Disclaimer: Se Saint Seiya me pertencesse o Mu não teria tempo de ficar consertando armaduras. A única arma dura que ele teria que lidar seria a do Aiolia...

N/A: Espero que todos tenham passado bem pela correria de fim de ano, as festas e tudo :3 Agora podemos voltar ao ritmo usual de atualizações~

Este é o maior capítulo da fic até agora e o Orphelin, meu carneiro-beta e estrela-do-mar imortal, deve ser valorizado pelas revisões todas~ Obrigada, querido~ S2


Encounter

Capítulo VII

I looked at you
You looked at me
I smiled at you
You smiled at me
I Looked At You - The Doors


Havia um rapaz de vibrantes cabelos vermelhos concentrado, um rapaz com uma tatuagem de escorpião empolgado e nada ao redor deles que lhes pudesse prender a atenção.

Milo estava se guiando por percepção espacial, sem olhar o caminho que seguia enquanto beijava Camus; suas mãos o tocavam em todas as partes possíveis conforme o fazia andar de costas, empurrando-o com vigor.

Empurrando... empurrando... até esbarrarem em algo que, não tardou a compreender, era uma mesa de snooker. Querendo sentir melhor as partes do corpo de Camus que faziam pressão contra o seu, Milo fez com que ele se apoiasse na beirada da mesa e se acomodou entre as pernas dele.

Ia começar a se felicitar por dentro, por ter localizado o lugar que queria mal tendo prestado atenção ao trajeto percorrido, e foi impedido de continuar seu divertimento pela mão de Camus, que espalmou em seu tórax, afastando-o.

— O qu-...? – Seu olhar confuso seguiu a direção do de Camus. – Aff! Você de novo?!

À princípio, Aiolia limitou-se a acenar. Mu abaixou a cabeça, olhando para o lado com ares de constrangimento.

— Aí, Mu – disse Aiolia, esbarrando de leve no rapaz de cabelos compridos. – Viu o que eu falei sobre esse lugar? As pessoas vêm se pegar por aqui.

— Eu não... – Milo tentou protestar. Reconsiderou ao ver três pares de olhos o encarando com óbvia descrença. – Que saco! Eu devo ter acusado o Aiolos de algo terrível em outra vida, pra ter que ficar sendo atormentado pelo maldito irmão dele nessa.

Porque, não bastasse ter que ver Aiolia durante a semana inteira, sem exceções, precisava aguentá-lo até aos fins de semana... há anos! E o infeliz sempre estava metido em alguma encrenca. Sério! A única coisa que queria era uma noite agradável com seu lindo e ruivo namorado, mas, em vez disso, o que tinha? Um pirralho com problemas de agressividade o interrompendo a droga do tempo todo! Esperava que Mu não tivesse se assustado, afinal Aiolia precisava de alguém calmo por perto para influenciá-lo. Com sorte, a partir daí, ele passaria a se comportar como um ser humano normal ou, no mínimo, como um ser humano e...

— Não passou pela sua cabeça que pode ser você a estar me interrompendo? – O rapaz de olhos tão verdes quanto azuis cortou. – De novo?

Milo vacilou. Entretanto, não demorou a se recuperar. Ignorando a interrupção, aproveitou para tomar fôlego e mover os lábios em silêncio, tentando lembrar onde sua linha de raciocínio tinha parado. Não conseguiu. Bufou, balançando a cabeça como quem diz não consigo nem dizer o quanto estou aborrecido. Porém, ele jamais se contentava apenas com gestos significativos, havendo a possibilidade de recorrer às explicações verbais, e decidiu dizer com todas as letras:

— Não consigo nem dizer o quanto estou aborrecido!

Lógico que não! Foi interrompido primeiro! E por pessoas atrás de quem? Daquele infeliz que esquecia os compromissos e não atendia o celular! Para não mencionar que...

— Putz! Lá vai ele, falando pra caramba e usando muitas exclamações... – reclamou Aiolia. Notou que Mu estava reprimindo um bocejo e sugeriu baixinho: – Vamos dar o fora daqui antes que ele arrume um jeito de enfiar a droga da Agulha Escarlate na conversa.

