Disclaimer: Naruto não me pertence.

Nota: Mais uma vez, meus sinceros agradecimentos a quem ainda estiver lendo depois de tanto tempo. E um agradecimento mais que especial para: Elektra Black, Beatriz Portella, Bela21, Carol89, RenataHimura, e Eclipse do Duelo! Vocês são demais!


Castelo de Areia - Capítulo VI

"Nós estivemos no escuro por tempo demais

Mas quando viramos vemos a luz brilhar através da névoa

Então esqueça sobre quem estava errado

Porque eu nunca estive tão disposto a virar essa página" - Dare to Belive, Boyce Avenue


A primeira coisa que Gaara nota ao acordar é que está com muito, muito calor. As primeiras horas da manhã não costumam ser tão quentes e a temperatura apenas aumenta conforme o dia avança, entretanto, o Kazekage sente suas costas molhadas e o cabelo sobre a testa úmido pelo suor. Ainda sem abrir os olhos Gaara se move levemente e apenas ao perceber o quão imobilizado está, ele se lembra da noite passada e de quem está ao seu lado na cama. Eles devem ter se movido durante a noite, porque Sakura agora está sobre ele, praticamente esparramada em seu peito e as suas pernas entrelaçadas as dele. Ele não se lembra de como aconteceu, mas suas mãos estão ao redor da cintura fina da moça, segurando-a com a mesma firmeza de quando caíram no sono. Sakura se move e o Kazekage fica tenso, temendo que ela acorde, mas a Haruno apenas resmunga sonolenta e pressiona seu rosto ainda mais contra o pescoço dele, só então, Gaara nota que ela também está suada e o ponto de contato entre as suas peles úmido. Ele abre os olhos preguiçosamente e pisca algumas vezes até que eles se acostumem a luz. As cortinas estão abertas e o Sol que entra por elas já está quente o suficiente para causar desconforto, além disso, há um edredom grande e grosso sobre o casal, cobrindo-os até acima dos ombros e o rapaz entende o porquê de tanto calor. Não é desta forma que o Kazekage costuma cair no sono, ele odeia acordar com a luz do Sol contra seu rosto e não está acostumado a utilizar cobertas tão grossas, mas a maneira que tudo ocorreu na noite passada foi tão atípica quanto. Ainda assim, o mais estranho de tudo isso é ter alguém dormindo ao seu lado, tão perto e em uma posição tão íntima que Gaara não consegue entender como mesmo como todo o calor ele se sente tão incrivelmente bem e como não há uma única célula em seu corpo que deseja sair daquela posição.

Contrariando o seu próprio corpo, Gaara se move lentamente e toma o maior cuidado possível para não acordar a moça ao seu lado. Ele retira seu braço e move suas pernas para se afastar dela e Sakura resmunga, mas quando ele se afasta o bastante, ela se vira sobre o colchão acomoda-se do outro lado da cama, esparramando-se ainda mais. O Kazekage senta-se com as pernas para fora da cama, de costas para ela e fazendo movimentos suaves e cautelosos, retira sua camiseta. Ele se levanta e caminha até a janela, fechando as cortinas para evitar que o Sol perturbe a moça. Na noite passada, Gaara notou os dois círculos arroxeados ao redor dos olhos dela, sua pele pálida e expressão cansada, tudo isso é o suficiente para que o Kazekage faça questão de deixa-la descansar um pouco mais. Ele caminha pelo quarto e depois de abrir o guarda-roupas, percebe que o sono da Haruno é mais pesado do que ele imaginava, mesmo assim, Gaara decide usar o banheiro do quarto ao lado.

O primeiro jato de água que atinge o seu corpo está gelado e ele resmunga quando seus músculos se contraem, mas se obriga a permanecer debaixo da água até que seu organismo se acostume. Como todas as manhãs, o Kazekage revisa mentalmente todos os seus compromissos para o dia e lembra que hoje Temari retorna de uma missão importante na Vila do Rio, uma das vilas que fazem divisa com a Areia. Uma missão burocrática sim, mas seja como for, é sempre um imenso alívio tê-la de volta em casa, segura e com uma missão bem-sucedida. É praticamente uma tradição um jantar em família todas as vezes que algum dos irmãos volta de uma missão longa, mas esse pensamento faz Gaara se lembrar de como foi a sua última conversa com o seu irmão e ele suspira, sabendo que terá que se desculpar. Além disso, pela manhã ele deve comparecer a uma reunião com os engenheiros da vila e no fim do dia, uma reunião com o capitão da guarda shinobi. Um dia calmo, considerando a quantidade de trabalho que o ruivo teve ao longo da semana, pela primeira vez em dias, não há compromissos agendados para a hora do almoço e ele considera a possibilidade de comer em seu restaurante favorito. Sem que ele possa evitar, um pensamento lhe ocorre mais rápido do que ele é capaz de deter, a ideia de convidar Sakura para acompanha-lo durante o almoço surge sem explicações e imediatamente Gaara se repreende por tal sugestão. Ele se esforça para manter em mente que a noite passada não foi o suficiente para mudar absolutamente tudo o que aconteceu entre os dois nas últimas semanas. O fato dela ter mentido e o manipulado ainda está fresco em sua memória, mas ao mesmo tempo, a imagem da Haruno olhando para ele no escuro, com os olhos marejados e suplicantes, suas mãos frias tateando as suas costas, desesperada por um refúgio e a maneira como o seu desabafo despertou o instinto mais protetor do Kazekage, faz o garoto pensar duas vezes sobre a sua irritação com ela.

Gaara balança sua cabeça, espantando todo tipo de pensamento e termina seu banho depressa. Ele gostaria de poder evitar retornar ao quarto, mas precisa dos documentos que estava estudando na noite passada. Ainda se esforçando para ser o mais silencioso possível, ele abre a porta e a imagem que vê o faz parar por um minuto. Sakura está deitada de barriga para cima com um dos braços erguidos acima da cabeça. Seu rosto está virado na direção dele e Gaara nota que, pela primeira vez, sua expressão é verdadeiramente tranquila. Seu cabelo rosado está espalhado no travesseiro ao lado e ele é bem mais comprido do que o Kazekage podia imaginar, criando um contraste enorme com o lençol branco. Apesar de ter passado a noite com ela, ele também nota pela primeira vez o que ela está vestindo, uma camisola azul turquesa e uma das alças desceu pelo seu ombro, deixando-a provocantemente exposta. Seu peito se move para cima e para baixo, de acordo com acordo com a sua respiração tranquila e os seus lábios estão levemente entreabertos provando que o seu sono é verdadeiramente profundo. Além disso, ela deve ter se incomodado com o calor, porque o edredom agora só cobre da sua cintura para baixo e uma de suas pernas está para fora e flexionada em uma posição sugestiva. Gaara engole seco e se força a desviar o olhar, se recuperando do tremendo choque que foi perceber o quão sexy sua esposa poderia ser e se esforçado para convencer a si mesmo que ele não deve pensar sobre isso.

