Após me colocar diante da teoria e das comprovações comportamentais daquela enfermidade zumbi, chegara a hora de criar um conjunto de técnicas que agissem como um antídoto capaz de impedir o falecimento da vítima assim que atacada, além de legitimar e ter a certeza de que nenhuma parte dos meus estudos se apresentava equivocada.
Às constatações anteriores, a falência da vítima era diretamente ligada ao envenenamento pelo elemento Bário, que era conduzido ao sistema circulatório dessa pessoa pelo contato direto com um errante, então o primeiro passo foi o de formular uma linha de procedimentos que equalizassem o veneno no organismo da pessoa.
Sendo o elemento sódio grande responsável por inibir a absorção intestinal do elemento bário no organismo, introduzi a ingestão de sal (cloreto de sódio) logo de início, para que a própria vítima pudesse ingerir o material, fazendo com que o elemento chegasse mais rápido ao seu estômago e começasse a agir antes da pessoa ser dopada e obrigada a dormir. Ao dormir, o metabolismo da vítima reduz o próprio funcionamento e assim a captação do veneno se torna lenta.
O choque serviria para desestabilizar os nano robôs, que parariam de lançar o bário na corrente sanguínea da vítima, e o carvão ativado injetado teria o papel de adsorver o elemento químico na corrente sanguínea, em parceria ao cloreto de sódio que cuidava do tratamento do veneno no sistema digestório.
Após os estágios de observação e teorização, eu precisava colocar todas as especulações à prova e assim ter a certeza de que não havia discrepâncias em meus estudos, e quem melhor para se colocar à disposição àquela tese do que eu, afinal se eu esperasse para que as circunstâncias me apresentassem um ferido para testar o meu método anti envenenamento, eu estaria agindo como Negan queria que eu agisse, com a diferença de que nesse caso a cobaia humana seria traga pelo acaso.
Só havia duas pessoas em Alexandria que aceitariam me ajudar a colocar o meu plano em prática, Allan e Denise, que como parceira médica e amiga me apoiou durante todo o período de minhas pesquisas.
"-Mas e se não der certo?" Perguntou Denise nervosa.
"-Se não der certo, um de vocês acerta a minha cabeça e pronto." Respondi prontamente.
"-Ah como se fosse tão fácil assim, né mon amour – Allan fez uma pausa – eu não vou conseguir te acertar." Disse ele.
"-Nem eu." Disse Denise.
"-E vocês vão deixar que eu, versão errante, fique perambulando por aí atrás de cérebro alheio, é isso?" Perguntei.
"-Sim." Responderam os dois juntos.
"-Dois cuzões – fiz uma pausa – olha, eu vou testar o antídoto com ou sem a ajuda de vocês." Eu disse.
"-Tá bom, nós vamos – Allan olhou para Denise – né Denise?" Perguntou ele.
"-É vamos, fazer o que." Disse ela, ainda muita nervosa com toda a situação.
"-Então o plano é o seguinte, nós vamos até a casa vazia do doze onde eu escondi um errante no porão, e quando chegarmos lá eu vou deixá-lo morder o meu braço direito..." Eu explicava antes de Allan me interromper.
"-Como é que você vai conseguir esconder toda essa loucura do Aaron, com uma parte do braço faltando, querida?" Perguntou ele.
"-Eu não vou deixar que o errante dilacere o meu braço, vai ser uma mordidinha." Eu expliquei.
"-E como você vai conseguir controlar a força da mordida?" Perguntou Denise.
"-Allan vai segurar a cabeça do errante e eu vou aproximar o meu braço da boca dele, assim que eu for mordida, você o acerta com a faca que eu te dei." Eu expliquei.
"-Quem, eu?" Perguntou Denise.
"-Não, a Beyonce - eu respirei fundo – olha, desculpa por ser tão grossa às vezes, é que eu preciso muito de vocês dois, e depois de todas as nossas aulas de proteção, você já está mais do que pronta para dar esse novo passo." Eu finalizei e ela acenou com a cabeça, em sinal de aceitação.
"-Então vamos logo acabar com isso." Disse Allan caminhando na nossa frente.
Nós três caminhamos até a casa abandonada e sem que ninguém nos visse, entramos pela porta dos fundos, passamos pela cozinha e abrimos a porta do porão, assim que descemos as escadas o errante que estava amarrado a um pilar central do cômodo, começou a se debater desesperadamente.
