O alfa entrou pela porta do atendimento do hospital ainda na sua forma animal, pouco se importando se assustaria alguém.

— Jensen! Cadê o ômega? – Perguntou ele para a beta que cuidava da recepção assim que assumiu o corpo humano, atraindo olhares curiosos para si.

A mulher nem precisou pesquisar no computador os dados do paciente, o hospital todo já estava sabendo da entrada do companheiro do alfa da alcateia, a pouco mais de meia hora e logo tratou de chamar alguém.

— Uma enfermeira já está vindo para leva-lo até a sala de espera, alfa.

— Não quero saber de sala de espera! Eu preciso ver Jensen. – Esbravejou ele, com seus olhos acendendo, mas logo voltando ao tom esverdeado. Sabia que a atendente não poderia fazer nada.

Jared não sentia mais a dor avassaladora sobre o seu corpo, como sentiu no meio da estrada. Ela tinha parado em algum ponto durante o percurso até o vilarejo e isso deixara o alfa ainda mais preocupado.

Em menos de um minuto, a enfermeira de jaleco branco chegou a recepção e Jared a seguiu. Não havia se dado conta da sua nudez, a preocupação era tão grande que só queria pegar Jensen no colo e não deixar que nada nunca mais o machucasse. Todos os sentimentos do seu instinto alfa estavam a flor da pele.

— Aqui. – Disse a ruiva enquanto caminhavam, entregando um shorts curto de tecido fino usado pelos pacientes do hospital. Jared vestiu a peça e logo os dois estavam na ala cirúrgica do hospital.

— Cadê ele? Eu preciso ajudar, só eu posso ajudar. – O alfa disse exasperado, tinha tanto medo que algo tivesse acontecido com o ômega que nem conseguia colocar em palavras. Aquele sentimento vinha de dentro de si, do seu instinto animal, o alfa queria rasgar a garganta de alguém para compensar a sua raiva por Jensen estar sentindo dor, entretanto tinha a noção de que ninguém havia feito mal a ele, mesmo sem saber o que havia acontecido de fato.

— O ômega Jensen está no centro cirúrgico, alfa. Você não pode entrar lá...

Jared sentiu sua angustia o sufocar e junto com ela veio a ira de ser contrariado e afastado de Jensen.

— Eu quero entrar nessa sala agora mesmo! – Ele gritou, com a voz alterada e mais grossa, os olhos brilhando e os pelos do corpo arrepiados.

A enfermeira era uma alfa e só por esse motivo não tinha caído na voz do seu alfa-pack com tanta facilidade. A mulher manteve sua postura de afronte, mesmo sentindo medo pela aura de poder que Jared exalava.

— Se entrar lá dentro vai atrapalhar a cirurgia e algo pode dar errado. Se quer que o seu companheiro fique bem, é bom se acalmar e esperar aqui fora. – Expôs ela com confiança.

Jared bufou e fechou os punhos, sentindo as unhas ficarem mais pontudas e machucarem a pele da sua mão, porém logo se deu conta de que a enfermeira alfa estava certa. Baixou os ombros e suspirou profundamente, acalmando sua soberania.

Sentou-se em uma das cadeiras ao lado da porta e curvou o corpo, colocando a cabeça entre as mãos e fechando os olhos. Nunca pensou que voltaria a sentir aquele desespero por medo de perder alguém, parecia que uma parte sua estava sangrando.

— O que aconteceu? – Perguntou Jared após alguns minutos de silencio.

— Sinto muito, eu não sei. Assim que ele chegou foi levado para o centro cirúrgico e desde então ninguém mais saiu de lá, mas eu acho que não deve ter sido nada como uma briga ou acidente, a notícia se espalharia rápido e ninguém tocaria num ômega.

O alfa balançou a cabeça em concordância e seu peito ficou ainda mais apertado, a respiração estava difícil, assim como organizar a mente. Tentava se conectar com Jensen, mas ele não estava em lugar nenhum, provavelmente desacordado pela anestesia.

— O Alex estava aqui agora pouco, foi ele quem trouxe Jensen, mas acabou de sair porque disse que precisava tomar um ar. Aquela coisa do dom dele...