Ele pega os documentos e antes de sair do quarto, olha uma última vez para a garota em sua cama. Uma falsa impressão brota em seu peito, a sensação de domínio, como se o simples fato de a ter em seu quarto a tornasse alguma coisa sua. Porque Sakura está tão linda e tão serena que naquele minuto Gaara realmente deseja houvesse alguma coisa entre eles dois. Mas então ele se lembra de quem el motivo de estar aqui, ele se lembra do seu coração partido e da carta de Naruto e a culpa pesa em sua consciência, porque este casamento arranjado pode ter mil objetivos, mas nenhum deles é realmente um matrimonio. Sakura realmente precisa de dele, mas não dessa maneira. E Gaara não consegue nem ao menos entender porque ele precisa se lembrar disso.

No corredor, ao mesmo tempo que o Kazekage fecha a porta ele encontra Emiko saindo do quarto da Haruno com os olhos arregalados. Gaara sabe exatamente o que ela está pensando, por isso ele ergue uma de suas mãos para acalma-la.

- Kazekage-sama, a-

- Ela está no meu quarto. – Ele diz ao mesmo tempo que fecha a porta com um clique. Seus olhos estão na maçaneta e por isso ele não vê como os olhos da jovem a sua frente se arregalam ainda mais.

Emiko faz uma pequena reverencia e cobre sua boca com uma de suas mãos para que o ruivo não veja o seu sorriso. Eles fizeram as pazes. Ela pensa e agradece mentalmente, porque está genuinamente feliz.

- Deixe-a dormir, por favor. Ela estava exausta. – O Kazekage murmura ao mesmo tempo que folheia os papeis em suas mãos, ainda sem erguer a cabeça para a moça a sua frente por isso, ele não pode ver o sorriso que Emiko falha em esconder.

- Sim, Kazekage-sama.

Gaara se prepara para sair, mas um pouco antes de alcançar a escada, ele para e se vira. Só então seus olhos encontram e o de Emiko e ele engole seco, pois quando percebe o sorriso dela sua ficha cai. Finalmente notando o quão sugestiva é a situação em que se encontra, saindo sorrateiramente do quarto enquanto deixa sua esposa adormecida na cama. Ele abre a boca para argumentar, mas algo o faz desistir e limpa a garganta antes de voltar a falar.

– Hm, por gentileza Emiko, diga a Sakura que ela pode tirar o dia de folga... Não está tão quente e seria uma boa oportunidade para conhecer melhor o centro da vila.

- Sim, Kazekage-sama. – Emiko repete.

- E se você puder acompanha-la eu ficaria muito grato... – Ele se move, trocando o peso do corpo de uma perna para a outra e pensa em explicar que a situação não é como ela imagina, mas talvez isso apenas complicasse as coisas mais ainda.

- Com certeza, Kazekage-sama. – A moça aperta seus lábios um contra o outro tentando não sorrir, porque desde que conheceu o seu Kage, esta é a primeira vez que o vê tão embaraçado.

- Sim, obrigado. – Gaara limpa sua garganta mais uma vez e um silêncio constrangedor toma o ambiente por um minuto, até ele se virar e sair depressa sem dizer mais nada.

Emiko ri baixo, cobrindo sua boca e olha para a porta do quarto, sentindo seu coração quente e uma felicidade genuína.


Sakura abre seus olhos e pisca algumas vezes os ajustando à luz, que é fraca, porém o suficiente para iluminar o quarto quase que completamente. Por alguns instantes ela não consegue reconhecer o local onde está, mas pela primeira vez, este fato não traz um pânico imediato. Ainda bem sonolenta, ela se vira sobre o colchão e afunda seu rosto em um dos travesseiros, mas o que percebe que algo a impede. Ela esfrega seus olhos e agarra o preto em contraste com o lençol branco, quando sua visão se ajusta e agora um pouco mais desperta, ela repara que está segurando uma camiseta e senta-se de supetão lembrando de repente de onde está e quem esteve vestido aquela camiseta. A Haruno olha ao redor e se concentra nos sons do banheiro quando percebe que está sozinha na cama, mas apenas recebe o silêncio em troca. Seus pés estão enroscados no edredom e o seu cabelo mais volumoso do que de costume, e ao mesmo tempo que tenta se levantar, ela corre os dedos pelo cabelo fazendo o seu melhor para coloca-lo no lugar. O quarto realmente está vazio e Sakura não sabe ao certo como se sente sobre isso, mas ao pensar na possibilidade de que o Kazekage entre de surpresa a qualquer minuto, a faz procurar o seu robe que ela nem se quer lembrava de ter tirado. Ela se veste e abraça a si mesma, de repente sentindo-se deslocada e constrangida. Ela considera a possibilidade de sair antes de encontra-lo novamente, até que olha o relógio ao lado da cama e se assusta com o horário. Já passa das dez horas da manhã e não existe a menor possibilidade do Kazekage ainda estar em casa. Sakura sente seu corpo relaxar um pouco, mas ao mesmo tempo sua consciência pesa porque ela deveria estar no trabalho.

A rosada suspira e com mais calma, ajeita seu cabelo enrolando-o em torno de si mesmo para prendê-lo em um coque. Ela vai até o banheiro e lava seu rosto, secando-o logo em seguida, mas ao ver o seu reflexo no espelho, surpreende-se. Sua expressão está diferente, descansada. Suas olheiras menos profundas e a pele menos pálida, como se tivesse acordado de uma noite de sono perfeita. E realmente foi o que aconteceu, pois Sakura nota que essa foi a sua noite de sono mais tranquila desde sabe-se lá quanto tempo. Sem pesadelos ou perturbações, sem acordar sem ar, desesperada, chorando dolorida. E ela relembra o porquê disto, recordando-se dos braços do Kazekage ao seu redor lembrando-a de que estava segura e como o seu calor suave a manteve aquecida nos momentos mais frios daquela noite.

Sakura balança a cabeça e sai do banheiro sentindo-se levemente confusa com esses pensamentos. Ela organiza a cama do Kazekage perfeitamente e dobra sua camiseta com cuidado antes de sair do quarto, certificando-se de que cada detalhe esteja como antes, tentando fazer parecer que ela jamais esteve ali.

