Azul profundo
POV.: Fuyutski
Desisto. É impossível. Ele jamais irá me ouvir que tratar o filho com um pouquinho de respeito não ia doer. Mas, o todo
poderoso comandante-em-chefe de NERV me ouviu? Não. E agora, toda a agenda pode ser alterada porque nosso plano
depende da Unidade 01 e, ela, por sua vez depende da Terceira Criança. Em poucas palavras, o peão acaba de se tornar
um bispo.
Como sempre, deixo meu ex-aluno a sós com seus pensamentos, mas me pergunto se as coisas seriam diferentes com Yui
viva. A morte dela devastou nós dois, de maneiras diferente. Enquanto ele tornou-se o esposo eternamente enlutado que
não consegue se livrar do fantasma da mulher que, contra todos os prognósticos, amava mais que tudo; a mim ficou o papel
de tutorá-lo nessa nova jornada, assim como Katsuragi faz com sua prole. O que me traz ao real motivo de me encontrar
com a filha de minha amiga Naoko Akagi, às sombras.
- Qual a razão para esse chamado, Dra. Akagi? – perguntei
- Queria saber se você é confiável, Sub-comandante – disse a mulher, com um meio sorriso.
- Eu poderia esperar o mesmo de você? – rebati.
- O comportamento de Shinji está começando a se tornar o foco das atenções do centro de comando e temo que as ações
do piloto começam a tirar o foco do Comandante Ikari. A pergunta é: nosso foco ficará à mercê de um moleque de 15 anos?
- Seguramente que não, mas isso não é motivo suficiente para encontrarmo-nos no escuro.
- Se o fiz, foi para evitar que SEELE soubesse de nossa situação – defendeu-se a médica e cientista.
- Então talvez deveria ter me convidado – a voz fria de Gendo soou a meio metro de Akagi, por suas costas.
- Ah... Ikari – disse-me sem alterar minha voz – está atrasado. Não creio que seus pais aprovariam esse seu
comportamento.
- Você me entregou!! – gritou a loira em minha cara – você me disse que era confiável!!
- Não disse. Nem você me disse o mesmo – argumentei com a mesma racionalidade que uso todo dia – além do mais, você
não disse perguntou para quem eu era confiável.
- Gostaria de conversar à sós com a Doutora Akagi – ordenou, meu ex-pupilo – Fuyutski, nos dê licença.
- Ikari. Se eu fosse você ouviria o que ela tem a dizer. Você parece meio abalado.
Ataque à Asuka.
POV: HIKARI.
Hoje ela não me escapa. Faz uns dias que tenho que perguntar algo para Asuka que atormenta meus pensamentos. Algo
que, se a resposta for o que acredito que seja, poderá fazer com que toda essa pecha de durona e egoísta de minha amiga
vá por terra.
Ainda assim, não posso esquecer que ela é quem diz ser, ou seja: se não dá na primeira tentativa adoce as coisas e tente
na segunda. Ela não me disse nada enquanto ele esteve em coma, mas eu sabia que ela se sentia muito triste, como se
tivesse perdido parte de seu coração. Logo, quando ele melhorou no hospital, ele mandou-me chamar e, por mais estranho
que possa parecer, ele gritou com ela. Mesmo assim, eles estavam até que bem.
Daí vem o primeiro confronto com um Angel. Sei que eles não podem comentar muita coisa, mas ainda assim, ela me disse
que algo muito ruim aconteceu com Shinji. E logo após isso, eles pararam de se falar, não chegavam mais juntos às aulas e
criavam um clima pesado na sala toda, quando seus olhares se cruzavam.
Veio a confusão com a briga e todo mundo que poderia tomar partido de defender Shinji e Kensuke na diretoria foi, menos
ela. Mais uma semana de provas de sincronização, seja lá o que forem isso, e os dois ainda não voltaram ao normal.
Atualmente eles apenas se toleram e, fazem suas viagens juntamente com Ayanami ou Kensuke, que diga-se de passagem,
está com um problema dobrado, com aquelas irmãs gêmeas. É daí que começarei meu ataque.
E como eu não sou louca de ficar de frente com o furacão Sohryu, vou fazer o prato favorito dela.
Como esperado, minha amiga chega e já se joga no sofá, como se fosse a sua casa. Imediatamente eu digo:
- Limpou os pés? – caprichando no sotaque alemão que me ensinara.
- Sim, mãe, não se preocupe – responde ela alegremente.