— A o quê?

— Nunca pergunte sobre a Agulha Escarlate, Mu. – Abriu bastante os olhos para dar ênfase e repetiu, agitado: – Nunca.

— Ahn... Certo... – balbuciou, achando prudente não especular.

— Ótimo! – Aiolia voltou-se para o rapaz com a tatuagem de escorpião e declarou: – Okay, okay! Pra mostrar o quanto posso ser magnânimo... e pra compensar aquela cotovelada... pode ficar aqui de boa com o Camus, 'tá?

Passou um braço pelas costas de Mu – que, por sua vez, apertava os lábios para se impedir de rir – e saiu andando para longe dali a passos rápidos.

— Hey! Não foge, não, que eu aind-... Uh! – Milo teve um sobressalto ao sentir os dedos frios de Camus segurarem o seu queixo, puxando-o para que ficassem cara a cara.

— Milo – chamou, numa voz tão calorosa quanto as geleiras na Sibéria. – Preciso lembrá-lo de que é inútil reclamar? Sejamos racionais: existe algo que você possa fazer, quanto ao Aiolia, a essa altura?

— Ehrm... – titubeou. Por um segundo, debateu-se em pensamentos infrutíferos, tentando se recordar da razão para ser amigo de Aiolia. Qual era? Ah, não importava! Fez um beicinho emburrado. – Não...

— Então, mantenha o foco naquilo que está ao seu alcance... – sugeriu Camus, o semblante inabalado à medida que suas mãos percorriam o tórax de Milo.

O rapaz com a tatuagem de escorpião sorriu, esquecendo-se do breve contratempo ao voltar a se pressionar contra o rapaz de vibrantes cabelos vermelhos.

— Você é sempre tão prático, Camus...


Havia um rapaz de cabelos compridos cansado – por ter ido dormir tarde e estar acordado desde cedo –, um rapaz de olhos azuis-ou-verdes descrente – por desconfiar que a verborragia de Milo ajudara a causar aquele cansaço –, e o caminho de árvores que os levara até o quiosque sendo trilhado de volta, em sentido aos palcos do festival.

— Eu vou levar você pra casa – comentou Aiolia, depois de vê-lo deixar escapar o bocejo que vinha reprimindo para que Milo não se sentisse ofendido.

— Não precisa – replicou, apoiando a mão sobre a de Aiolia, que deslizara de suas costas para o seu quadril. – Você me levou ontem e...

— E vou levar hoje também – afirmou, resoluto, dando uma olhada ao redor. – Preciso pegar a chave do carro. Meu irmão estava por esses lados, não é?

Estava, sim. Não demorou para que ouvissem as vozes daquele grupo de pessoas conversando entre as árvores.

— Vai, Aiolos – Kanon incitava com malícia. – Faz um strip aí pra nós... Você precisa agradar seu harém.

— Nada disso! O harém que deve me agradar – Aiolos protestou, seu timbre era descontraído. – Meu harém, minhas regras.

Risadas ecoaram. Aiolia trincou os dentes e rosnou:

— Que bom que tem gente se divertindo com essa história estúpida.

Mu o analisou. O semblante aborrecido de Aiolia mesclava-se com um leve conformismo. Nem de longe estava como havia ficado por causa da desavença com Máscara da Morte. Considerando isso um bom sinal, Mu traçou círculos invisíveis no dorso da mão dele com o polegar.

Os olhos verdes-ou-azuis se fecharam por um instante. Aiolia apertou-lhe o quadril estreito com suavidade e continuou avançando para perto do grupo. Eles estavam quase na mesma posição em que os haviam deixado, exceto por Kanon, que se levantara da grama e se mantinha atrás do banco – entre Saga e Shura.

— Awn, que cena adorável – Kanon debochou, ao ver os recém-chegados naquela proximidade toda.

