Can't Be Tamed (by Mistress Alice)

7. Love Train

-Miles não vai admitir, sabe disso, Fiodor.

-Então falo com ele diretamente. Assim sai da minha boca, e Flégias não aumenta exageradamente.

-Só faltava você sair para conversar e ele falar que foi atacado por você. Não tem cabimento, Wimber. Deixa ele falar com o Miles. Quem sabe ele até ajuda.

-É difícil acreditar que o Miles pode me ajudar.

-Ele é muito gente boa.

-Ele é assim com você porque vocês já ficaram. Mas sou eu o envolvido.

-Só sei que é muito drama de Flégias para um homem só. Fico imaginando se o Lycaon fosse mulher.

-Puta que pariu, seria ainda mais insuportável.

-Isso porque vocês são amigos dele. Imagino se não fossem.

-Mas nem por isso vamos aprovar tudo. Ainda mais em uma situação assim, que eu realmente não vejo necessidade.

-Ah! Vou procurá-lo, se não der certo, procuro o Miles, se eu não desistir no meio do caminho de reatar uma amizade que a outra parte não faz esforço.

-E ele ainda se atreveu a dizer que o Fiodor não se importa com as pessoas e gosta de machucar os outros, Wimber.

-Flégias reclama de barriga cheia. No fundo estou acreditando que tudo isso é apenas para ter a satisfação de um homem como o Fiodor correr atrás dele, e estou começando a não admitir isso. Até a hora que eu mandar o Fiodor ignorá-lo.

-Seria uma boa. Assim ele se toca do que fez.

-Ou não...

-Ou sim, sim. Quando ele é ignorado lambe a pessoa até não poder mais para poder ter atenção.

-Depois falo com vocês...

-Está bem. Que coisa ridícula!

Saí do quarto do egípcio com um ar de graça, os deixei conversando. Mas eu estava preocupado. Se eu chegasse a desistir e passasse a ignorá-lo, seria um extremismo desnecessário para mim, eu apenas queria conversar com ele, ouvi-lo e falar só isso.

Sabia que ele estaria em aula com o Aiacos, então eu iria até a sala do juiz para esperar a aula terminar. Já que ao contrário dele, meu mestre nos deu folga hoje, por assuntos externos.

Subi as escadas, e assim que me aproximei da sala, encostei-me à parede oposta à porta e fiquei ali esperando o Flégias sair.

O que demorou uns quarenta minutos, mais ou menos. Ele não me notou, o vi sair conversando com Sylphid de forma animada, então os segui.

-Flégias. – Ambos viraram para trás e me notaram. Basilisco me cumprimentou, mas obviamente, Lycaon disfarçou fazendo que não me viu. – Preciso falar com você.

-Vamos, Sylphid. – Pegou no pulso dele, e ambos se afastaram ainda mais de mim.

Notei que ele me esnobava. E fui ficando chateado.

Até que parei no meio do caminho e dei de ombros.

-Tudo bem, se você não se esforça, não falo mais com você, não faz questão pelo visto. – Me pareceu que ele se incomodou em ouvir isso, então virou de frente para mim. O olhei frio por um instante.

-Que houve? – Sylphid ficou perdido naquele clima.

-O que aconteceu? Eu digo. – Falei. – Flégias está com pacto de silêncio comigo. Não sei por quê. Mas estou aqui, mesmo depois dele ter dito que eu não me importo. – Olhei Lycaon novamente. – Pois bem, me dei conta de que é ele que não se importa. Tentei, viu. Sylphid está de prova.

Então, dei as costas para os dois e saí. Não gosto disso, mas sei usar da mesma atitude que fazem comigo.

-Fiodor, espera. Syl, falo com você depois, tá?

-Tá certo. – Ouvi a despedida, ouvi meu nome, mas não esperei, naquele instante eu cansei.

-Fiodor, dá para me esperar?

-Não. Vá atrás dele, não quis interromper a conversa.

-Você não quis falar direito comigo ontem, porque eu tinha que lhe dar toda a atenção do mundo agora? Está sendo injusto.

-Você já notou que todas as últimas vezes que veio falar comigo você me culpou de alguma coisa? Que eu briguei, que eu ignorei, que eu fui grosso, que eu não me importei! E que eu sou o injusto? – Por fim virei e o olhei, acho que eu estava puto. – Agora sempre que fui apontar erros seus, você simplesmente me dá as costas e vai embora. E fala que eu que não quero conversa e eu que esnobo você.