Já é quase a hora do almoço quando ela sai do seu quarto, dessa vez, vestida adequadamente para o trabalho e com seu jaleco nas mãos, porém ela dá somente alguns passos antes de ser interceptada por Emiko. A garota faz Sakura da meia volta e trocar de roupa mais uma vez, pois de acordo com ela, o Kazekage havia ordenado um dia de folga para a sua esposa. E apesar do peso na consciência e o sentimento de que ela deveria relutar, Sakura aceita a proposta. Porque pela primeira vez em muito tempo, seu corpo está leve e sua mente calma, ela finalmente consegue perceber que o dia realmente está lindo e a ideia de conhecer a vila faz o seu coração pular de ansiedade, um sentimento tão longo esquecido.

Quando dá por si, a Haruno está no centro da vila, usando um vestido escolhido especificamente por Emiko, preto e roxo de mangas longas para protege-la do sol e barra curta para mantê-la refrescada e com o seu cabelo solto e leve como seu humor. Emiko lhe mostra as melhores lojas de tecidos e temperos, já que essas eram as especiarias de Sunkagure e juntas visitam as gigantescas esculturas de areia e o pequeno, porém maravilhoso Jardim Botânico – Kiku, as principais atrações turísticas da vila. Elas almoçam em um restaurante no centro da cidade que a Haruno ainda não conhece e ela faz questão de comer lamem, sabendo o quão terrível seria contar para Naruto sobre a vila da areia e não ter como opinar sobre o lamem da vila. E Sakura está tão contente que nem se quer repara que pela primeira vez ela se lembra de Konoha e não sente que está sufocando.

Já é quase pôr do Sol quando Gaara deixa o escritório e caminha sem pressa de volta para casa. O dia foi mais longo do que ele esperava e suas costas estão doloridas pelo tempo que passou sentado entre reuniões, mas são raros os dias que ele consegue sair antes do anoitecer e fica grato por isso. A vila está com um ar diferente, agitada como quando antes de um festival e o Kazekage não entende o porquê. Todos estão parecem estar sorrindo mais que o normal ao cumprimenta-lo e chegam até mesmo a parabeniza-lo pelo casamento mesmo já tendo se passado tanto tempo desde a cerimônia. É somente quando chega no centro da cidade que o ruivo entendo o porquê. É a primeira vez que Gaara a vê desde a noite passada e quase não a reconhece, pois Sakura parece uma pessoa completamente diferente. Ela está abaixada junto a algumas crianças, uma delas está chorando, mas a Haruno sorri e cobre sua perna com as mãos. A menina para de chorar e o sorriso da rosada se alarga, o primeiro sorriso sincero que o Kazekage testemunha desde a sua chegada, é pequeno e discreto, mas tão sincero quanto poderia ser. A criança se afasta contente e ao se levantar, ela ergue os olhos encontrando os de Gaara. Talvez ela estivesse distraída demais ou talvez não esperasse encontra-lo tão cedo, mas Sakura não é capaz de esconder sua surpresa em vê-lo. Ela arregala os olhos e morde o lábio inferior levemente, mas não desvia o olhar nem mesmo ao respirar profundamente e iniciar sua caminhada em direção a ele. Gaara entende e caminha em direção a sua esposa também.

- Gaara. – Ela murmura não mais alto que um sussurro, mas ele pode ouvi-la porque estão há centímetros um do outro.

- Sakura – Gaara a cumprimenta e cruza seus braços subitamente incomodado com a proximidade dela – Conseguiu aproveitar o seu dia de folga?

E de repente, lá está novamente, o sorriso do qual ele nem se quer sabia que sentia falta. Ainda tímido e discreto como se estivesse receoso em sair, mas presente e instigante.

- Sim! A vila é maravilhosa e as pessoas também. – Ele acena com a cabeça e observa ela cobrir as mãos com a manga do vestido, como se estivesse com frio. – Nós visitamos as esculturas de areia. Você fez uma com o rosto da sua mãe... É linda.

Ele não esperava e por isso, desvia o olhar, notando então quantas pessoas estão observando-os. É como se todos tivessem parado para assisti-los, ansiosos para avaliar a interação do Kazekage com a sua esposa arranjada. E isso tanto irrita quanto constrange o rapaz.

- Também vimos o jardim e as maiores lojas – Sakura continua falando quando percebe que ele não a respondeu, arrependida de ter mencionado a escultura. – É bem difere-

- Sakura. – Já haviam se passado meses desde o casamento, mas Sakura nunca foi capaz de acostumar com a maneira que o Kazekage diz o seu nome. Principalmente quando ele o faz tão subitamente, tão firme e com tanta propriedade, como se a palavra pertencesse a ele da maneira mais natura possível.

- Sim?

- Já é quase pôr do Sol – Ele diz e Sakura acena com a cabeça sem compreender porque ele estava constatando o obvio. – Há mais um lugar que eu gostaria que você conhecesse... Se quiser... Se você quiser.

Ela sente vontade de sorrir porque é a primeira vez que vê um traço de constrangimento no Kazekage ainda que bem leve, mas ela apenas acena com a cabeça os dois caminham lado a lado na direção indicada por ele. Quando se aproximam o suficiente de um dos muros que circundam a vila, Sakura fica sem entender, mas não tem tempo para questionar, pois Gaara põe sua mão ao redor da cintura dela e sem qualquer aviso, usa sua areia para transportá-los para o topo do muro.

Sakura perde o equilíbrio levemente ao sentir seus pés tocando o chão novamente e coloca sua mão no ombro do Kazekage para firmar-se e com essa mesma intenção, ele permanece com a sua mão redor da cintura dela, pressionando-a levemente contra o seu próprio corpo. Mas a primeira coisa que a rosada nota não é o local onde estão e sim, a sua proximidade com o ruivo, por isso ela tenta se afastar, mas Gaara não permite, mantendo a mesma pressão em sua cintura.

- Cuidado. – Ele diz simplesmente e só então, Sakura ergue os seus olhos para observar ao redor.

Eles estão no topo na muralha que circunda a vila e a paisagem é de tirar o folego. Ela abre levemente sua boca murmurando uma exclamação, porque está verdadeiramente fascinada. A vila é menor que Konoha, mas é linda e é maravilhoso como as muralhas a envolvem, escondendo-a em um abraço. O alaranjado do pôr-do-sol mistura-se ao amarelo da areia como em uma pintura e a vila começa a acender vagarosamente como vagalumes na noite. Ela olha para Gaara e olha novamente para a vila com um leve sorriso no rosto.

- Essa é a minha vila. – Ele murmura incerto e Sakura reconhece o tom, sabe que ele está prestes a iniciar a conversa que eles tanto adiaram. – É a minha casa.

Sakura acena com a cabeça e percebe que eles ainda estão ridiculamente próximos, mas nenhum dos dois ousa se mover.

- Você disse que estava fugindo. – A rosada sente sua respiração falhar, desconcertada por ele estar mencionando a noite passada. – Mas está na hora de parar. Essa pode ser a sua casa também, Sakura, quero que você possa encontrar o que veio buscar aqui.