Apesar de ter encolhido os ombros, Mu permaneceu tranquilo. Eles já os tinham visto abraçados antes – graças a Aiolos – e não era um toque ousado, ou algo do tipo, para que precisasse desfazer o contato.

— Chave – Aiolia pediu, estendendo a mão diante do irmão e ignorando Kanon.

— Você não andou bebendo, certo? – Aiolos mirou o caçula de maneira analítica.

Aiolia fez que não e Mu ficou surpreso ao constatar que tinha bebido mais do que ele. Tudo bem que bebeu somente a espanhola de morango que ganhou de Afrodite, mas...

— Você vai voltar para cá? – Aiolos questionou ao entregar a chave.

— Se quiser que eu venha buscar você, sim.

— Não vai precisar – garantiu Kanon, com movimentos suspeitos de sobrancelhas.

— Nós cuidaremos dele – complementou Pandora, piscando um olho cor-de-violeta e apoiando a cabeça no ombro de Aiolos com inocência.

— Hey, não seja egoísta! – Kanon a repreendeu, bagunçando os cabelos de Aiolos. – Tem que dividir o doce...

O rapaz de bandana vermelha deu uma risada particularmente ingênua e Mu se perguntou se ele andara bebendo. Talvez todos ali tivessem bebido. Ou não. Saga e Shura estavam em um silêncio sóbrio e o rosto nobre de Hilda se limitava a sorrir. É, talvez eles fossem apenas um tanto estranhos...

Aiolia resmungou algo que soou como um estou indo então com tanta frieza que capturou a atenção de Mu...

E a de Kanon, que esclareceu para o rapaz de cabelos compridos:

— Ele fica chateado por, na condição de irmão, não poder participar do harém... – Pendurou-se no braço do gêmeo, encostando o rosto no dele. – Uma bobagem, né, Saga?

Embora a música do festival fosse audível dali, deu para ouvir direitinho o tabefe que Saga desferiu na nuca do irmão após se desvencilhar do toque.

Foi por pouco que Aiolia não perdeu a paciência, seus olhos verdes-e-azuis fulminando Kanon. Contudo, ele se conteve e arrastou Mu dali sem se despedir do pessoal, impossibilitando saber o que aconteceu na sequência.

O rapaz de cabelos compridos ainda ouviu Aiolos lhe pedindo para cuidar do irmãozinho dele – o que causou em Aiolia uma careta constrangida comum a todo caçula ao ser tratado igual criança pelo irmão mais velho, principalmente se acompanhado por comentários infames – e chegou a vislumbrar Shura indo parar na frente do banco com um olhar tão afiado que teria cortado o rapaz de bandana vermelha ao meio sem dó nem piedade.

E se, por um lado, a fisionomia de Shura não era tão sombria quanto a de um algoz, por outro, parecia sugerir que não descartava a possibilidade de recorrer a torturas, se fosse preciso.

Pelo visto, Aiolia não era o único a considerar aquela ideia de harém estúpida...


Havia um rapaz de cabelos compridos pensativo, um rapaz de olhos azuis que podiam ser verdes intrigado e The Doors tocando no carro.

— Obrigado – agradeceu Mu, ao estacionarem em frente à sua casa. – Eu...

Hesitou, sem saber direito o que dizer perante a despedida iminente. Queria muito reencontrar Aiolia, abraçá-lo, beijá-lo... e sua intuição dizia que ele queria o mesmo. No entanto, desde que teve a noção do quão rápido estavam indo, se viu travando.

Como estava contrariado com o rumo que as coisas tinham tomado, Aiolia não teve dificuldade em perceber.

— Detesto saber que estraguei tudo hoje e dá pra ver que tem algo incomodando você... O que é? Tem outras coisas que me tornam meio famoso?

Mu balançou a cabeça de leve.

— Não é isso. Quero dizer... Hmm... Até tem outras coisas que dizem sobre você, mas eu as considero meramente curiosas, dado o grau de improbabilidade. Não é nada preocupante – garantiu, ao ver Aiolia franzir as sobrancelhas. – Eu só...

