Título: Of elves and humans.
Autora: Reggie_Jolie
Casando: LegolasDeirdre
Censura: R
Gênero: Drama/Romance
Beta: Kwannom
AVISOS: sexo e violência
Disclaimer: Nenhum dos personagens me pertence. Todos vieram da mente brilhante de J.R.R TOLKIEN e, bem, essa história é uma forma de homenagear esse autor de histórias tão fascinantes e intrigantes. Apesar disso, os personagens originais – Deirdre, Bard, Elina, Onodher e outros - são meus e não podem ser utilizados sem minha autorização.
Linha temporal: Começa no ano 2992 da Terceira Era, antes da guerra pelo Anel de Poderse alastrar por toda a Terra Média e termina no ano de 1541 da Quarta Era. Seguindo, principalmente, o universo dos livros (O Senhor dos Anéis - trilogia completa - O Hobbit e Contos Inacabados).
Sumário: Elfos, Homens, amor, amizades, batalhas vencidas e perdidas. Uma história de amor, pura e simplesmente.
NOTA DA AUTORA
Eventuais expressões em élfico aparecerão em itálico.
Boa Leitura.
"Ouvia-se também o som de harpas élficas e de canções doces, e, quando os ecos chegavam até eles, era como se o ar ficasse mais quente, e sentiam a tênue fragrância das flores da mata desabrochando na primavera". Pp254 o hobbit.
O EXÍLIO (PARTE 02)
FLORESTA DAS TREVAS
Ano 3015 da Terceira Era
Se havia algo de que Gwaeron se orgulhava, e que todos na Floresta das Trevas sabiam, era do trabalho desenvolvido por ele e seus auxiliares nas Casas de Cura. Em pouco mais de dois dias, todos os elfos machucados da patrulha de Tathar - e graças a Eru foram poucos - estavam restabelecidos e de volta às suas casas e respectivas funções. Restava ao curador, contudo, uma única paciente. A mesma que lhe inspirava cuidados e assim o seria por algumas semanas.
Lilases. Era o aroma que aquele lugar exalava. A despeito de qualquer outra erva ou matéria utilizada ali, o cheiro sempre era o de lilases o aroma era imediatamente associado às casas de curar e conseqüentemente com o restabelecimento de doenças e ferimentos.
Naquele começo de manhã, Lenwe, um dos mensageiros reais, encontrava-se defronte das casas de cura cumprindo ordens e por isso aspirava o fragrante aroma de lilases.
"Pois não?" indagou Atanóne. Ela era a principal aprendiz do curador além de sua filha. Atanóne possuía um olhar sempre firme e severo que fazia qualquer um tremer e que, no entanto, era sobrepujado pelo desvelo com que cuidava dos pacientes.
"Eu tenho uma mensagem para o curador," afirmou Lenwe. "O Comandante da Guarda Real da Floresta das Trevas, Sua Alteza Real, o Príncipe Legolas Tranduilion solicita a presença do curador na sala do comando da guarda".
"Eu o avisarei," respondeu Atanóne, despedindo-o com um gesto.
Nesse meio tempo eu havia concluído a seleção dos elfos que integrariam a comitiva que tinha por missão encontrar a família da Edain e pedi que um dos mensageiros trouxesse o Capitão Tathar Roitharíon à minha presença.
"Chamou-me, Comandante?" inquiriu Tathar ao apresentar-se.
"Entra e senta-te, bom capitão. Os preparativos para a embaixada real já começaram a serem realizados," afirmei. Quando o capitão já estava devidamente acomodado, continuei. "Eis aqui a relação dos que estarão sob vossas ordens," e passei o pergaminho para as mãos de Tathar que a recebeu e examinou com atenção. "Algum problema, Capitão?" indaguei.
"Não, nenhum, Comandante," afirmou Tathar.
"Ótimo, pois em quarenta e oito horas vocês sairão nesta busca. Nós retardamos esta ação ao máximo, esperando que a edain acordasse, mas nem o rei, nem eu desejamos esperar mais. Cabe a vocês encontrar a família da edain e dar-lhes notícias da jovem. Vocês também levarão cartas de recomendação para o governante de Valle e Esgaroth de modo a facilitar a entrada e permanência de vocês em ambas as cidades. Alguma dúvida?" indaguei.
