Alguns meses depois da noite do crime...
Eleazar caminhou pelo corredor e deu leves batidas na porta do escritório de Tânia, após ouvir um "entre" ele a abriu e em segundos estava sentado de frente para a cadeira da loura.
— Preciso de ajuda.
— Oi pra você também. — Brincou.
— Estou preocupado com a Bella. — Tânia franziu o cenho, apesar de pouco tempo, ela já gostava dela, mesmo a pequena não deixando que ela se aproximasse muito.
— O que houve? — Preocupou-se.
Ela sabia que Eleazar estava passando por uma barra, como se já não fosse difícil o suficiente perder a irmã caçula, ele ainda ficou com a tutela da sobrinha que presenciara o assassinato dos pais. A vida do amigo havia realmente virado de cabeça pra baixo e sempre que ele precisava desabafar ou precisava de ajuda, ela estava ali, disposta a fazer o que fosse preciso.
— Ela continua com a ideia de que eu a treine e mesmo eu dizendo não e não, ela insiste, tenta me convencer de todas as formas possíveis. — Inclinou para a frente, apreensivo. — Tenta até me manipular.
Tânia teve que sorrir com essa.
— Como assim manipular, Eleazar? Ela só tem seis anos.
— Sete. Pelo que me consta eu esqueci o aniversário dela. — Encostou as costas na cadeira e suspirou, sentindo-se um derrotado. — Eu sou um fracasso, Bella não está em boas mãos, Tânia.
— Ei, para de falar isso. — Ficou séria. — Tudo bem, podemos fazer uma festa pra ela.
— Não, ela não quer. Sabe, ela até sorriu com essa proposta. — Ele riu com a lembrança, o sorriso dela era lindo, parecido com o de sua irmã.
Tânia viu os olhos dele brilharem.
— Isso já é um avanço. — Apontou.
— Foi o que eu pensei. — Se levantou. — Mas antes disso eu a peguei socando um travesseiro como se fosse um saco de areia, sabe? Ela pendurou ele na porta do guarda-roupa. Estava fazendo agachamento também. — Espalmou as mãos sobre a mesa da loira. — Deus, Tânia, a garota está treinando sozinha. Ela é só uma criança.
Tânia não entendia muito sobre crianças, mas estava na hora de abrir os olhos do amigo para uma coisa que ele já devia ter feito.
— Eleazar, você não acha que deve leva-la em um psicólogo? — Vacilou na última palavra temendo pela reação dele.
Ele caiu na cadeira mais uma vez e passou as mãos pelo rosto.
— Por que eu não pensei nisso antes? Com certeza ela precisa de ajuda de um especialista. — Suspirou aliviado, colocando cada gota de esperança nisso. — O que ela viu foi muito perturbador. — Se levantou, apontando o dedo para a amiga e sorrindo. — Você é incrível. Depois te pago um café, beijo. — E saiu.
Tânia sorriu boba, Eleazar era... maravilhoso.
— Você acha que eu sou louca? — Perguntou irritada.
Bella terminava sua lição de inglês na escrivaninha – que ganhara do tio – em seu quarto, quando Eleazar tocou no assunto do psicólogo.
— Claro que não, Bella. — Ele estava em pé, no batente da porta. — Psicólogos apenas te mostram como jogar pra fora o que você sente, te dão conselhos, te ajudam. — Passou a mão, nervoso, pelo cabelo. — Pare de me olhar assim, garota. — Bella havia semicerrado os olhos e deixado os lábios em linha reta, notou que quando ela ficava desgostosa com alguma coisa fazia aquilo ou o ignorava.
— Não vou.
— Vai sim.
— Por que você nunca é legal comigo? Por que você não pode me ajudar? Não preciso de uma pessoa pra dá para eu conselhos. — Com o tempo Eleazar notara também que ela trocava muito os pronomes "eu" e "mim", era engraçadinho de ouvir.
— Eu sou legal com você, Bella. — Passou a mão sobre a cabeça dela, bagunçando seus fios rebeldes. — E é por isso que vamos ao psicólogo na quinta-feira depois da escola.
Ela voltou a fazer sua lição, ignorando-o, e ele sabia que não conseguiria mais nada dela.
A sala era grande e clara. Bella estava sentada em uma poltrona bastante confortável e a sua frente uma moça chamada Heide Seear – sua psicóloga -, muito bonita, a fitava com um sorriso gentil nos lábios.
Eleazar havia explicado para a psicóloga a situação de Bella e seu comportamento, então Heide já estava por dentro do caso dela.
— Quer falar a respeito do que viu?
— Não. Você quer falar a respeito desse desenho na mão? — Rebateu com outra pergunta.
Heide tinha uma tatuagem no pulso esquerdo.
— Isso não vem ao caso, Bella. O assunto é você, não eu. — Tentou soar educada.
