VII
Aquele período final da gravidez não fora nada tranquilo. Mairon já não dormia a noite, ansioso, pensando que a qualquer momento o trabalho de parto se iniciaria e com isso o fim de sua vida em Arda. Às vezes chorava e às vezes ficava a noite toda a observar Melkor, que ainda assim conseguia dormir, pois pensava que seria a última vez em que o via. Beijava-o no rosto, nos lábios, dizia-lhe "meu amor" e não queria se separar dele.
Ao mesmo tempo, durante o dia ia até os trabalhos em Dorthonion e dava o máximo de orientações a Thuringwethil e demais intendentes para continuar a seu trabalho depois. Eles pensavam que isto se daria porque após o parto Mairon descansaria um pouco do serviço da fortaleza para se dedicar ao filho - mas ela no íntimo fazia isso porque esperava morrer.
Até que um dia aquela agonia acabou. Mairon estava na fortaleza dando ordens e diretrizes como sempre, quando de repente sentiu lhe cair a água da qual a parteira falara.
"Começou", pensou enfim.
Ordenou que mensageiros chamassem à parteira e a Melkor, o qual disse querer ver ao parto pessoalmente. Respirou fundo. Teria feito tudo certo? Dado todas as diretrizes a seus subalternos? Se despedido o suficiente de Melkor? Melkor...
Sentiu ganas de chorar mas não o fez, pois estava na frente de muitos. Já não chorara o suficiente? Já não tivera o suficiente? Ele servira ao vala que amara - e mais do que isso, casara com ele, teria a seu filho... fora amado por ele. Vivera milênios ao lado dele. Por que reclamar? Devia se dar por feliz de ter tido tudo isso. E agora morrer feliz.
Acalentada por esse pensamento, sentiu-se finalmente menos ansiosa. Menos oprimida. Era um dever a cumprir. Sentia-se melhor agora.
Quando Melkor chegou, junto da parteira, eram ambos todos atenção. O vala não parava de perguntar como ela se sentia, e estranhamente Mairon se sentia bem. Era tão estranho. Ele pensava que era peculiar se sentir tão bem antes de morrer afinal.
Mas não falou nisso. Foram os três e mais algumas assistentes que a parteira chamou para uma sala já previamente preparada ao parto. Colocaram Mairon deitada na cama. Melkor não saiu de seu lado um único segundo, segurando as mãos dela no meio das suas.
- Meu bem, você já sente as tais das contrações?
- Ainda não. Quer dizer, sim, mas são bem fracas.
A parteira interveio:
- No começo são fracas mesmo. Depois, quando elas ficarem fortes, chegará a hora de fazer força. Mas podem esperar, ainda vai demorar um pouco. Isto é, se o parto for igual ao das humanas.
Melkor suspirou, quase aliviado. O parto já havia começado e nada de trágico estava ocorrendo. Ora, dar atenção a tais oráculos, quando podia ser tudo apenas um engano...! Sim, estava otimista. Ia sair daquela sala com sua esposa e seu filho, ambos bem.
Mairon ficou mais um tempo daquele jeito, achando tudo muito tranquilo... conversando com Melkor amigavelmente, quase esquecendo da previsão, pensando que não era tão terrível afinal. Mas logo as contrações mais fortes vieram. A dor se intensificou, e a frequência das contrações também.
Nessa hora a parteira se acercou dela e passou a lhe orientar.
- Respire fundo. Isso. Agora faça força. Isso, força. Até passar a contração.
Ficaram assim por algumas horas. Mairon começou a suar, enquanto Melkor limpou sua testa com um lenço. A parteira e suas assistentes se surpreenderam grandemente, pois não pensavam que o Senhor do Escuro pudesse ser terno assim nem com sua própria esposa.
Estava ainda tudo tranquilo, tudo dentro dos conformes. Até a hora em que as contrações passaram a ser muito doloridas... Mairon sentia algo como se fosse rasgar suas entranhas no meio, e não sabia se aquilo era normal. O medo da previsão lhe acometeu mais uma vez, mas ele nada disse para não preocupar a Melkor.
Continuou a fazer força, mas o tom de sua voz o traía. Ela gritava cheio de dor, e Melkor percebeu isso.
- Meu bem, está muito difícil?