"Sim, Comandante. Há alguma melhora efetiva com relação ao estado de saúde da jovem?" indagou Tathar. Contudo, antes que eu pudesse responder, ouvimos uma batida na porta e Lenwe entrou anunciando a presença do curador cuja presença eu havia solicitado.
O relato feito pelo curador nos tranqüilizou bastante. Segundo Gwaeron nos relatara, era apenas uma questão de horas para que a edain acordasse. O braço estava recuperado e assim que a embaixada real localizasse a família dela, a jovem poderia ser devolvida. Pouco mais de uma hora havia se passado e eu pensava no que ouvira. Se o estado de saúde da edain já não inspirava tantos cuidados, com certeza logo encontraríamos a família dela e resolveríamos todo o problema. Então, eu resolvi sair um pouco daquela sala onde passava mais e mais horas a cada dia.
Enquanto andava por um dos corredores ouvi vozes animadas que conversavam e logo uma outra se sobrepôs às demais que imediatamente silenciaram.
"Mas o que vocês pensam que estão fazendo?" a voz indagou e eu sorri calmamente ao reconhecer a voz de Almarë. "Nós mal começamos a limpeza e vocês se põem a conversar sentadas. Porque pararam tudo simplesmente." replicou a elfa.
"Vocês irão limpar tudo hoje? Apenas hoje?" indaguei curioso.
"Oh não, meu bom príncipe" respondeu Almarë. Ela me vira nascer e crescer. E graças aos Valar não me chamava de alteza, o que eu agradecia imensamente. Ela era a governanta do palácio desde que eu era um elfinho. E sempre me pareceu que, a despeito de meu pai ser o rei, Almarë era quem comandava verdadeiramente o palácio. Pois com exceção das questões relativas a segurança do reino, tudo o mais sempre parecia ter um pouco do toque de Alamrë. Meu pai jamais admitiria, mas mais de uma vez a vi saindo do salão de estudos e creio que nessas vezes não se tratava de limpeza.
"Nós só temos de limpar esta ala. Amanhã continuaremos do outro lado. Mas o senhor deseja alguma coisa, príncipe Legolas?" perguntou Almarë absolutamente solícita.
E, de repente, ocorreu-me uma idéia. Não me contive e indaguei. "E o salão de estudos do rei?"
"Hoje não. O salão foi programado para ser limpo amanhã," respondeu Almarë.
"Certo," respondi sorrindo, pensando no trabalho que a boa Almarë teria para convencer meu pai a sair do bendito salão de estudos. Ou não... Sempre me pareceu que ela, bem como minha mãe, sempre conseguiam convencer o rei com uma certa facilidade. "Tenham um bom dia senhoras," desejei e afastei-me deixando o grupo no corredor. Eu tinha muitas obrigações a cumprir e o dia mal começara.
LANTERNAS VERMELHAS
Então no final da tarde, como de costume, as lanternas e tochas vermelhas tão comuns na Floresta das Trevas foram acesas. As mesmas lanternas cujas luzes avermelhadas iluminavam do palácio real à mais modesta cabana e ao mais simples campônio.
E então aconteceu. Depois de duas semanas de cuidados intensos Deirdre finalmente acordou. Se foi devido ao bruxulear do fogo que lhe chamou atenção, até hoje não sei. Tudo o que sei foi que ela finalmente despertou.
Pelo relato feito por Gwaeron a meu pai e a mim, Deirdre tentou levantar-se do leito, o que devido à fraqueza que com certeza ainda estava sentindo, não pôde fazer. Nesta mesma hora apareceu-lhe Sárie, a elfa que fora encarregada de pajeá-la - segundo as palavras que ouvi do próprio rei algum tempo depois. A elleth passava várias horas do dia apenas vigiando o sono da edain.
"Oras, mas você acordou!" Deirdre voltou-se na direção da voz e tentou sorrir. "Man eneth lin?" A jovem humana ficou aturdida por alguns instantes, contudo a elfa logo percebeu seu erro e tratou de corrigi-lo. "Qual é o teu nome?" falou Sárie em Westron.
"Eu me chamo Deirdre," respondeu a jovem estendendo a mão num cumprimento.
