A HERANÇA DO CÁRCERE - OS FILHOS DO INQUISIDOR

VII

- Vão morar na casa dele?!

- Sim, minha mãe. Ele declarou isto ontem; aliás, já até mesmo marcou o casamento na igreja.

- Deus meu!

Dona Isabel colocou as mãos nas fontes, desesperada. Casar com a filha do inquisidor já era terrível, mas morar na casa dele...! O homem ia simplesmente mandar e desmandar não somente na filha, mas também em Pedro!

- Meu filho, eu estava feliz de saber que a tua noiva era mais amena do que pensávamos.

- Ela mesma fez uma expressão de espanto quando soube que moraríamos na casa dele.

- Sério? Então ela gostaria de se ver livre afinal de contas! Ora veja! Mas enfim, meu filho, crê que é tarde demais para desistir do casamento?

- Sim. Se era perigoso antes, quando eu ainda sequer iniciara as visitas de corte... imagine agora, com o casamento marcado. Expedito certamente acharia um modo de nos matar. E de mais a mais, a pobre menina se sentiria amargamente rejeitada, pensando que o problema era ela.

- É verdade. E eu que sequer a conheci!

- O pai dela é muito rígido; não permite que ela ande sozinha com um homem o qual ainda não é seu marido.

- Decerto nunca os deixou sozinhos.

- Não. Certamente só deixará depois que estivermos casados.

- Compreendo. Ah, mas meu filho...! Será que te será fácil viver na casa deste homem?!

- Fácil não será. Mas que escolha tenho eu, minha mãe?

Resignada porém ainda aflita, dona Isabel foi rezar. Que Deus lhe desse inspiração diante daquela situação tão difícil!

OoOoOoOoOoOoO

Numa das últimas visitas de corte de Pedro, antes de ele ir embora, Expedito o chamou para falar consigo.

- Apenas precisamos ter... uma conversinha de homem para homem, sim? Depois o liberarei.

Pedro assentiu e então ambos foram para um dos quartos do segundo andar. O moço pediu mentalmente que o inquisidor não demorasse, pois não aguentava muito a energia dele.

Expedito sentou-se e indicou que o futuro genro se sentasse também. Ele o fez, então o eclesiástico tomou a palavra:

- Muito que bem. Dentro de cerca de uma semana estará casado com minha filha. Espero que entenda... a corte foi curta de propósito, pois meu objetivo ao procurar a vossa mãe não foi encontrar a Teodora um noivo, mas sim um marido. Há casamentos na nobreza onde sequer é feito o período de corte; já mandam trazer o noivo ou a noiva diretamente para a cerimônia de casamento. Mas eu preferi fazer com que se familiarizassem um pouco um com o outro antes de enfim se casarem. Não é bom que completos desconhecidos se casem, mas também não é direito um noivado longo. O noivado longo desgraça a vida de uma mulher.

Pedro se sentia tenso. De fato, aquilo era de certa forma uma indireta a si, pois caso ele próprio desistisse do casamento, pagaria muito caro. Isso estava implícito no discurso do frei.

Expedito continuou:

- Pois bem. Agora que somente falta uma semana para o casamento, tenho de lhe dizer algumas coisas. Por um tempo, pensei em enviar Teodora a um convento a fim de se tornar freira. Mas pensei melhor: Timóteo, o irmão dela, já é clérigo; e de mais a mais ela não tem disciplina ou mesmo pendor para ser esposa de Cristo. O único lugar digno, portanto, para uma mulher leiga é o casamento. E é bom que assim seja, pois quero netos. Veja, a minha mulher, a senhora dona Violante, quando passou a viver comigo, já era passada da idade de casar. Tinha quase trinta anos de idade. E além disso, não tinha saúde, tinha achaques por qualquer cousa... vez por outra tem uns delírios, fica a vagar pela casa de camisola, enfim... agora que vossa mercê vai a viver aqui, a admoestarei a não fazer mais isto. Mas então, ela me deu somente dois filhos. Eu quero netos. E somente há uma maneira de consegui-los de forma digna: através de um casamento fidalgo. Foi por isso que eu arranjei casamento consigo. Entende?

O moço assentiu.