Esse é o nosso segredo, compartir as coisas de sua vida na Alemanha é a única maneira de a grande, auto-suficiente e
egocêntrica Asuka Langley Sohryu voltar a ser uma garota comum. Pelo que ela me disse, nem Misato sabe como manejá-la
e, já que minha natureza já é meio mãezona mesmo, acabamos por tomar isso como nossa senha, diária para quando
estamos sozinhas.
- Asuka, que tal colocar a mesa para variar? – continuei o jogo.
- Para você mudar as coisas de lugar e me chamar de desleixada? Não, obrigado – retorquiu minha amiga.
- Caso não faça, hoje é o dia de castigo – joguei a cartada – vai ficar ou encarar?
- Seus castigos não são de nada mesmo. Prefiro pagar o preço.
- Ótimo! Esperava que dissesse isso! – respondi com meu melhor sorriso à lá Touji.
Isso não passou despercebido por ela, mas como sempre, não disse nada. Somente me olhou e, enquanto me preparava
para ir ao ataque, chegaram minhas irmãs, Hika e Saki. Saki é a mais velha e conta com 21 anos. Trabalha como produtora
para a rádio New 3; conhecida por ser rígida porém generosa com o resto da equipe, já esta cotada para assumir a gerencia
de produção da rádio após dois anos lá. Já Hika é três anos mais velha que eu e já se prepara para prestar arqueologia
forense na Nova Toudai. Dona de uma atitude que lembra muito a comandante Katsuragi, no humor e no modo de ver a
vida, e deu-se por missão de vida, fazer contraponto com Saki. Ambas já se sentiam cômodas com o jeito de ser de Asuka,
respeitavam sua maturidade pretensa e não a irritavam mais que o necessário. E, como minhas irmãs, tem os mesmos
genes autoritários que eu, preciso cuidar para que eu não diga nada que possa colocar Asuka em má situação... ou fazer
justamente isso.
- Olá garotas, como foram nas aulas hoje – pergunta Saki.
- O que nossa adorada irmã quer dizer é: muitos gatinhos na escola? – chega Hika de supetão, como um furacão e, olhando
para minha cara, diz sorrindo – já lavei as mãos, mãe.
- Deixe-me ver... Lave de novo – disse, entrando no jogo – Saki, venha se sentar.
- Vocês não responderam minha pergunta, garotas. Como foi o dia de vocês?
- Modorrento. Um tédio. Ridículo como sempre – disse Asuka.
- E os gatinhos? Algum partido interessante? – disse Hika.
- Naquela escola não tem ninguém que mereça uma segunda olhada – responde minha amiga.
- Nem uns certos amigos de vocês? – inclinou-se sobre ela, Hika.
- Se você chama um nerd e um fracote de partidões, temos os membros dos três patetas – e, ouvi-la dizer isso, fez com que
algo estalasse dentro de mim.
- Com licença – disse apressada, com indisfarçável voz de choro.
Cinco minutos depois, me refiz e voltei para a sala, encontrando uma discussão entre Hika e Asuka de dar medo. Cheguei
até a cadeira onde estava Saki e perguntei-lhe: - O que houve aqui?
- Hika perguntou para Asuka se Shinji era bonito e ela negou. Logo depois perguntou se ele era inteligente e, novamente
ela negou. Por último perguntou se ele era virgem e, como Asuka não respondeu nada, ela decidiu que sim e disse estar
disposta a tirar a virgindade de Shinji. A partir daí, Asuka explodiu – disse Saki, com evidente senso de humor
- Que tal se você parar de agir como uma namorada enciumada só para variar? – gritou minha irmã com evidente enfado.
- O que você está insinuando? Meu Deus, eu não fazia idéia que uma garota pudesse ser tão indecente! – vociferou
Asuka – Dá muito bem pra fazer par com o pervertido do Shinji!!
- O que eu queria desde o princípio, se você não quisesse exclusividade sobre ele, o que nos leva à pergunta de um milhão
de dólares: Asuka, por que você está com ciúmes dele? Pelo que eu vi nas fotos dele, até que ele é um partido
interessante... muito fraquinho, mas com mais potencial do que o Suzuhara...
Novamente a presença de Touji era requerida na discussão por pessoas que pareciam não saber quem foi ou tudo o que ele
significava para mim. Não é que esteja esperando que ele volte a viver para ser feliz, mas ainda é muito recente para ficar
ouvindo elas se referindo a ele como se fosse uma pessoa distante.
Saki percebe meu estado e se levanta, no melhor estilo Horaki de ser: cala Hika e Asuka com um tapa em cada. As duas
estavam impactadas pela reação dela e, se eu esperava que Hika irritasse Asuka quando o assunto começou, jamais
esperaria que a mais séria de nós perdesse a cabeça.