Ela olha para ele, surpresa e seu coração dispara com tanta força que ela teme que ele possa senti-lo através do seu peito. Sua mão ainda está no ombro dele e Sakura a aperta levemente. Gaara ainda está encarando a vila, mesmo sabendo que os olhos dela estão sobre ele. Seu cabelo é mais vermelho do que ela jamais havia reparado, ou talvez seja o Sol, mas é como se ele estivesse em chamas, criando um contraste enorme com seus olhos tão verdes quanto a água do mar.

- Eu sinto muito pela noite passada, Gaara. Eu não deveria... – Ele a silencia com um único olhar. Não ríspido ou cortante, mas quente como o Sol. E ele desliza a mão que está em sua cintura para cima, subindo-a até alcançar as suas costas e mais uma vez, com apenas um único gesto, Gaara faz Sakura sentir-se segura como não se sentia há muito tempo.

- Porque... Porque você se importa? – Sakura é capaz de dizer, mesmo que esteja sentindo-se repentinamente sem ar.

- Porque você é a minha esposa. – Ele responde rápido e decidido como se a resposta estivesse na ponta da sua língua.

Mas naquele instante, olhando-o tão de perto, em um momento tão singular em que as barreias de ambo estão caídas e seus coração expostos a Haruno percebe que é por muito mais. É porque Gaara é quem ele é. Um coração como o de Naruto, um Kazekage pronto para proteger quem está ao seu redor e ajudar quem precisa. Ele é bondoso e gentil e Sakura sente seu corpo quente porque está feliz e ela sente vontade de chorar, porque ela esteve perdida por tanto tempo, vagando sem conseguir lembrar-se ao menos de quem ela é e agora ele a vê e oferece-lhe o que tem de mais precioso. Casa.

- Você é a minha esposa, Sakura, nunca se esqueça disso. Você é a esposa do Kazekage de Sunakagure – Ele vira-se completamente e põe uma distância sutil entre os dois, a mão dela cai, mas as dele sobem e encontram seus ombros, segurando-a com firmeza porque o que ele está prestes a dizer é importante demais. – Você é a médica mais brilhante que eu já conheci, a única aluna da Godaime Hokage e que foi capaz de supera-la em todos os níveis possíveis. Sua força, sua inteligência e habilidade entraram para a história durante a guerra. Você é gentil e brilhante e você nunca mais, nunca mais vai deixar que alguém diga o contrário. – Ele faz uma pausa e respira fundo antes de voltar a falar - Ou vai permitir que alguém a diminua e manipule como a Kaede fez.

Quando ele termina, Sakura mal pode respirar. Porque ela costumava saber bem quem ela era, sempre mantendo em mente o que fez e o quanto se esforçou para alcançar onde ela sempre quis. Sakura tinha orgulho de se lembrar de cada treino, de cada passo e da sua força de vontade que a movia. Mas em algum lugar no seu caminhou ela se esqueceu, se perdeu e tudo ficou tão confuso e escuro que ela não conseguia mais se encontrar. E agora alguém que Sakura jamais imaginou surge como uma luz, farol para guia-la de volta.

- E você também nunca mais irá mentir para mim outra vez, Sakura. – Gaara diz naquele tom de voz singular que somente ele é capaz de dizer, firme e doce ao mesmo tempo e tão decidido que Sakura não pode fazer outra coisa a não ser concordar. – Nunca mais irá esconder de mim algo como o que aconteceu, porque eu preciso confiar em você, Sakura.

- Eu sinto muito, Gaara. – Ela sussurra e as mãos dele vão dos seus ombros para o seu rosto molhado. – Eu nunca mais vou machucar você desse jeito, eu prometo.

Machucar. Não é a palavra que ele escolheria, mas cai tão bem que o Kazekage se surpreende. Principalmente porque ela foi capaz de ver através dele e de entender sua necessidade sufocante de poder confiar nela. Ela conhece a história e é capaz de compreende-lo tão rápido que Gaara se pergunta quanto mais dele ela absorveu nesse instante de sinceridade, sentindo-se exposto de repente.

Mas Sakura o surpreende ainda mais, fazendo o inesperado. Gerando o contraditório, movendo-se tão lentamente que Gaara não é capaz de reagir, ela toca o seu peito com ambas as mãos e contorna seu corpo sem nunca deixar de toca-lo. Quando suas mãos alcançam suas costas, ela une seus corpos colando seu rosto no espaço entre seu pescoço e a sua clavícula. Sakura é pequena, menor do que ele pode reparar na noite passada e por isso, ele pode tocar facilmente o topo da sua cabeça com o seu queixo. Em um primeiro instante, Gaara não sabe o que fazer com as suas mãos e seu corpo está tenso, mas ela sussurra contra a sua pele e mesmo que ele não consiga entender o que ela está dizendo, seus instintos o guiam e suas mãos a circundam, guardando-a entre seus braços com a muralha que guarda a vila.

Ela respira devagar e um pouco trêmula, mas está quente e tão diferente da noite passada. Gaara pode sentir suas mãos agarrando a sua camisa, firmando-a como âncoras e ela move apenas a sua cabeça, mirando-o. Ele esperava encontrar os olhos tristes e a expressão perdida da noite passada, mas não. No momento em que os seus olhos se conectam e o Kazekage vê o contraste entre a doçura e a força que costumava ser tão característico dela. Mas, na realidade, sua atenção está voltada para os lábios dela, porque Sakura está sorrindo. Um sorriso para o qual o Kazekage jamais poderia ter se preparado, ele é grande, cobre o seu rosto por inteiro e sincero como a maior das verdades. E Sakura está linda, tão linda quanto já foi um dia, o Sol está no fim, mas unge o seu cabelo e acentua a cor rósea com tanta intensidade que ele não pode evitar toca-lo, seu sorriso de menina alarga-se ainda mais e pela primeira vez, Gaara realmente vê Sakura Haruno.

- Obrigada, Gaara, muito obrigada. – É o que ela estava murmurand que ela diz mais uma vez antes de voltar a abraça-lo, só que dessa vez com o rosto voltado para a vila.

O Kazekage solta o ar que nem ao menos havia notado que estava prendendo e mantém seus braços ao redor dela, mas ao contrário de Sakura, ele fecha os olhos sentindo-se mais em casa do que jamais sentiu antes.


Quando os dois atravessam a porta de casa já está tão escuro e frio quanto na noite passada e Sakura tem que abraçar a si mesma para se aquecer, ainda desacostumada com a mudança brusca de temperatura do deserto. A casa está bem iluminada e um cheiro quente e temperado toma o ar, fazendo a Haruno sorrir e Gaara perceber que definitivamente poderia se acostumar com essa nova expressão dela.

