Squalo
Squalo nunca foi uma pessoa de "verão".
Climas quentes, dias ensolarados, calor e temperaturas altas... Não. Ele definitivamente não combinava com aquele tipo de coisa. Durante anos, todas as vezes que a temperatura começava a se elevar, o Vice-Líder da Varia procurava algum lugar no globo que pudesse ser um pouco mais habitável do que a abafada Itália. No ano anterior ele havia ido para a América do Sul, e apesar do inverno daquele continente não ser exatamente gelado, qualquer coisa era mais agradável do que cozinhar dentro de roupas de couro ou passar horas debaixo de um chuveiro frio simplesmente por pura necessidade.
Entretanto, naquela noite ele estava quente.
O homem de cabelos prateados lembrava vagamente de como entrou em seu quarto de hotel. Sua mente lhe mostrava pequenos vislumbres, como um filme, e ele parecia apenas assistir, como se tudo o que acontecia não fosse necessariamente a sua vida. Ele saiu, certo? Logo depois do jantar. Ele bebeu, correto? Muito. Em um bar não muito longe do local em que estava hospedado. Ele se permitiu flertar com um estranho e charmoso homem que não se afastou mesmo após ouvir meia dúzia de insultos e ameaças de morte... hm?
Ele havia levado o homem para seu quarto... e aquilo era um fato.
A jaqueta de couro estava no chão, assim como seus coturnos e meias. A fina blusa regata que ele vestia por baixo foi retirada por mãos apressadas e que sabiam muito bem onde tocar e porque tocar. Seus lábios estavam presos em um afoito beijo, que começou ainda no elevador e se arrastou por todo o corredor, estendendo-se até a cama. O desconhecido − cujo nome o Vice-Líder não sabia e, honestamente, pouco ligava para qual fosse − não era um mau beijador, muito longe disso. Aquele homem não era inexperiente no trato com os homens, e pela maneira como ele apalpava o baixo ventre do Guardião da Chuva, só poderia significar que ele queria aquilo com a mesma intensidade. Os toques e as carícias se tornaram mais ousadas, e no momento em que o homem de cabelos prateados ficou por cima, pronto para retirar sua calça de couro, a porta de seu quarto de hotel foi aberta com tanta fúria que foi impossível não se assustar.
O tiro acertou a parede, pouco acima da cabeça de Squalo. Um segundo disparo destruiu o abajur que ficava do lado esquerdo da cama, e antes que um terceiro tiro acontecesse, o Vice-Líder saiu de cima do desconhecido e virou-se, encarando o invasor com os olhos cheios de ira. Xanxus o olhou de cima, a arma apontada diretamente para o seu peito, mas o olhar fixo na terceira pessoa no quarto.
"Saia."
A voz do Chefe da Varia saiu baixa, mas ao mesmo tempo alta o suficiente para fazer o homem praticamente pular da cama. A velocidade com que ele se vestiu e deixou o quarto foi espantosa, e proporcional ao olhar cheio de ressentimento e rancor que Squalo lançou para sua nova companhia. Os olhos do moreno, entretanto, não deixaram os de sua presa, e quando o barulho da porta sendo fechada chegou até eles, Xanxus começou a caminhar na direção do outro lado do quarto. O Guardião da Chuva da Varia permaneceu no mesmo lugar, ajoelhado em sua cama, vestindo apenas sua calça de couro. Naquele momento ele não tinha consciência de que havia marcas vermelhas de apertos e mordidas em seus ombros pálidos, assim como não sabia que o zíper de sua calça estava aberto, mesmo que nada demais pudesse ser visto. O Chefe da Varia parou em frente à cama e antes que o Vice-Líder pudesse sequer proferir alguma palavra, algo atingiu seu rosto com força.
O gosto de ferro que tingiu sua língua o fez tossir. O homem de cabelos prateados ergueu o rosto do colchão, encarando o fio de sangue que escorria por sua boca e tingia a roupa de cama azul clara. Sua mão esquerda automaticamente tocou o local machucado, sentindo o corte no canto esquerdo do lábio inferior. Seus olhos foram para seu agressor, e mesmo sem precisar encará-lo diretamente, Squalo sabia que tinha sido atingido com o cano da arma que Xanxus tinha nas mãos.
"Saia daqui." As palavras saíram baixas, quase um sussurro. Eu vou matá-lo, maldito.
