Capítulo VI

Did you get what I meant?


Draco não conseguia evitar pensar no motivo que o levará a beijar Ginny porque não conseguia achar nenhum motivo que fosse decente. Apenas desejara, apenas quis beijá-la e foi o que fez. Olhou para trás e a viu andando com certo nojo das ruas mal cheirosas e cheias de lama. Havia encontrado botas para ambos, mas ainda assim aquele lugar era nojento. Uma cidadezinha perdida em algum lugar que ele não conhecia.

Imaginou como ele seria naquela realidade. O que faria da vida, se seus pais estariam realmente juntos ou não.

O vento jogava os cabelos de Ginny de um lado para o outro. Não conseguia imaginar que ela fosse Eva afinal. Parecia que Eva era uma outra pessoa totalmente diferente, nem mesmo os traços eram idênticos, Ginny havia mudado um pouco, mas bem nos olhos dela ainda podia ver como se Eva estivesse escondida num canto dos olhos dela e ele tinha que admitir que esse canto dos olhos lhe dava medo.

- Como você viu peças do século XVIII? Como sabe que são peças desse século?

- Aquela máquina deve ter sido montada e levada através dos séculos usando um meio parecido com o nosso de viagem. Quem está construindo pegou coisas necessárias no século XVIII e depois foi embora.

- E como você sabe em que ano procurar?

- Eu não sei, presumo que terei alguma sorte.

- Não acredito nessa sua aleatoriedade.

- Faz bem algumas vezes – ele disse sorrindo. – não estou sendo aleatório, programei a chave para encontrar o momento do século XVIII onde fosse possível sentir energia temporal e aqui estamos nós, procurando sua máquina de destruir o mundo. Assim você não destruirá o mundo.

- Obrigada.

Ela cruzou os braços e continuou andando um pouco emburrada, olhando para os lados. Ginny estava meio perturbada ante a idéia de destruir o futuro. Era algo para se perturbar mesmo, Draco pensou.

Era bem fácil agradecer que o mundo houvesse evoluído, tudo estava muito sujo e bagunçado naquela cidadezinha, mas era possível ver que as pessoas se amontoavam ao redor de uma espécie de palanque no meio da cidade. Draco esticou o braço e segurou Ginny para que não passasse direto.

- O que está acontecendo aqui?

- Não sei, ainda não nasci, Malfoy!

- Você não estudou história ou coisa assim?

- Eu estava dormindo nas aulas do professor Binns, obrigada. É um velho a beira da morte e monótono!

- Você é tão inútil... – ele reclamou voltando-se para o palanque, onde um homem subia e pedia silêncio para os presentes.

- Estou contratando trabalhadores, preciso construir uma coisa importante, uma estátua moderna e preciso de empregados, por gentileza.

Draco olhou para o homem com atenção. Um jovem alto, com seus vinte e cinco anos talvez, cabelos cacheados e castanhos, grandes olhos verdes e pele clara, diferente das pessoas da cidade que tinham cabelos lisos e loiros em sua maioria, Draco podia se passar por um deles facilmente, enquanto as mulheres eram baixas e rechonchudas, com cabelos loiros e bochechas rosadas. Ginny era baixa, mas estava longe de ser rechonchuda e os cabelos eram vermelhos e gritantes demais para disfarçar.

Começou a planejar alguma coisa o mais rápido que pudesse, aquele homem obviamente não podia estar construindo exatamente algo moderno e coisa assim, uma estátua. Draco imaginou quem seria aquele homem, se os planos eram mesmo dele ou trabalhava para alguém. Olhou para Ginny que estava concentrada no que o homem falava. Talvez todas essas viagens no tempo só estivessem levando-a para aquele final de destruição do mundo. Talvez aquelas viagens pudessem mudar as atitudes dela. Imaginou que quando destruiu o mundo no futuro aquela não era Ginny, mas Eva. A Eva que precisava de ajuda para não destruir tudo, criada no Vazio entre os mundos. Ainda achava impossível a existência dela, mas estava ali na sua frente, alguém que só existe num mundo, onde foi colocada, um mundo singular e ele até mesmo havia beijado-a.

Os homens começaram a levantar as mãos, candidatando-se para o trabalho, imediatamente Draco levantou a dele também, esperando que o homem o aceitasse também, era um pouco magro demais, mas imaginou que não haveria problemas nisso.