- O cheiro está maravilhoso. Será alguma ocasião especial? – Ela pergunta olhando para ele enquanto solta o seu cabelo e o sacode para desfazer um coque já frouxo.

Seu olhar está tão mais leve que Gaara duvida sua mudança seja apenas pelo momento que tiveram juntos, mas desvia o olhar e faz questão de esconder suas desconfianças.

- Kankuro e Temari estão de volta, costumamos jantar juntos quando eles retornam de uma missão em segurança.

Mas antes que a Haruno possa responder, Temari de repente, aflita e atipicamente ansiosa. – Porque demoraram tanto?! Você precisa vir depressa, Sakura! – Ela segura seu braço e a puxa em direção a sala.

As duas seguem depressa com Gaara logo atrás delas. Mesmo sem olhar para o seu marido, Sakura pode sentir uma mudança brusca no ar, ele está alerta e preocupado mesmo sem saber sobre o que Temari está falando, mas relaxa um pouco quando chegam na sala e veem Kakuro ajoelhado de frente para a mesa e sobre ela, um travesseiro confortando levemente um filhotinho de gato. Ele está quieto sobre o tecido e ao se aproximar um pouco mais a Haruno percebe que mal respira. Sakura ajoelha-se ao lado do cunhado e acaricia levemente o pequeno animal, o pobrezinho nem ao mesmo corresponde, mas treme como se estivesse com dor.

- Eu o encontrei quando estava voltando, talvez tenha se envolvido em uma briga – É Kankuro quem diz – Pode ajudá-lo?

- Com certeza. – Sakura sorri e surpreende os dois irmãos ao mesmo tempo.

Ela é rápida e delicada, todos na sala podem sentir seu chakra no momento que ela começa a analisar o gatinho, é calmo e quente exatamente jeito que jutsus de cura costumam ser.

- As costelas estão quebradas.

- Ele vai ficar bem? – Temari pergunta depressa, não é comum vê-la tão ansiosa, mas Gaara sabe que a loira tem um fraco por filhotes desde quando era criança.

- Sim. – Sakura põe uma mão sobre o peito do animal e a outra sobre a sua cabeça, apenas tocando seus dedos levemente para acaricia-lo ao mesmo tempo que o cura.

Ele é pequeno demais, seu pelo é malhado, alternando suas cores entre branco e laranja, quase tão avermelhado quanto o cabelo do Kazekage. Ele abre seus olhos levemente, tentando reagir e Sakura sorri quando percebe que eles são tão verdes quando os seus.

- Você vai fica bem, Senshi,

- Porque você deu um nome? Não vamos ficar com ele. – Gaara diz e os três olham para ele ao mesmo tempo, Temari um pouco mais enfurecida que os demais.

- Vamos sim! – É a loira quem diz – E Senshi é um ótimo nome, Sakura. Significa guerreiro, não é mesmo?

- Temari – Ela joga uma almofada no irmão mais novo mesmo sabendo que a areia não deixaria atingi-lo, mas com a intenção de encerrar o assunto.

- São três contra um, Gaara. Por mim, Senshi pode ficar – É Kankuro quem diz sentando-se ao se jogar no chão.

Sakura está concentrada no gatinho a sua frente e um pouco alheia a discussão, principalmente quando termina de cura-lo e Senshi consegue finalmente se levantar. Ele ainda está cambaleante e por isso a Haruno o pega no colo, trazendo-o até o peito. O gato é tão pequeno que cabe na palma da sua mão e ela sorri abertamente quando ele se esparrama, como se estivesse tentando alcançar o seu pescoço. Sakura olha para Gaara e sorri, ele apenas suspira e cruza seus braços sabendo que perdeu complemente a discussão.

É logo após o jantar que Gaara tem a plena certeza que Senshi jamais sairia novamente daquela família, porque Temari pega sua câmera fotográfica e cada movimento do gatinho é motivo para uma nova foto. Todos notam a diferença no comportamento da Haruno e principalmente, na relação dos dois. O clima está tão inacreditavelmente leve que no fim da noite até mesmo Gaara já havia deixado escapar mais sorrisos que de costume. Kakuro já está tratando Sakura como uma de seus irmãos, fazendo piadas que geralmente lhe custavam tapas da sua irmã, mas Sakura ria. E é em desses momentos que Temari esquece levemente Senshi e passa a fotografar os membros da sua própria família. Kankuro sempre odiou quando Temari resolvia renovar as fotos de família, mas é um momento diferente porque havia alguém novo junto a eles. Ele para logo atrás da Haruno e deixa que a irmã tirasse algumas fotos sem reclamar.

Quando todos se levantam para seguirem para suas camas, Sakura pega Senshi no colo e diz que será melhor passar a noite junto a ele para certificar-se que o pequeno não terá mais problemas. Gaara está próximo a ela, tão próximo que seu peito toca as costas da Haruno e o suficiente para evidenciar a diferença de altura dos dois, já que ele tem que olhar para baixo, sobre o ombro da Haruno, para ver o gatinho em seu colo. E pela primeira vez na noite, ele realmente vê o animalzinho e ergue sua mão para tocá-lo, quase cobrindo a mão de Sakura que já está sobre ele. Sakura olha para cima, para ele, e sorri recebendo um sorriso tímido em troca. É tarde demais quando percebem que estavam sendo observados e como tantos outros momentos da noite, esse também é eternizado por Temari ao tirar uma foto dos três juntos.

É somente alguns dias depois, quando Temari chega em seu escritório sorrindo suspeitosamente e coloca sobre a sua mesa um porta-retratos que Gaara sente suas bochechas arderem e arranca uma risada de sua irmã mais velha. É a foto com a Haruno e não havia outra palavra para descreve-los a não ser: casal. Tão perto e sorrindo tão carinhosamente um para o outro que qualquer um que visse aquela foto os descreveria da mesma forma. Gaara segura o porta-retratos por um instante, como se quisesse esconde-lo, mas logo coloca de volta no lugar. Logo a sua frente onde pode vê-la com perfeição, mas levemente inclinada para que a pessoa do outro lado da mesa possa vê-la também. E Gaara não consegue explicar porque tê-la ali, mesmo que por uma foto, o agrada tanto.


- Pode entrar – Diz o Kazekage ao mesmo tempo em que organiza uma série de documentos sobre a sua mesa e é Kankuro quem abre a porta.

Dias como esses são raros na família. Quando Gaara decide não ir ao escritório e opta por permanecer em casa para, segundo ele, se organizar. E é exatamente isso que ele está fazendo quando seu irmão o interrompe. O ruivo não desvia o olhar da sua tarefa até que o silencio do seu irmão faz com que ele se preocupe. Quando ergue a cabeça, uma única troca de olhares faz Gaara largar o que está fazendo e arma-se, mas Kankuro ergue sua mão e suspira.