O Chefe da Varia não fez nada além de permanecer... ali. O sangue do Vice-Líder fervia, e a vontade de correr até o outro lado do quarto, pegar sua espada e simplesmente acabar com tudo era extremamente tentadora. Eu vou matá-lo. Aquela situação não era nova, assim como a relação entre eles. Desde a primeira vez que permitiu (permitiu? o homem de cabelos prateados já não lembrava se havia permitido ou a situação fora forçada a ele) o moreno em sua cama, tudo o que seguiu foi um erro após o outro. Quando ambos eram apenas Chefe e subordinado tudo parecia incrivelmente mais fácil e menos doloroso. Xanxus dava as ordens, ele obedecia. Pronto. Porém, na fatídica noite, há mais de dez anos, quando ele se viu completamente bêbado ao lado do Líder da Varia, Squalo jamais imaginou que as coisas acabariam daquela forma. Tudo o que foi preciso foram quase duas garrafas de whisky e um tropeço seu na ponta do tapete para que o moreno o segurasse de maneira desajeitada, mas firme.
Eu vou matá-lo. Lembrar-se daquela noite era difícil. O álcool tornava a memória nada mais do que uma espécie de flashback antigo, borrado, mudo. Em um momento o Vice-Líder estava sentado sobre a poltrona do escritório dos Vongola, do Nono Vongola, para no outro tentar caminhar e acabar tropeçando. Ele não sentiu a queda, apenas a mão de seu Chefe ao redor de sua cintura. Ele nunca esqueceria os olhos que o encararam naquela noite, pois aquela era basicamente uma das poucas partes da lembrança que se manteve viva, quase intocável. Eles eram selvagens, e sujos, e cruéis e extremamente convidativos. No momento seguinte o homem de cabelos prateados estava sentado sobre o colo de Xanxus, gemendo como nunca havia gemido. Movendo seu corpo como nunca havia movido, e sendo possuído por inteiro... ali, no escritório do Nono Vongola, deixando que outro homem o possuísse de todas as maneiras possíveis. O tapete, a poltrona, a mesa... ele sabia que haviam passado a noite fazendo sexo, como dois animais que somente obedeciam aos desejos naturais da espécie. Squalo não pôde se mover por quase dois dias depois daquela noite, mas não havia como voltar ao passado. Um olhar. Tudo o que o Chefe da Varia precisava oferecer era um olhar, e então o homem de cabelos prateados sabia com todos os poros de seu corpo que eles passariam a noite juntos.
O único problema é que Xanxus... era, bem, Xanxus. Ele não era um homem que pedia, ele se apossava. Um homem que não avisava, atirava. Um homem que tirava, mas não oferecia. Um homem que o Vice-Líder amava odiar, ou odiava amar... no final, era tudo a mesma coisa, não? A relação que eles possuíam era uma doença. Um perigoso jogo de desejo e erotismo, que após todos aqueles anos parecia ter chegado ao ápice. O sexo era bom, ele jamais poderia negar. Se havia algo que aquele homem era realmente bom, além do cargo de Chefe, era em ser capaz de fazê-lo implorar por prazer. Quando estava nas mãos de Xanxus, Squalo sabia que sexualmente falando ele sempre estaria satisfeito. O cheiro e o gosto da pele, os músculos, as formas, as cicatrizes... ele conhecia o corpo daquele homem tão bem, que se sentia como um aventureiro que não precisava de um mapa. Seu corpo inteiro sabia o caminho. Entretanto...
"Quem lhe deu permissão para trazer porcarias da rua, Lixo?" A voz do moreno soou como um trovão. O Vice-Líder havia conseguido fazer com que o sangue parasse de sair de seu machucado, mas a ferida latejava e ele sabia que seu lábio estava inchado.
"Eu não preciso da sua permissão. Saia!"
"Oh, precisa..." Xanxus ergueu um pouco mais o rosto, encarando o homem sobre a cama, literalmente, de cima. "Você me deve respeito, Lixo."
"Eu não lhe devo nada. Nada!" A fúria de Squalo era quase palpável. Seu corpo inteiro tremia de vontade de acertar aquele homem. Ele podia sentir a satisfação da espada cortando através da carne morena, enquanto o sangue escarlate escorreria e mancharia a roupa de cama. "Você é meu Chefe, mas eu não pertenço a você. Eu posso dormir com quem eu quiser, agora, SAIA!"
O segundo ataque o pegou de surpresa, mas dessa vez o homem de cabelos prateados estava preparado. Suas pernas o jogaram para trás no instante em que a arma de Xanxus atingiria seu rosto. O Vice-Líder aproveitou a oportunidade para inclinar o corpo à esquerda, saindo da cama, mas parando no mesmo lugar. O moreno estava à sua frente no instante seguinte, e naquele momento o Guardião da Chuva percebeu o quão tolo ele havia sido por acreditar que conseguiria sair daquela situação. Eu nunca tive chance. Ele vai me matar e eu terei merecido. A arma ergueu-se novamente e Squalo abaixou os olhos, preparado para o que quer que fosse acontecer no próximo segundo.