- Desta forma, direi a si o que desejo de sua pessoa enquanto marido de minha filha. Ela já tem dezoito anos; a mulher que casa somente depois dos vinte anos periga não ter os filhos necessários que Deus mande, como foi o caso da senhora dona Violante. Mas o caso dela é diferente, foi abandonada por dois noivos antes de mim. Enfim, uma desgraça. Por isso tenho esse pensamento de que o noivado deve ser bastante curto. Ela se casará numa boa idade. Poderá ter muitos filhos, que é o que a mulher casada mais deve almejar ter. Meu objetivo, portanto, não é que sejam felizes, ou se dêem bem, ou o que quer que seja.

O fidalgo não conseguiu conter um olhar de estranheza; como um pai não desejaria que a filha fosse feliz no casamento? Expedito, tendo os olhos agudos como tinha, logo percebeu; e portanto logo explicou aquilo:

- Meu objetivo é que ambos me dêem netos, todos de uma linhagem nobre. Se vão se amar ou se odiar; se vão a ter afinidades ou não; se após os filhos nascerem sequer se olharão na cara um do outro; nada disso me interessa. A meu ver, casamento de cristão é casamento de dever; não de amor, paixão, nada disso. Estas cousas nunca mantiveram a um casamento de fato. Portanto, quero os netos - e principalmente um neto homem. Infelizmente não me dou muito bem com meu filho Timóteo, portanto espero estar ainda vivo para ver a um neto homem meu me suceder de maneira satisfatória.

- Perdoe-me, mas sucedê-lo... no que?

- Como inquisidor. Um dos filhos de Teodora pode ser enviado para ser eclesiástico; apenas um já basta, o que tiver a índole mais parecida com a minha. Timóteo não tem a verve, o tino suficiente para ser inquisidor.

- Compreendo.

- Agora, vamos a um assunto um pouco mais delicado. Serei direto consigo, e pode ser direto comigo. Obviamente, vossa mercê já reparou que apesar de eclesiástico, eu tenho mulher. E tive outras antes de ter a senhora dona Violante. Não se espante: eu tive, sim. Então não se peje ao falar desses assuntos comigo. Estamos entre homens, não entre donzelas. Vossa mercê já conheceu mulher?

Um pouco acanhado diante da forma direta de Expedito, Pedro apenas acenou que "sim" com a cabeça.

- Já conheceu de fato, da maneira... bíblica, quero dizer? Deitou-se com ela? Teve com ela conjunção carnal?

- Sim, meu senhor. Em Coimbra, a maioria dos jovens tinha lá as suas moças para esse tipo de... divertimento.

- Ah, sim. Nunca conheci o ambiente acadêmico de Coimbra, mas no ambiente eclesiástico era assim também. Tínhamos lá as nossas "moças" também, e elas nos serviram bem. Se bem que hoje, eu, já homem com essa idade, jamais me deitaria com uma daquelas. Um bando de meninas sujas, que pertenceram a tantos homens; que horror! Mas... enfim, sei como é. Quando se é jovem, fica-se com uma mulher somente por usar saia enfim. É bom que conheça mulher, assim já sabe o que fazer. Já possuíste a alguma donzela?

- Uma... uma virgem, o senhor quer dizer?

- Sim. Uma virgem.

- Não.

- Também é bom que não o tenha feito. Pois as virgens, quando são defloradas, devem ser assumidas por toda a vida pelo homem que as tomou. Com isso eu concordo; não se deve perder a uma mulher. É certo que essas... "moças" para divertimento, elas um dia também foram virgens. Mas se entregaram a sua pureza a outrem; se deram aquilo que de mais precioso uma mulher tem a qualquer um; ou mesmo se infelizmente foram violadas contra a própria vontade; isso não é problema nosso. O que importa é que não fomos nós que as perdemos, então se elas nos vem já perdidas, nada mais justo que continuar a usá-las para divertimento. Eu não; já fiz isso há muitos anos, hoje não mais, como lhe disse. Pois bem. Uma virgem deflorada deve ser assumida por toda a vida, enquanto um dos dois viver. A minha filha é completamente pura; isto eu posso lhe assegurar. E posso fazê-lo porque ela não foi enviada a colégios; foi educada em casa, até hoje nunca saiu sem os pais, como vossa mercê mesmo percebeu. Nem consigo próprio, quando íamos à igreja, ela ia desacompanhada de mim ou da mãe dela. Compreende?