Houve um momento de embaraço, mas, da mesma forma que na despedida da noite anterior, Aiolia demonstrou entender sua situação.

— Pense sobre isso e, quando quiser me encontrar, avisa.

Ele disse quando e não se, Mu não pôde deixar de reparar. Não existia razão para contestar. Era evidente que ia querer encontrá-lo.

O rapaz de cabelos compridos sorriu e pestanejou. Aiolia espelhou seus gestos. Eles se entreolharam com certa surpresa e buscaram seus celulares. Incrível não terem trocado contato antes.

Feita a troca, Aiolia levantou o rosto de Mu com uma satisfação que foi aumentando ao sentir as mãos dele acariciarem seus cabelos, os lábios buscando os seus.

Para a admiração de Mu, o rapaz de olhos azuis-ou-verdes não tentou aumentar a força ou a velocidade do beijo, deixando-o suave em comparação com os anteriores. Não que ele não tivesse apreciado cada nuance conforme o beijo se desfazia nos últimos selinhos da noite.

Tão logo se despediram e que entrou em casa, o rapaz de cabelos compridos notou que tinha ficado com a jaqueta de couro de Aiolia...

E tornou a sorrir. Ali estava mais um motivo para que se vissem... o mais breve possível.


Havia um rapaz de cabelos compridos distraído com um pirulito, um rapaz com uma pintinha charmosa distraído com o próprio cabelo e um rapaz de olhar solene desaprovando a distração de ambos.

Estavam no jardim de Afrodite – um lugar tão repleto de roseiras que era um milagre elas não terem coberto a casa –, aproveitando o fim de tarde frio daquela sexta-feira para tomarem chá. Era um costume que mantinham e cuja origem se perdera nas raias do tempo.

Shaka lançou um olhar aborrecido para Afrodite, por cima das xícaras de chá, analisando Mu suspirar pela terceira vez em menos de meia hora. O tal suspiro foi dirigido ao pirulito com o qual ele brincava entre os dedos, talvez tentando decidir se deveria abri-lo ou não.

— Mu?

Sua voz o despertou do devaneio. O pirulito escapou dos dedos de Mu e se precipitou ao chão. Ele se mostrou espantado, como se Shaka o tivesse apanhado em flagrante fazendo algo ilegal.

O rapaz de olhar solene viu um dos cantos dos lábios de Afrodite se erguer, num sorriso mal contido, e seu aborrecimento piorou. Não falou nada. Já havia dito o suficiente e Mu sabia se cuidar. Apenas esperava não ter que enxugar lágrimas ou, pior, fazer curativos nele no futuro.

Todavia, seu silêncio deve ter sido eloquente, pois o rapaz de cabelos compridos desviou a atenção do pirulito que acabara de recuperar para encará-lo com curiosidade no rosto sereno.

— Continua preocupado? Sei que a fama do Aiolia se provou, ele é abusado e briguento, mas continua sendo agradável comigo – explicou-se, dando uma ligeira espiada no rapaz com a pintinha charmosa, que deveria estar pensando é óbvio. – E eu refleti muito depois daquela noite e percebi o quanto as coisas estavam indo rápidas entre ele e eu, sendo que mal nos conhecemos direito... como você observou no festival.

Inclusive, Mu concluiu que se as coisas estavam fluindo daquela maneira era porque Aiolia lhe fazia bem de verdade. Nas tentativas passadas, tudo sempre havia sido devagar – para não dizer parado –, por nunca achar alguém com quem se sentisse à vontade. Se sentia confortável até demais com Aiolia, dava para notar por sua própria ousadia, coisa inédita.

Como contar isso seria excesso de informação, Mu poupou Shaka dessa parte. Em todo caso, considerou que seu comportamento não era tão atrevido assim, pois ainda não chegara ao ponto de tocar Aiolia em partes indecorosas, nem nada do tipo.

— Entendo. Vocês andaram saindo esses dias?

— Não – respondeu Mu, chateado. – Nossos horários não bateram durante a semana... Ficamos de nos encontrar hoje à noite.