... ou ele achou que estava preparado.
A arma caiu ao chão sem barulho. O som foi omitido pelo carpete escuro, e escura também era a cor de sua calça de couro que foi retirada com um único puxão e jogada para trás. Como não costumava usar roupa de baixo, o homem de cabelos prateados apenas viu-se totalmente nu e aquela visão o fez erguer os olhos. O que o recebeu foi um par de olhos negros como a noite, que o fitavam com um brilho diferente. O Chefe da Varia era conhecido por ser uma pessoa de sangue quente e atitudes inusitadas, mas somente o Vice-Líder sabia o que significava realmente vê-lo quente. A respiração de Squalo tornou-se descompassada e ele tinha pleno conhecimento de que seu baixo ventre também respondia àquele olhar. O homem de cabelos prateados não percebeu quando uma mão pesada, e nem um pouco gentil, o empurrou para trás, fazendo-o cair de costas contra o colchão. Tudo o que seus olhos viram foi o moreno arrastando-se sobre ele, como um leão sobre uma indefesa vítima, enquanto seu coração batia rápido com os prospectos do que estava para acontecer. Ele vai me devorar, o peito do Vice-Líder arfava. Ele podia sentir o rosto tornando-se vermelho e seus lábios quase gemeram apenas com aquela selvagem ideia. Eu quero que ele me engula por inteiro.
O beijo o fez gemer de dor e o sangue voltou a escorrer pela ferida, mas nada disso fez Squalo parar. Sua língua invadia a boca de Xanxus, enquanto suas mãos rasgavam sem piedade a camisa escura que seu amante vestia. Os pedaços de pano foram sendo jogados por cima da colcha, e assim que as pontas de seus dedos tocaram a pele morena, elas deixaram um rastro vermelho por onde passavam. Ele podia sentir a ereção de Xanxus por cima da calça de couro e seria impossível não comparar a excitação que ele sentia naquele exato momento, com a que o estranho homem de outrora o fez sentir. Era como comparar a luz do Sol à luz de uma vela. Todo seu corpo respondia aos toques forçosos e indelicados de Xanxus, como se ele fosse treinado para isso. A língua do Chefe da Varia desceu por seu pescoço, mas foram os dentes que deixaram marcas tão profundas que uma fina linha de sangue escorreu pelo peitoral pálido de Squalo. Seus lábios gemeram de dor e de prazer e de desejo... como se fosse apenas uma única sensação. Uma única pessoa. O moreno o virou com fúria, descendo as mãos pelas costas e cintura do Vice-Líder, contornando aquela região, como se marcasse a presa. Os joelhos do homem de cabelos prateados se flexionaram e seus lábios sorriram maldosamente, antecipando um prazer sem igual.
A sensação da língua de Xanxus invadindo sua entrada fez Squalo quase rir. Seu rosto afundou-se na roupa de cama e seus lábios acabaram gargalhando, mesmo que ele não quisesse. Seu amante não pareceu se importar, continuando o que fazia. A risada transformou-se em um erótico cantar de gemidos em poucos segundos, mas antes que o Vice-Líder pudesse levar a mão até sua ereção, a fim de prolongar aquela incrível sensação, um grito rouco deixou sua garganta, fazendo-o apertar a roupa de cama com certa força, que até mesmo seus dedos estalaram.
"Merda, Xanxus!" Gritou o homem de cabelos prateados ao sentir-se penetrado com tanta pressão que seus olhos lacrimejaram.
"Não está rindo agora, Lixo?" A voz do Chefe da Varia saiu levemente rouca. O comentário foi seguido por uma segunda estocada, esta ainda mais forte do que a primeira.
Havia sangue sobre um dos travesseiros, no exato local em que Squalo escondera seu rosto. Seus braços serviram de apoio, mantendo seu corpo naquela mesma posição e segurando o impacto que ele recebia. A dor permaneceu aguda durante os primeiros minutos, mas depois de algum tempo seu corpo pareceu anestesiado, ou simplesmente havia se acostumado àquela total falta de gentileza. Quando o moreno atingiu seu ponto especial, o Vice-Líder tremeu e deixou escapar um gemido de contentamento. Xanxus mantinha o mesmo ritmo, segurando a cintura de seu amante com força e penetrando-o sem resguardo. Embora a cama estivesse sobre o carpete, a madeira estalava e em alguns momentos o Guardião da Chuva achou que ela não suportaria aquilo. E após alguns minutos de sofrimento, Squalo voltou a sorrir satisfeito ao sentir-se excitado novamente.