— Por onde foi? Preciso falar com ele, Jensen devia estar com ele quando aconteceu!

— Acho que ele saiu para a porta sul, lá tem acesso à floresta.

Jared nem se deu ao trabalho de agradecer a mulher, levantou-se rápido e se encaminhou para o lugar onde ela disse que o ômega poderia estar.

Sentia o olhar que as pessoas davam sobre o seu corpo coberto apenas pelo curto e fino shorts de hospital, mas não dava atenção para eles, tinha coisas mais importantes para se preocupar. Encontrou Alex no lugar onde a enfermeira havia indicado, o garoto estava pálido, encostado na parede e imóvel.

— Alex. – Chamou ele, o mais baixo já havia sentido a presença do alfa.

— Jared, o Jensen ele...

— O que aconteceu com ele? – O alfa perguntou e uma ideia brotou na sua cabeça. — Foi coisa sua, não é? Essa coisa que você faz de entrar no corpo das pessoas! – Jared falou alto, aproximando-se perigosamente do mais baixo. Seu instinto queria fazer alguém pagar.

O ômega se encolheu na parede e não disse nada, a fala estava presa na garganta devido aproximação agressiva do mais alto.

— Ei, ei, ei! – Disse uma voz de trás dos dois. — Calminha aí, big-J. O Alex não teve nada a ver com isso, ele só socorreu o teu companheiro.

Jared virou-se e deu de cara com Bill, o marido de Alex, afastando-se do mais novo logo em seguida.

— Desculpe, eu... nem sei como pude cogitar que você faria mal a alguém, Alex. Eu tô muito nervoso com isso.

Alex se aproximou do marido e ele passou o braço por cima de seus ombros, abrigando o mais novo.

— Tudo bem. – Respondeu ele. — Jensen começou a passar mal na minha sala e eu sai na rua em busca de ajuda pra trazer ele até aqui.

— Obrigado por isso, eu estava fora da cidade. – Jared explicou, inquieto. — O que aconteceu, afinal? Eu senti muita dor vinda dele, mas não consegui entender porque.

Alex respirou fundo e saiu de baixo do abraço de Bill, se aproximando de Jared um pouco mais confiante.

— Ele veio até mim conversar e então começou a passar mal na minha sala. Eu não queria ter que te contar assim, Jared...

— Contar o que? – Perguntou curioso.

— O Jensen estava grávido de gêmeos, dois meninos, os senti na nossa última sessão. Eu quis contar para ele primeiro para ele digerir tudo melhor e então falar com você, mas então aconteceu tudo isso, ele sangrou muito e...

Jared teve sua respiração cortada assim que ouviu a frase sobre a gravidez de gêmeos. Ao mesmo tempo em que fogos de artificio brotaram no seu peito, uma dor tão grande quanto a alegria se instalou e o alfa não sabia dizer o porquê daquilo. Era como se seu corpo soubesse de algo que a mente ainda não tinha assimilado.

— Eu acho que ele perdeu. – Concluiu Alex, com a voz aflita.

O alfa levantou a cabeça e olhou para o mais novo fixamente.

— Não, não, não... ele não pode ter perdido, Alex. Não pode! São os meus filhos, não pode ter perdido... – Jared levou as mãos à cabeça, erguendo o cabelo comprido entre os dedos, finalmente entendendo de onde vinha aquela dor sentimental devastadora.

— Se ele tiver perdido vocês podem tentar de novo, Jay... – Disse Bill tentando acalentar o amigo.

— Você não entende, cara, o Jensen nunca mais vai deixar eu tocar nele. Se ele tiver perdido esses filhotes eu nunca vou ser pai! – Jared exclamou exaltado, segurando os ombros do outro alfa com força e o sacudindo enquanto falava. Sabia de dentro de si que se Jensen tivesse perdido aqueles filhotes, ele nunca seria pai.

Bill o afastou com um pouco de força e Jared percebeu que estava saindo do seu próprio controle.

— Calma, Jared, quando o Jensen sair da sala de cirurgia ele vai precisar de você, grávido ou não. – Alex alertou e Jared meneou que sim com a cabeça, com o olhar vago.

