Capítulo 6
Isabella
Acordei e me sentei na cama. Meu corpo parecia pesar toneladas, assim como minha cabeça. Abri a boca para bocejar e passei a mão pelo espaço que estava ao meu lado, vazio. Edward não estava mais na minha cama e eu julguei que meu namorado havia saído pela necessidade de caçar.
Lembrei-me que seus olhos estavam negros na noite anterior, mas preferi não comentar, a noite fora tensa demais apenas com o assunto dos meus pesadelos.
Pesadelos.
A palavra retumbava na minha mente como se gritasse para mim que eu não ia me livrar dela tão cedo. Eu bufei. Victoria havia me visitado a noite inteira, e eu não havia conseguido dormir, acordando de hora em hora com meus próprios gritos. De vez em quando Charlie estava sentado na ponta da cama com um olhar preocupado, mas desistiu depois do vigésimo grito, meu pai precisava dormir, afinal, ele trabalhava.
Eu, ao contrário, estava de férias. Isso era um ponto positivo no meu dia. Sem aulas, mais descanso. Em teoria.
Espreguicei-me e senti meus músculos queimarem. Meu corpo estalou e a cabeça doeu um pouco. A fincada nunca saía, sempre estava presente, mesmo que minúscula. Saí da cama de forma relutante e caminhei em direção a escada.
Descendo os degraus, percebi que Charlie já havia saído. Sua arma e seu paletó não estavam mais dependurados no cabide como de costume. Vinquei a testa, Charlie sempre estava em casa quando eu acordava. Eu costumava fazer seu café da manhã antes de ir para a escola. Olhei para o relógio de parede do corredor. Eram onze e meia da manhã.
Quase engasguei com o horário. Eu havia dormido até àquela hora? O relógio gritava para mim que sim, mas meu corpo não estava em sintonia com a nova informação. Ele doía e eu me sentia cansada demais para alguém que tinha dormido mais de dez horas.
Talvez Charlie tivesse razão. Olhei para o espelho que ficava embaixo do cabide. As olheiras eram fundas e em tons marrons. Meus cabelos estavam desgrenhados e opacos, eu me perguntei mentalmente há quanto tempo eu não os penteava direito. Balancei a cabeça para tirar tais pensamentos da minha mente e voltei para a cozinha para tentar comer algo.
Meu estômago roncava, mas ao olhar a comida, a única coisa que eu consegui sentir era ânsia de vômito. Empurrei os pães para dentro da boca e mastiguei rapidamente, engolindo sem sentir realmente o gosto e forçando meu corpo a comer algo.
Eu precisava de um banho. Subi as escadas lentamente e entrei no banheiro, abrindo o chuveiro e deixando o espelho embaçar com o vapor que inebriou o lugar. Era relaxante. Eu entrei na ducha quente e fechei os olhos ao contato. Tomei um banho lento, me concentrando em me cuidar. Lavei os cabelos duas vezes e ensaboei cada parte do meu corpo, retirando os pêlos com uma gilete. Respirei fundo e fechei o chuveiro. Escovei meus dentes e meu cabelo e tomei coragem para abrir a porta.
O vento gelado cortou meu corpo ao sair do banheiro, e eu encolhi me protegendo. Entrei no quarto e vesti uma blusa de malha um pouco menor do que as que eu vestia normalmente. Edward chegaria a qualquer momento. Mas a calça de moletom ainda estava presente. Forks era uma cidade fria e eu priorizava minha temperatura corporal em vez de roupas minúsculas. Alice me mataria se ao menos sonhasse que eu pensava isso.
Deitei-me na cama e olhei para o teto pensando em tudo. Uma batida na janela me despertou dos meus devaneios e eu olhei para fora. Edward estava agachado no parapeito e esperava eu abrir o vidro para entrar. Ele poderia entrar a hora que quisesse, eu não sabia por que Edward sempre fazia questão de pedir permissão.
Levantei-me da cama e caminhei em direção à janela, abrindo-a. O vampiro deslizou para dentro do quarto e beijou minha testa com cautela. Eu estava com saudade dos beijos de Edward, mesmo que fossem superficiais e cuidadosos. Olhei para meu namorado e notei que seus olhos ainda estavam negros. Perguntei-me mentalmente o porquê disso. Sua ausência não era sempre pelo fato de ele ter que sair para caçar?