O orgasmo veio primeiro para o homem de cabelos prateados e ele não precisou de um segundo estímulo. Seu corpo tremeu por inteiro, mas ele não teve tempo de aproveitar o momento. Antes que seu cérebro pudesse entender o que acabara de acontecer, o Chefe da Varia o virou e o puxou para cima, colocando-o sentado sobre seu colo. Somente naquele momento o Vice-Líder reparou na bagunça que se encontrava a sua pessoa. Havia sangue por seu peito, da mordida em seu pescoço, assim como havia sangue pela parte interna de suas coxas e ele nem queria pensar de onde aquilo havia saído. Suas mãos utilizaram o abdômen moreno de seu amante como apoio, e Squalo começou a se mover. A cabeça de Xanxus foi para trás e pela primeira vez ele pôde ouvir alguma reação de seu amante. Ele ama essa posição, pensou o homem de cabelos prateados, sentando-se com um pouco mais de força e sorrindo com o que via. A cada movimento as sobrancelhas de seu amante se juntavam e seus lábios gemiam. O Vice-Líder movia-se com sensualidade, sabendo que boa parte da excitação estava em seus movimentos. Sua ereção retornou após alguns segundos e então não houve como diferenciar as vozes altas e roucas que ecoaram.
E naquela noite o Guardião da Chuva da Varia soube que nada poderia se comparar com aquilo que tinham... independente do que fosse, independente do quão doente aquilo soasse.
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Era madrugada quando Squalo acordou sozinho em seu quarto de hotel. A cama estava uma bagunça, seu corpo estava uma bagunça, sua mente estava uma bagunça. A janela aberta permitia que o frescor da noite entrasse e refrescasse o cômodo. O Vice-Líder sentou-se na cama por alguns segundos, deixando que seus olhos se acostumassem ao acordar. Ele se lembrava vagamente da última coisa que havia visto antes de perder a consciência, mas seu corpo parecia se recordar de tudo. Havia marcas de beijos e mordidas em seu peitoral, marcas de dedos em suas coxas e seu lábio estava inchado ao toque. Seus olhos encararam a roupa de cama completamente arruinada e o homem de cabelos prateados arrastou-se para fora da cama, ficando de pé com dificuldade. Sua mão direita puxou o lençol e ele o arrastou até o banheiro, depositando-o no cesto de lixo. Os passos foram vagarosos, e assim que entrou no box o Guardião da Chuva respirou fundo antes de abrir o chuveiro. A água atingiu seu corpo e ele fechou os olhos, não querendo ver o vermelho escorrer por entre suas pernas. Não é a primeira vez. Qualquer assunto com Xanxus sempre termina em sangue.
Pouco poderia ser dito sobre o que havia acontecido no dia anterior, mas Squalo sabia bem que alguma coisa precisaria mudar. Ele não havia brincado quando dissera que queria aquele homem fora de seu quarto. Ao enxotar a companhia que ele havia trazido da rua, o Chefe da Varia havia feito muito mais do que privado o homem de cabelos prateados de sua escolha. No fundo Squalo sabia que se não fizesse algo, ele continuaria preso àquela relação depreciativa, assistindo a uma pessoa humilhá-lo de todas as maneiras possíveis e imagináveis. Ele nunca me deixará ir. Ele me matará se eu disser que quero ir embora. A ideia de se afastar trouxe um gosto amargo à boca do Vice-Líder, mas não passava do sangue de sua ferida que se abrira quando ele a mordera, perdido em pensamentos. Eu construí a Varia ao lado dele. A Família sempre virá em primeiro lugar.
A água limpou o corpo do homem de longos cabelos prateados, mas não conseguiu lavar seu espírito. Por meia-hora Squalo cozinhou na água morna, deixando o banheiro apenas quando cada centímetro de seu corpo estava limpo. Seus passos úmidos não ecoaram pelo quarto e ele caminhou nu até o guarda-roupa, abrindo-o e encarando a mala desfeita ao fundo. Uma calça de moletom foi escolhida de maneira aleatória, e o Vice-Líder caminhou até uma das poltronas do quarto, sentando-se devagar. O quarto estava escuro, com exceção da luz noturna que entrava pela janela aberta. O local em que ele estava sentado ficava na outra extremidade do cômodo, então não havia iluminação direta. Squalo pendeu a cabeça para trás e fechou os olhos. Sua garganta implorava um pouco de álcool e ele sabia que só precisaria estender a mão para pegar a garrafa. Porém, a dor que aquele gesto causaria em seu lábio era mais do que o Guardião da Chuva poderia suportar. Chega de dor. Eu já tive o suficiente ontem.