- Agora chega vocês duas!! Queiram ou não, vocês irão me ouvir. Hika, você primeiro: não tem um pingo de vergonha
de chegar tão longe para fazer uma piada? Para provar seu ponto de vista, você nem percebeu que estava ferindo os
sentimentos de nossa irmã?
E, novamente entrei em foco da história, mas apenas para ilustração, pois se eu pudesse impedir, aquelas três mulheres
jamais veriam como a simples menção de meu amado, me devastou. Vi duas garotas bastante apenadas, me olhando como
se eu fosse uma inválida. E Saki, voltou à carga:
- Agora que eu tenho a atenção de vocês, pergunto se isso tudo é realmente necessário? Vocês transformaram este
apartamento em um ringue. Já posso até ouvir alguém anunciando: "de um lado a garota que se acha eternamente
engraçada, mesmo passando por cima do sentimento alheio, palmas para Hika Horaki" e "desse lado, a garota que se acha
um gênio e superdotada, mas que no entanto, não consegue nem ver o óbvio de estar apaixonada por um colega de escola,
palmas para Asuka Sohryu"...
- EI! – gritaram as duas ao mesmo tempo.
- Não... me... interrompam – gritou de volta Saki, calando-as com um olhar gélido, sacou o telefone e fez algumas ligações.
Dois minutos depois ela disse – pronto! Está tudo armado! Já que vocês gostam de brigar, reservei o ginásio municipal para
vocês duas e a rádio vai transmitir. Agora já podem resolver suas diferenças. Espera... já sei – e olhou sarcasticamente para
as duas – Hikari, pode me passar o telefone de seus amigos?
- O que? – perguntei realmente surpresa.
- Podemos chamar um deles para ser o juiz e vamos chamar o garoto Ikari, para ser o prêmio. Isso deve dar para elas um
gostinho do próprio remédio.
Confesso que adorei ver a cara de Hika. Embora ela falasse muito e tivesse um jeito despachado de ver a vida, era tímida
quando gostava de alguém e havia um garoto que trabalhava na rádio, Josh, o assistente de Saki. Por sua vez, Asuka não
ficou muito atrás. Acredito que ela pôde se imaginar agüentando as piadas dentro e fora da escola, já que se Shinji fosse o
premio, fatalmente Kensuke seria o juiz, ou seja, meia hora depois, toda Tókio 3 estaria lendo o resultado disso no blog do
Ken, que fazia um relativo sucesso entre a galera que gostava disso. Minha irmã olhou para elas e disse:
- Claro que isso pode ser resolvido de outra forma, se vocês se desculparem uma com a outra, comigo, com Hikari e
resolverem colocar em pratos limpos toda esta história.
Angel Delivery
POV.: Asuka
Quatro horas. Um sermão de quatro horas. Ninguém merece isso. Quando sua hora de almoço acabou cheguei a pensar que
meu sofrimento tinha acabado. Ledo engano: ela simplesmente ligou para seu emprego e falou que estava se sentindo mal,
tirando assim a tarde de folga. Nessas horas eu quase desejo que meu celular toque e que seja um Angel vindo destruir
tudo. Pelo menos uma coisa é certa, consegui acertar minhas diferenças com Hika e pudemos pedir desculpas para Hikari.
Realmente preciso cuidar de ligar o cérebro antes de abrir a boca, afinal, foi isso que me colocou nessa encrenca. Tanto se
eu tivesse visto que era uma piada, como se tivesse admitido o que sentia para mim mesma, tanto o afastamento de Shinji
quanto esta situação teriam sido evitados. E é esse o problema. Eu ignorei isso tempo demais. Mesmo quando vi ele ser
atropelado, ainda sofrendo com isso, eu ignorei e tentei me fazer de durona. Quando penso no quanto dificultei a vida para
ele e, por conseqüência, para nós dois me convenço que não seria demais se ele realmente me odiasse. E isso dói muito. Eu
entendo que sempre tive um posto para homem ideal, mas a verdade é que nem Kaji alcançou esse patamar. Não seria um
garoto chorão, tarado e burro que o ocuparia.
Mas ele o fez e com honras, devo acrescentar. Quem diria que aquele medroso chorão pularia em um vulcão ativo sem
proteção para me salvar? Quem diria que ele iria combater um Angel sozinho apenas para me provar estar errada? Quem
diria que ele aceitaria todas as minhas manias, que não são poucas, apenas para evitar que eu me irrite? Quando ele foi
atropelado, o sorriso que ele deu foi algo que remexeu minha alma. Parecia entendimento e perdão. Por tudo que ele
passou e por tudo que fiz com que ele passasse.