"Eneth nin..." Sárie recomeçou a falar em sua própria língua, mas logo se corrigiu mais uma vez. "Meu nome é Sárie. Mas há uma pessoa que com toda a certeza gostaria de vê-la."
"Quem?" indagou Deirdre, surpresa.
"Gwaeron, nosso curador, ele vem vê-la várias vezes ao dia. Eu volto logo," disse Sárie saindo do aposento.
A elfa não precisou andar muito, descendo o corredor, um pouco abaixo de onde estava situado o quarto, encontrara um dos elfos-mensageiros ao qual ela pediu que comunicasse ao curador que sua jovem paciente acordara e voltou imediatamente ao local de onde viera.
Alguns minutos depois houve uma batida à porta e esta logo foi aberta por um elfo de cabelos loiros envergando uma longa túnica verde com alguns detalhes em marrom, assim como calças da mesma cor.
"Boa noite," falou Gwaeron e sorriu.
"Boa noite."
"Vamos ao exame," informou Gwaeron. Deirdre permaneceu quieta enquanto o curador procedia ao exame clínico da paciente.
"Bem, minha cara, só precisamos recuperar seu braço totalmente. Mais alguns dias de repouso e creio que estará tudo bem. Agora só falta uma coisa," Gwaeron falou aproximando-se de Deirdre, ainda sentada no leito. "Olhe para mim e tente não piscar." Em geral esse olhar através da alma não era de todo necessário, contudo ele quis ter certeza de que não havia nada de errado com ela. "Pronto!" falou quebrando o contato visual e voltando-se para Sárie disse: "Providencie para que ela receba as refeições e tome os remédios na hora correta e logo eu a liberarei definitivamente."
AS DUAS CIDADES
A embaixada élfica partiu na manhã seguinte à que Deirdre acordou. Ela seguiu pela floresta até o ponto onde se encontrava o rio corrente. O grupo seguiu margeando o rio, procurando a trilha por entre o pântano e os campos limpos. Depois de deixarem a floresta para trás, em dois dias de marcha o grupo avistou Esgaroth, a cidade construída sobre o lago comprido. Eles seguiram pela margem até chegarem à ponte de madeira que levava à cidade. O primeiro obstáculo foram as quatro sentinelas postadas no portão.
"Quem são vocês e o que querem?" indagou uma das sentinelas.
"Estamos indo para a cidade de Valle e somos mensageiros do reino élfico da Floresta das Trevas," respondeu Tathar. "Precisamos de hospedagem antes de seguir viagem," explicou o capitão. O homem olhou o eldar de alto a baixo, mas Tathar entregou-lhe uma das cartas que eu havia lhe entregado e após examiná-la a sentinela liberou a entrada.
Já era noite quando o grupo apeou dos animais num pátio e parou em frente a uma estalagem em pedra e madeira de dois andares. Chegava-se à mesma após a passagem de um arco ogival antecedido por degraus em pedra escura. Sob o arco havia uma placa com o nome do lugar: O Carvalho Negro. Uma taberna; era o destino do grupo naquela noite. Gente entrando e saindo. Barulho, vozes altas, fumaça e cheiro de bebida alcoólica. Do outro lado um grupo jogava cartas. Eram bastante barulhentos, como todo ajuntamento humano. A despeito disso, os elfos entraram na taberna em busca de informações.
O taberneiro, chamado Aedhan, parecia ter por volta de 35 anos, usava camisa com mangas dobradas até os cotovelos, deixando à mostra os braços peludos, e vestia um avental de cor indefinida.
"Boas noites, senhores. O que desejam? Quartos? Bebidas? Mulheres?" indagou o taberneiro.
Nárello olhou o capitão e esperou que este se entendesse com aquele humano tão... vulgar.
"Não, obrigado, quanto aos dois últimos. Quanto a quartos, preciso de hospedagem e refeição para dez pessoas e um lugar onde comprar comida para dez animais," afirmou Tathar.
"Certo," respondeu de imediato o taberneiro e em seguida gritou por um ajudante e logo apareceu um rapazinho esbaforido que foi encarregado de levar os novos hóspedes aos aposentos. "E quanto aos animais, posso providenciar isso também," afirmou o taberneiro.
"Obrigado, senhor," respondeu Tathar.