Squalo não notou que seus olhos se fecharam e seu corpo relaxou. Em um minuto ele encarava o teto do quarto, e no minuto seguinte sua mente vagava para o mundo das lembranças, trazendo a tona cenas que permaneceram enterradas em sua mente durante anos: era uma bela casa. Não, era uma mansão. Havia janelas, tantas janelas que era difícil contar. Havia uma infinidade de pessoas no largo jardim, bem vestidas, ricas e poderosa. O homem de cabelos prateados via a tudo de uma janela no segundo andar, por trás de uma grossa cortina creme. As conversas e as risadas não chegavam até ele, mas daquele ângulo era fácil perceber que as pessoas estavam se divertindo. Todos... menos ele.
O Vice-Líder não se encontrava sozinho aquele aposento. Sua companhia estava sentada em um divã, copo na mão e uma expressão séria em seu sério rosto. Squalo fitou novamente as pessoas que estavam embaixo da janela, até que seus olhos se estreitaram ao ver um rosto conhecido. Seus pés o levaram para longe do vidro, mas antes que pudesse passar além do meio do cômodo, uma grande e pesada mão o segurou pelo pulso.
"Vai visitar seu amante, Lixo?"
"Ele não é meu amante." A resposta saiu natural. O Guardião da Chuva não se virou.
O comentário por parte da outra pessoa foi uma sonora gargalhada. A mão em seu pulso não soltou nem um milímetro.
"Ele é um covarde, aquele seu amante idiota."
Ele não é meu amante.
"Qual de vocês abre as pernas?" Xanxus deu um longo gole em seu copo de whisky. Ele estava bêbado. "Eu não consigo imaginar o Haneuma fazendo isso, então só pode ser você, Lixo. Que vadia!"
O homem de cabelos prateados puxou a mão com força e cruzou o aposento sem olhar para trás. Aquele insulto não o incomodou, e assim que chegou ao jardim da mansão ele já havia se esquecido do que ouvira. Um jovem Dino Cavallone de vinte anos o recebeu com um largo sorriso, e os dois se puseram a conversar como se aquela não fosse a primeira vez que se viam em dois anos. A memória tornou-se borrada por um instante. Squalo sabia que estava visitando um sonho, mas apesar de ouvir a voz do louro, seus olhos vagaram pelo local, pousando na janela do cômodo que ele estivera até poucos minutos. O Chefe da Varia estava lá, a expressão séria e carregada, encarando-o diretamente. Eu não me lembro de ter visto isso, pensou Squalo. Os borrões aumentaram e os olhos do Vice-Líder piscaram longamente antes de se abrirem por completo. O quarto estava claro e o dia havia amanhecido, preenchendo o local com uma forte e clara luz. O Guardião da Chuva cobriu o rosto com as costas das mãos, respirando fundo e apoiando a nuca no alto da poltrona. Eu sei o que devo fazer, mas eu não sei se quero.
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Havia espaço suficiente na sala de reuniões para comportar tranquilamente mais de vinte pessoas. Entretanto, mesmo com todos aqueles metros quadrados, Lussuria havia se acomodado no braço da poltrona, inclinando-se displicentemente para o lado. Squalo tinha os olhos no relatório em suas mãos, tentando ignorar o fato do homem ao seu lado estar quase caindo sobre seu colo. O assédio se estendia por horas, e a cada minuto ele se arrependia de ter proposto que trabalhassem juntos. O Guardião do Sol, porém, não parecia se incomodar. Naquela tarde o espalhafatoso homem usava um conjunto vermelho de calça e blusa, que dava destaque ao seu colete branco. Pequenas estrelas decoravam a peça, e havia também estrelas em seus cabelos e algo brilhante em suas sobrancelhas e lábios.
O Vice-Líder ergueu os olhos, apertando o maxilar ao receber um largo e satisfeito sorriso dos lábios de Bel. Os olhos do rapaz estavam escondidos por trás de sua franja loura, mas o sorriso de deboche estava claro como o céu. O sangue do homem de cabelos prateados tornou-se um pouco mais quente e suas pernas o colocaram de pé. Eu preciso de ar. Esse lugar cheira ao perfume de Lussuria e isso está me dando dor de cabeça. Nenhum dos subordinados fez menção de acompanhá-lo, nem mesmo o Guardião do Sol. Squalo abriu a porta da sala de reuniões, enfiando as mãos dentro dos bolsos da calça de couro. Aquele local ficava no hotel que estavam hospedados e havia sido reservado para os próximos dois dias, tempo esse que a Varia ainda permaneceria na cidade. Xanxus decidira que retornaria à mansão, mas não sem antes oficializar a aliança com os Moretti. A reunião com a Família aconteceu na noite anterior, e foi mais rápida do que o Guardião da Chuva esperava. Não houve jantar ou drinques ou nada social, apenas uma breve conversa que pareceu não ser sobre nada e não chegou a lugar algum. O Chefe da Varia não mencionou o assunto depois da reunião e o homem de cabelos prateados também não buscou saber o que se passava pela mente do moreno. Desde aquela noite os dois não tiveram nenhum contado que não fosse profissional, e quando se encontravam pelos corredores havia um estranho silêncio entre eles.