— Você tem razão, eu... eu preciso ficar um pouco sozinho pra... eu não sei.

Alex e Bill ficaram olhando o alfa tirar o shorts cedido pela enfermeira e transformar-se no imponente lobo negro e então correr para a floresta.

Jared só parou quando teve certeza que estava longe de todos, no silêncio acolhedor da natureza.

Voltou a forma humana e se escorou numa grande sequoia, que tinha mais idade que seu falecido avô, abraçando as pernas e enfiando o rosto ali.

Antes nem sabia da gravidez do ômega, mas o sentimento já estava implantado no seu interior e agora que tinha a possibilidade do ômega ter perdido os filhotes, Jared sofria como se perdesse um filho já crescido.

O alfa nunca demonstrava sentimentos, além da raiva, em público. Não chorava com facilidade e era difícil de abalar, entretanto um nó estava na sua garganta, o impedindo de respirar e marejando seus olhos.

Sempre sonhara em ser pai, mesmo que a situação com Jensen, e a relação com outro homem em si, não fosse das melhores, valia a pena se lhe desse um filhote, uma prole para criar e ensinar a viver, passar o posto de líder da alcateia.

Jared não se demorou no tempo em que ficou sozinho na floresta, Jensen poderia sair da sala de cirurgia a qualquer momento e quem sabe por um milagre ele ainda carregasse os filhotes.

Chad chegou na cidade e passou pela mansão do alfa procurando por ele para saber o que o tinha chamado com tanto afinco. Apenas a empregada da casa ainda estava ali e informou ao conselheiro que Sam tinha ido ao hospital por conta de Jensen e o alfa nem mesmo viera para casa desde a manhã.

Só então o lobo se deu conta do quão grave era a situação, Jensen devia ter se machucado gravemente ou alguma coisa assim. Chad foi para o hospital imediatamente, encontrando Jared sentado na sala de espera com Sam, Alex e Bill.

— O que aconteceu, Jay? – Perguntou para o mais alto, se aproximando dele e o analisando com cuidado. Jared tinha os ombros baixos e o peito murcho, uma coisa que nunca tinha acontecido com o alfa. Ele sempre queria mostrar que era o maior e mais forte de todos os presentes e vê-lo tão abatido daquela forma transmitia ao amigo uma sensação ruim de impotência.

Jared levantou o olhar e suspirou.

— Jensen teve um sangramento na casa do Alex e foi trazido para cá. Ele estava grávido de gêmeos e... – O alfa limpou a garganta e desviou o olhar antes de continuar. — É bem provável que ele tenha perdido. Está na sala de cirurgia a mais de uma hora.

Sam fixou seu olhar em um ponto do chão, a mulher não tinha o costume de demonstrar seus sentimentos, queria ser sempre forte pelo seu quase filho, ainda mais nesse momento em que ele estava tão angustiado sem saber da situação por completo.

Chad abalou-se com a notícia, passando a mão no cabelo loiro curto e sentando ao lado de Jared, realmente preocupado com o estado de saúde de Jensen.

— Mas... como pode? Ele é um ômega, foram praticamente feitos para isso.

Jared olhou para o amigo com os olhos fuzilantes, o interpretando da maneira errada a qual Chad queria.

— Eu não quis dizer isso, desculpe, é só que o corpo deles é propicio para gerar filhotes mais fortes. – Chad se corrigiu e o mais velho suavizou a expressão.

— Eu sei, mas ainda ninguém sabe o que aconteceu. – Explicou o alfa.

Alex abraçou seu marido com mais força, escondendo seu rosto no peito dele e segurando suas lágrimas. Sentia a dor de Jared, por conta da condição de ômega e era muito para aguentar.

Alguns minutos se passaram até que a porta da sala de cirurgia voltou a se abrir. Naquele espaço de tempo todos ficaram com seus pensamentos, torcendo para que tudo desse certo com o companheiro do alfa do pack.

Primeiro, dois enfermeiros saíram abrindo caminho e logo em seguida a maca foi puxada através porta, levando Jensen desacordado em cima dela. Jared levantou-se e tentou chegar pert, mas foi impedido por um enfermeiro, que disse que Jensen precisava repousar totalmente naquelas primeiras horas.