Não que tivessem decidido para onde iriam ou o que fariam. Não queriam um lugar em que não pudessem conversar, como um cinema, tampouco um lugar em que fossem ficar cercado de pessoas barulhentas, como a "praça do passa mal".

— Trocamos mensagens esses dias – alegou Mu, remexendo-se um pouco na cadeira. Fez uma pausa e avaliou o rosto impassível do amigo. – Já deu para conhecer um pouco mais dele...

OK, um pouquinho, refletiu. Por seus horários não baterem, raras vezes ambos estavam online em simultâneo, causando demora nas respostas. Mu percebeu que, conversas randômicas à parte, nenhum deles discorreu sobre a própria vida – igual no carro dos gêmeos. Resultado: quase nada mudou.

O rapaz com a pintinha charmosa estreitou os olhos azuis com indolência e assumiu um vago ar de desconfiança. Como Afrodite, na melhor das hipóteses, era indiferente e, na pior, venenoso, Mu ficou aliviado por ele não se manifestar.

Shaka se limitou a assentir, mantendo a fisionomia solene.

— As três comadres estão fofocando, é? – questionou Máscara da Morte, aparecendo dentre as roseiras do jardim.

— Você pulou o muro outra vez? – Afrodite rebateu, a indignação estampada em seu rosto harmonioso.

Máscara da Morte deu de ombros, sem ter sequer a dignidade de se mostrar culpado, e se sentou na cadeira ao lado dele com um sorriso ladino. Não obstante, ao se inclinar na direção de Afrodite, teve que vê-lo desviar o rosto para o lado contrário sem a menor consideração.

Aquilo fez o rapaz de apelido duvidoso rir e fazer questão de estender um braço ao redor dos ombros dele. O olhar enviesado que Afrodite lhe lançou por tamanha audácia poderia ter feito uma planta murchar. Entretanto, Máscara da Morte era insensível demais – ou obtuso demais – para se deixar afetar.

Mal chegou a dar uma olhada em Shaka, que estava concentrado no próprio chá, porque seu maior interesse estava no rapaz de cabelos compridos.

— E aí? Deu o fora naquele pirralho irritadinho?

— Por quê? – indagou, balançando a cabeça em negativa. – Eu deveria?

Não que Mu tivesse real interesse em ouvir críticas sobre Aiolia, em especial após Shaka ter parado com as dele. Sua curiosidade se devia a algo simples: qual seria o incômodo de Máscara da Morte com a situação?

Um sorrisinho torto, nada decente, insinuou-se no rosto do rapaz de apelido duvidoso.

— Se você é do tipo que gosta de apanhar, não. – E, reparando que Afrodite lhe encarava, acrescentou: – O quê? Ele bateu até no Milo. Pode ter sido sem querer, mas o que o impediria de acertar o Mu numa dessas?

O que, claro, foi uma coisa péssima de se mencionar com Shaka por perto. Ele se empertigou e disse:

— Andei pensando sobre isso.

— Aí está uma pessoa sensata! – exclamou Máscara da Morte. – Escuta seu amigo, Mu...

O rapaz de cabelos compridos lançou um olhar alarmado para Afrodite. Era só o que faltava! Justo na primeira vez que se interessava por alguém, Shaka e Máscara da Morte – uma combinação inusitada de pessoas – ficariam de conluio contra ele?

Sobretudo, era injusto. Mu não tinha se unido a Shaka ao observá-lo se dando ao trabalho de alertar Afrodite sobre Máscara da Morte, tempos antes.

Tendo se desvencilhado do rapaz de apelido duvidoso, Afrodite admirava algumas das rosas brancas no jardim. Deu a entender que ignoraria a todos, mas, a seguir, soltou um resmungo de desprezo e indagou:

— Querendo novos motivos para brigar com o Aiolia?

— Fala sério, Dita! Eu não preciso disso.

O rapaz com a pintinha charmosa arqueou uma sobrancelha astuta.

— Oh, sim... Por que, então, você me envolveu na sua discussão com ele sábado passado?