Ele ficou em silêncio, não me encarava, porém eu não consegui ler a expressão dele. Então continuei.

-Para quê todo esse doce? Toda essa frescura? Foi porque eu não notei sentimentos? Flégias, eu tratava você exatamente como o Wimber ou o Pharaó, não tenho uma bola de cristal para me fazer adivinhar que um dos meus amigos gosta muito de mim. E sabe, eu nunca impedi você de vir falar sobre isso, se não deixou claro antes, não era a minha obrigação perceber. E depois daquele domingo que você levantou e me largou na cama, eu passei a duvidar de muita coisa entre a gente, pois você me conhecia o suficiente para saber que se fosse eu dando em cima de você, não te largaria por aí. Isso foi o que mais me magoou de você. Se eu deixei você triste, então estamos quites, se é o que queria, conseguiu. E ainda mais me ignorando desse jeito... Você nem está olhando para mim enquanto falo! – Puto, irritado e sem paciência.

Eu lá, falando, falando e falando e ele quieto, quieto e quieto. Sempre disse o necessário e desnecessário e no momento que era mais conveniente, parecia que eu dava bronca em uma criança que não havia aprendido a falar.

Respirei fundo, aborrecido.

-Você realmente não quer conversa. Já entendi o recado. Só lamento que tenhamos que acabar assim, eu curtia muito ser seu amigo. – Saí da frente dele, deixando de me importar se ele estava feliz, triste, se me olhava enquanto eu partia.

Não tinha mais necessidade.

~/~

Tirei do meu bolso minha carteira, chave do carro e joguei em cima da escrivaninha de forma barulhenta. Bufei, encostando-se a ela, passando as mãos pelo meu rosto e pelos meus cabelos.

-Eu estava conversando com o ar! – Não entendi aquela reação. Seria arrependimento dele? Seriam sentimentos demais? Ou eu simplesmente deixei de significar qualquer coisa então ele desistiu de discutir?

Senti parte do meu coração ficar vazio. Gostava muito do Flégias. Mas como eu disse para o Wimber, tinha que seguir em frente.

-Está tudo bem? – Gregory entrou, mas eu não ouvi a porta se abrir.

-Não mesmo... – Falei baixo.

-Que aconteceu? Escutei lá de fora você bater alguma coisa. – Ah, eu não tinha fechado a porta.

-Acho que perdi um amigo. – Quando o olhei e sorri triste, acho que ele percebeu sobre quem eu falava.

-Não se resolveram? – Ele segurou no meu braço.

-Eu queria ter feito isso agora. E fui... Mas falei, ele nem respondeu, parecia que eu falava com uma porta.

-Ele gosta tanto assim de você?

-Pelo visto, não mais. E ele está namorando com o Miles, então... – Tentei parecer que não me importava.

-É minha culpa, não é?

-Não, Greg. Você é completamente inocente nisso.

-Quer que eu fale com ele?

-Não... Sabe... Se não era para ser, então é melhor deixar as coisas rolarem, se ele não quer nada, não vou obrigá-lo. Só sei que se eu o magoei, ele fez o mesmo comigo. – Dei um selinho no Gregory.

-Sinto muito.

-Não se preocupa. – Passei o braço em volta do pescoço dele, encostando a minha cabeça com a do meu namorado.

-Ele vai se dar conta do homem que tá perdendo na vida dele.

-Obrigado pelo "homem". – Ri.

-Ué, você não é um travesti, né? – Ele riu, quase gargalhando.

-Sei não... Aparências enganam... – Acabei rindo junto.

-Ai, você—

-Ei. – Gregory se interrompeu e se virou quando ouvi outra voz. Afastei-me dele, para ver quem era, pois pela risada que dávamos, não reconheci a voz. Então um silêncio se instalou no meu quarto.

Greg cruzou os braços, aborrecido. Flégias tinha a cabeça baixa e o olhar era tímido. E eu sabia que em mim, minha expressão era de pura mágoa. Não quis falar nada, não tinha o que falar.

Afastei da mesa e fui remexer uma gaveta na minha cômoda, como se aquilo fosse extremamente importante no momento. E o silêncio permanecia por mais tempo e aqui me incomodava.

-Você bem que podia falar com ele, sabe.

-Gregory. – Chamei sua atenção. Sem brigas. – Ele não quer, deixa.