O maia respirava em grandes haustos e entre um e outro conseguiu enfim lhe responder:
- Um pouco...!
A parteira continuou a lhe dar diretrizes:
- Faça força. Respire e faça força.
Ela seguiu a orientação da parteira. Porém, num determinado momento as dores se tornaram tão fortes que ela segurou as mãos de Melkor com intensidade, tentando ao menos dispersar alguma energia com esse ato. As queimaduras das mãos de Melkor doíam quando ela fazia isso, mas ele não as retirou. Se fosse para ela se sentir melhor assim, que se sentisse...! Não importava.
Mais algumas horas se passaram assim, em agonia e dor. Nos intervalos entre uma contração e outra, Mairon já nada dizia. Apenas respirava e tentava se preparar para a próxima sessão de contrações.
Tanto tempo assim se passou, que a parteira deu um intervalo para que as suas assistentes comessem alguma coisa. Mais de doze horas haviam se passado e nada ainda.
Impaciente e lembrando dolorosamente da previsão de Mairon, Melkor enfim decidiu intervir.
- Isto é normal?!
A parteira hesitou. Teve medo de responder, pois temia a ira do Senhor do Escuro.
- Não muito. A maioria das mulheres neste período de tempo já tem o filho.
- Por que ele não está nascendo?!
- Simplesmente não está vindo.
Melkor sentia que ela falava a verdade, que não havia mais nada a fazer a não ser ficar ali e esperar o bebê vir. Mas ele não vinha, e Mairon... estava exausta. Pensava se seu corpo aguentaria, se não morreria ainda no meio do parto, antes de a criança nascer, e seu esforço seria em vão. Não... ao menos a criança ia sobreviver.
Era pensando assim que ela fazia ainda mais força, querendo não mais salvar a sua vida, mas apenas expulsar ao bebê para fora de seu corpo, são e salvo. O corpo que o acalentara por nove meses agora não poderia ser o seu túmulo. Não antes de nascer e dar alguma alegria a Melkor. O Senhor do Escuro sentia que as forças do maia se esvaíam. Não, não podia ser verdade.
- Aguente, Mairon... aguente, você vai conseguir!
Já mal escutando ao vala, Mairon só se concentrava em ter o filho. Segurava instintivamente nas mãos de Melkor, e a dor das queimaduras do vala nem lhe incomodava mais. Ele apenas queria que ambos ficassem bem.
Mais algumas horas se passaram assim. Uma, duas, cinco, dez, quinze. Quando deram por si, já haviam se passado dois dias de trabalho de parto. A parteira estava sem comer, sem dormir, duas olheiras fundas debaixo dos olhos, poucas vezes saíra para ir ao banheiro e beber alguma água. As assistentes estavam exasperadas; o trabalho de parto estava sendo muito longo. As mãos de Melkor sangravam por terem sido agarradas com força por tanto tempo. Mairon não aguentava mais empurrar... estava no limite de suas forças.
Quando pareceu que ia sucumbir, no entanto, a parteira demonstrou uma expressão alegre - a primeira em muitas horas.
- Está coroando!
- O que...? - disse o vala, mal escutando o que a mulher tinha a dizer, quase num transe após todo aquele tempo naquele trabalho de parto maldito.
- Coroando. A cabeça da criança está saindo...!
- É...?
- Sim, finalmente!
Ao ouvir aquilo, Mairon, que quase desfalecia, tomou mais um pouco de suas próprias forças - a ultima reserva que parecia lhe sobrar na verdade - e fez mais força. Finalmente, a cabeça de cabelos negros começou a sair. E após a cabeça, o corpinho da criança saiu de uma vez.
O alívio tomou conta do corpo do maia. Finalmente, as dores cessaram. E até onde ele sabia, não havia sido rasgado ao meio.
Melkor não sabia se olhava à criança ou se dava atenção a Mairon. Primeiro, olhou o rosto do consorte. Estava exausto, fora de si, mas decididamente vivo. Ele não morrera afinal...!
- Mairon, você sobreviveu...!
O vala negro beijou a testa do companheiro, porém ele não reagiu. Estava cansado demais para fazer qualquer coisa.