Do corredor Squalo seguiu para a entrada do hotel, deixando a recepção e ganhando a rua ensolarada. Sua mão direita cobriu seus olhos, protegendo-os da claridade. A rua parecia movimentada e nem um pouco convidativa, mas se comparada àquela sala e aos assédios gratuitos de Lussuria e a arrogância de Bel, aquilo sim era local ideal. O Vice-Líder parou na calçada, encarando o céu azul e sentindo o clima abafado. Eu não consigo pensar com esse calor. O barulho, as vozes... tudo parecia irritá-lo. Eu preciso sair daqui.
O homem de cabelos prateados não era uma pessoa impulsiva. Agir por impulso nunca trazia benefícios e estando naquele ramo de trabalho há anos, Squalo aprendeu que quanto mais tempo se passava planejando, mais chances de seu objetivo ser concretizado sem delongas e imprevistos. Entretanto, naquela tarde, ele abriria uma exceção e adicionaria aquele dia à lista rara de atos feitos por impulso. Da calçada para o estacionamento do hotel foram precisos poucos minutos. Do estacionamento para dentro do carro negro da Varia foram segundos. E em menos de meia-hora ele se afastava do centro de Roma e de toda a agitação para seguir na direção de casa. Não a minha casa. A casa dele.
A mansão dos Vongola, ou melhor, a antiga mansão de inverno dos Vongola − atualmente a residência de Xanxus e o quartel general da Varia − ficava localizada na região interiorana, horas de viagem partindo do centro de Roma. O local ficava no alto das montanhas, escondido por um jardim que mais parecia uma floresta e protegido por armadilhas e guardas. A escolha para ir ao centro foi profissional, mas Squalo havia sido contra desde o começo. Não era seguro ficar em um lugar tão visado, e depois de investigar um pouco sobre a situação, ele tinha ainda mais certeza de que o quanto antes deixassem Roma e sua badalação, melhor ele se sentiria com relação a tudo. Os últimos dias pareceram eternos, como se cada minuto durasse horas, e o confinamento de seu quarto de hotel começava a sufocá-lo. Para passar o tempo o Vice-Líder decidiu colocar a prova suas dúvidas e acabou encontrando certas informações bastante pertinentes. A mais importante era que, aparentemente, ao assumir a chefia da Família, Dino não baniu os Moretti pelo crime atentado aos seus pais. Ele me disse que não acreditava em assassinato. Depois de todos esses anos ele acredita que foi um acidente. Idiota. Os Moretti mudaram-se para o interior de Nápoles e reconstruíram a Família ao longo dos anos. Atualmente o tio era o Chefe, mas assim que o filho do antigo empregado dos Cavallone atingisse a maioridade, o cargo iria automaticamente para suas mãos.
Sobre Raffaele – o futuro herdeiro dos Moretti − não havia muitas informações. O garoto estava com seus quase dez anos, era bom aluno e não causava preocupações. Ele morava com os avós. A mãe morrera no parto e o pai foi enviado para Vindice após a morte dos pais de Dino. A causa da morte do ex-empregado ainda era um mistério. Como se ninguém soubesse como as pessoas aparecem mortas naquele inferno. Em sua investigação o Guardião da Chuva descobriu que ele é ignorante a uma possível conspiração que esteja acontecendo no seio de sua Família, então tudo deve estar sendo orquestrado pelo tio. Squalo recordava-se que sentiu um estranho frio na espinha ao ler toda aquela quantidade de informação. Algo ali não cheirava bem, mas infelizmente ele não tinha provas para acusar ninguém. Eu poderia simplesmente matar todos e seria o fim da história. Eu estou andando em círculos e por qual motivo? Um amargo sorriu cruzou os lábios do homem de cabelos prateados. O céu azul havia dado lugar ao negro da noite e ele ainda estava parcialmente longe de atingir seu destino. Eu sei o porquê. Squalo fechou um pouco as janelas e decidiu se concentrar na estrada. Ele queria estar na mansão o quanto antes, para beber um bom vinho depois de tomar um longo e refrescante banho.