- Bella.
Sorri para ele e Edward se sentou na poltrona, eu andei em direção a ele, mas o vampiro levantou a mão para impedir meus passos.
- Precisamos conversar.
Vigésima vez que Edward me dizia isso, assim como Charlie. Eu estava começando a achar que os dois haviam feito um pacto idiota para isso. Irritei-me, mas assenti para o vampiro e me sentei na beirada da cama, de frente para ele. Levantei a sobrancelha, questionando-o e incitando-o a começar a falar.
- Eu estava em casa, conversando com Carlisle.
Fiquei quieta com a nova informação, mas não abri a boca para falar nada. Edward me fitava com cautela e parecia escolher cuidadosamente as palavras que ia me dizer. Edward era cauteloso demais.
- Estávamos conversando sobre você. Todos nós.
Minha curiosidade humana já fazia efeito no meu corpo. A família Cullen havia conversado sobre mim. Isso era novo, eu acho.
- Conversamos sobre seus pesadelos e sobre sua saúde.
Levantei-me da cama e abri os braços em um gesto de impaciência, batendo-os no corpo logo depois. Edward permanecia calado. Eu já estava cansada de um bando de vampiros questionando e conversando sobre minha saúde mental e física.
Não bastava Charlie e Edward em cima de mim por causa dos meus pesadelos, agora eu teria que agüentar sua família inteira também? Eu olhei para o vampiro que ainda estava sentado na poltrona, imóvel, esperando o final da minha reação e o começo da minha calma. Eu me sentei na cama novamente e fechei a cara.
- Bella.
Edward me chamou, mas eu permaneci com os olhos colados no carpete do quarto. Minha mente fervilhava com palavrões e eu me surpreendi com a raiva que eu estava sentindo no momento.
- Estamos preocupados com você.
Continuei com os olhos fixos no chão e não respondi. Cada palavra que eu falasse poderia se voltar contra mim.
- Seus pesadelos não cessam, e isso está acabando com você... mas temos uma solução para isso.
Claro que eles tinham uma solução, a família perfeita sempre tinha uma solução para os problemas da humana errada. Tranquei meu maxilar e mordi a língua para não colocar meus pensamentos em voz alta.
- Jasper irá te ajudar.
Finalmente eu descolei meus olhos do carpete e fitei os olhos escuros de Edward. Abri a boca em indignação.
- O QUÊ?
Edward olhou para a janela e fez uma careta, pelos seus gestos ele já sabia que eu teria uma reação parecida com a que eu estava tendo. O vampiro se levantou da poltrona e caminhou na minha direção, sentando-se ao meu lado e pegando minha mão.
- Veja, Bella, eu e Carlisle conversamos muito sobre isso. – eu revirei os olhos. – De imediato eu não concordei, mas pensando melhor, isso te fará bem.
Ergui as sobrancelhas para Edward em descrença, tirando minha mão de debaixo da sua e cruzando meus braços.
- E posso saber como vocês pretendem me ajudar?
Edward coçou a cabeça e me olhou novamente, pedindo com os olhos para eu ter paciência.
- Jasper pode te deixar calma, Bella. Seu dom poderá te ajudar a dormir tranquilamente.
Eu havia me esquecido completamente do dom do meu cunhado. Jasper poderia me deixar calma, isso era um fato. A idéia era tentadora demais, meus pesadelos não me deixavam dormir e meu corpo já estava perdendo pelo cansaço de horas mal dormidas. Mas havia uma pergunta que insistia em permanecer na minha cabeça.
- Como vamos fazer isso?
Jasper me deixaria calma e iria embora? Eu não gostaria de ter dois vampiros dentro do meu quarto, sendo esse um desconhecido para mim. Eu nunca havia tido muito contato com Jasper, mas seria algo um tanto quanto desconfortável saber que ele esteve no meu quarto. Mas ele só precisaria me fazer dormir. Então seria algo rápido e ágil.
- Esperaremos Charlie dormir, como de costume. Eu telefono para Jasper e ele vem para passar a noite aqui.