Após isso olhou para a criança. Era realmente linda, e as parteiras ficaram tão surpresas de ver que uma criança nascia sem sujeira, sem choro, sem nada. Nem o cordão umbilical elas precisaram cortar, uma vez que como Mairon era maia e não comia, a alimentação do feto devia ser feita de outra forma que elas, meras mortais, não conheciam nem entendiam.
O bebê não podia ser descrito com palavras; seus olhos brilhavam como ouro líquido, seus cabelos eram negros como ébano e sua pele era branca como mármore. Mais parecida com a pele de Melkor, dado que Mairon era mais para o dourado. E o mais impressionante, o bebê não chorava. Ficava quieto, apenas observando todos presentes e os estudava como se já os pudesse compreender. Era o primeiro ainu bebê, nascido, então ninguém sabia o que fazer com ele, quais seriam os primeiros cuidados.
Ele olhou para Melkor e deu a entender que não queria ficar no colo das parteiras. Como se uma conexão sobrenatural os ligasse, Melkor levantou-se do lado de Mairon e tomou a criança do colo das mulheres. O bebê o reconheceu na hora como seu pai, e lhe sorriu.
- É meu filho...!
E, tomado pela emoção como costumava ser, o vala negro tomou o bebê e foi para fora dos aposentos. Lá, uma pequena multidão de servos se apinhava, pois as fofocas do parto difícil e prolongado se espalharam. Vendo todo aquele povo lá, o vala ergueu a criança no ar e bradou:
- Meu filho nasceu!
Um grito generalizado foi ouvido, bem como batidas de palmas. Mas mal ouviu isso, a criança começou a chorar.
- Dever ser igual a mãe, que não suporta uma bagunça. Vou levá-lo pra dentro!
As comemorações continuaram do lado de fora, e Melkor fechou a porta para abafar o som. A seguir colocou-o no colo de Mairon.
- Meu bem, segure seu filho nos braços...
Ainda exausta, Mairon o tomou. Melkor quis perguntar se finalmente o amava, mas sentiu que não era hora para aquilo. Haveria tempo depois...
O bebê, inteligente como era, diferente dos bebês humanos, tomou o seio de sua mãe e começou a sugar. Era tudo que precisava na hora. Mairon fechou os olhos, somente querendo dormir.
O vala foi então falar com as parteiras, as quais também se encontravam exaustas.
- E ela, a minha esposa? O que fazer?
- Ela precisa descansar. As mulheres humanas costumam ter o que se chama de resguardo, ou seja, passar cerca de quarenta dias sangrando. Também ficam sob observação. Mas este parto foi sem sangue... sem cordão umbilical... sem nada do que se costuma ter num parto corriqueiro. Portanto, não sabemos o que fazer acerca disso. Deixe-a descansando.
- É, pelo visto é o que terei de fazer. Escutem, vocês fizeram um bom trabalho. Eu as recompensarei por isso. Ainda não sei o que lhes dar, mas quando isso tudo passar, eu puder descansar... lhes darei uma recompensa. Vocês trouxeram ao mundo a criança mais linda e formidável que Arda já viu.
Elas sorriram e reverenciaram ao Senhor do Escuro.
- Agora podem descansar - continuou ele - São Edain, não? Precisam comer, dormir, banhar-se, tudo isso. Vão.
Com mais uma reverência elas saíram do recinto - mas não tão cedo iam descansar, pois o povo lá fora queria saber tudo o que ocorrera lá dentro.
De repente Melkor se viu sozinho com Mairon e o bebê. Foi até perto do maia e o beijou na testa.
- Você foi muito forte, meu bem.
- Por favor... não fique longe de mim.
- Eu não vou ficar.
- Não quero morrer longe de você...!
- Shhhhh, você não vai morrer. O pior já passou. O parto já aconteceu. Veja, o bebê é lindo. Olha como ele gosta de você...
De fato, a criança sorria para Mairon quando ela olhou o filho. Ela amava sem motivo... sem precisar de razão.
O maia fechou os olhos, ainda exausto. Não sabia porque, mas seu senso de perigo ainda não havia passado de todo. Melkor deixou ela e o bebê descansando e foi preparar um banho.
- Meu bem, você acha que está em condições de vir se banhar?
- Ah, sim... creio que sim. E a criança, não seria melhor dar um banho nela também?
- Também. Mas como será que se dá banho em bebê?
