Fix you
Autor. Caalan
Uma discussão sobre a Feira de Trabalhos leva a uma conversa profunda sobre esperança.
De onde estava sentando na colina ele podia ver toda atividade se desenrolando no campo lá embaixo. Mesmo de seu lugar distante, podia sentir o cheiro da grama e o vento que estava na medida certa para voar. De forma geral, era uma cena que nunca deixava de animá-lo... Um campo verde, um ofuscante céu azul, as cores territoriais das Casas de Hogwarts balançando numa alegria perpétua. Nunca pensou que chegaria o dia em que ele procuraria evitar este lugar. No momento, entretanto, estava cheio de pessoas, bandeirolas coloridos, estandartes pendurados, e possivelmente a coisa mais perturbadora... Esperança.
Hoje, Hogwarts tinha sua anual Feira De Empregos. Todos os graduandos e sextanistas enchiam o campo lá embaixo, ouvindo discursos inspiradores e pegando cartões de contato de todos os tipos de empregos bruxos, desde a Dedosdemel até St. Mungos e até mesmo do Ministério. Nem mesmo os olheiros do Quadribol profissional eram tentação para Harry em sua observação solitária. Todos já tinham definido mesmo. Ele era O Garoto-que-salvaria-todos-eles e no momento, se misturar com toda essa... Esperança... Era mais peso do que ele suportava carregar.
Um pequeno barulho atrás dele, distante, o tirou de sua observação da multidão distante. Ela sempre o encontrava, e ele sempre notava a sua chegada. Tinha um jeito de caminhar, seus passos calculados e medidos, eficientes, mas nunca apressados. Quer ela conhecesse o trajeto como a palma de sua mão ou quer estivesse se aventurando em terreno desconhecido, sempre parecia que ela reconhecia o caminho e isso aparecia na confiança de seus passos. Era um som reconfortante pra ele, por isso sorriu. Ela veio e sentou ao lado dele por um momento, simplesmente olhando o caos lá embaixo. Não se importou em perguntar por que ele estava ali escondido nas alturas; ela já sabia.
O fato dela poder confortá-lo tão facilmente o deixou um pouco nervoso. Sentiu como se não tivesse permissão pra sentir coisas como conforto, ainda não, não quando tinha tarefas terríveis pela frente. Ele falou devido a necessidade de encontrar tensão, pra se manter alerta.
-Não acha perda de tempo?
Ela olhou pra ele brevemente. –O que? A feira? Não.
Harry continuou, procurando o ângulo certo, aquele que inspiraria o fogo dela, aquele que em resposta, inspiraria motivação nele. –Não? A maioria das pessoas lá embaixo vai entrar numa batalha de vida ou morte em breve, e isso não vai ter nada a ver com doces, poções médicas ou habilidades administrativas. Até os alunos provavelmente vão estar em guerra antes de terem uma entrevista de emprego.
Ela deu um sorriso triste, sem morder a isca dessa vez. –Você provavelmente está certo, mas eles precisam deste tipo de coisa, todos precisamos.
-Como negar o que está por vir pode ser benéfico pra nossa causa, de qualquer jeito? – ele cruzou os braços sobre os joelhos e virou um pouco pra ela, determinado a trazer sua ira contra todas as coisas ruins da superfície. Ele precisava disso. Ela sempre podia inspirá-lo; lembrar a ele que tudo valia a pena quando ela falava contra as atrocidades que tinham visto.
-Não estão negando, Harry. – Ela virou o rosto para o sol, banhando-se em seu calor.
-E como chama isso então?
-Esperança.
Harry fez uma careta. Ali estava a palavra. Desde a morte de Dumbledore parecia que ele tinha perdido a paciência com qualquer coisa que lembrasse esta emoção. –Não vejo o ponto disso, de verdade. Parece com contar as galinhas a partir dos ovos ou coisa parecida. O que temos que fazer já é difícil suficiente sem colocarmos sonhos bobos além de tudo.
Hermione finalmente virou pra olhar pra ele então, preocupação evidente em sua expressão e em sua voz severa. –Como você pode chamar isso de bobo?
Ótimo, Harry pensou, finalmente conseguira aguçar o que procurava.
Ela continuou, balançando a mão na direção da multidão lá embaixo. –Eles precisam disso. Dessa normalidade. Desse lembrete. Não é que esperem que nada disso esteja aqui amanhã ou daqui a uma semana, daqui a um ano. São as pequenas coisas nas quais nos seguramos, Harry.