Nessa hora ele disse que ainda não entendi, mas assim que conseguir me acertar com ele, vou querer saber o que ele
pensou. Na verdade, vou querer saber tudo dele.
- Asuka... Asuka!! – sacudiu-me Hikari, visivelmente preocupada – Seu celular está tocando.
Peguei o aparelho e ouvi a suave voz de Maya Ibuki – Srta. Sohryu, sua encomenda chegou. O corrier estará aí em 10
minutos.
Tudo o que eu precisava. A encomenda significava o surgimento de um Angel e o corrier é a carona que me levará para
NERV. Se eu soubesse que os malditos Angels atendessem a pedidos, teria pedido antes do sermão da tarde. Olhei para as
irmãs que estavam esperando o fim do telefonema para continuar a conversa. Me virei para Hikari que assentiu com o olhar,
sabendo de antemão ,o que estava acontecendo.
- Vocês três dirijam-se para o abrigo mais próximo.
- Mas não teve nenhum aviso – ponderou Hika.
Foi só terminar de falar e pudemos ouvir a sirene ao fundo, avisando que o assunto era sério. Saki, enquanto isso, dava
alguns telefonemas para avaliar a situação e apressar dados sobre a cobertura.
- Asuka, você vai ficar bem? – perguntou-me Hikari.
- Não se preocupe. Voltarei a dar notícias em 3 ou 4 horas, como sempre. Nada além de chutar o traseiro de um Angel, como
sempre.
Uma falta por demais sentida
POV: Rei
Estou no Geofronte, ajustando o plug suit em companhia da segunda criança e nada, absolutamente nada, é dito entre nós.
Existe um muro que ela não consegue ultrapassar para manter uma conversa civilizada comigo. Não acho que ela irá
conseguir fazê-lo enquanto existir tudo isso à nossa volta: os Angels, os Evas e, principalmente, Shinji Ikari. Não me
engano, ela também sente algo por ele, só não sei o que é... se bem que não consegui chegar a fundo sobre de que forma
eu me sinto em relação a ele. Tudo que sei é que nessas semanas em que ele esteve ausente, me peguei olhando para seu
lugar, como se precisasse vê-lo e minha vida dependesse dele. Encontrando com ele por acaso nos corredores de NERV,
indo ou voltando das provas de sincronização. Almoçando com eles a convite da Major Katsuragi. Tudo isso fez com que eu
quisesse ainda mais proximidade com ele. É estranho pensar nisso, mas sinto que ele é parte de um quebra cabeça e se eu
descobrir porque ele me atrai tanto, compreenderei algo importante sobre mim.
- Esta dormindo, garota maravilha? – a segunda criança desfaz minha linha de raciocínio, com esse chamado.
- O que quer? – respondo como se nada tivesse acontecido.
- Fomos enviadas direto à baia de lançamento. Misato nos passará as ultimas informações de lá.
Segui a segunda em direção aos elevadores, até que ela parou e dando uma olhada para o corredor em que vínhamos,
perguntou?
- Onde está "Shinji, o invencível"?
- Ele esta vindo de Tókio 2. estará conosco dentro de uma hora.
- E como você sabe? Esta seguindo seus passos, ou algo assim? – disse-me a garota com franca ironia. Em um primeiro
momento pensei que ela tivesse descoberto alguma coisa, mas depois voltei ao jogo.
- Perguntei para a Major – disse, sem passar emoção.
- E porque perguntou? – retorquiu-me, já no elevador que levava às baias de acesso ao Eva – Digo, porque esse interesse
repentino no que ele faz?
- Essa pergunta eu também posso fazer para você, Sohryu. Por que este interesse no que eu faço e, principalmente, no que
Shinji faz? – disse esperando que isto acabasse com a discussão. E, como esperado, deu resultado.
Após subirmos no entry plug, a Major esta passando algumas informações adicionais, sobre quais os armamentos que
iríamos utilizar. E foi a piloto Sohryu que começou o interrogatório de sempre:
- Misato, qual a situação?
- O Angel continua em órbita estável, acima de Tókio 3. Por causa disto, não possuímos muitos detalhes sobre sua anatomia
– respondeu a Major, pela tela do entry plug -. O MAGI não conseguiu muita coisa, com o acesso dos satélites próximos ao
alvo.