— Quem sabe? Eu estava bêbado e sem ideias melhores pra irritar o pirralho.

— Com certeza... – concordou Afrodite, com uma inflexão de voz que sugeria ter teorias diferentes, mas que não valeria a pena se desgastar no assunto.

Mu aproveitou a deixa para se despedir. Isso fez com que os demais se lembrassem da questão principal – Aiolia e ele – e voltassem a encará-lo com expressões ambíguas.

— Eu aprecio a... preocupação geral com meu bem-estar – anunciou com gentileza, ciente de que a possibilidade de Máscara da Morte se preocupar consigo era nula; ele queria causar confusão. – Mas eu quero continuar a conhecê-lo e... lidar com ele ao meu ritmo.

Shaka o acompanhou – permanecer com aqueles dois sem querer amaldiçoá-los era impossível – e foi o trajeto todo em um silêncio contemplativo. Sua única ressalva, ao alcançarem sua casa, foi:

— Vou ser paciente. Aguardar os acontecimentos e... – Escolhendo a dedo suas palavras, prosseguiu: – Torcer para que você continue sendo a pessoa prudente que sempre foi.


Havia um rapaz de olhos meio azuis e meio verdes descabelado por causa do vento, um rapaz de cabelos compridos terminando de fazer uma trança, para não acabar descabelado também, e uma porta aberta entre eles.

— Que ventania – comentou Mu, gesticulando para que Aiolia entrasse em sua casa. – Não está incomodado só com essa camiseta de mangas longas?

— Sou resistente – assegurou, tentando ajeitar as madeixas rebeldes.

O rapaz de cabelos compridos fechou a porta e fitou o rosto de Aiolia. Ele o fitou em resposta – no que pareceu uma eternidade de azul e verde. Mu abriu um daqueles sorrisos espontâneos que não podia evitar para Aiolia. Vê-lo sorrir de volta era fantástico.

A lógica dizia a Mu que deveria pedir a Aiolia que aguardasse um minuto, tempo que usaria para subir até o quarto para buscar a jaqueta dele e um casaco para si mesmo. Ele a ignorou. Continuou parado ali, admirando-o e sorrindo.

Não que o ego leonino de Aiolia se incomodasse com aquele silêncio fascinado. Sua própria feição não devia estar devendo nada para o ego de Mu...

No entanto, não demorou a decidir que ficarem somente se olhando e sorrindo não era o bastante. Suas mãos foram parar na cintura de Mu, puxando-o para si com uma tranquilidade que teria chocado qualquer pessoa que o conhecesse. Inclinou a cabeça e o beijou.

Considerando a atitude uma ideia excelente, o rapaz de cabelos compridos levou as mãos às faces geladas de Aiolia, entreabrindo os lábios e beijando-o de volta. Não se surpreendeu pelo perfume de Aiolia preencher sua mente com imagens de dias ensolarados. Até teria suspirado, se sua boca não estivesse tão entretida com a boca cálida e firme dele.

Voltou a si quando as mãos frias de Aiolia adentraram sua blusa, deslizando por suas costas com vivacidade. Os beijos esquentavam em uma rapidez estonteante – alguns virando mordidas – e seus tórax estavam separados por míseros centímetros.

Deu para ver que ele não sabia o que era um beijo breve e simples de cumprimento. De jeito nenhum. Estavam se pegando em plena sala de estar. Não havia outras pessoas em casa, mas...

— Ehrm, meu irmão deve estar chegando... – alertou, num tom lento e fraco, quase distraído, recobrando a lucidez aos poucos. – Aiolia...?

Ronronando alguma incoerência sobre o pescoço de Mu, fazendo a pele pálida se arrepiar, Aiolia por fim levantou a cabeça, soltando-o com uma dose imensa de contrariedade e relutância.

— Ahn, ah! E você veio me buscar para sairmos – recordou Mu, a cabeça pendendo para o lado e as mechas de sua franja caindo sobre um dos olhos verdes.

— Huh, é... – concordou com a voz meio rouca. – Ainda não sei o nosso destino. Vamos ter que decidir no caminho.