Ela virou o rosto para o sol novamente, a brisa levantando um pouco seus cabelos, rearranjando a maravilhosa bagunça deles. –As pequenas coisas como a brisa batendo nas colinas, uma simples dança com amigos, o emprego ou estágio depois da escola... O simples ato de viver e fazer planos que impulsionam o desejo de vencer esta guerra. – ela virou pra ele de novo, a preocupação ainda presente, mas sua voz mais suave, fazendo o peito dele doer. –Não tem essas coisas, Harry? Pequenas coisas como essas?
-Tenho que me concentrar no que tenho que fazer. – O olhar de Harry no campo lá embaixo era duro, uma irritação se fez presente com a falha em encontrar a inspiração raivosa que precisava. –Não posso me dar ao luxo de ter esperanças.
Ele esperava retaliação verbal imediata. Vários segundos de silêncio o fizeram desviar o olhar furtivamente pra ela, que olhava a massa distante, aquela expressão no rosto, aquele que ela ficava quando encontrava um feitiço ou poção difícil. Qualquer um podia literalmente vê-la voltando no tempo e em suas experiências para encontrar fatores que a ajudariam a deduzir a solução. Ele a admirava abertamente agora enquanto estava tão distraída, o jeito que ela mordia o lábio e a maneira que piscava tão devagar, categorizando outro fato em sua mente brilhante. Ele estava tão envolvido em olhá-la que a certeza na voz dela o fez pular.
-Isso te assusta.
-Como é?
Ela virou pra ele, trocando todo o peso do corpo e o puxando para que ficasse de frente pra ela também. –Esperança. Te assusta.
-Não posso me dar ao luxo de ter medo também, Hermione. Nem você.
-Ah, cala boca, Harry. Está tão preocupado com as facetas táticas de nossa tarefa quando na verdade precisa se pergunta se você quer mesmo fazer isso. Por que ia querer? Sem esperança... Por que ia querer?
Ele não podia evitar de falar com amargura. –Porque é MEU trabalho, Hermione. Por que ir a uma Feira de Empregos? Já tenho um emprego. Assassinar o Senhor das Trevas, parece que já cheguei ao mundo pré-qualificado.
-Você se parece muito com ele, sabe. – ela recuou sentada um pouco, a cabeça um pouco inclinada, com aquele sorriso sabe-tudo.
-Eu não pareço nada com ele. – falou, sem conseguir tirar a expressão cínica do rosto. Ela sempre foi tão irritante assim? Pensou. Você tem um pedacinho do senhor das trevas com você, sabia? Bem ali! Sua Hermione Interior apunhalou sua cicatriz, enquanto a verdadeira continuava, deixando seu argumento claro.
-Talvez não, Harry, mas no momento você tem. – um traço de impaciência aparecia em sua voz. –Você fica procurando raiva pra te fazer continuar... Ódio. Ele tem um objetivo. Matar a todos. Você também só tem um: matar ele.
Ele remoeu em silêncio e depois de um tempo a ouviu suspirar enquanto se colocava mais perto dele, agora segura que ele não ia sair correndo. Ela sentou em silêncio, pegando um pedaço de folha ou pedra pra examinar mais de perto... Simplesmente esperando por ele.
-Não tenho mais nada, Hermione... Não mais.
Novamente, a voz suave dela, não a inflamada que esperava mais cedo, mas aquela que fazia a garganta dele apertar e seus olhos queimarem. Ele olhou para o chão, mirando um grupo de formigas ocupadas, carregando pequenos fragmentos desconhecidos. Ele se perguntou até onde elas iriam com seus pequenos pesos.
-Harry, se isso for tudo o que você acredita, se não tiver alguma coisa, nada por que esperar, então nunca vai conseguir. Ele já venceu. – ela abaixou a cabeça para que pudesse entrar na linha de visão dele. –Certamente existe alguma coisa, qualquer coisa que te faça feliz, alguma coisa que você ame.
Ele a olhou nos olhos então, o momento se esticando... Até onde isso iria? Ele não tinha idéia nem do que ele estava tentando dizer a ela, mas pela sobrancelha franzida dela, estava conseguindo algum tipo de informação.
-Por isso que terminou com Gina.
Ele olhou pra ela sem acreditar. –Isso não tem nada a ver com Gina!
-Sim, Harry, tem sim. – ela pegou a mão dele, que ficou tenso. O toque dela, suave e quente, era tão inquietante quanto a voz. –Você não se permite ter esperança... Ou amar... Porque toda vez que você tem isso... Ele tira.