Pedro fez que "sim" com a cabeça.

- Por isso mesmo lhe asseguro que é virgem. Portanto, senhor Pedro, gostaria que o senhor assumisse a ela até o fim da vida dela ou da sua. Entendido?

- Sim.

- Prezei muito para que minha filha chegasse virgem ao altar. Prezo muito pela honra das mulheres que vivem em minha casa, senhor Pedro. A senhora dona Violante, não se espante, foi moça por muito tempo. Já estava a alcançar a idade da "moça velha" quando enfim a tomei para mim. Fui eu quem a deflorei; não sendo casado oficialmente com ela, clérigo indisposto a largar o ofício, poderia tê-la largado por aí quando começasse a envelhecer, ou qualquer outra cousa do gênero. Ela já não tinha parentes em Portugal quando a tomei, e de resto os irmãos no Brasil, seus únicos parentes vivos, queriam vê-la longe e por si não intercederiam. De tal forma não intercederiam, que durante todos estes anos jamais lhe mandaram uma única carta. Sim, é essa a situação dos irmãos dela para com ela. Mas voltemos ao que estávamos falando. Eu continuo com ela, mesmo após vinte e quatro anos, porque a deflorei. Porque ela era mulher direita quando a conheci, e porque prometi a ela que deixaria a sua honra intacta. Vossa mercê mesmo já ouviu algo que afrontasse contra a honra da senhora dona Violante, mesmo vivendo ela com um clérigo?

O fidalgo fez que "não" com a cabeça.

- Isto ocorre porque sempre prezei por sua conduta. Se não poderia lhe dar a legitimidade, lhe daria o mais próximo da posição de uma mulher devidamente casada; talvez até mais digna do que a de muitas que o são. Entende agora por que ninguém me condena? Porque prezo para que as mulheres em minha casa tenham a honra o mais intacta possível, e isso se inicia com a minha mulher; não sai às ruas sem mim, não se mete em escândalos, não usa roupas escandalosas. Sequer os bailes da corte frequentamos. Vivemos a vida mais austera e regrada possível.

Pedro engoliu em seco, pois se Expedito exigia tudo aquilo da mulher e da filha, exigiria dele próprio também, ao morar em sua casa. O inquisidor continuou:

- De resto, a senhora dona Violante é mulher direita até hoje: vive para a casa, para a religião e para mim. De vez em quando começa a malucar, como eu já lhe disse: fica aborrecida, fica a rezar o dia todo, fica de camisola, chora... mas como eu lhe disse, casamento de cristão é casamento de dever. Estes são os ossos do ofício, e de resto, como eu vos disse, ela é mulher honesta. Era virgem quando a conheci; eu mesmo conferi se o era antes de tomá-la para mim. Não se espante novamente: conferi, sim. Levo estas cousas muito a sério. E a vigio de forma tão estrita, que de fato sei que jamais teve outro homem além de mim. Quero que assim seja com minha filha. Ela lhe vai virgem ao altar, e quero que continue a olhar por si como eu olhei antes de entregá-la. O marido decente cuida da honra de sua esposa.

- Compreendo.

- Mas também não quero que ela continue virgem dentro do casamento. Entenda, muitos que casam de maneira arranjada, como estamos fazendo, não consumam o casamento. A senhora dona Violante mesmo fora casada antes de eu a tomar. Sim, é uma história de fato bastante intrigante! Seu então marido a prendeu numa torre sem consumar o casamento. Eu já a conhecia e fiz a anulação de seu casamento. Para evitar que isto seja feito, quero que vossa mercê deflore a minha filha na primeira noite de casados. Sim, pois se é honra para a mulher ficar virgem até o casamento, é vergonha permanecer intocada após o mesmo. O marido deve cumprir com seus deveres de homem e se deitar com sua esposa.

- Eu o farei, meu senhor.

Expedito sorriu.

- Eu não posso somente confiar em sua palavra, senhor Pedro. Perdoe-me, mas não posso. Pois vossa mercê pode simplesmente se fechar com Teodora no quarto e nada fazer com ela. Acima de querer o casamento consumado, quero também que se deite com ela para me dar os netos que tanto quero ter. Antigamente, uma junta de testemunhas entravam no quarto para ver se o casal ia mesmo consumar a união; hoje, não se tem mais desses costumes. Como não verei o que farão, quero que me dê uma prova da consumação do casamento.

