-Não tinha nada melhor para fazer então...

- Fico feliz que tenha vindo!, disse Emily se afastando para dar eu poder me sentar ao seu lado. Trouxe seu livro?

- Na verdade não. Tive de jogá-lo fora depois da brincadeira com o papel machê no meu escaninho...

- Tudo bem, podemos dividir o meu. Por onde quer começar?

- Bem, do início seria bom!, brinquei.

Ela deu uma risada torta e me passou o livro, ainda fechado.

- Então vamos começar por química inorgânica...

Abrimos o livro e, colocando o cabelo atrás da orelha, ela começou a me explicar os conceitos básicos da matéria.

[...]

- Então, se você acrescentar um carbono aqui e um hidrogênio ali, a estrutura molecular vai passar de trigonal plana para...

- Emily, Emily, Emily!, interrompi rindo, com a mão sobre a folha de exercícios do livro. Sei que você está super empolgada, mas acho que já estudamos muita química por um dia só, não?

- Desculpe, ela disse dando uma gargalhada. Tudo bem então, continuamos outro dia, certo?

- Certo.

- Então..., ela disse fechando e guardando o livro em sua mochila. O que quer fazer agora?

- Eu? Ah, na verdade não sei. Eu iria para casa assim que terminássemos de estudar, não tenho nada de muito importante para fazer hoje.

- Já que estamos à toa, o que acha de irmos tomar um sorvete?

- Acho uma ótima ideia! Eu pago!

- Pode deixar Toby, eu trouxe dinheiro. Eu pago.

- Você já fez o imenso favor de me ajudar em química Emily e ainda por cima de graça! O mínimo que eu posso fazer para retribuir é pagar o seu sorvete.

- Mas Toby...

- É isso ou nada de sorvete!, disse rindo.

Ela resmungou um baixo "tudo bem" e nos levantamos do banco. Logo do outro lado da praça ficava uma das melhores sorveterias de Rosewood, tinha todos os tipos de sorvete que alguém poderia imaginar. Atravessamos a rua e entramos nela. Emily colocou a mochila em uma das mesas para marcar lugar e fomos escolher nossos sorvetes. Pesamos nossos potinhos, paguei e fomos nos sentar.

- Então Emily..., disse enquanto comia uma colherada, está tudo bem com você? Alguma coisa nova para contar?

- Na verdade, eu já ia te falar sobre isso. Ben e eu terminamos.

- Mas por quê? Vocês pareciam se gostar muito.

- Sem problemas. Nós não estávamos dando certo mais, então achei melhor assim.

- Tem muito tempo?

- Não, não. Terminamos ontem, você é a primeira pessoa a saber.

Fiquei em silêncio por um momento. Emily não tinha contado aquilo nem para as amigas e mesmo assim tinha resolvido contar a mim, um garoto que ela nem conhecia direito. E ainda mais: um garoto acusado de matar uma de suas melhores amigas. Fiquei sem fala por um momento, pensando naquilo.

- Obrigado por me contar, fico feliz em saber que confia em mim.

Emily deu um sorriso e colocou os cabelos atrás das orelhas, tomando mais uma colherada de sorvete. Apesar da pele morena, percebi que suas bochechas ficaram um pouco rosadas de vergonha.

- Seu sorvete está bom?, perguntei apontando com a colher e tentando mudar de assunto.

- Muito, e o seu?

- Também, disse dando uma gargalhada.

Terminamos de comer e eu recolhi os potinhos para jogar no lixo enquanto Emily pegava sua mochila e a colocava nas costas. Abrimos a porta da sorveteria e saímos para a rua. Tínhamos andado apenas alguns metros quando de um beco próximo, saiu um garoto alto e forte de cabelos pretos curtos e camisa branca. Era Ben.

- Ora, ora, se não são os dois pombinhos, ele cruzou os braços e me olhou de cima a baixo com a expressão fechada. Ainda não acredito que teve a coragem de me trocar por esse fracote, Emily.

- Ben, não é nada disso que você está pensando, eu só...

- Eu não quero saber!, ele gritou descruzando os braços e dando um passo à frente. Você é minha Emily! Entendeu? MINHA!

Ele agarrou-a pelos braços e tentou beijá-la apesar dos tapas, gritos e esforços de Emily para mantê-lo longe.

- Larga ela!, gritei, dando um empurrão em Ben.

- Senão o quê? Vai jogar seus cabelos de menininha em cima de mim? Hahaha.

Antes que eu pudesse reagir, ele me deu um soco e eu caí do outro lado da calçada. Meu corpo inteiro doía enquanto eu fazia força para tentar me levantar. Me apoiei nos cotovelos com muito custo e percebi que tinha esfolado minhas pernas e mãos. Levantei a cabeça e pude ver Ben ainda tentando agarrar Emily à força. Eu não poderia continuar ali sentado enquanto aquele idiota machucava Emily. Respirei fundo e ignorando os protestos de meu corpo, me apoiei na parede ao lado e me levantei o mais depressa que consegui. Ainda ofegante, senti uma raiva se apoderar de mim e corri de volta para Emily. Num piscar de olhos, me vi jogando Ben para longe. Peguei Emily pelos braços e a coloquei atrás de mim, dizendo um rápido "fique aí" e avançando novamente para Ben. Antes que ele pudesse se recompor do empurrão, eu já estava dando-lhe socos e pontapés. Ele tentou revidar e acabou me prendendo numa chave de braço. Com toda a força, mordi seu braço musculoso e ele soltou um urro de dor enquanto o gosto de sangue enchia minha boca. Me soltei dele e o empurrei para a parede, jogando-o em cima de um amontoado de latas de lixo dentro do beco. Ele caiu com um estrondo e eu corri até ele, dando-lhe mais socos no rosto.

- Chega!, ele gemia. Para!

- Vai deixar a Emily em paz?, gritei dando uma pausa.

- Vou! Mas por favor, para de me bater!

- É bom estar falando a verdade, cretino, respondi ofegante, soltando as mãos.

Limpei o suor da testa com as costas da mão, endireitei o corpo e dei as costas para Ben. Ouvi-o se levantando e me virei rapidamente, dando-lhe um olhar fulminante. Ele levantou as mãos em sinal de paz, com medo e me virei novamente para sair do beco. Encontrei Emily parada onde eu a havia dito para ficar, olhando para o chão, ofegante e trêmula. Levantou os olhos e assim que me viu, correu em minha direção e me abraçou?

- Você está bem, Emily? Ele te machucou?, disse olhando para o rosto assustado dela.

- Não, eu estou bem e você? Ele te fez alguma coisa?

- Não e não acho que ele vá voltar a te incomodar novamente.

Ela assentiu com a cabeça, ainda trêmula e eu passei o braço envolta da cabeça dela, amparando-a e me apoiando nela enquanto voltávamos para nossas casas.