Harry tentou puxar a mão de volta, mas Hermione a segurou rápido. –Seus pais, Sirius, Dumbledore... E você teme por Gina, por todos nós.
O pequeno ponto começou a queimar nos olhos e ele puxou a mão com força dela, a assustando e ele se arrependeu por isso. As lágrimas e o arrependimento o deixaram com raiva. –Bem, alguém tem temer! Se eu ficar muito tempo com desejos bobos e romances sem sentido, então vamos todos morrer. Ele vai descobrir e vocês vão morrer!
-Eu já sou um alvo, Harry. Do mesmo jeito que Gina, e Rony e todos Weasley. Qualquer nascido-trouxa, qualquer um simpatizante deles, vai estar na linha de fogo. Não tem nada a ver com seu amor por nós ou não.
-Eu tenho esperanças... e sonhos. Quero aquela nova versão de Hogwarts, uma História, quero trabalhar numa livraria, tocando todos os livros... Lendo todos lançamentos nas horas mais paradas. Quero romance também. E eventualmente... Amor. – ela parou de repente, como se percebesse que falar sobre os próprios sonhos fosse errado. –Harry, se você não pode nem ter um pingo de esperança, então vamos morrer. Ele te encurralou pelo medo. Se não pode nem imaginar como a vida pode ser se você vencer, então não há porque entrar na guerra.
Ele virou, pegando uma pedra próxima e jogando-a no infinito, procurando imediatamente por outra. O toque gentil dela parou o braço dele. –Harry...
A voz dele falou. –Eu... Eu não posso.
Ela o segurou com as duas mãos, novamente o puxando para que sentasse de frente pra ela. –Sim. Você pode. Você precisa. Mesmo que apenas fique com isso por dentro e nunca diga a ninguém, você tem que querer alguma coisa, Harry.
Olhando pra ela agora, os olhos castanhos fixados unicamente nos dele... Devotados e determinados, ele sentiu a possibilidade do querer. Ele tentou falar e descobriu que não podia, limpou a garganta e conseguiu falar. –Como?
Ela riu com gosto e ele deu um meio sorriso. –Bem, comece com o simples. Feche os olhos. – ele obedeceu e ficou imediatamente consciente das mãos dadas deles e do fato que seus joelhos estavam se tocando. –Qual sua comida preferida?
-Todas elas.
Ela riu. –Bom. E seu esporte preferido?
Era possível rolar os olhos quando eles estavam fechados? –Você já sabe qual é. Quadribol.
-Certo, desde que você saiba também. Quem é seu melhor amigo?
-Você. E Rony.
Ela apertou um pouco a mão dele e sua voz ficou um pouco mais profunda, mais gentil. –Por que ama voar?
-Porque me sinto livre. Mesmo quando não posso estar lá fora voando, mando Edwiges pra fora e a vejo flutuando no vendo. Um animal tão pequeno, de verdade, e ela tem tanto poder.
-Se você fosse livre, Harry. – ela fez uma pequena pausa, procurando as palavras, ele supôs. Ele estava enganado, percebeu pelo emoção em sua voz. –Se não fosse Harry Potter, mas sim um garoto comum, como sempre quis... Como seria sua vida?
Ele ficou em silêncio, alerta. Será que conseguiria dizer em voz alta? Ele podia sentir a tensão nas mãos dela, apesar de seu toque permanecer gentil e reconfortante. Ela já ia tirar as mãos quando ele falou, tão baixo que ele sentiu quando ela se inclinou pra frente para poder escutá-lo.
-Ainda teria meus pais e Sirius, e nenhuma cicatriz e ninguém me reconheceria instantaneamente. – Quando tinha ficado tão quieto? A brisa, as folhas voando, os murmúrios da multidão distante... Tudo sumira. A voz dele ficou ainda mais suave... Mais baixa. –As pessoas iam gostar de mim pelo que realmente sou e não pelo que devo fazer.
E agora ele sentia de verdade que não tinha mais nada, que tinha dito todos seus medos e esperanças secretas e tudo que lhe restara foi esta pressão vazia do silêncio.
-Eles já gostam, Harry. Eu já gosto. – ele podia ouvi-la chorando agora e já ia abrir os olhos quando ela fungou alto para limpar a voz. –E esta versão de você mesmo, o que faria? Quando crescesse e viesse pra Hogwarts e se encontrasse na Feira de Empregos hoje... O que você ia querer fazer?