O grupo ocupou três dos quartos existentes na taberna, mas em pouco tempo saíram em duplas em busca de informações. As informações que procuravam, contudo, foram fornecidas pelo próprio taberneiro quando Tathar permitiu que ele conversasse, como o homem parecia querer fazer, desde que os elfos sentaram-se à mesa para a refeição noturna.
"Ah sim, senhor. Faz pelo menos três... não. Faz algumas semanas que um grupo de doze pessoas da cidade de Valle saiu daqui em direção a Rohan. É isso," afirmou o taberneiro e em seguida prosseguiu. "E faz duas semanas que parte do mesmo grupo voltou afirmando ter sido atacado por orcs. E deve ter sido algo feio. Muito feio mesmo."
"Você disse parte do grupo?" indagou Tathar.
"Sim. Infelizmente alguns morreram. Ah! Mas por Eru, o capitão Bard estava vivo. Ainda bem! Mas lembro do capitão Bard reclamar algo sobre a irmã dele."
"O que faria uma mulher no meio deste grupo?" indagou Tathar. E então aconteceu como seu pai havia-lhe dito uma vez: Junte bebidas e humanos e eles falarão mais do que o habitual e você acabará sabendo o que deseja e mais um pouco.
"Não lembro muito bem, senhor capitão," falou o taberneiro, batendo amigavelmente no ombro do capitão, como se fossem velhos amigos. O gesto fez com que Nárello, o recruta mais novo, olhasse cheio de assombro para aquela atitude. "Tudo o que lembro era que a jovem parecia muito contente. Eles hospedaram-se conosco, sim. E, bem, eu só a vi durante o jantar. Depois o capitão Bard subiu com ela. Você sabe, algumas pessoas podem ser bem inconvenientes quando bebem. Lembro bem dos cabelos vermelhos dela. Eram muito bonitos. Uma pena. Orcs. Bestas horríveis. Só de pensar neles fico... arrepiado de medo."
"Sim, meu caro. São bestas terríveis," afirmou Tathar pondo algumas moedas de prata na frente do taberneiro e saindo em seguida para fora da taberna. A lua cheia emprestava um brilho calmo àquela cidade sobre o lago em toda a sua extensão e foi ali, sob o céu com poucas estrelas visíveis, que Tathar ouviu o relato das informações obtidas e comunicou que a comitiva partiria em direção à cidade de Valle bem cedo pela manhã, já que todas as pistas indicavam esta cidade.
"Sim, a hóspede do nosso rei veio da cidade de Valle. Mas... onde está Ehtur?" indagou Tathar.
"Aqui, capitão, perdoe-me o atraso. Trouxe novidades," afirmou Ehtur.
"Quais?" perguntou Tathar.
"Enquanto voltava para a taberna juntamente com Failon fomos detidos por instantes por uma briga entre alguns edain que tomou conta do beco. Em resumo, o mais importante para nós foi que um dos humanos acusou o outro chamado Roald de ter deixado a irmã de Bard, Deirdre, a filha do governante de Valle e Esgaroth, sozinha na floresta. E ouvimos o outro replicar que não fora culpa dele e sim da própria garota, que viajava com eles," afirmou Ehtur. "Que sabiam que a floresta era perigosa e que foram os orcs que deram cabo da jovem".
"Ótimo. Sua história só veio a confirmar o que sabíamos," afirmou Tathar.
"Senhor, deixei Failon seguindo o tal Roald. E tão logo ele retorne, teremos mais novidades," afirmou Ehtur.
"Boa idéia, Ehtur."
Tathar estava contente, porque a comitiva havia conseguido descobrir, e rápido, de onde a jovem edain provinha. E mais: seu nome e sua família.
Mais dois dias de viagem e eis que Erebor mostrava-se em todo o seu esplendor e aos pés desta, Valle. Logo os viajantes chegaram ao chamado Morro do Corvo, onde havia um posto de vigia. A vegetação estava seca, queimada. A maioria das árvores estava sem folhas. As nuvens escuras no céu cinzento prenunciavam a primeira neve do inverno. Após uma breve conversa com os guardas, os elfos puderam finalmente entrar na cidade de Valle.
A cidade de Valle espalhava-se pela montanha e pelas encostas. Pontes, aquedutos, casas, ruas pavimentadas com pedras de várias cores. Aquela cidade era uma mistura do trabalho humano com o dos anões.