- PASSAR A NOITE?
Minha voz saiu estrangulada, mas alta o suficiente para reverberar pela casa toda. Agradeci mentalmente que Charlie não estivesse em casa. Edward me pegou desprevenida com essa informação nova.
- O dom de Jasper só funciona com sua presença, Bella. Se ele não passar a noite aqui, no momento em que ele sair do quarto sua calma cessará, o que pelo seu estado já será o suficiente para fazê-la ter pesadelos.
A menção dos meus pesadelos fez com que meu corpo tremesse de leve. Essa reação não passou despercebida aos olhos poderosos de Edward. Isso foi o bastante para me acusar de que eu teria que aceitar a oferta.
- Quando?
Edward pegou minha mão novamente e me olhou nos olhos.
- Hoje.
Eu estremeci, mas finalmente concordei com a cabeça. Quando Edward insistia em algo, era inútil lutar contra. Ele me puxou para um beijo leve e deitou-se na minha cama. Eu não queria me deitar, a expectativa do evento me deixara nervosa, eu precisava fazer algo para me distrair. Levantei-me de um salto e o vampiro olhou surpreso para mim.
- Vou fazer o almoço.
Ele assentiu e se levantou, me acompanhando até a cozinha. Eu abri os armários e comecei a procurar as panelas com as mãos tremidas sem saber realmente o que eu estava fazendo.
- Bella, acalme-se!
Eu já fazia meu segundo círculo no quarto em menos de três minutos. Edward não escutava meus pensamentos, mas meus batimentos cardíacos denunciavam o quanto eu estava ansiosa com o que ia se passar no quarto daqui a pouco.
Os roncos de Charlie já estavam altos, o que era o aval para Edward pegar o celular e falar rapidamente com a criatura do outro lado da linha. Eu não escutava nada com meus ouvidos humanos, mas eu tinha certeza de que era Jasper quem falava com Edward.
Ele trancou o maxilar quando fechou o aparelho, parecia que eu não era a única presente que estava incomodada com a situação. Edward passava as mãos nos cabelos de minuto em minuto, esperando seu irmão adotivo chegar.
Eu cansei de esperar em pé, afinal, humanos precisavam de descanso para as pernas, e as minhas estavam começando a tremer. Fui para a minha cama, puxando os cobertores para meu colo, ela estava fria, mas parecia um lugar confortável demais no momento.
De repente Edward parou e olhou para a janela. Meu coração se acelerou. Merda, Isabella, acalme-se, em breve você estará na companhia de dois vampiros, e marteladas bombeando rapidamente seu sangue para seu corpo não seria algo agradável.
Eu fiz uma força imensa para tentar escutar algo, mas nenhum som chegava aos meus ouvidos. Vinquei a testa e não entendi o porquê da posição de Edward. Finalmente escutei um barulho pequeno, mas notável de pés pisando em grama. Edward me olhou com calma, mas seus olhos denunciavam sua apreensão. Eu respirei fundo e ele abriu a janela.
Em questões de segundos, um vampiro alto e loiro entrava por ela e pousava delicadamente e silenciosamente de frente para minha cama. Ele olhou para Edward e esse se contentou em acenar com a cabeça, caminhando para o meu lado e sentando-se na cama, mas por cima do cobertor.
Eu olhei para o vampiro que estava agora de frente para mim. Corri meus olhos por todo seu corpo, começando pelos pés. Jasper estava com botas marrons desbotadas, uma calça preta jeans. Sua blusa era preta e de manga comprida, como sempre. Perguntei-me mentalmente o porquê de Jasper sempre usar blusas desse tipo. Mas eu deixei o rosto por último.
Eu não havia visto Jasper desde o momento na clareira e isso me deixou nervosa quando eu fitei seus olhos dourados vivo. Eu tinha certeza de que Jasper havia acabado de caçar. Ele permanecia com os olhos de ouro colados nos meus, mas sua expressão era de tédio. Até certo momento. Edward se remexeu ao meu lado inquieto e finalmente Jasper deu um sorriso torto, fazendo aparecer suas covinhas que eu nunca havia percebido que existiam. Ele acenou brevemente com a cabeça.
- Boa noite, Isabella.