Bella não queria conversar, ela queria passar o final de semana inteiro ignorando seu tio por força-la a fazer aquilo. Ela não era louca, ela viu os pais sendo mortos e iria se vingar, ela queria fazer eles sofrerem também, mas pra isso ela precisava saber se defender e ele podia ensiná-la, mas não queria e aquilo a deixava muito irritada.
— Seu tio disse que está fazendo teatro. Você gosta?
— Gosto, é bom terpretar. — Jogou de ombros e Heide sorriu divertida.
— E você tem amigos? Como eles são?
Sim, era bom interpretar, ela estava aprendendo muitas coisas legais e na aula a professora disse que quando interpretamos podemos ser quem quisermos e ela notou que Kate, uma das alunas de sua classe, conseguia tudo o que queria com seu jeitinho, então ela pensou que talvez pudesse ser a Kate para conseguir o que queria com seu tio, mas não havia funcionado, bem, não com o tio, mas ela conseguiu um pedaço extra de bolo no almoço do colégio interpretando a colega, notou que fora muito útil, só precisava treinar mais com seu tio.
— Claro que tenho amigos, eles brincam comigo. — Mentiu, sorrindo o sorriso de Kate.
— Isso é bom, querida. — Heidi devolveu o gesto. — E seu tio? Você gosta de morar com ele?
Ela preferia os pais, sem dúvida! Seu tio não levava o menor jeito, mas ela gostava quando ele deixava ela jantar sorvete às vezes ou comer só pasta de amendoim no café da manhã. Certo, para ela ele levava todo o jeito, mas se pudesse escolher ficaria com os pais com certeza, mas... mas não era possível.
— Eu gosto dele. Por que quer saber?
— Só quero te conhecer.
— Por quê?
— Por que acho você uma garota muito esperta e linda, acho que podemos ser amigas. Você quer ser minha amiga?
— Não.
Heide arqueou as sobrancelhas surpresa, mas logo se recompôs.
— Por quê?
— Não quero. — Desviou o olhar para outro ponto na sala e voltou a olhá-la com o semblante sério. — Já posso ir pra casa?
— Só mais uma coisa, Bella, nós ainda temos tempo. — Heide descruzou os pernas e se inclinou na direção da pequena garota que usava um vestido rosa. — Por que você quer tanto aprender a lutar?
— Meu tio sabe por que, pergunta pra ele.
Certo, Bella não era uma criança fácil, mas dava respostas como qualquer outra.
— Você quer se defender caso alguém machuque você?
— É — piscou os olhos — ou meu tio. — Acrescentou. — Quem fizer mau pra eu vai morrer. — Sibilou estridentes e Heide abriu a boca, mas nenhuma palavra foi capaz de sair.
Na hora do jantar, Eleazar colocou sobre a mesa legumes e frango, depois encheu os copos com suco e então começaram a jantar, após uma breve oração.
— Gostou da Heide? — Puxou assunto, queria falar a respeito, pois Heide o chamou no canto após a consulta de Bella e explicou toda a conversa que tiveram.
Eleazar esperava ouvir boas notícias – que sua sobrinha estava bem, que era apenas uma fase que já estava chegando ao fim –, mas o que ouviu o deixou ainda mais preocupado. Bella continuaria com as consultas querendo ou não, pois pelo menos com Heide ela disse coisas que nunca nem mencionou com ele, seu próprio tio. Talvez mais algumas sessões com a senhorita Seear e Bella mostrasse um pouco mais de progresso.
— Não estou falando com você.
Eleazar revirou os olhos, às vezes Bella agia como uma garota grande, mas às vezes agia como uma criança que é, mas ele admitia que gostava, pois era exatamente isso que ela era, uma criança.
— Você sabe que vai voltar na quinta-feira que vem, não é?
Bella levantou os olhos para ele e ele esfregou a palma da mão no rosto dela.
— Já disse pra parar de me olhar assim, garota. — Riu, enquanto ela empurrava a mão dele para longe.
— Só se você prometer me ajudar. — Tentou mais uma vez.
— Não, Bella, não vou te ajudar a aprender a se defender. Pelo menos não agora, você é muito pequena. — Ele bebericou o suco. — E não quero mais ouvir falar nesse assunto, senão você vai ficar sem sobremesa por uma semana.
Bella não esboçou nenhum reação, mas por dentro ela sentiu vontade de enfiar o garfo na mão do tio sobre a mesa, mas logo reprimiu essa vontade e balançou a cabeça negativamente, afastando tal ideia. Não era seu tio que ela queria ferir, eram aqueles homens, ela estava apenas com raiva de seu tio por não lhe dá ouvidos, por não querer ajuda-la, indiretamente, em sua vingança. Mas não importava, pois de um jeito ou de outro ela a alcançaria.