— É melhor pra ele ficar bem logo, Jay. – Sam tentou confortar, mas o alfa estava irritado.

— Que porra! Porque ninguém me fala nada? Eu quero saber do estado dele, onde estão a droga dos médicos desse hospital?

Jared esbravejou, com os punhos fechados de raiva, no mesmo instante em que o médico principal que havia realizado a cirurgia chegava a sala de espera.

— Boa tarde, sr. Padalecki. – Tentou ele, educadamente.

O lobo avançou para cima do médico com os olhos começando a brilhar e as veias do pescoço estufadas, segurando-o pelos ombros e o apertando com força.

— Eu quero ver Jensen agora mesmo! – Disse ele e o médico sentiu seu coração falhar uma batida com a voz forte e grave do mais jovem.

— E- Ele não pode receber visitas agora, pode piorar o seu quadro, que já não é muito bom.

Ao ouvir aquilo, Jared se acalmou um pouco, aliviando o aperto das mãos e desviando o olhar machucado.

— Por favor, sr. Padalecki, eu preciso falar com o senhor em particular. Queira me seguir, sim? – O médico chamou e se despediu das outras pessoas no lugar, andando a passos rápidos para a sua sala privada e esperando pelo lobo alfa.

— Como o Jensen está? – Jared perguntou assim que se sentou na cadeira, com o coração acelerado. Se o médico o tinha chamado para conversar em particular, algo de ruim havia acontecido.

— Ele está bem, apesar de ter acabado de passar por uma cirurgia.

Jared respirou fundo, aliviado por Jensen estar fora de qualquer tipo de perigo. Perder os seus filhotes em formação era uma coisa ruim, mas perder Jensen era imensuravelmente pior.

O médico limpou a garganta e então continuou, com receio de chegar ao seu ponto principal. Tinha medo da reação de Jared quanto ao que precisou fazer durante a cirurgia.

— Eu não sei se o senhor sabia, mas o seu marido...

Companheiro. Nós não nos casamos. – Jared corrigiu.

O médico concordou e então recomeçou.

— O seu companheiro estava esperando dois filhotes gêmeos...

Jared assentiu, sentindo o peito doer com aquela informação. Mesmo sendo apenas a confirmação das suas obvias suspeitas, aquilo doía muito.

O doutor esperou alguns segundos para Jared digerir a informação e então tomou sua pose mais uma vez.

— Ele teve um aborto espontâneo, conjunto a uma hemorragia interna. Veja aqui. – Pediu o homem de jaleco branco, virando o seu computador para o alfa e indicando um ponto em especifico. Na tela, uma ultrassonografia exibia o nome de Jensen na borda inferior, mas o alfa não conseguia entender o que aquelas sombras significavam. — Aqui e aqui, esse era o útero de Jensen. – Apontou o médico. — Por alguma razão o órgão estava atrofiado e a hemorragia foi resultado da entrada dos óvulos.

O alfa não entendeu direito o que aquilo queria dizer, onde o médico queria chegar, mas não o interrompeu, ouvindo ele falar mais.

— O corpo de Jensen rejeitou a gravidez porque não tinha onde os bebês se formarem. – O médico respirou fundo e travou seu tronco na cadeira giratória a qual estava sentado, Jared tinha sua testa franzida numa clara expressão de desentendimento.

— Por que "era"? – Questionou o lobo

— Nós tivemos que remover o útero do seu ômega.

Jared ouviu aquela frase e seu cérebro demorou para conseguir assimilar a informação. Parecia ter entrado em curto, confirmando todo seu medo de nunca ser pai e enchendo-o de raiva.

O alfa levantou da cadeira e avançou para cima do médico, passando sobre a mesa, puxando-o pela barra do jaleco e o levantando da cadeira com toda a sua força.

— Com que direito você fez isso, seu desgraçado miserável?! – Ele gritou no rosto do mais velho, suas garras brotaram no lugar das unhas e rasgaram o tecido da roupa, ao mesmo tempo em que os olhos se acenderam em um tom de amarelo profundo e escuro, perigoso.