- E por isso nos estamos usando armas de longo alcance? Que covarde!! Eu gostaria que ele descesse aqui para que eu
pudesse chutar seu traseiro!
- Agradeça que graças à sua distância, você não precisará se expor ao perigo. Esqueceu o que aconteceu durante a batalha
do último Angel? Vocês duas foram pegas desprevenidas e se Shinji não tivesse tomado a ofensiva, poderíamos estar
mortos agora.
- E por falar nisso Misato, o que o baka está fazendo em Tókio 2? Ou é uma missão importante demais para que ele nos
conte – disse em tom de burla.
- É um assunto pessoal. Se ele quiser que você fique sabendo, você ficará. Assim que fizerem as pazes – alfinetou nossa
superiora.
- Nooooooosssaa. – cuspiu de volta a piloto, com o rosto vermelho de raiva – já que você está tão na defensiva, devo supor
que, provavelmente, ele está lá em Tókio 2 em um encontro amoroso...
Normalmente, ela continuaria com o ataque de cinismo que todos já conheciam, mas notou que a Major estava
evidentemente ruborizada, e com um olhar culpado. Como se houvesse deixado escapar um segredo oculto. Será que
Shinji? Fiquei sem fala e vejo que Sohryu pensou a mesma coisa, pois imediatamente fechou a transmissão na cara da
Major.
Graças à conexão feita com a Unidade 02, pude ver que ela começou reagindo bem, depois foi se pondo cada vez mais
neurótica, até que percebeu o sinal para a Unidade 0 aberto. Se aproximou lentamente e disse como um sussurro: - Saia do
meu caminho, garota maravilha!
No centro de comando, todos estavam atarefados em seus trabalhos. Nesse clima de concentração máxima, a Major
perguntou para Maya:
- Onde está Ritsuko? Ela já deveria estar aqui.
Como se atendesse o chamado da colega, a Dra. Akagi entra pela porta, escoltada por dois agentes de segurança da Seção
2 e com as mãos algemadas. Ainda assim, mantinha uma posição de autoridade perante a equipe. Aproximou de sua
assistente e, sorrindo, perguntou:
- Qual a situação, Maya?
- Padrão azul confirmado. Angel avistado a 18.000 km de altura, em órbita estacionária a Tókio 3. O MAGI não pôde fazer
maiores investigações, devido a incapacidade de nossos satélites no espaço.
Virando-se para a Major, a Dra. disse:
- Misato, qual a situação dos pilotos?
- Asuka e Rei estão prontas para interceptação com o rifle de positrons concluído e o seu projeto modificado com maior
poder de fogo.
- E Shinji? – interessou-se a cientista.
- Shinji está a caminho. Quando soamos o alerta ele estava nas proximidades de Tókio 2. deve chegar aqui em 45 minutos.
- Major, Doutora. Shinji está em uma ligação agora mesmo – interrompeu Aoba.
- Coloque-o na linha, Shigeru. E transmita para os dois Evas. Isso podem fazer com que elas se acalmem.
Nesse momento, nossa estrategista nota a situação da cientista que, apesar do profissionalismo, encontrava-se um pouco
mais magra e também, levemente desgrenhada. Sua roupa estava um pouco suja. E olhando para as algemas da cientista,
a Major disse – É uma nova brincadeira entre vocês? – perguntou olhando para os agentes que a acompanharam.
- Fica quieta!! – esbravejou a loira.
- Misato, Qual a situação? – nesse instante, soou uma voz que me fez perder o fôlego.
- Ainda inalterada. Estamos esperando o melhor momento de agir, mas pelo visto o Angel não precisa descer aqui. Maldito
confiado! – esbravejou a coordenadora de táticas de NERV.
- Compreendo, devo chegar em 15 minutos – respondeu o Shinji.
- Como você esta vindo? Pensamos que as estradas estariam cheias e onde você estava, não havia como chegar à estação
de trem – perguntou Hyuga.
- Simples. Aluguei uma bicicleta no arredores da cidade e vim pedalando. Não se preocupem. Ainda chegarei inteiro e em condições
de acompanhar o ritmo da batalha.
- Suas palavras estão sendo transmitidas para dentro dos Evas. Alguma nova estratégia maluca e autodestrutiva como da
ultima vez para que saibamos, Shinji? – ralhou a oficial.
- Já pedi desculpas por aquilo. Rei?
- Sim, Ikari-kun.