-Foi o que eu vim fazer, beb... Gembu. – Eu notei que ele iria chamá-lo de bebê, e fiquei momentaneamente bravo. Em seguida, ouvi um suspiro.

-Depois volto, Fiodor.

Não. Não. Não. Gregory, fica. E ouvi uma porta se fechar. É ele saiu.

-Eu só estava deixando você falar. Não disse que eu sempre sou inconveniente? Por isso fiquei quieto. – Ele tinha o tom sério, mas não bravo. E senti sua voz ficar mais perto, então mudei de lugar e fui para o banheiro, fingir que procurava alguma coisa.

-Aham... – Respondi. Não ia falar mais nada.

-Queria pedir desculpas. Por mais orgulho que eu tenha... Não agi certo, você... Ainda é um amigo que eu prezo muito, por isso todas as minhas brigas... Queria saber o que você achava... Queria ouvir de você que gostava de mim, alguma coisa assim, e fiquei meio puto por só saber que magoei você. Aquele dia eu só saí para evitar confusão entre nós três. Ou nós quatro. Por mim eu não teria saído. Teria ficado um pouco mais até ao menos você levantar. Bom, agora já foi.

Não o olhei, mas novamente sua voz ficou mais próxima, e então esbarrei nele, saindo do banheiro.

-Dá para você parar de fugir de mim? Não vou atacar você nem arrancar a sua roupa. Não vim transar. Depois reclama que eu sou fresco, que eu não quero conversa.

-Você já se deu conta de que eu poderia cansar de tentar arrumar essa bagunça entre nós, já que eu sozinho fazia?

-Eu vim pedir desculpas ontem, mas você foi muito grosso! Que vontade eu tinha depois do pouco caso?

-Está vendo? Você foi bonzinho, teve boa intenção, mas eu não podia agir daquele jeito! Viu como eu disse que só eu sou o vilão?

-Estou na sua frente dizendo que eu não deveria ter feito o que fiz, por acaso você é surdo?

-Não, mas você é. Pois falei, até cansar hoje e você nem aí. Depois vem me dizer que quis deixar eu falar o que precisava. Se sou tão amigo seu assim, porque falou aqueles absurdos de mim? Porque foi abrir o bico para os amigos do Gregory?

-Eu estava com raiva!

-Não justifica. Se o Gregory realmente tivesse me deixado, o que você ia fazer?

-Se ele tivesse, com certeza lhe diria que ele não servia para você.

-Não me respondeu, Flégias. – Cruzei os braços. – Iria deixar o Miles para vir me consolar? Depois de ter dito que eu não ligava e machucava, você ainda vinha sentar do meu lado e me dar um abraço? Sejamos práticos, você quis se vingar e só está aqui, se humilhando, porque seu plano não deu certo. Queria estragar o meu relacionamento e me ver largado pelo pé na bunda. Afinal, te dei o fora, merecia um para ver como era bom, certo?

O silêncio dele foi a resposta.

-Que amigo que sou para você, se você teve a vontade de se vingar? Você ainda aprontou comigo, e eu não apontei o dedo na sua cara e ri, desejei ver sua infelicidade, e muito menos quis me vingar. Só quis ajeitar as coisas.

-Foi por isso que falei que você gostava de machucar. Eu sei que fui errado, já estou me culpando e você jogando tudo isso na minha cara. Se não aceita, só fala que eu saio daqui e você não precisa se estressar. – Ele me olhou entristecido.

-E se eu não aceitar? – O olhei, de relance.

-Paciência, saio daqui e do seu caminho.

Entrei em um dilema doloroso. Queria aceitar e acabar com aquilo. Mas também estava muito magoado para ter uma grande vontade de não aceitar, mas sei que iria me arrepender.

-Quer pensar sobre isso? Nos falamos amanhã. – Voltei a ficar de costas para ele, então senti seus braços me envolverem de forma até maliciosa, mas em um abraço.

Toquei em suas mãos e como da outra vez, me desvencilhei assim que o senti próximo.

-Então não aceita...?

-Prefiro pensar... – Ele se afastou, e saiu.

-Tudo bem, procuro por você amanhã.

Coloquei as minhas mãos nos bolsos. Nada contente com o dilema que se dissipava na talvez, pior resolução.

Se o Gregory voltasse agora aqui, eu poderia ter clareza. Mas senti que ele ficou bravo comigo.