— Se não fizéssemos, Jensen podia ter uma complicação muito maior. Não tínhamos como arriscar. – O médico disse de uma vez para tentar fazer Jared se acalmar e não cometer uma loucura.

O alfa apertou seus punhos, ainda segurando o médico suspenso no ar e então jogou-o na cadeira novamente, afastando-se da mesa dele e dando as costas. Jared levou as mãos ao rosto e puxou o cabelo entre os dedos, suspirando longamente.

A culpa não era do médico, ele apenas fez o que achou melhor para salvar a vida de Jensen. A culpa não era nem mesmo do ômega; ninguém tinha culpa naquilo além do próprio destino.

Jared nunca seria pai em toda a sua vida e esse era um fardo que teria que carregar.

— O órgão não funcionaria de qualquer forma, Jared, estava completamente embolado. – O médico ainda justificou.

— Quando eu vou poder ver Jensen? – O alfa perguntou, ignorando totalmente o doutor.

— Acho que amanhã pela manhã as visitas já podem ser feitas, ele também já vai ter acordado.

— Obrigado por cuidar dele.

Jared disse por fim e saiu da sala do médico, voltando pelo mesmo corredor ao qual tinha vindo e passando pela frente da sala de espera.

— Jay? – Chad chamou.

— Ei, alfa, como o Jen está? – Alex perguntou.

— Onde você vai, Jared? – Disparou Sam.

Todos foram ignorados e Jared continuou pelo corredor que dava acesso a saída próxima a floresta.

Transformou-se em lobo e adentrou a mata densa, rápido em seus saltos pelas folhas secas. Ele sabia onde queria ir e o que queria fazer, o lugar era longe, entretanto Jared decidiu que tinha bastante tempo livre até o dia seguinte.

Na sala de espera Alex, Bill, Chad e Sam ficaram preocupados com a atitude do alfa, se ele estava tão chateado era porque as suspeitas tinham sido comprovadas.

Minutos mais tarde o médico passou por ali e os informou de tudo, complementando com a notícia de que visitas só poderiam ser feitas no dia seguinte.

Jared não descansou nenhum momento de sua corrida, se parasse iria se atrasar e talvez não encontrasse na hora certa quem procurava.

A floresta ficou mais aberta até o ponto em que não restou mais nenhuma árvore e o lobo corria em campo aberto. A grama verde sobre suas patas secou e virou areia e a brisa fresquinha de antes deu lugar a um sol quente e ar seco.

Correu mais e não olhou para os lados, saiu de seu território de domínio e procurou manter-se na zona neutra, fora de qualquer território inimigo até chegar à base da montanha. Só então o lobo negro parou para respirar, com a grande língua saindo da boca e o fôlego descompassado.

Jared olhou para cima e então impulsionou-se novamente em suas patas, subindo a montanha difícil de escalar. Seu objetivo ainda estava à alguns quilômetros.

Fazia pouco mais de quatro horas quando o lobo parou definitivamente sua corrida, em algum ponto da grande montanha. A casa simples feita de pau a pique era a única coisa construída naquela região, tudo respirava a natureza, os sons calmos de animais e água correndo completavam aquele cenário de pureza que encaixavam bem com a residente.

Jared voltou a sua forma humana e respirou fundo, fechando os olhos e sentindo o lugar todo. Aquela energia emanada pelo local enchia sua alma de alegria, mas não era suficiente para acalmar sua dor.

O jovem alfa caminhou lentamente até a varanda da casa, parando em frente a porta e, antes que pudesse bater, ela se abriu e uma mulher por volta dos seus oitenta anos sorriu meiga para o lobo.

— Sabia que viria. Sabia! – Disse ela com a voz doce e calma.

Jared desviou o olhar e baixou a cabeça, quando saiu da sua alcateia estava com tanta raiva que queria satisfações com a anciã assim que a visse. Iria exigir que ela lhe explicasse o que estava acontecendo e, se precisasse, desmascararia a idosa como uma mentirosa que lhe profetizou coisas falsas, mas ali, diante daquela senhora de espirito tão bom, era impossível ser rude.