- Não se preocupe. – Ele murmura e caminha para sentar-se de frente para o seu irmão. – Não há nenhum problema, mas eu trouxe o que você me pediu.

E com mais agressividade que o necessário o moreno joga sobre a mesa uma pasta de papel amarela e vermelha, característica dos documentos mais confidenciais de Sunakagure. Gaara não demora em toma-la, mas suspira e fecha os olhos repentinamente exausto quando identifica sobre o que o seu irmão está falando.

- O papeis do divórcio. – Ele murmura mais para si mesmo do que de fato falando com o irmão.

- Você ainda vai precisar? – Pergunta Kankuro com uma de suas sobrancelhas arqueadas.

- Porque está agindo desse jeito?

- Você sabe exatamente o porquê! Eu não concordo com isso, nós tínhamos um plano!

- Naquela época eu não pensei que seria tão difícil.

- Mas está mais fácil agora, não está? – Os irmãos sustentam o olhar um no outro até Gaara ser o primeiro a desviar. Ele reclina-se apoiando suas costas no encosto da cadeira e fecha a pasta, deixando-a sobre os demais documentos.

- É um trabalho em progresso... – O ruivo murmura e Kankuro não consegue conter seu sorriso. – Mas... Esse casamento é temporário, sabemos disso.

- Pensei que estivesse se dando bem com ela... – O irmão mais velho diz deixando seu sorriso morrer ao notar uma certa melancolia no tom de voz do Kazekage.

- Sim, mas... – Gaara olha para os documentos não querendo dizer em voz alta o que realmente está pensado.

A questão é que Gaara mudou praticamente todos os aspectos da sua personalidade desde o dia em que conheceu o Uzamaki e continua mudando dia após dia, entretanto algo sobre si mesmo que o Kazekage sempre teve certeza de que jamais mudaria é a habilidade e garantia de jamais mentir para si mesmo. E Sakura Haruno... Sakura era uma mentira. Temporária e necessária, mas uma mentira. E não importa o quanto a relação dos dois tenha mudado, não importa o quanto Gaara realmente goste de estar ao lado dela, cedo ou tarde, Sakura teria que partir. Talvez após ajuda-lo a encontrar o traidor, talvez ao perceber que um casamento arranjando não poderia dar certo, ou talvez quando não precisar mais do ruivo para tampar as fissuras da sua alma. Seja como for, o fim seria o mesmo. Ela deixando a vila, deixando ele.

- Gaara. – Seu irmão o chama usando um tom de voz bem específico, como se pudesse ler os seus pensamentos, como sempre.

- De qualquer jeito, esses documentos serão necessários algum dia... Sabemos disso.

- Não tenha tanta certeza do futuro, irmãozinho. Há certo tipo de questões que não podemos controlar, tudo sempre está sujeito a mudanças de um segundo para o outro. – Ele sorri para Gaara que responde milimétricamente.

- Mas se você faz tanta questão de guardar esses documentos, tenha certeza de que ela não vá encontra-los. Saber que a sua intenção sempre foi desistir do casamento poderá machuca-la.

Gaara ergue os seus olhos depressa – Não é a minha intenção, é-

- Então você quer ficar com ela? – Kankuro é rápido e pela primeira vez vê Gaara ser atingido de supressa, ele ri alto e relaxa em sua cadeira. – Não precisa me responder, não agora. Creio que ainda é cedo demais para pensar nisso.

- Mas você sabe que eu entendo muito bem as mulheres, irmãozinho – Gaara arqueia uma sobrancelha que Kankuro decide ignorar – Esconda esses documentos muito bem.

O ruivo suspira e coloca a pasta na primeira gaveta da sua mesa. Talvez não seja o esconderijo ideal, mas quem seria louco o suficiente para revirar uma gaveta de documentos confidenciais do Kazekage de Sunakagure?

O moreno cruza seus braços e encara seu irmão mais novo. Gaara está distraído e não sente o olhar sobre si, mesmo depois de alguns instantes em silêncio. Pode não ter sido desta maneira desde sempre, mas agora Kankuro conhece seu irmão melhor do que qualquer outra pessoa, ele sabe que há muito o que o Kazekage quer dizer, mas ainda não está pronto. O máximo que ele pode fazer é esperar e estar próximo quando Gaara realmente precisa. Ele suspira decidindo mudar de assunto.

- Gaara, precisamos conversar sobre o que aconteceu. – Diz adquirindo um tom de voz obscuro de repente. O ruivo ergue a cabeça e como na maioria das vezes que seu irmão fala desta maneira, ele sabe exatamente sobre o que Kankuro está falando.

- Já está resolvido.

- Mas você tem que tomar alguma atitude sobre Kaede. Foi uma ação isolada ou mais alguma armação do conselho? - O Kazekage permanece em silêncio como faz quando está analisando a situação e Kankuro se move inquieto.

- Sabíamos que esse casamento era um pretexto para tentar te manipular, principalmente pelo fato de que eles escolheriam a noiva. Mas como tudo o que está acontecendo temos que ser duas vezes mais cautelosos.

- Eu acredito que Kaede agiu por conta própria, ela foi a mais envolvida com este casamento desde o começo. Além disso, Baki faz parte do conselho e tenho certeza que me alertaria sobre uma movimentação como essa.

- Mesmo assim, não podemos baixar nossa guarda.

- Minha guarda nunca está baixa, Kankuro. – O Kazekage sorri quebrando levemente o clima tenso que tomou a sala e o seu irmão desdenha achando graça.

- Você sabe melhor do que ninguém que, infelizmente, essa vila tem um histórico governamental péssimo e há sempre alguém ansioso para tomar o lugar do Kazekage. Tudo está calmo agora com o fim da Guerra e você fez um ótimo trabalho restabelecendo a economia, seria a oportunidade perfeita. – Os irmão se encaram sabendo exatamente o que Kankuro está querendo dizer. – Você precisa tomar cuidado.

- Eu sei, Kankuro. Mas Kaede sempre foi prepotente e arrogante, além disso não houve novos ataques desde o meu casamento. Não creio que os incidentes estão relacionados. Ainda assim, não há como negar que o conselho está precisando rever os seus limites. – O ar fica agitado com a irritação do Kazekage, desde o noivado o ruivo vem aturando a mão do conselho tomando decisões sobre a sua vida pessoal e ameaçar sua esposa definitivamente ultrapassou o extremo. – Chantagear Sakura não é algo que possa ser tolerado.

- O que você vai fazer?