- O que está fazendo? – Ginny tentou puxá-lo pelo braço.

- Você acha mesmo que é só uma estátua, Ginny? – ele disse sorrindo. – Vamos lá, precisamos ganhar algum dinheiro e investigar isso. Descobrir pra quem ele trabalha e salvar o mundo!

- E se for só uma estátua, Malfoy?

- Algum dinheiro para dormir num quarto, certo?

- Não podemos só voltar pra casa?

- Você vai destruir o mundo, não pode voltar agora.

- Por acaso vai ficar me lembrando isso a cada cinco minutos?

- Provavelmente. – ele respondeu caminhando em direção ao homem. – Olá, senhor! Fico muito grato pelo trabalho.

- Ah, claro. – respondeu o homem com um sorriso leve – Você e sua esposa parecem novos aqui na cidade, devem precisar de algum sustento.

- Não... – começou Ginny.

- Sim, senhor! – exclamou Draco. – Obrigado, senhor...

- Me chamo Johnattan Kearney.

- Obrigado, senhor Kearney! – exclamou Draco apertando a mão do homem efusivamente.

- Ele pensou que éramos casados! – irritou-se Ginny.

- O que mais ele pensaria nesse século, Ginny? Pense! Não tem como sermos irmãos, você é... ruiva. E sardenta.

- Ninguém acreditaria mesmo com essa sua testa enorme e esse queixo pontudo como um triângulo.

- Não me ofenda!

- Você começou!

- Quer saber, chega. Precisamos procurar um lugar para ficar.

- Achei que não tivéssemos dinheiro.

- E não tínhamos, mas alguém rico como o senhor Kearney obviamente é, sempre tem alguma coisa nos bolsos. – Draco disse mostrando moedas douradas.

- Não acredito que fez isso!

- Para alguém que foge com mocinhas ruivas e menores de idade algumas moedas não é grande coisa, certo?


Ginny estava deitada na cama com os braços cruzados e parecendo bastante irritada. Claro que aquele não era o lugar mais confortável de todos, mas ela não podia reclamar, Draco pelo menos havia cedido a cama toda para ela e dormiria no chão, mas ela continuava irritada.

- Qual o problema?

- As pessoas pensam que somos casados.

- Não acredito que você está irritada por isso. Você está séculos no seu passado, você viajou pro futuro e está zangada porque pensam que somos casados?

- Não posso evitar.

- O que tem de ruim acharem que está casada comigo?

Ela resmungou e virou-se para o outro lado.

- Você precisa trabalhar amanhã, não?

- Sim, nunca mexi com essas coisas braçais...

- Eu percebo.

- O que você quer dizer?

- Nada.

- Esse é meu tipo físico, ok?

- Não estou falando nada.

- Eu sou forte, sabia?

- Imagino que não é mais forte que eu. O que é aquilo, Malfoy? Por que eu posso arrebentar portas?

- Pode ter haver com esses seus supostos poderes e coisas estranhas, pode estar ligado com quem você vai ser nesse futuro, porque perceba, você é a mesma pessoa ainda jovem daqui há mais de mil anos. Pode ter alguma coisa haver com o que vai te manter jovem, com o que vai te controlar para que destrua tudo, pode ter haver com isso de destruir tudo, não sei bem, existem diversas teorias possíveis e bem impossíveis, mas não posso te dizer com certeza afinal, talvez seja só sorte, talvez seja uma anomalia que não tem nada haver ou, bem, você pode nem ser tão humana assim, já pensou nisso? E podemos também imaginar que modificaram você quando nasceu, ou que talvez nem tenha nascido aqui e de onde veio isso é normal, não podemos ter certeza dos seus pais, certo? Não é porque todos são ruivos que você é filha deles, existem milhares de ruivos que podem ser seus pais e eu não tenho certeza se aquela senhora gorda é sua mãe, você é magra demais, Ginny. Você tem algum problema com comida, essa magreza é estranha até. Talvez seja sua idade, mas não deve ter haver com essa força, certo? Ginny?