— Entre, filho, por favor, entre. Eu fiz um bolo delicioso... – Convidou ela e Jared sorriu levemente, entrando pela porta sem olhar diretamente para a velhinha. — Sente-se, sente-se. Vou pegar o seu bolo, me espere aqui, filho. – Avisou ela, virando-se para a cozinha.

— Não precisa, Dona Elisabeth, eu só preciso falar com a senhora.

A mulher balançou a cabeça em desaprovação.

— Não, não. Eu já sei o que quer falar, filho, mas eu vou pegar o bolo sim. Fiz ele especialmente para você, pois sabia que estaria cansado e com fome depois de tanto correr até aqui.

Jared assentiu com a cabeça e então sentou na cadeira oferecida por Dona Elisabeth.

— Vou trazer uma calça para você também. – Pontuou ela e deu uma risadinha, fazendo Jared corar violentamente de vergonha. A nudez não era uma coisa que os lobos tinham embaraço, mas parecia quase desrespeitoso ficar assim na frente da mulher.

O alfa olhou em volta e tudo parecia como da última vez que havia estado ali, até mesmo o buraco na parede no canto superior à sua esquerda.

Mesmo sendo as paredes e o chão de barro, a mesa e os móveis simples estavam incrivelmente limpos, como sempre que os vira. Era impressionante como ela conseguia manter aquela organização.

Minutos mais tarde, a senhora voltou com uma calça jeans em mãos e um prato com duas fatias enormes de bolo em cima.

Jared vestiu a roupa e aceitou o prato com a comida, enfiando um pedaço do bolo na boca e suspirando com o sabor. Sam era uma cozinheira de mão cheia, mas Dona Elisabeth superava qualquer comida que o alfa já comera em sua vida.

A mulher esperou que o jovem terminasse o bolo, levou o prato a cozinha e só então sentou à frente dele, cruzando as mãos sobre o colo.

— Eu sei o que quer saber, meu filho. – Se adiantou ela antes de Jared perguntar. — Eu sei da dor no seu coração, eu já sabia dela. Eu errei, sabia? Errei... oh, eu errei. – Disse, balançando a cabeça.

Jared mordeu a parte interna de suas bochechas, a anciã era mais sábia do que ele poderia imaginar.

— Errou com o que, Dona Elisabeth?

— Errei em te falar o que te falei a tantos anos atrás. Assim que falei, já sabia que tinha errado, sabia sim... – Lamentou ela, passando as mãos pelos ralos cabelos presos em um coque. — O futuro não deve ser mexido, o futuro é o futuro. As pessoas só devem saber do futuro quando ele chegar, ninguém tem que querer dizer do futuro antes dele.

— Errou por que? Foi uma simples coisa que eu já sabia, eu sempre sonhei com aquilo e iria acontecer. Não fiquei surpreso quando a senhora me disse.

— Não ficou, mas tá aqui agora, não tá? E por que, hein? Se eu não tivesse falado, você não estaria encasquetado com isso.

O alfa ficou em silêncio, não tinha o que dizer sobre aquilo pois era a mais pura verdade.

— Eu não mexo mais com o futuro, filho. Não posso mais dizer nada de futuro, nada. – Disse Elisabeth, sinalizando com as mãos a sua fala.

— Eu preciso saber, Dona Elisabeth! Você me prometeu isso no passado e agora essa promessa está impossível. Como pode me deixar assim? A senhora está sentindo o que eu estou sentindo, sabe da dor que isso é. Por que não pode falar?

— Não! Nada de futuro, eu não falo mais de futuro. Já disse que não falo. – A idosa rebateu, levantando da sua cadeira e se virando de costas para o alfa, andando até uma prateleira que existia na sala onde ficavam muitos livros amarelados. — Eu sei que tá sofrendo, filho. Lembra do que eu te falei? Eu te falei tudo. Tudo. É só você lembrar.

O lobo bufou e também se levantou da sua cadeira.

— Eu não lembro de nada além disso, sabe do meu estado naquela época.

— Sei, sei sim... você recebeu uma nova chance, filho.

— Você me deu essa nova chance.

— Não! Eu não; foi o destino. O seu papel aqui não tava acabado e ainda não tá.