Havia muita gente pelas ruas, humanos e anões. A cidade fervilhava. O grupo dos eldar era alvo de olhares curiosos, pois há vários anos que não se via um elfo naquela cidade e de repente havia dez deles ali. Conforme as orientações fornecidas pela guarda, eles atravessaram praticamente toda a cidade e finalmente viram-se mais uma vez defronte a uma longa ponte de pedra. Eles atravessaram a ponte e após os portões serem abertos, acharam-se no pátio de uma grande casa de pedra. Dali era perfeitamente visível o braço do rio que adentrava no terreno formando um lago que começava a congelar.
O grupo foi imediatamente recepcionado por um grupo de cães que começaram a ladrar, dando um alarme. Logo eles foram recepcionados por um grupo de homens que fazia a guarda do rei.
"A estalagem fica do outro lado da ponte," falou um dos homens enquanto examinava atentamente aquele grupo estanho.
"Sim, nós passamos por ela. No entanto, trazemos notícias e uma correspondência importante para o rei da cidade de Valle e Esgaroth."
"Muito bem. De onde vocês vêm?" Indagou um humano, fazendo com que os outros silenciassem. Era um homem alto de cabelos negros, trajando túnica cinza, camisa azul e botas de couro. Tathar observou os cabelos longos e negros do humano, os olhos azuis espertos, o nariz proeminente e aquilino que lhe dava um aspecto feroz. Além, é claro, da espada que descansava na bainha. Tathar Roitharíon ainda não sabia, mas acabava de ser interpelado por um dos mais ferozes guerreiros humanos: Bard, filho de Onodher.
Uma coisa eu lembro bem de ter ouvido primeiro por Tathar, depois por Deirdre. Bard e o pai, Onodher, eram idênticos.
"No viemos do reino élfico da Floresta das Trevas. Trazemos notícias da parte do rei Thranduil, a respeito de uma sobrevivente de uma emboscada dos orcs há algumas semanas." falou Tathar, percebendo que o edain em questão devia ser o chefe daqueles humanos.
Lembro de ter ouvido de Bard que aquele dia fora o mais feliz em muitos dias de sua vida. A simples possibilidade da irmã estar viva retirara-lhe do coração um sentimento de culpa.
"Por favor, sigam-me, o rei os receberá".
Fazia quase um dia que a embaixada élfica chegara a Valle para informar o estado de saúde da filha do governante da cidade. Tamanha foi a surpresa causada pela notícia que as pessoas passaram todo o dia comentando a sorte da jovem. Escapar com vida de um ataque de orcs. Ter sido socorrida, e ainda por cima, estar vivendo entre os elfos. Era algo extraordinário.
"Bom, mais uma vez ela se mostra portadora de muita sorte," comentou Onodher. "Todos nós pensávamos que...Bem...que Deirdre não houvesse sobrevivido ao ataque."
"Não sei o que dizer," falou Elina.
"Não diga nada então. Acha que..." Onodher parou contemplando-a por instantes antes de prosseguir. "Você estaria melhor sem ela? É isso que você quer dizer, Elina?"
A mulher ruiva levantou os olhos do pergaminho que lia, mas nada disse. Ela dirigiu-se até a lareira e jogou um punhado de ervas secas no fogo. Elina inspirou profundamente o aroma de alfazema.
"Você tem de cuidar do seu coração, minha esposa. Agradeço, de verdade, tudo o que tem feito por este povo. Contudo, é hora de cuidar de você. É mais do que a hora de vocês duas viverem em paz. Serem amigas, se possível". "O que sugere? Que eu vá buscá-la pessoalmente?" Indagou Elina. "Você acha que esta atitude faria com que nossa relação melhorasse. É isto que desejas, senhor meu esposo?" "Não. Você não precisará fazer isto" respondeu Onodher. "Enviararei Bard ao reino dos elfos. Ele trará Deirdre de volta."
AMROD
Os últimos raios de sol do inverno coloriram o céu em vários tons de rosa, amarelo e vermelho em um contraste interessante com as montanhas verdes que ao crepúsculo pareciam quase negras. Nesse entardecer uma das várias patrulhas élficas retornara à Floresta das Trevas. Era sempre assim, desde que a sombra surgira, tragando a luz e trazendo feras estranhas. Uma patrulha chegava, outra saía. Sempre.