~/~

Distraidamente, montava um sanduíche para mim. E a idéia de não aceitar era cada vez mais tentadora.

Seria um modo meu de vingança, eu acho. Sou mau por isso? Acho que sim, se eu fosse bom eu estaria no Santuário, não aqui.

Cortei o lanche ao meio, e fiquei em pé mesmo, começando a comê-lo.

-E aí? – Olhei e Wimber vinha para perto de mim. – Quis procurar você pelo seu cosmo, mas não consegui, então vim no seu lugar favorito do Castelo. – Não evitei rir um pouco.

-Servido?

-De você eu quero, mas não o sanduíche. – Disse ele, brincando. – Falou?

-Sim, discutimos um pouco, mas por fim, ele quis pedir desculpas.

-Aceitou, né?

-Está aí o problema. – Estendi o lanche para ele, que mordeu um pequeno pedaço.

-No lanche? – Perguntou, de boca cheia e eu ri de novo.

-Não, ele me deixou pensando e estou com vontade de não aceitar.

-Como é? – Ele quase se engasgou. – Depois de tudo e quando a chance, não vai aceitar?

-Wimber. – Falei, mordendo mais um pedaço do lanche. – Não é assim. Ele pede desculpa e tudo some?

-É, nisso eu concordo.

-E é aí que eu empaquei. Quero aceitar para pôr um fim, mas não quero, pois tenho sentimentos.

-Ele disse o que acontece se não aceitar?

-Que ele sai da minha vida. – Ia morder o sanduíche, mas desisti.

-É isso que você quer?

-Não quero que fiquem longe de mim.

-Então... Reconsidera. Sei que está triste, mas ao menos, libera isso de você. – Ele pegou meu lanche, cortou um pedacinho e veio colocando na minha boca. – Pelo menos, se aceitar, você pode trabalhar com isso aos poucos. Não compensa ficar brigado. E é justamente para isso que estamos lutando esses dias. – Comi o pedacinho.

-Você é bom nisso, sabe?

-Obrigado. – Ele sorriu, comendo um pedacinho também. – Não é bom para ninguém.

-Te amo, Wimber. – Ele pôs a mão no meu rosto, sorrindo.

-Agora come de novo. – Ele enfiou um pedaço grande de lanche na minha boca. – Amo você mais que tudo, Fiodor.

Tentei responder, mas minha boca tava cheia demais, então apenas ri.

~/~

"... Aceito as desculpas". Digitei e mandei para o Flégias logo após a conversa com o Wimber.

Deveria falar pessoalmente, mas ao menos o SMS acabava com a agonia dele.

Meu Morcego tinha razão. O quê eu ia levar nisso? Só mais culpa e como eu achava, arrependimento.

Depois, fui ver o Gregory. Entrei e seu quarto, e sorri ao vê-lo ali.

-Está bravo comigo?

-Eu? Por quê? – Ele estava deitado na cama, lendo um livro que não reconheci.

-Quando Flégias foi ao meu quarto...

-Não, eu só achei que teriam de ficar sozinhos. – Fui entrando e fechando a porta. – Vem cá. Acertaram-se?

-Foi difícil, mas conseguimos. – Falei ao tirar meus tênis e então deitar ao lado dele. – Estou cansado com tudo isso. – Coloquei a minha cabeça no peito dele, fechando os olhos e dando um suspiro.

-Cansado de mim? – Ele riu.

-Nunca. – Então meu celular tocou e eu fui ver, havia recebido resposta.

"Obrigado".

-Sabe... Amo você. – Gregory riu.

-Que coincidência, viu... – Depois de ouvi-lo, levantei a cabeça e me ajeitei na cama e em cima dele, jogando seu livro longe...

"A próxima parada que nós fizermos, será feita em breve. Vá dizer para todo mundo, o que nós iremos fazer.

Suba a bordo porque você não tem nada a perder.

Se você perder o trem, sinto muito por você".

~/~

Notinhas.

Subtítulo e trecho ao final do capítulo, em negrito: Love Train de Tommy Lee. É a música de créditos finais do filme Premonição 3. Bem conveniente ao final do filme, e bom, é linda e coube aqui. "Trem do Amor" que no filme é um sentido meio macabro, mas aqui é romântico, tá.

Capítulo final, mais uma história concluída. Obrigada para quem resolveu acompanhar até aqui, agradeço de coração e espero que tenha gostado um pouquinho dessa fic cheia de paixões.