Gaara não responde, mas entrega ao irmão uma das pastas que estava sobre a mesa. Kankuro a abre desconfiado e sente seu coração trepidar ao terminar de ler o documento. É um relatório jurídico que incita a expulsão de Kaede do conselho de Sunakagure.

- Isso é arriscado, Gaara.

- Tolerar ações com a de Kaede apenas dá mais espaço para ameaças maiores.

- Tem certeza que isso não é um pouco mais pessoal do que o necessário? – Ele arqueia uma sobrancelha segurando firme os papeis em suas mãos.

- Ela agrediu e chantageou a minha esposa, Kankuro, o que pode ser mais pessoal que isso?

- Sua esposa? – O moreno provoca e não tenta conter seu sorriso achando graça na maneira como Gaara se referiu a Haruno.

O Kazekage desvia o olhar revirando os olhos levemente e sacode sua cabeça resistindo a provocação. – Ela é a minha esposa, não é?

- Sim, ela é. – Kankuro ri. – Mas afinal, Sakura cedou a chantagem. Você confia nela?

Gaara fica em silêncio por um instante e sem que possa evitar uma sequência de imagens vêm a sua mente. O beijo no quarto da Haruno, a conversa no laboratório, seus olhos tão verdes e tão carregados e por fim, seu sorriso no alto da muralha. Foi tão pouco tempo ao lado dela, mas o suficiente para viver mais do que o Kazekage estava preparado quando aceitou o casamento. Sakura chegou em Suna e vagou por tantas semanas sem saber para onde seguir, mas na muralha foi como se tivessem realmente se encontrado pela primeira vez e naquela tarde, tudo mudou.

- Sim, eu confio. E devo isso a ela.

Kankuro observa seu irmão e tenta descobrir em que momento Gaara decidiu incluir Sakura na sua lista das pessoas. As pessoas que o ruivo faria qualquer coisa para proteger. Algo mais aconteceu, em algum momento Sakura mostrou as Kazekage o suficiente para alcança-lo e isso faz o moreno sorrir discretamente. Porque fazia realmente muito tempo desde que alguém fez isso pela última vez.

- Entendo. Então faça isso, Gaara. – Proteja-a. Kankuro diz entrelinhas e os irmãos trocam um olhar firme de cumplicidade. Porque mesmo que essa decisão traga uma tempestade para Suna, eles estarão firmes para apoiar um ao outro.


- Isso é estranho. Tem certeza que esse resultado está certo? – Sakura segura com firmeza os documentos em suas mãos e franze as sobrancelhas certamente confusa.

- Sim, Sakura-sama. Eu mesmo verifiquei duas vezes. – Hiro responde um pouco incomodado pela desconfiança da Haruno.

Sakura esteve no laboratório o dia inteiro, esforçando-se, decidida a fazer algum avanço em sua pesquisa. Desde que Gaara deu a ela essa responsabilidade ela esteve estagnada, mas durante foi durante uma de suas discussões com Hiro que a Haruno decidiu fazer uma mudança em sua metodologia, finalmente chegando a algum lugar.

Hiro é um geneticista brilhante, não há como negar. Seus palpites e sugestões são inteligentes e com uma base científica genial, mas sua personalidade é igualmente forte. Talvez um pouco arrogante e presunçoso demais na opinião da Haruno, ofendendo-se toda vez que alguém demostra uma abordagem melhor que a dele. É sério, impaciente e orgulhoso. Totalmente o oposto do outro membro do grupo. Naomi é quem traz um ar mais leve ao ambiente de trabalho. Seu cabelo loiro combina perfeitamente com a sua personalidade alegre e alto-astral. E sua genialidade é equivalente ao de seus companheiros, sua especialidade em botânica, especificamente na flora de Suna traz o toque final a equipe.

- Essa não é a formula original da Hagae Trillium, quero dizer, é sim, mas está alterada.

- Você consegue me explicar, Hiro-san? – Sakura questiona.

- É como se alguém tivesse modificado a estrutura genética da planta, mas sem muda-la.

- Isso tornaria possível produzir a flor? – A Haruno pergunta para Naomi.

- Não exatamente, essa planta é extremamente complexa, não é à toa que está extinta há tantos anos. Ainda que modificassem sua fórmula, tornando possível sua reprodução seria praticamente impossível manter suas propriedades livres.

Sakura morde o seu lábio inferior, pensando sobre a questão. – Essa modificação genética garante a sobrevivência da flor?

- Não há como saber, precisaríamos realizar mais alguns testes. Mas a droga do chakra também é complexa, seria necessário alterar os compostos da planta o suficiente para tornar possível uma reprodução, mas sem modificar sua essência para que fosse eficiente.

- Isso requer uma tecnologia que eu nunca ouvi falar. Pessoalmente, ainda acho impossível que esse veneno esteja sendo produzido.

- Talvez seja uma variação dele. Os relatórios das autópsias são muito inconclusivos, mas ao que tudo indica, alguma coisa realmente bloqueou a circulação de chakra daqueles ninjas e de uma forma que nenhum jutsu seria capaz de fazer. – Sakura suspira e coloca os documentos de volta na pasta.

Seus olhos estão cansados e sua cabeça doí graças a um dia inteiro de trabalho. Uma olhada rápida no relógio acima da parede a surpreende. Ficar muitas horas dentro de um ambiente fechado, sem janelas ou circulação natural de ar é exaustivo e a faz perder a noção de tempo.

- Sei que ainda estamos longe de qualquer conclusão, mas hoje finalmente tivemos um avanço. Por hoje, isso é o suficiente. – Sakura tira o seu jaleco e o coloca gentilmente no encosto da cadeira. – Preciso relatar isso ao Kazekage. Continuaremos amanhã.

Os dois acenam com a cabeça, concordando. Sakura caminha pelo laboratório sentindo suas e pernas doloridas. Ela abre a pasta e dá uma última lida no relatório enquanto seus companheiros preparam-se para deixar o laboratório, Sakura sabe que não seria prudente levar esses documentos para casa e por isso, esforça-se para memorizar cada detalhe. Finalmente ela teria algo para relatar para Gaara e sente-se genuinamente feliz em conseguir ajudá-lo com esse enigma.

- Você vem, Sakura-sama? – Naomi pergunta sorrindo gentilmente de frente para a porta de saída. Hiro para junto a ela e ambos se viram para a Haruno.

- Logo! Podem ir e obrigada, vocês trabalharam duro hoje.

- Você também, Hime-sama. – Naomi diz enquanto ri porque sabe o quanto Sakura fica constrangida quando se referem a ela desta maneira. – Boa noite.

A Haruno responde com um sorriso e Hiro apenas acena com a cabeça. Sakura lê o documento em suas mãos mais três vezes antes de deixar o laboratório também.