As horas passaram ainda mais vagarosas do que as anteriores. O grande relógio localizado no centro do hall de entrada da mansão marcava quase meia-noite, mas a sensação de estar sozinho naquela grande casa o fez sentir que as horas dirigindo valeram a pena. Os subordinados que ficavam responsáveis pela propriedade o saudaram quando o viram descer do carro, e tudo o que o Vice-Líder fez foi dar de ombros e dizer que não queria ser importunado por nada ou ninguém. Ligações estavam proibidas e visitas seriam impossíveis. Seu quarto ficava localizado no terceiro andar da mansão e tudo estava exatamente como ele havia deixado: arrumado e limpo. Não é como se eu usasse este lugar com frequência. Quando estavam na casa, as noites eram passadas basicamente sobre o colchão da larga cama de Xanxus ou simplesmente em algum outro local que seu Chefe achasse apropriado para deixar à solta seus instintos. Isso vai acabar. Não existirão mais noites como aquelas novamente.
Um longo banho foi a primeira coisa que o homem de cabelos prateados fez. O chuveiro dessa vez ficou de lado, e ele abraçou sem medo a larga banheira de mármore que decorava uma das extremidades de seu banheiro privado. A água estava ideal, morna e cheirosa. Havia espuma suficiente para encher duas vezes aquele espaço e o doce aroma dos sais de banho o fez relaxar quase imediatamente. Os últimos dias haviam sido cansativos e incessantes. Suas investigações roubaram boa parte de seu tempo, mas quanto mais ele descobria, maior era o nó em sua garganta, assim como a voz em sua mente gritando que havia algo estranho. Se os problemas externos não fossem suficientes, Squalo ainda precisaria pensar em uma maneira de dizer a Xanxus que não pretendia manter sua posição de amante. A decisão já havia passado por sua mente anteriormente, mas ganhou força no dia em que o Chefe da Varia expulsou o homem desconhecido de seu quarto. Naquela noite ele soube que as coisas precisariam mudar e com urgência. Eu não posso ser amante e Vice-Líder. Um desses cargos precisa ir embora. E entre deixar sua função na Família e abrir mão do prazer que sentia ao estar com o moreno, a escolha parecia simples demais. Eu conseguiria o que ele me oferece com qualquer outra pessoa, mas a Família é a Família.
A água estava fria e seu corpo totalmente limpo quando Squalo saiu da banheira. Seus passos deixaram marcas molhadas pelo piso branco e suas mãos seguraram a toalha vermelha que estava pendurada, passando-a ao redor de sua cintura. O quarto estava fresco por causa da janela aberta, então sua vestimenta para aquela noite teria de ser um pouco mais reforçada. Vestindo um antigo conjunto de moletom cinza, o Vice-Líder deixou o cômodo, seguindo para o primeiro andar, torcendo para que algum dos cozinheiros tivesse deixado alguma sobra do jantar na geladeira. Não havia nenhum subordinado na casa, e aquele silêncio e solidão o deixou feliz. O homem de cabelos prateados adorava aqueles momentos, principalmente depois de passar os últimos dias ouvindo as investidas de Lussuria e as reclamações dos outros membros. Ao chegar à cozinha − esta localizada ao lado da sala de jantar − o Guardião da Chuva sentiu-se faminto ao encarar metade de um frango assado dentro do forno. A assadeira foi colocada sobre a bancada que cruzava boa parte da cozinha, e tudo o que Squalo fez foi pegar um garfo e se deliciar. A carne estava bem temperada, mas fria, porém, aquilo lhe pareceu extremamente saboroso. Um vinho tinto que estava em um dos armários foi aberto, ajudando-o a digerir o restante da ave. Em poucos minutos não havia nada na assadeira além de ossos.
O vinho durou um pouco mais, e somente quando não havia uma gota sequer para mantê-lo ali, foi que o Vice-Líder decidiu que era hora de ir para cama. Seus passos foram um pouco incertos durante o caminho, provavelmente por ter ingerido álcool ainda de estômago vazio. O silêncio da mansão era quase palpável, e assim que entrou em seu quarto, o homem de cabelos prateados livrou-se da blusa de moletom, seguindo apenas com a calça até o banheiro. Cinco minutos depois, e com os dentes escovados, o Guardião da Chuva jogou-se sobre a cama, afundando o rosto em um dos macios travesseiros. Sua cama era larga, contendo quatro travesseiros e um macio cobertor. A brisa que entrava pela janela deixava o aposento fresco, e Squalo apenas colocou os braços embaixo do travesseiro, fechando os olhos e sentindo o corpo relaxar. Aparentemente ele teria sua primeira noite de sono depois de semanas.
Porém, ele não teria aquele luxo.
O céu ainda estava escuro, e não havia sinal de Sol ou amanhecer quando o Vice-Líder abriu os olhos e levou a mão rapidamente para baixo de sua cama, retirando uma espada. Seu reflexo o fez ajoelhar-se na cama, mesmo ainda zonzo de sono. A lâmina brilhava ao receber a luz da lua, e esta mesma lua clareava o quarto e as duas pessoas presentes. O homem de cabelos prateados abaixou lentamente a espada, deixando-a pousar sobre a cama, sentando-se no macio colchão e coçando a cabeça. Sua companhia estava parada do outro lado do quarto, em pé e com os braços cruzados, os olhos fixos em sua direção. Ele sabia. Ele sabia que eu voltaria para cá.