"-Não sei se eu vou conseguir acertar ele." Disse Denise, ainda mais nervosa do que anteriormente.
Ao me deparar com aquele comportamento de total fobia, eu percebi que fora precipitada a declaração de que ela estava pronta para dar o próximo passo, mas eu não a culpava por ainda não estar pronta, afinal Denise nunca havia saído de Alexandria desde que tudo começara a dar errado para todos nós, e mesmo com todas as aulas de proteção e técnica, ela ainda não estava emocionalmente pronta para acertar um deles.
"-Vamos fazer o seguinte, Allan segura a cabeça do errante e depois que eu for mordida ele mesmo o acerta – olhei para Denise – você fica pronta para estancar o sangue da mordida, e para ajudar o Allan a realizar todo o procedimento anti envenenamento, ok?" Perguntei e ambos concordaram com o procedimento, ainda mais Denise que expressou estar totalmente aliviada por não precisar matar um deles.
Denise sentou - se distante ao corpo do errante, e retirando de minha mochila os elementos essenciais para a atuação do antídoto, organizou-os em ordem de função para que não houvesse qualquer equívoco no momento em que precisasse usá-los.
Allan se posicionou por de trás da pilastra medial e com força imobilizou os movimentos da cabeça do errante, a segurando por suas têmporas, em seguida ele inclinou o crânio do infectado e eu posicionei o meu braço para que sua mandíbula chegasse até mim.
No exato momento em que seus dentes rasgaram a parte externa de pele do meu braço, eu me afastei e caminhei no sentido de Denise, que logo me deu a porção de sal para ingerir e logo molhou um pano com sonífero, para que eu adormecesse.
Segundo Denise, o meu metabolismo aceitou todo o procedimento anti envenenamento sem que a temperatura ou pressão de meu corpo sofressem mudanças, além de meu ritmo cardíaco que se manteve em frequência análoga.
Assim que eu despertei, o dolorido de meu braço fez com que eu levantasse em sobressalto e encarasse assustada Allan e Denise, na verdade levou alguns segundos para que o discernimento de que eu ainda estava vida, fizesse algum sentido.
"-Eu ainda estou viva, ou nós três nos tornamos errantes?" Perguntei ainda atordoada, nunca me dei bem com o fato de precisar acordar.
"-Você está viva e já pode ganhar um prêmio Nobel de medicina." Disse animadamente Allan, que depois e com Denise me abraçaram.
"-Calma gente, meu braço está todo fodido - eu disse me afastando um pouco deles – ah foda-se a dor." Eu disse e os abracei em comemoração.
"-O mundo precisa saber dessa descoberta." Disse Denise entusiasmada.
"-É, eu acho que vai ser muito difícil avisar o mundo todo, sem rádio e internet." Eu disse.
"-Quem sabe sinal de fumaça." Disse Allan, que não recebeu minha resposta, ou a de Denise.
"-Bom, com o antídoto pronto a única coisa que eu quero, é não encontrar o dono da besta e a moto, para elas fiquem comigo para sempre. Obrigada, de nada." Eu disse.
"-Do jeito que você é azarada, esse cara vai estar no primeiro grupo que a gente encontrar." Disse Allan.
"-Vá se lascar." Eu disse.
"-E se você encontrar o cara? Vai devolver as coisas dele?" Perguntou Denise.
"-Retifique as palavras queridinha, não são mais as coisas dele, são minhas agora, ou seja, não devolvo." Eu disse.
"-Acho que o mais importante agora é você dar um jeito de esconder do Aaron esse machucado." Disse Allan.
"-Pode deixar, que eu dou um jeito – fiz uma pausa – agora eu só preciso da minha cama." Eu disse caminhando no sentido da escada do porão.
"-Mas você acabou de acordar." Disse Denise.
"-Dormir nunca é o bastante e além do mais, quanto mais tempo eu permaneço no meu quarto dormindo, as chances do Aaron de descobrir o machucado diminuem." Eu disse.
"-É, mas você sabe que cedo ou tarde ele vai descobrir." Disse Denise.
"-E o barraco vai ser grande, mas eu sei que um dia ele vai entender, ele sempre entende." Eu disse.