- Outro dia, estudando os projetos com Makoto, chefe dos técnicos dos Evas, notei uma falha em um relê neural, em sua perna
direita que te dará um atraso de 0,7 milisegundos de resposta. Nós pedimos os componentes para a fabricação de uma estrutura
melhorada, mas ainda demorará duas semanas. Para evitar isso, aproxime-se pelo flanco esquerdo – disse.
- Entendido. E, obrigada, Ikari-kun. – disse disfarçando o melhor que pude minha alegria. Ele se preocupou por mim.
- Asuka? – novamente, a voz de meu companheiro de destino chamou minha atenção. Mas não mais do que a resposta da
Segunda Criança.
- Não fale comigo, seu inútil projeto de homem. E, então como foi nosso Casanova? Aposto que se divertiu muito em seu encontro,
enquanto nós aqui, que poderíamos aproveitar nosso dia; não pudemos por que o "invencível Shinji" não esta aqui para salvar as
donzelas em apuros. Pra mim, chega! Eva 02 lançar!
Olhar interior
POV: Shinji
A ligação caiu. Asuka me disse uma série de coisas e cortou a ligação. Meio minuto após isso, vejo aparecer um gigante
vermelho e penso: "merda". Não vou chegar a tempo. O que levou ela à essa decisão? Vejo-a pegar a versão finalizada do
rifle com o qual atirei no sexto Angel. Logo vejo Rei se dirigindo para o flanco esquerdo, como eu havia pedido. Pelo menos,
alguém naquela bodega me ouve.
Vejo assustado como o gigante vermelho se contorce ao receber o raio de luz, mas este não esta derretendo a couraça
protetora. Isso significa que o ataque não é externo... Asuka!!
- Misato, qual a situação dela? – grito assim que sou atendido novamente.
- A situação é mal. O Angel está fazendo um ataque psíquico. Asuka esta tendo sua mente escaneada. Rei atirará agora com o rifle
de positrons modificado.
Me assusto com o tamanho do facho de luz que segue em direção ao espaço. Espero alguns segundos pela reação do
Centro de Comando, mas como nada nessa vida é fácil, ouço os lamentos.
- Misato?
- Não conseguimos atravessar o campo A.T. do Angel. Espere um momento, Shinji – quase como em um sonho, a ouço gritando
com o maldito – Mas comandante!! Se Adão e Eva entrarem em contato, isso ocasionará o Terceiro Impacto.
Olhei para cima e vi a imagem dos Evas em situações diferentes. Enquanto o Eva 02 se contorcia em uma agonia
inexplicável, seu companheiro deixava lentamente o campo de batalha. Precisava fazer alguma coisa por ela.
- Shigeru, triangule minha posição e diga: qual a rota de saída mais próxima para o Eva? – perguntei ao técnico.
- É a saída 4 E, localizada a cerca de quinhentos metros à sua esquerda – respondeu-me devidamente.
- Me mande a Unidade 01 por aqui e eu resgato Asuka.
- Ignore esta ordem – a voz imperiosa de Gendo Rokobungi soou fazendo o caos parar. – não arriscaremos outro Eva até
eliminarmos o Angel.
- Não me force a fazê-lo, maldito!! – gritei para todos ouvirem – e ouça bem. Esse é meu último aviso. Me envie o Eva para
que eu possa salvar Asuka ou eu mesmo o farei.
- Não podemos perder tempo com bravatas estúpidas. Desligue o telefone. – ordenou, o comandante e logo em seguida, a linha
caiu. Vai ser do jeito difícil, mesmo. Disco outro número.
- Alô. Seja quem for é um péssimo momento pra falar comigo – a voz grave contestou-me com grosseria. Nada que eu não
esperasse.
- Makoto, é o Shinji.
- Onde diabos você está? Estamos com tudo preparado para sua chegada – respondeu o chefe de manutenção, do modo mais
suave que pôde, o que no caso dele, ainda era bastante ríspido.
- Não tenho tempo para amenidades. Você está perto da Unidade 01? – perguntei.
- Estou ao lado dela, mas o que isso tem a ver com sua chegada? – disse o Chefe de Manutenção dos Evas, sem ver nenhuma
ligação;
- Por favor, ponha no viva voz e lembre-se: a ignorância é uma benção – disse, respirando fundo para o próximo ato. Não
queria ter que fazer, mas não tenho escolha – PRECISAMOS AGIR – gritei a todo pulmão.
Oops: eu fiz de novo
POV.: Aoba Shigueru
Um alarme começa a tocar no Centro de Comando. Olho para os lados e procuro a fonte do problema. Nesse momento ouço
a voz de Maya e, como sempre, seu tom é rápido e assustado. Não é a toa que Hyuga e eu a chamamos de coelhinha. Tá...
tem outros motivos também.