Amrod andava a passos rápidos pelos corredores. Não, definitivamente, ele não estava tão mal assim a ponto de precisar do curador. Durante toda a semana que estivera em patrulha, uma imagem o assombrava sempre que descansava. Ela voltava-lhe à mente. Sem precisar fechar os olhos. Bastava relaxar um pouco. Vermelho. Fogo. Luz. Os cabelos vermelhos vivos. Os olhos negros desfocados, sem enxergar nada.
A jovem edain de cabelos vermelhos era-lhe uma incógnita. Quem era? O que a movia a estar em meio a uma luta? Uma informação; Amrod só desejava uma informação, apenas isso. Então Ilúvatar atendera seus pedidos fazendo Gwaeron, o curador, cruzar seu caminho.
Obtida a informação desejada Amrod dirigiu-se ao aposento indicado por Gwaeron, um dos quartos no lado leste do palácio. Chegando lá ele bateu a porta e esperou.
Sárie veio abrir a porta após a batida e surpreendeu-se por ver Amrod ali. Aliás, à exceção do curador, ninguém mais havia visitado a jovem Edain.
"Sárie. Eu..." Amrod gaguejara um pouco. "Eu vim saber como ela está?"
"É uma pena que você não tenha chegado mais cedo. Ela acabou de adormecer." Sárie indicou o leito, escondido parcialmente por um biombo formado por folhas verdes.
"Então é melhor que eu volte em outra ocasião. Mas como ela está?" indagou Amrod, esticando-se um pouco tentando ver por cima do biombo.
"Ela tem nome, Amrod. A edain se chama Deirdre e está bem, graças a você e a Gwaeron. O braço quebrado ainda inspira cuidados, mas isso não a impede de sair."
"Certo. Eu voltarei em outra ocasião."
"Eu a avisarei."
Quando Amrod deixou aquela parte do palácio ele se dirigiu ao salão onde em geral se treinava esgrima. Sempre havia um grupo treinando ali, e eu havia convidado alguns de meus ex-comandados, já que não dirigia mais nenhuma tropa diretamente, para um treino de luta com espadas. Uma rotina simples de exercícios. Eu realmente precisava de alguma distração.
Eu, Mínare, Alasseo, Ondollo e alguns outros havíamos concluído o exercício. Depusemos as armas e tratamos de limpá-las e guardá-las. Então Amrod apareceu no salão de treinos. Ele, bem como alguns soldados que acabavam de chegar, vinha praticar. Sentei-me a um canto e, juntamente com Mínare, me pus a observá-los. Aqui e acolá ouvíamos aplausos e algumas aclamações entusiasmadas com alguns golpes. Sorri e afastei-me, pois estava com sede e desejava encontrar água.
Como já era inverno, uma fogueira havia sido acesa a um canto do salão para manter o ambiente aquecido. Sentei-me junto ao fogo e fiquei observando a luta até que em um determinado momento, a visão veio. Lembro-me de ter olhado a fogueira apenas. A primeira imagem que vi, já me era conhecida. Eu já a tinha visto há pelo menos vinte e três anos. Era um bebê recém-nascido, no meio da floresta; a criança chorava alto. De repente, uma menina ruiva já maior corria junto com outras crianças em meio a campos de capim tão verde e altos que pareciam ser capazes de engoli-las. Eu podia ouvir claramente o riso delas, mas mais uma vez a cena mudou.
De repente, não havia mais criança alguma e eu via o portão de entrada do reino aberto. Fogo, havia fogo por toda a parte. Havia orcs atirando e via meu pai comandando o contra-ataque. De súbito, vi Amrod cair morto, ferido por um orc, e uma mulher de cabelos vermelhos, que eu sabia ser a criança que eu vira antes, chorar. E ela buscava refúgio junto ao rei. E me surpreendi ao ver meu pai abraçando-a carinhosamente.
Logo depois a imagem mudou mais uma vez e me vi diante de um túmulo repleto de flores brancas e eu senti que voltava ao mundo da consciência. Por sorte, todos estavam tão entretidos com as lutas que ninguém percebera absolutamente nada. Ótimo. Não fiquei para ver o restante das lutas. Saí ainda perturbado com as visões e com a certeza de que só havia uma única pessoa que podia ajudar-me naquele momento. Elrond Pheredel. Meu problema, contudo seria sair da Floresta das Trevas.