Já está escuro quando ela sai do hospital, frio como todas as noites em Suna, mas a mudança climática já não incomoda a Haruno como no começo. É apenas passando pelas lojas e restaurante que ela percebe o quanto está faminta e por isso, decide pegar um atalho no caminho de volta para a casa. Já se passaram quase quatro meses em Suna e Sakura já fez este mesmo percurso o suficiente para reconhecer perfeitamente as ruas e vielas da vila. Ela caminha tranquilamente em uma rua calma e vazia como todas as outras porque quanto mais a noite avança, mais raro é cruzar com alguém do lado de fora.

E é justamente por isso, que os sentidos da Haruno se alarmam quando ela identifica uma presença estranha próximo a ela.

Sakura se vira, atenta e pronta, mas não mais ninguém além dela mesma, ela suspira sentindo-se paranoica e acalmando-se, volta a caminhar. Mas dá apenas alguns passos até sentir a mesma presença retornar repentinamente, só que duas vezes mais próxima e ela salta se afastando depressa, mas quando vira-se está sozinha. Dessa vez o com coração disparado, os punhos cerrados e dominada pela adrenalina e pressentimento de que uma luta está prestes a começar ela permanece parada analisando cada centímetro que a cerca, em busca de qualquer movimentação. Não há nada. Mas Sakura não relaxa e mesmo alerta ao máximo, mesmo não notando qualquer aproximação, a Haruno volta a sentir alguém logo atrás dela, como se a presença se materializasse quase tocando suas costas. Ela se vira concentrando seu chakra em seu punho e desferindo um soco no ar, porque no momento em que se vira, já não há mais ninguém mais uma vez. Os olhos da Haruno são rápidos e vasculham todo o perímetro, mas não há nada que indique algum inimigo. Sakura está tensa, faz muito tempo desde a sua última luta, mas ela certamente continua afiada e letal. Está em posição de luta, com seu chakra borbulhante e espera, mas nada seria capaz de preveni-la do que vem a seguir.

De um segundo para o outro, em uma velocidade impossível até mesmo para alguém como Sasuke, Sakura sente-se cercada. A mesma presença está por todos os lados, cercando-a em uma armadilha mortal. A Haruno não pode vê-los, mas pode senti-los. Está em todos os lugares, na esquerda e direita, em cima dos telhados, à frente e na retaguarda. Sakura muda sua posição de ataque e protege seus pontos vitais sentindo seu coração bater alucinado. Mas antes que qualquer mal possa atingi-la, Sakura vê uma cortina de areia armar-se ao se redor, fechando-a em uma cúpula, sólida e impenetrável. Tudo acontece rápido demais e a Haruno leva alguns instantes para perceber o que está acontecendo.

Gaara

Ele está por perto, mas não consegue vê-lo graças a muralha de areia. Entretanto, ela não dura por muito tempo e se desfaz, caindo no chão, tão fluida quanto água, tornando difícil de acreditar que há poucos segundos estava tão dura quando aço. Ela cai e Sakura vê seu marido a poucos centímetros de distância, alerta e vigilante. Já não há presença alguma no local.

- Você está bem? – Ele pergunta com alguma dificuldade em focar o olhar nela, analisando o perímetro exatamente como a Haruno fez.

- Sim. Onde estão?

Mas Gaara não responde. Ao invés disso, olha para a sua esposa intensamente e Sakura compreende ainda que o Kazekage não diga nada.

- Desapareceram. – Ela afirma e Gaara acena com a cabeça. – Quem são? – Outro olhar responde por ele. Não sei. – Como isso é possível?

- Está ferida? – O Kazekage pergunta mais uma vez, dessa vez um pouco menos alerta, cada vez tendo mais certeza de que eles dois estão realmente sozinhos. E dessa vez é Sakura quem responde sem palavras, apenas acenando com a cabeça.

- Vamos para casa. – Ela concorda e se aproxima um pouco mais para que ele possa envolve-la com a sua areia.


- Foi um movimento idiota. – Temari diz e Sakura não pode deixar de concordar. – O que isso significa?

- Desespero. – O Kazekage responde.

- Não acho que estavam atrás de mim – Sakura diz sentindo repentinamente todos os olhares sobre si. – Queriam os arquivos, mas eu os deixei no laboratório.

- Que arquivos? – Questiona Kankuro.

Os irmãos já estavam em casa quando o casal chegou. Sakura preocupada e Gaara enfurecido. Levou apenas alguns minutos para que a Haruno explicasse todos os detalhes desde o início do dia quando ela e a sua equipe obtiveram avanços em sua pesquisa.

- Você pode estar certa. Mas como poderiam saber?

- Hiro e Naomi?

- Impossível, Temari. Eles são de confiança. – Kankuro defende.

O Kazekage permanece próximo a porta, observando seus irmãos discutirem e analisando a situação em silêncio. Sakura olha para ele e como se pudesse sentir o olhar da Haruno, Gaara ergue os olhos encontrando imediatamente os dela.

- Como você soube? – Gaara demora um instante para responder. Os olhos dela estão verdes como quando estavam na muralha e preenchidos por algo que o rapaz não saberia descrever.

- Eu sou o Kazekage. – Ela sorri sem conseguir realmente anime-se. – Além disso, que tipo de marido eu seria se não soubesse quando minha esposa está em perigo?

Os irmãos se calam e observam a cena. Sakura alarga o seu sorriso, mas ainda está tensa e preocupada, além disso, sua cabeça dói e seu estomago a incomoda, mas agora sem saber direito se é fome ou ansiedade.

- De qualquer maneira, amanhã você não deveria sair do laboratório sozinha.

- Isso não é necessário.

- Sakura.

- Eu sou mais forte do que você pensa – Ela pisca para ele.

- Não posso permitir que você se machuque por-

- Vai ficar tudo bem, Gaara. – Seus olhares ainda estão fixos um no outro e ela acena com a cabeça, reafirmando o que acabou de dizer.

Reafirmando que ela é Sakura Haruno e graças e ele, ela não tem mais dúvidas disso. Não tem mais dúvidas da sua capacidade e de que pode defender-se sozinha. Ela sorri e ele compreende, porque confia nela.

- Certo. – Ele olha para o seu irmão. – Você estava certo.

- O que você quer fazer?

- Agir discretamente, mas temos que estar preparados. Sakura, você precisa continuar a pesquisa, temos que saber com o que estamos lidando. Temari, fortaleça a proteção da vila, tente descobrir como conseguiram passar pela nossa segurança. E Kankuro, amanhã precisamos nos encontrar com o Baki-sensei.

Todos acenam com a cabeça concordando com o Kazekage e todos sentem ao mesmo tempo o mesmo pressentimento sombrio de que algo grande está para acontecer.


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