Expedito tomou, então, de dentro de uma gaveta do quarto, um lençol branco.

- Tome. Coloque isto - pode ser de maneira discreta caso assim queira - por cima da cama, onde Teodora se deitará pouco antes de consumarem o ato. Após o mesmo, geralmente a mulher que é virgem sangra um pouco. Tome o sangue que cair da defloração dela neste lençol e me traga o mesmo na manhã seguinte.

Pedro engoliu em seco. Expedito era de fato um homem que levava as coisas às últimas consequências. Mas não podia negar, por isso tomou o lençol das mãos dele.

Ia já a sair pela porta, quando o inquisidor o chamou para que se sentasse novamente.

- Uma última coisa. Somente uma última, antes de sairmos. Como nunca antes possuiu a uma mulher virgem, tenho algo a lhe dizer. Minha filha sequer sabe direito como se realiza o... ato, enfim. A consumação do casamento. Talvez tenha medo; talvez nas primeiras vezes, deva possui-la com ambos vestidos com suas camisolas de dormir. Pois bem; talvez ela tenha medo, talvez estranhe; nunca antes esteve sozinha com um homem, daí de repente vem um por cima dela e... bem, já sabe. Se quiser ser cuidadoso, seja. Se quiser acalmá-la com as palavras, a dizer que "tudo bem", que tudo transcorrerá de maneira tranquila, tudo bem também. Mas não fique sendo muito reticente ou cedendo aos apelos dela. Se dependesse das mulheres, nós nunca as possuiríamos! Avise a ela que está tudo bem, que é marido dela e tem esse direito; e pronto, a partir daí simplesmente faça o que tem de ser feito: possua-a. Tirar virgindade de mulher é que nem arrancar um dente: tem de ser feito de uma vez só. Se fizer devagarzinho, sente-se medo, a mulher fica apreensiva. Arranque a virgindade dela de uma vez e pronto. Vai doer de qualquer jeito, não é? Então que doa tudo que tem que doer de uma só vez.

O moço engoliu em seco outra vez - e de forma involuntária, lhe veio na mente como teria sido grotesco quando Expedito deflorara a Violante.

Então saíram ambos do quarto - Pedro ainda pálido. Então, Teodora tomou a bênção do pai, guardou o véu de noiva o qual já quase terminara de bordar e foi dormir. Quanto a Violante, foi a seu homem.

- Meu senhor, conversou com ele?

- Sim. Sobre a noite de núpcias, todas estas cousas. Não se deve falar disto com Teodora pois é mulher, não é? É o marido quem deve instrui-la após terem-se casado. Então, teria de ser com ele que eu deveria falar. De resto, preciso mandar logo trocar a cama dela de solteiro por uma de casal. Daqui uma semana já se casam, imagine deixar isto para cima da hora?

- Verdade! Ah, mas imagine se numa hora dessas Pedro desiste de casar!

O inquisidor a olhou com olhos loucos.

- Minha senhora! Ele não é nem louco de fazer uma cousa dessas! Se fizer, o persigo até o fim do mundo, arranco a sua macheza com minhas próprias mãos e o faço engolir! Ora se não faço!

Violante persignou-se, mas olhou ao homem com admiração. Ah, que pena que seu pai era apenas um sargento-mor! Pois se tivesse sido algo da envergadura de Expedito, poderia ter feito o mesmo com seus dois noivos que desistiram do noivado. Mas fora bom assim! Fora bom, pois se eles não a houvessem rejeitado, como ela conheceria a Expedito? E certamente nenhum outro homem a faria feliz como ele fazia!

Foi com este pensamento que foi dormir com ele, pensando na sorte que tinha. Estava tão segura ao lado de um homem como ele, que podia mais que o próprio rei!

Só não estava segura e protegida era dele próprio.

To be continued

OoOoOoOoOoOoO

Gente, esses monólogos são muito pesados! Pedito tem a energia muito pesada pra gente escrever sobre ele!

De resto, olha as dicas que ele dá pro futuro marido da filha. Coitado do Pedro, deve ter ficado tremendo na base ao ver a crueldade dele!

Abraços a todos que lerem!