiota e não querer nada sério comigo – mas mesmo com o tom emburrado, passou os braços em volta da cintura do outro, se aconchegando contra o corpo dele e apoiando a testa em seu ombro. – Então você simplesmente vem e diz que está apaixonado por mim...
- E que amo você.
- É, isso aí também – resmungou, mas sorriu contra a pele do outro, ainda não realizando o que estava acontecendo. Não podia simplesmente cair de cabeça, se deixando ficar ainda mais vulnerável, apesar de toda a sinceridade nas palavras do moreno.
- Eu estava aqui pensando... – afundou o rosto nas mechas claras. - Podemos fazer aquelas coisas de namorados que você sempre quis fazer.
- Hm? Coisas de namorados que eu sempre quis fazer?
Yuu riu, assentindo, quase eufórico em colocar seus planos do que considerava romântico em pratica.
- É... Como compartilhar cachecol e esse tipo de coisa... – murmurou, próximo a orelha dele, fazendo o rir e apertar os braços em sua cintura.
- E quando foi que eu disse que queria fazer isso? – o mais novo perguntou, se afastando um pouco para fitá-lo.
- Todo mundo quer fazer isso – respondeu, como se fosse óbvio e dando de ombros. Kouyou acabou rindo, negando com um aceno. – Você ainda não está acreditando em mim, não é?
- Bom, se você se visse todo bobo alegre como está agora, talvez também não acreditasse. Mas eu devo ser pior por aceitar você só por conta de um 'eu te amo'.
Yuu sorriu, aproximando o rosto e beijando os lábios dele em um selinho demorado.
- Você sabe que eu não posso prometer que nunca mais vou te magoar, não é? – murmurou ficando sério, as mãos no rosto do mais novo. – Eu vou fazer todo possível pra que isso não aconteça, mas eu sei que em algum momento vai acontecer tanto comigo quanto com você.
Uruha assentiu, roçando o nariz contra o dele.
- É um risco que se corre... Eu sei que nem tudo vai ser perfeito o tempo inteiro – roçou os lábios na bochecha do moreno, acariciando as mechas macias dele ao murmurar novamente. - Você é quem sempre pareceu ter receio dessa realidade.
- É que parecia mais fácil fugir... Até conhecer você – sussurrou, sorrindo largamente e perguntando como se fosse uma criança pedindo um doce. – Posso dizer aquilo de novo?
- Chega, Yuu – riu baixo, uma das mãos na nuca dele.
- Mas eu gostei de dizer...
- Você pode dizer de outra forma – murmurou, segundos antes de pressionar a nuca do moreno, os lábios buscando os dele.
E continuaram sentados nos degraus da varanda, esquecendo-se do tempo, Yuu pensando naquele momento que não se tratava de sorte quando viu Uruha pela primeira vez e nem quando o viu saindo do colégio. E sim de uma peça divertida que o destino tinha decidido pregar nele.
Mas de forma alguma ele reclamaria a respeito disso.
Continua...
N.A: O próximo é o último ^^