- Eva Unidade 01 está entrando em atividade!!
- Não pode ser – interrogou a Dra. Akagi, assumindo o monitor de Maya e, mesmo teclando algemada, ela o faz com uma
segurança e velocidade impressionantes – Ele está em berseck!!
- Qual a posição de Shinji? – pergunta a Major.
- Ainda na superfície – respondo.
- Unidade 01 começou a usar seu campo A.T. para acionar o elevador – gritou também Hyuga, dessa vez.
Nesse momento tive uma idéia: Shinji queria que seu Eva estivesse perto dele, então porque eu dissimuladamente, não
chego e...
- Ei, Hyuga, pra que serve esse botão? – sussurro, me lembrando de um desenho que vi quando era garoto.
- O que você esta fazendo? – sussurrou ele quando eu apertei o botão – este é o controle de rotas dos tubos de saída dos
Evas, você sabe muito bem disso.
Confesso que adorei ver a cara dele, quando apertei o botão porém, a que ele fez quando viu a rota que o Robô
descontrolado faria, foi ainda melhor.
- Você não fez o que eu penso que fez, fez? – sussurrou-me incrédulo.
- E o que seria? O que você está dizendo? – fingi inocência.
- Você mandou um Eva descontrolado para onde Shinji está esperando ele. Já pensou se, por acaso, ele é esmagado pelo
Eva?
Confesso que não pensei nisso, mas após um segundo de tensão eu disse: - O Eva teria que sair em algum lugar, certo?
Além do mais, se Shinji já dominou o Eva 1 em situações piores. Vamos ver o que ele faz agora.
Alguns gritos se fizeram presentes quando o descontrolado gigante saiu, não a esquerda como, disse a Shinji, mas 2
quilômetro à frente. O satélite mostrou como a fera parou de agitar-se na hora que chegou à superfície, porém com o Campo
A.T. impedindo a recuperação pelo elevador. Também vimos como Shinji se aproximou da fera, largou a bicicleta e subiu os
15 metros de Eva por uma escada, na lateral da proteção do robô. Quase caiu duas vezes, mas chegou ao entry plug, que
saltou pra fora imediatamente. E, 20 segundos depois sumiu.
- Oops! Eu fiz de novo! – Sorri para Hyuga.
- Isso que sai da sua boca é Britney Spears? – perguntou meu amigo.
- Eu sou do rock, mas o pop é como um metrô lotado. Não se pode fugir dele! – disse sacana. O que se pode fazer?
A tênue linha da realidade
POV: Shinji
Preciso me lembrar de comprar um presente para o Shigeru depois dessa. Ele me mandou o Eva perto de eu estava e ainda
tirou o seu da reta, por não enviá-lo onde eu o queria.
Escalar até a cabine foi mais difícil que eu pensava. Odeio essa escada sem segurança, mas agora que já cheguei, sinto
como estou familiarizado com isso tudo. Só não consigo definir se essa familiaridade é anterior ao acidente ou devido a ela.
- Mãe! Preciso das comunicações. Eu assumo daqui em diante.
Ela entendeu e deixou que eu ficasse com os comandos novamente. Abri o canal com o Centro de Controle e pedi para
liberarem as travas.
- Negado – disse Rokobungi – Agora que você o controlou vamos baixá-lo.
- Lembre que eu pedi com educação.- respondi, como se não fosse nada importante.
Imediatamente, quebrei a contenção do elevador e saí a caminho da Unidade 02, abrindo comunicações com Asuka.
- Asuka!! Você está me ouvindo? Responda por favor!!
- Baka Shinji – responde em um meio sorriso, apesar de ter feito um esforço enorme para isso – você é real?
- Tão real quanto sua mão. Olhe para ela – pedi, observando a tela – pode tocá-la? Senti-la? Sou tão real quanto isso e
estou indo tirar você daí.
- Não venha!! Ele esta desenterrando o que tem de pior em mim! Toda a dor. Todo o sofrimento. Isso dói! Dói muito!! Não
quero que você passe por isso, também.
- Asuka, por favor, preste atenção. Você é muito mais do que essa dor. A dor que faz parte do seu passado é sua e de
ninguém mais. Mas não precisa ser o ponto chave da sua vida. Todos nós passamos por sofrimentos. O que fazemos com
nossa vida depois disso é o que importa. Você irá sentir um golpe. Depois disso, tente mexer o Eva até o elevador, certo?