O som da respiração alta dela avisava que Ginny estava dormindo e não havia escutado metade das coisas que Draco havia dito. Ele se aproximou da cama, ela dormia com as mãos fechadas como se fosse um bebê e os cabelos se espalhavam pelo lençol encardido daquela cama. Sem fazer barulho, Draco pegou o cobertor e jogou sobre o corpo dela. Ficou observando por mais uns segundos enquanto ela respirava tranquilamente.

- Eva? – ele perguntou.

A ruiva nem se mexeu e Draco pensou que aquilo era a coisa mais imbecil que havia pensado em toda sua vida, imaginar que talvez Eva pudesse responder enquanto Ginny dormia, elas eram a mesma pessoa afinal, Eva deveria estar ali, obviamente. Ela não responderia, ou não poderia responder.

Acabou indo dormir um tanto frustrado com a impossibilidade de sua idéia. O sono estava quase dominando-o quando abriu os olhos subitamente. Alguém estava parado, olhando para a cidade pela janela e no brilho da luz que entrava Draco viu um brilho de cabelo avermelhado.

- Ginny?

- Não.

- Eva?

- Quem mais? – ela se virou e mesmo levemente, Draco podia perceber uma mudança nos movimentos de Ginny, agora ela parecia mais austera e mais velha, mesmo que na cabeça de Draco, Eva fosse uma criança extremamente poderosa, mas apenas uma criança.

- Achei que não pudesse me ouvir.

- Eu posso, mas Ginny ainda não estava dormindo o suficiente. Ela sempre sonha comigo. Não podia responder até que ela dormisse profundamente. Sinto muito por te envolver nisso, Draco, mas eu não posso me salvar sozinha, apesar de tudo.

- Nós te vimos destruir o futuro. Naquela máquina de destruir o mundo. Você queimou tudo que conseguiu alcançar. Destruiu o futuro e envenenou o ar e tudo que havia.

- Não posso controlar, Draco, meu querido. Fui criada para a destruição, seguirei comandos assim que os receber, por isso pedi sua ajuda. Por favor, me salve. Destrua as palavras de ativação, assim não vão poder me controlar.

- Quem vai te controlar? Onde estão essas palavras?

- Você sabe quem vai me controlar, as palavras, parecem estar na máquina... gravadas. Ah, mas isso é depois que tudo estiver perdido... Estão escondidas, não consigo saber onde.

- Por que minha ajuda, Eva?

- Ah, Draco... eu era tão pequena e você tinha esses olhos que me lembravam meu nascimento. Apenas como o vazio. Esse cinza que me faz sentir em casa, talvez. E sua mente é fascinante, querido. E quando me mandaram para aquele universo, minha memória começou a ser substituída por uma infância imaginária e então me tornei Ginny Weasley. Eu gosto de ser Ginny. É como se minha mente fosse dividida em duas partes.

- Então você também é a Ginny?

- Ela está aqui na minha cabeça, dormindo e está sonhando com você. – Eva riu levemente. Bem diferente da risada alta de Ginny – Ah, sou tão boba. Fico imaginando milhares de motivos para você ter me beijado, Draco.

Draco sentiu-se corar. Eva era a criatura mais intimidante que ele havia conhecido. Ela parecia ter o controle de tudo que estava ao seu redor, como se o mundo fosse apenas algo muito grande, mas que ela poderia tomar conta. Percebeu que ela iria destruí-lo facilmente caso fosse ativada. Aquele universo singular havia se moldado ante o surgimento de Eva como Ginny, sétima filha da família Weasley, forjando memórias, criando amigos de infância, lembranças falsas para a família. Tudo para que se encaixasse perfeitamente naquele universo singular.

Não conseguia imaginar o que dizer para Eva. Até mesmo o olhar dela era muito forte, dominador.

Ela deu alguns passos em sua direção e sorriu.

- Se Ginny soubesse que nem você faz idéia do que motivou o primeiro beijo dela... – Eva sussurrou perto do ouvido dele. – Não parta meu coração, Draco.

Os lábios dela roçaram os dele e Draco sentiu-se arrepiar enquanto ela se afastava de volta para a cama.

- Quem está construindo a máquina, Eva? Meu pai e meu avô? Snape?

- Você sabe quem ele é. Imagino que já o conhece agora. Boa noite, Draco.