— Então me diz qual é. Eu tô tentando fazer tudo certo, ser melhor que o meu pai, mas as coisas não estão nada como o esperado.

— O ômega... – Elisabeth disse com a voz uma nota mais baixa.

— É. Jensen.

— Ele sentiu muita dor.

— Sim, ele estava grávido e perdeu os bebês e teve uma hemorragia interna. Ainda está sobre efeito de anestesia no hospital. O útero dele foi retirado, Dona Elisabeth. Como o que você disse ainda pode ser verdade? – Jared perguntou andando para mais perto da senhora.

— Eu não sou mentirosa, filho. – Se defendeu ela.

— O Jensen não tem mais útero, Dona Elisabeth! Como eu vou ser o pai do maior alfa do mundo se ele não pode mais gerar esse filho?

— Você vai ser pai sim. – Disse ela, deixando escapar.

— Eu não vou traí-lo. Não posso fazer isso, nem conseguiria.

Dona Elisabeth virou-se para o alfa com um livro em mãos e sorriu para ele.

— Eu sei que não vai, filho. É isso que eu mais gosto em você, é isso que eu vi de tão belo e puro em você naquela vez.

Jared balançou a cabeça e voltou a se sentar.

— Eu vim atrás de respostas e a senhora só me enche de mais perguntas.

— Eu não tenho que te dar resposta nenhuma, filho. Cada vez que alguém fala do futuro ele se embaralha mais. Eu tenho parte de culpa na embaralhada do seu futuro. Falei dele para você, me perdoe por isso.

Jared baixou os ombros em sinal de rendição. A anciã realmente não abriria mais a boca para lhe revelar seu destino.

— O que eu faço então? Jensen está no hospital, ele não queria ter filhos, mas acho que vai ser um choque para ele saber que nunca mais terá nem a possibilidade de gerar um filhote.

Elisabeth sentou na cadeira em frente à de Jared, ainda com o livro em mãos e lhe sorriu novamente.

— O que você faz? – Perguntou ela de volta. — O que você faz; você faz o que você faz. Você ama ele, você cuida dele e ele cuida de você. É isso que você faz.

— Eu posso amar ele como um amigo algum dia, mas acho que desse jeito que a senhora está falando nunca vai acontecer. – Jared comentou.

— Amor é amor. Vai ser sempre amor, eu sinto no teu coração que você ama ele. Eu vi o quanto você ficou desesperado quando sentiu a dor dele, filho.

Jared novamente preferiu ficar quieto. Não existia razão para refutar a verdade.

— Fica mais um pouco e descansa, mais tarde você volta pra tua alcateia e pro teu ômega.

Jared sorriu de lado, sua expressão estava cansada e dolorida, mas seu coração estava um pouco mais confortado, apesar de contrariado.

— E Samantha, como está? Ainda achando que faz um bolo melhor que eu? – Perguntou Elisabeth rindo com sua voz doce.

-J2-

— Cara, onde você esteve? – Chad perguntou assim que abriu a porta e avistou o amigo, puxando-o para um abraço. Sentaram-se no sofá da sala e o loiro pegou uma cerveja para cada um. Na televisão um jogo de beisebol qualquer era exibido. — Eu tava super preocupado, queria ir atrás de você, mas a Sam disse que era melhor te dar o seu tempo. Eu não queria, mas também nem sabia onde você tinha se metido. Até tentei ir atrás, mas perdi o rastro um quilometro na floresta. Você sabe mesmo disfarçar seu cheiro...

Jared sorriu com a falação de Chad, tinha que se desculpar com ele também por sair sem avisar por tantas horas. Ele já tinha passado em casa e tomado um banho para se livrar do suor da corrida de volta para o pack e recebido o sermão de Samantha.

— Eu estava na casa da Dona Elisabeth, desculpe por ter saído daquele jeito de tarde. Já deve saber o porquê.

— Elisabeth... – O lobo loiro pensou um pouco com os dedos no queixo, até que se lembrou do nome. — Ah! A senhora que cuidou de você aquela vez na montanha?

— Sim, ela mesma.

— E o que diabos você foi fazer lá? Deve ficar a, o que, uns duzentos e cinquenta quilômetros?