- Não faço a menor ideia...
- Nem eu.
Assim que o banho estava pronto, Melkor tomou a Mairon, o qual trazia o filho de ambos nos braços, ajudou-o a se despir e entrar na banheira. Em seguida tomou o bebê de seus braços e entrou ele, já nu, na banheira.
Era tão estranho. Até alguns dias, Mairon ainda tinha a criança na barriga, e faziam tudo sem ela. Mas agora que era nascida, os cuidados redobravam. Com cuidado, Melkor tirou o manto que envolvia a criança e a lavou. Tentava achar uma posição pra apoiar a cabeça da criança sem derrubá-la e lavá-la ao mesmo tempo. Ainda levaria um tempo até se adaptar...
Junto com a criança, o vala negro lavava o sangue das próprias mãos, o qual fora derramado porque Mairon as agarrava em desespero quando sentia a dor do parto. Ironicamente, quem sangrara no nascimento não fora a mãe ou a criança, mas o pai.
Depois disso, deu a criança para Mairon e se banhou. Enquanto o fazia, reparou que Mairon se recostava na borda da banheira, ainda cansada, e o bebê aproveitava o aconchego do colo da mãe pra mamar. Melkor sorriu. Nunca antes tinha dado atenção a essas coisas. Nem reparava em crianças ou mães, mas agora que concernia a si, ele achava bonito.
Depois banhou a maia, a qual parecia tão cansada que não tomara iniciativa sequer para se banhar. Mas Melkor estava feliz de vê-la viva. Quando o parto começou a demorar demais, ele passou a pensar que talvez fosse verdade a tal previsão. Não. Fora apenas um parto difícil, porém bem sucedido.
Foram à cama. Melkor ajudou-os a se secar e Mairon a vestir roupas novas e limpas, e o bebê foi enrolado novamente num manto. Como o parto fora totalmente sem sangue, os lençóis estavam limpos. Deitaram-se os três na cama - o quarto onde costumavam dormir ficava longe, dado que a fortaleza era grande, e Mairon não estava em condições de ficar andando pra cima e pra baixo.
O bebê foi colocado na cama entre o pai e a mãe. Ficou sorrindo e mamando, olhando a ambos os pais, contente.
- Mairon... veja como ele está feliz. Ele sabe que há amor entre nós. Lembra que uma vez você me perguntou se ele sabia?
- Oh sim, é verdade.
- Eu te amo, Mairon...
Melkor beijou a boca do consorte e o bebê sorriu. Mairon sorriu de volta. Demorara tanto para que Melkor admitisse amar a Mairon¹. Tanto. Mas agora que admitira, que voltara a confiar outra vez, amava plenamente.
Foi só aí que Melkor percebeu o quanto estava cansado. Haviam sido dois dias de aflição, mas havia passado. Finalmente havia passado. Finalmente estava tudo bem. Fechou os olhos e dormiu do lado do filho e da mulher, enfim sentindo um pouco de paz por tudo ter transcorrido bem.
No dia seguinte, no entanto, acordou com o bebê chorando e Mairon o chamando.
- Melkor...!
- O que foi? Eu estou aqui.
Mas Mairon não parecia escutar. Estava num estado de semi-consciência, tremendo, o corpo pelando de algo que se parecia com a febre dos Edain.
- Mairon...!
- Melkor, não me abandone...!
- Eu estou aqui com você, não vou te abandonar!
Mas Mairon não respondia. Apenas tremia e chamava pelo nome dele sem parar.
To be continued
OoOoOoOoOoOoO
¹Vide a fic "Medo de amar". O vala negro demorou literalmente milênios e precisou de muitas, mas muitas provas, de que Mairon era digno de sua confiança. Como nas primeiras vezes em que ele tentou se relacionar, ele nem pensou e foi chamando as mulheres pra casar com ele sem nem averiguar se seriam compatíveis no modo de pensar e viver (Varda e Arien), e também já havia sido passado pra trás pela Ungoliant, ele decidiu escolher alguém pela confiança e não por motivos banais ou pela emoção/impulso.
E com o Mairon ele acertou... rs!
A fic ia terminar nesse capítulo, mas decidi inventar mais uma treta. Vamos ver no que dá isso aí!
Beijos a todos e todas!