Ela deitou-se da mesma forma que Ginny estava deitada antes, fechou os olhos delicadamente e começou a respirar pesadamente e como se fosse mágica a tensão do quarto diminuiu no mesmo momento.

- EVA! – ele exclamou.

Ginny sentou-se na cama subitamente.

- Por que está gritando, Malfoy? Qual o seu problema?

- Acho que tive um pesadelo. Desculpe. – Draco respondeu encostando-se na poltrona.


Draco caminhava de um lado para o outro quando Ginny finalmente deu sinal de que estava acordando. O loiro sentia-se bastante nervoso com a conversa da noite anterior, mas não pretendia contar para Ginny que ela era duas pessoas e ao mesmo tempo apenas uma. E que ela nunca nasceu como qualquer outra pessoa, mas foi fabricada. Não é uma coisa muito fácil de explicar para uma menina de quinze anos com a força de uns duzentos homens ou mais.

- Você não ia trabalhar? – ela perguntou esfregando os olhos.

- Não é mais necessário. Agora tenho um direcionamento.

- Qual?

- Uma idéia súbita. Desde o início era necessário visitar o seu passado.

- Qual a necessidade disso?

- Muitas coisas envolvem seu nascimento, Ginny. – Draco respondeu abrindo a fenda no ar.

- Então não viemos fazer nada útil aqui?

- Temo que não, mas vamos conseguir alguma coisa agora.

Ele estendeu a mão para que Ginny a segurasse, ela resmungou mais alguma coisa e segurou a mão dele com firmeza enquanto caminhavam para a fenda.

Atravessaram para um dia de sol, Draco imaginou o quanto os piores dias eram sempre ensolarados e bonitos no começo. Ainda segurando a mão dela conferiu se aquele era mesmo o dia do aniversário de dois anos de idade dela.

- Para essas inutilidades você consegue acertar a data, Malfoy!

- Eu realmente sinto muito pelo incidente com seus pais.

As palavras de Eva ecoavam de leve em sua cabeça sobre os motivos que o levaram a beijar Ginny ou no que ela pensava sobre o assunto. Ela tinha apenas quinze anos agora, devia viver cheia de confusão sobre sentimentos e essas coisas.

- O que estamos fazendo na porta da minha casa?

- Vamos ver você, Ginny.

- Mas isso não vai fazer o universo explodir ou sei lá? Eu achei que não pudesse encontrar comigo mesma, sabe?

- Ah, você só deve evitar tocar em si, ok? – Draco disse dando de ombros. – Não tem como você se lembrar de si aos dois anos de idade.

Tocou a campainha e enquanto esperava, pensou em todas as reações que ela poderia ter. O vento soprava fraco e úmido apesar do sol, algumas pessoas passavam na rua tranquilamente e sorriam para os dois. O som de passos fez com que prestassem atenção na porta, Ginny ficou um pouco de lado, como se quisesse se esconder, uma mulher de cabelos acobreados sorriu ao abrir a porta, ela era gordinha e baixinha, mas parecia bastante dócil.

- Olá, senhora. Gostaria de lhe fazer algumas perguntas, estamos fazendo uma pesquisa sobre fraldas. Existe alguma criança menor de quatro anos na casa?

- Não. – ela sorriu de modo simpático.

- Quantos filhos a senhora têm?

- Seis. – ela riu um pouco. – São muitos, não? Todos rapazes.

- Não está pensando em tentar a sorte? Talvez uma menina.

- Ah, não, meu jovem. Acho que já chega de crianças aqui. Ron é muito travesso.

- Compreendo a senhora, obrigado pela atenção. – Draco deu mais um sorriso quando a mulher fechou a porta e virou-se para Ginny.

Os olhos dela estavam cheios de lágrimas e arregalados. Parecia não saber o que fazer e ela tremia levemente. Draco não sabia o que fazer quando a viu assim. Não sabia o que fazer e parecia que cada lágrima dela era particularmente para ele. Ela encarava o infinito, como se não compreendesse mais nada do que acontecia ao seu redor. Ela respirou fundo e virou o rosto molhado para Draco.

- O que aconteceu comigo?


NA. Hello, pessoas. Thanks pelas rewiews! Gostaria que me deixassem sua opinião sobre o capítulo, se compreenderam bem o que aconteceu e tals. E se quiserem, visitem o fórum 6v! Beijos