Não esperei resposta. Entrei no facho de luz e, pegando um braço do Eva 02, joguei-o na direção do elevador por onde Rei
tinha baixado, esperando que se Asuka não pudesse mover o Eva, Rei a retirasse do campo. Ou pelo menos essa era a
idéia original.
Quando entrei no raio, a luz oscilou por um segundo e entrou em ressonância com nossas mentes. E eu vi tudo o que Asuka
viveu. Deus, e eu que pensei que minha vida era horrível. Tanta dor. Me admira que ela tenha passado por isso e tenha a
personalidade forte. Mas não é hora para isso. Tenho que prosseguir com o plano.
Assim que retirei o Eva de dentro do facho, senti uma nova calibração da luz e vi o Angel partindo com tudo para cima de
minha mente. Tentei levantar o campo A.T., mas como no caso de Asuka, ele foi tão útil quanto um saco de areia no deserto.
Foi quando ouvi uma voz em minha mente:
- Se continuar com isso, só vai piorar o seu sofrimento – disse a voz, estranhamente calma.
- Quem é você? – gritei. Mas depois de pensar melhor, entendi que só preciso pensar para me comunicar e, me acalmando,
retomei a conversa – Você é um dos seres que chamamos de Angel?
- Sim. E se você continuar com isso, só aumentará o seu sofrimento.
- A natureza do homem é se proteger de qualquer invasão. Chama-se instinto de sobrevivência e, nós humanos, achamos a
intrusão da mente, a maior violação.
- Eu não estava falando só disso, mas essa era uma dúvida que não pude sanar com aquela garota. Mesmo assim, obrigado por
avisar que vocês temem o meu poder – disse sarcasticamente, o Angel que surgiu com a aparência perversa de meu pai.
- Se pensa que, com essa aparência, vai colocar algum medo em mim é melhor esquecer. Isso só me dá maior vontade acabar com
você.
- Sim, mas enquanto você está aqui, seu corpo está lentamente enfraquecendo devido a minha influência em sua mente, não
percebeu?
- AAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!! – gritei com todas as minhas forças. Ao longe ouvia os gritos de
Misato e Maya, ambas me chamando.
- Você vai ser destruído – disse fracamente – não vamos... nos render...
- Pode ser, mas já notou que cada um de nós é mais poderoso que o outro? Espero que os lilins possuam inteligência para perceber
isso. E você nunca pensou que poderia haver algo maior que nós? Honestamente, você não leu muito as escrituras, certo? –
definitivamente ele está decepcionado com isso – Espero que você não queira que eu lhe dê uma aula sobre isso, quer?
- Difícil...coordenar...mente...o q...você... fez? – perguntei
- Esse é um efeito secundário de sua primeira experiência mental. Você fica à mercê de alguém mais experiente, no caso eu e,
desse modo posso controlar a ordem ou o caos de sua mente e transferi-lo para seu corpo físico – falou o Angel, retomando o tom
divertido na voz.
Notei-o se aproximando sem nenhuma cerimônia, quase dançando um balé etéreo. A leveza com que ele se movia, contrastava
com a sujeira que ele estava fazendo em minha mente. Ele ficou frente a mim e disse:
- Reconheço que você foi um desafio maior que aquela garota. Por causa disso, vou poupar você de mais esse sofrimento, se
quiser. Se você quer descansar, fugir disso tudo, só tem que apertar minha mão, e eu farei com que você pare de sofrer – disse,
me estendendo a mão.
Sem duvidar um instante eu a apertei com força. Ele tentou se soltar, mas eu o agarrei mais forte e com o meu melhor sorriso,
calmamente falei:
- Te peguei!
Notas do capítulo: Azul Profundo é uma referância à "Deep Blue" computador desenvolvido pela IBM para derrotar o
CAmpeão Mundial de Xadrez, Garry Kasparov. Tal feito foi considerado um marco no avanço tecnológico, mas diferente de
Kasparov, a IBM negou-se à uma revanche, o que levanta a tese de alguns que alegam que a IBM havia batizado a água de
Kasparov. Fanfic também é cultura e teorias de conspiração, rs... Achei que ficaria perfeito com a sabedoria de Kouzo
Fuyutski.
"Oops, eu fiz de novo": apesar de concordar com Aoba, que a música pop é como o metrô lotado, confesso que sempre me
lembro dessa frase com a piada de Austin Powers 2, onde ele pira os Robôs Britney com uma dança "erótica" patenteada.
Agradeço a leitura, Arthur!
nos lemos.
Fan Surfer