Mu assentiu e pediu o minuto que precisava para ir ao quarto. Subiu a escada refletindo sobre Aiolia não ter andado fumando. Sexta-feira era um dos dias que ele dizia fumar e, já que em teoria Aiolos não estaria por perto naquela noite, ele poderia ter feito isso. Não fez. Ou, se fez, teve o bom senso de não deixar a boca com gosto de cinzeiro. Mu ficou feliz com a consideração.

Ao retornar, perguntando-se se ele estaria substituindo os cigarros por pirulitos, o descobriu parado perto das janelas amplas, concentrado em sondar o lado de fora através do vidro.

O que seus olhos de elfo veem? – citou, a voz baixa e agradável carregando um leve divertimento.

Os olhos azuis-e-verdes se fixaram em Mu com curiosidade. Mostrou ter entendido a referência ao responder:

Eles estão levando os hobbits para Isengard.

O rosto de Mu se iluminou de contentamento. Seu conhecimento sobre Aiolia acabara de aumentar um ponto: além de gostar de estourar plástico-bolha e de receber massagens, ele era fã de O Senhor dos Anéis.

Mas, afinal, o que ele estava olhando?

— Ah, checando se o Milo não está nas redondezas. Com a minha sorte, é capaz de ele brotar na nossa frente, pra variar.

O único motivo para o rapaz de cabelos compridos não rir foi por ter ciência de que não era nada improvável que aquilo acontecesse.

— Aqui – indicou, devolvendo a vestimenta com uma expressão culpada. Consumira todos os pirulitos e balas sem se dar conta. – Acho que estou devendo alguns pirulitos...

Aiolia vestiu a jaqueta, deixando-a aberta, colocou as mãos nos bolsos vazios e balançou a cabeça em falso desapontamento.

Tsc, tsc... – repreendeu, levando a trança de Mu para perto do próprio rosto devagar, fechando os olhos para obter o máximo de efeito em sua atuação. A mão livre alcançou a cintura dele. – Não é só isso que você está me devendo...

— Oh... Não? – perguntou, em confusão genuína, apoiando as mãos nos ombros dele. Reparou que bastava Aiolia o envolver, fosse pela cintura ou pelo quadril, para suas próprias mãos o tocarem no pescoço ou nos ombros. O inverso também acontecia. Era uma reação instintiva curiosa.

— Continuidade, Mu... – sussurrou, submetendo-o a um olhar azul-esverdeado de cem quilowatts. – Você está me devendo continuidade...

As pernas do rapaz de cabelos compridos ameaçaram fraquejar diante de tamanha intensidade. Ficou grato por estar se apoiando no corpo dele. Mordiscou o lábio inferior, deslizando as mãos pelo torso de Aiolia abaixo, sentindo os músculos do abdômen que o tecido da camiseta escondia. Parou o movimento antes de atingir o cós das calças jeans escuras.

— Hmm... Tem razão – reconheceu, os lábios tão próximos que quase podia sentir o piercing gelado na boca dele –, mas não aqui, nem agora...

Em seguida, com cortesia e firmeza, puxou Aiolia porta afora.

O rapaz de olhos azuis que talvez fossem verdes deixou escapar um suspiro sofrido. Compreendendo que aquilo era o mais perto de uma vitória que chegaria por ora, deu-se por satisfeito e se deixou levar com boa vontade.

Uma coisa era certa aquela noite: garantiria que Mu e ele ficassem sozinhos.

Continua...


N/A: Será? :p

Terceiro encontro agora, hein... Que tal este capítulo?

Meus agradecimentos, pelas reviews no capítulo anterior, a Chibi Haru-chan17, Tharys, Diana Lua, Orphelin, Lanny Missmuse e Svanhild S2

Quero deixar uma observação importante: Eu só posto minhas fanfics aqui no Fanfiction e no Nyah, em ambos com o mesmo nickname. Se alguém encontrar alguma fic minha rodando em outros sites, favor denunciar. Obrigada.