— Acho que sim. – Jared deu de ombros e riu. — Precisava falar com ela, não são coisas que eu possa compartilhar.

Chad assentiu e bebeu um gole da cerveja na sua garrafa.

— Você está bem?

O alfa desviou o olhar e pensou a respeito. Bem não era a palavra que ele utilizaria, mas de uma forma geral estava bem melhor do que antes.

— É, acho que sim. Queria ver como Jensen está, mas estou sentindo que ele está sem dor.

Chad coçou a nuca.

— Sim, certo. E sobre os filhotes que ele perdeu?

Jared havia tentado driblar aquele assunto, mas seu amigo não permitiria.

— Ah, não sei o que dizer. Eu já os tinha sentido e foi muito doloroso não sentir mais aquela ligação, mas parece que tudo está certo de alguma forma, como se não fosse a hora.

Chad deu de ombros e sorriu.

— Que papo de hippie.

O moreno sorriu junto.

— Você é um idiota.

-J2-

Na manhã seguinte, Jared foi o primeiro a chegar ao hospital. Nem mesmo realizou a sua corrida diária, queria ver Jensen de perto, falar com ele, saber como ele estava se sentindo com tudo aquilo.

Uma enfermeira conduziu-o até o quarto em que o ômega estava e avisou que qualquer emergência era só apertar o botão vermelho acima da cama.

O alfa entrou no quarto cauteloso. Jensen estava com os olhos fechados e tudo que Jared menos queria era que ele se assustasse com a sua presença.

Sentou na beirada da cama e cruzou os braços no peito, sorrindo de canto ao constatar com cem por cento de certeza que o ômega estava bem.

Fica tão lindo dormindo. Pensou involuntariamente.

— Eu posso te ouvir. – Jensen disse e abriu os olhos, sorrindo de canto.

Jared corou, pensou que o ômega estivesse dormindo.

— É verdade. – Disse ele dando de ombros.

— Que gay. – Jensen zombou em tom de brincadeira.

Aquela conversa leve entre os dois era tão diferente do que um dia Jensen poderia imaginar que o ômega até achava aquilo estranho.

— Como você está?

— Bem, eu acho. Com um pouco de desconforto no corpo, mas o médico disse que é porque eu perdi bastante sangue e logo vai passar. Só preciso de repouso. E você? O Dr. Luke me contou sobre os filhotes e sobre o meu útero.

Jared desviou o olhar, ficando tenso por um momento.

— Estou melhor. Entendo que não queria esses filhotes, mas está bem com isso? – Perguntou o alfa curioso.

— Também estou melhor. Fiquei desesperado ontem quando soube da gravidez, mas mesmo assim parece que eu perdi uma coisa. – Jensen se ajeitou na cama, sentando mais para cima. — Acho que foi melhor assim, desse jeito eu não tenho mais cio e nem preciso mais me incomodar com isso.

O alfa ofendeu-se com a forma com que Jensen falou, fechando a cara e olhando para o chão, um tanto magoado com a falta de sensibilidade.

— Desculpe, Jared, eu sei que sempre quis ser pai. Eu também tenho esse sonho, mas você não vai ter filho comigo. Não quis ser insensível, juro. – Garantiu o ômega e Jared sentiu verdade naquelas palavras, suavizando sua expressão novamente.

— Já sabe quando vai ter alta?

— Ainda hoje, como eu disse, o médico só recomendou bastante descanso. Então nada de me encher o saco, sacou? – Jensen respondeu, novamente em tom de brincadeira para dissolver qualquer tensão que ainda pudesse existir no ar.

— Saquei. – Respondeu o alfa. — Vou cuidar bem de você.

Jensen fez uma cara feia.

— Isso foi tão gay quanto dizer que eu sou bonito dormindo.

— Então vai achar isso mais gay ainda.

Jared avisou, avançando para cima de Jensen e o abraçando com força. Colocou o rosto rente ao pescoço do ômega e aspirou o cheiro dele durante o ato. Jensen surpreendeu-se com o carinho, mas não recusou, abraçando Jared de volta e também cheirando seu pescoço.

Aquele abraço confortou o coração dos lobos negro e dourado.

Continua...