"Levante-se e venha." A voz de Xanxus saiu baixa, mas pesada. Suas costas se desencostaram da parede e seu corpo virou-se, pronto para ir embora.
Ele quer que eu o siga até o outro quarto. O quarto dele. A realização fez Squalo morder o lábio, tamanha sua frustração. Nunca antes ele se sentiu tão usado quanto naquele momento. O homem o havia acordado propositalmente porque precisava que alguém o aliviasse no meio da madrugada? E quanto às prostitutas que sempre o cercavam? As dançarinas? As cantoras? Um homem como o Chefe da Varia poderia ter a companhia que quisesse, sem precisar importuná-lo no meio da noite. Eu não sou uma cortesã ou uma vadia. O Vice-Líder sentiu o gosto de sangue em sua boca. O machucado que o moreno havia feito cicatrizara superficialmente, mas a ferida parecia estar aberta novamente.
"Não."
A resposta saiu alta e clara. Xanxus não parou de andar até chegar à porta. O silêncio o envolveu por alguns segundos, e quando seu rosto virou-se na direção da cama, ele estava sério.
"Eu não vou mais dividir a sua cama, Xanxus. Aquela foi a última vez. Eu continuarei a ser seu Braço Direito, mas o que nós tínhamos acabou. Eu não quero mais dormir com você."
As palavras pareceram estrangeiras aos ouvidos do Chefe da Varia, pois tudo o que ele fez foi juntar as sobrancelhas. "Você fala demais. Cale-se e venha logo. Eu estou cansado."
"Feche a porta quando sair. Eu também estou cansado."
O homem de cabelos prateados voltou a se deitar, sabendo muito bem que aquela sua atitude acarretaria riscos que ele só podia imaginar. Que expressão Xanxus fez, ele não saberia dizer. Entretanto, minutos depois seus olhos se abriram para encarar o Chefe parado ao lado de sua cama. O moreno o olhou de cima por algum tempo, apoiando um dos joelhos no colchão e inclinando-se sobre o Guardião da Chuva. A mão direita de Squalo tocou o peito nu, e apesar de sua pele queimar àquele simples toque, seus olhos permaneceram indiferentes. "Não," sua voz saiu com o mesmo tom sério de poucos minutos, "eu não dormirei mais com você, Xanxus. Você terá de procurar outra pessoa. Eu não sou sua vadia".
"O que você é, então?" A voz do moreno saiu rouca, e sensual e extremamente convidativa. Os lábios do homem de cabelos prateados se entreabriram, sedentos por aqueles beijos vorazes. Seus olhos, porém, estavam sérios. Eu não posso demonstrar medo. Ele sentirá o cheiro do medo.
"Eu sou seu Vice-Líder e Braço Direito. Eu sempre fui e sempre serei." A resposta saiu natural, e naquele momento Squalo se perguntou por que não havia dito tudo aquilo antes? Se a resposta para sua angústia estivera o tempo todo dentro dele, por que perder tanto tempo com uma relação totalmente infrutífera e doentia?
"Qualquer um pode ser meu Vice-Líder e Braço Direito." Os olhos negros de Xanxus não brilhavam. Eles pareciam apenas dois buracos feitos naquela face cheia de cicatrizes, mas tão bela.
"Então eu acho que não tenho mais nada o que fazer nesta casa."
Não houve resposta para aquele último comentário, e ao ver o Chefe da Varia se afastar, o Vice-Líder soube que estava feito. Os passos do moreno ecoaram pelo assoalho de madeira, e a porta foi fechada sem barulho, parecendo até mesmo que outra pessoa deixava o cômodo. O homem de longos cabelos prateados encarou o teto e respirou fundo, cobrindo o rosto com um dos braços. Sua face estava levemente corada, e seu coração batia rápido, excitado, como se houvesse acabado de sair de uma batalha. Ao seu lado direito o relógio na cabeceira da cama marcava quatro e meia da manhã, e apesar de ter retornado à mansão buscando paz e sossego, naquele momento Squalo soube que não conseguiria voltar a dormir. A cortina branca dançava com a brisa que entrava pela janela, enquanto o Vice-Líder pensava onde moraria se no dia seguinte Xanxus decidisse que ele realmente não era mais necessário. Se Squalo era apenas alguém para esquentar uma cama, então ele não tinha ideia do que faria com a sua vida. Não foi assim que começamos, então por que terminamos desse jeito? Onde foi que erramos?
Continua...