DEIRDRE E O REI
Corredores e mais corredores. Infinitos, inúmeros corredores. Além de espaçosos e extensos salões. Todos iluminados por tochas vermelhas, que davam um tom acobreado às paredes. Tudo muito limpo. Meticulosamente e escrupulosamente limpo. E ao que lhe parecia, estava numa caverna.
Enquanto andava, um brilho diferente chamou-lhe a atenção. Apressando o passo, Deirdre chegou ao local de onde provinha tal claridade. Era um pequeno jardim ao final do longo corredor que continuava à sua direita. Ela admirou-se, pois já era noite.
Havia os mais diversos tipos de plantas ali e no meio do jardim uma árvore grande praticamente sem folhas, como que para mostrar que o inverno já chegara. Olhando para cima, Deirdre percebeu que alguns troncos de madeira haviam sido postos a apenas cinco centímetros de distância um do outro, de modo a permitir a entrada de ar e luz, mas não a de possíveis intrusos.
Ainda estava detida na contemplação do local quando se lembrou de que devia procurar Sárie. Pelo que Deirdre me contara depois, elas haviam combinado um passeio pelo reino. Ao que parece, a jovem humana começava a ficar entediada. E não a culpo. Ela estava praticamente confinada aos aposentos a ela destinados.
Lembro-me claramente de vê-la sorrindo e falando de que tinha a nítida sensação de que jamais se acostumaria com o palácio sob as cavernas. Coitada. Depois de ter sido criada em plena pradaria de Rohan, as cavernas com certeza eram um choque.
Deirdre ainda estava confusa com as orientações recebidas de Sárie no dia anterior. Ela lembrava de palavras como Fair e Hair mas ela não tinha exatamente certeza do que queriam dizer.
Deirdre parou diante de uma porta, igual a todas as outras. Como estava à procura de Sárie, ela bateu. A elfa prometera vê-la naquela manhã e o dia se passara e nada de Sárie. Não houve resposta alguma. Empurrou a porta suavemente e descobriu que se enganara, aquele não era um quarto, e sim uma saleta frouxamente iluminada pela luz clara, branca e fria da lua.
"Por que você não entra logo de uma vez?" a voz fria e calma chegou aos ouvidos da jovem edain, que se quedou imóvel por alguns segundos. "Então finalmente vejo a Widumawi," falou Thranduil. "Venha, sente-se, por favor."
Deirdre obedeceu, embora tenha estranhado a maneira como fora chamada. Intimamente a jovem edain não compreendia, ou melhor, desconhecia a utilidade daquele encontro não planejado. Não que ela já tivesse sido apresentada ao rei dos elfos, Thranduil, mas havia algo nele que indicava quem ele era. Ela inclinou-se numa mesura cumprimentando-o de acordo com sua posição. O rei sorriu ao passo que a jovem sentava-se onde lhe fora indicado.
Se Deirdre costumava achar seu pai, Onodher, um homem severo, ela engoliu em seco a cada palavra que o rei lhe dirigia. Seu pai era um homem doce, comparado àquele à sua frente. Entretanto, era inegavelmente uma figura bonita, excepcionalmente bela, com longos cabelos loiros e lisos, olhos verdes. Sobre sua cabeça havia um diadema de folhas.
"E o que aconteceu?" inquiriu Gimli me estimulando a continuar o relato.
"Bom, conforme meu pai fez questão de divulgar, descobriu-se que Deirdre pertencia ao povo conhecido como Homens do Norte, que viveu por muitos anos na Angra Leste, nas proximidades da Floresta das Trevas. Eram criadores de cavalos e cavaleiros - todos lutadores, inclusive as mulheres."
"Bom, então isso bastaria para explicar a presença dela na batalha que ocorreu nas proximidades da Floresta das Trevas."
"Sim, com toda a razão."
EEEE
REVIEWS, E-MAILS, TAMBORES E SINAIS DE FUMAÇA SÃO TOTAL, COMPLETAMENTE E IRRESTRITAMENTE BEM-VINDOS.