Ele ficou momentaneamente paralisado. O que ele faria? Nunca pensara em mais nada além de seu objetivo de parar Voldermort e talvez voar jogando quadribol, mas já tinha fama suficiente. E então a idéia lhe ocorreu, como uma brisa, e muito parecida com a sensação de voar ele mentalmente abriu as asas e voou neste pensamento.
-Fazer varinhas.
Suavemente, ela perguntou. –Por que?
-Porque foi onde tudo começou pra mim. Segurei aquela varinha e um novo mundo apareceu diante de mim. Eu ia querer fazer isso. Criar pequenos universos pra cada bruxinho ou bruxinha, olhar suas expressões mudarem com a curiosidade e com as possibilidades. Ficaria orgulhoso de cada criação e ficaria especialmente feliz em dar boas vindas a qualquer nascido-trouxa a esse mundo paralelo maluco. Ia querer presenciar cada encontro entre varinha e bruxo porque é o momento que eu queria, mais que qualquer outro, ter dividido com meus pais.
O silêncio respondeu esta revelação também, mas era um silêncio bom. Sem expectativas. Ele vagarosamente abriu os olhos e viu Hermione sorrindo gentil, seu rosto marcado por lágrimas. –Viu, Harry? Você sempre teve esperança. Espero que eu possa estar presente para ver acontecer.
Este talento descoberto para revelar esperanças secretas tirou ainda mais peso das costas de Harry. –Bem, eu prefiro pensar que você estaria no negócio comigo. Você é uma bruxa especialmente talentosa... "A bruxa mais inteligente de nossa idade". – os dois riram um pouco, ao mesmo tempo entristecidos e alegrados por essa imitação mal feita de Sirius.
Ela corou então e ele percebeu como naturalmente bonita ela era. Ele uma vez ficara surpreso pela transformação dela no quarto ano, mas essa era mais uma confirmação do que sempre soubera.
Ele passou o polegar pelos nós dos dedos dela, suave, devagar. Dessa vez foi ele quem entrou na linha de visão dela. –Mas eu não ia querer te tirar de sua livraria ou de seus romances apaixonados.
Ela deixou a cabeça cair pra trás, rindo. Se ele achou que estava bonita antes, ela era absolutamente linda quando ria. –Como se tivéssemos tempo para uma coisa tão permanente, só estou tentando achar um pouco de diversão enquanto passo pela vida. – ela deu uns tapinhas nas mãos dele, animada. –Vamos ver. Gostei muito de sua visão. Até lá, que me diz de irmos até a feira e ver se encontramos um trabalho divertido para sonharmos e talvez até um romance, mesmo que temporário?
Ela levantou então e esticou as mãos para ajudá-lo a levantar. Ele esperou só um momento, hipnotizado pela visão dela com as mãos esticadas, oferecendo a ele algo que não entendia muito bem. Quando esticou as mãos e levantou, ficando maior que ela, puxou-a mais pra perto. Olhou solenemente nos olhos dela e vagarosamente se inclinou pra baixo, na intenção de beijar sua bochecha. Ele parou um pouco antes de chegar a seu objetivo e recuou um pouco, olhando nos olhos dela. E lá ele viu o mesmo conforto que sentiu quando ouviu seus passos se aproximando, aquela confiança silenciosa, medida, possivelmente planejada há anos, eficiente... Mas nunca apressada.
Com mais uma palavra sussurrada, ele ofereceu mais um desejo –Hermione...
Ele a beijou então, não muito suave. Ela afastou os lábios para ele e o beijou com a mesma confiança... Quieta... Medida... Nunca apressada... E possivelmente planejada há anos. Devagar, ele interrompeu o beijo, ainda ficando próximo, colocando a testa contra a dela. –Obrigado... - ele sussurrou.
-Por que?
-Pela esperança.
Fim
NT.: Bom... Vi o filme ontem e a sensação de fim me inspirou a postar algumas fics que já tinha traduzido há muito tempo e que estão perdidas no meu pc. Essa foi a primeira que encontrei. Particularmente, acho essa fic maravilhosa e depois que li não vejo profissão mais perfeita pra ele. Pena que (mais uma vez) JK não teve a mesma visão que eu XD.
Um detalhe dessa fic é que diferente de outras traduções, não entrei em contato pra pedir autorização pro autor(a). Estou vivendo na rebeldia agora... Espero que tenham gostado tanto quanto eu. Em breve devo atualizar novamente (se o hospital me permitir).
