Capítulo Seis: O Médico

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Ino e Sakura foram as encarregadas de colocar a mesa do café naquela quinta-feira pela manhã bem cedo. A senhora Uzumaki passara no quarto de ambas, despertando-as, mas não aos seus pares, dizendo que necessitava ir até o centro de Ota para comprar alguns legumes para o almoço.

O pão caseiro já estava posto na cesta e elas se dividiam entre levar as xícaras, pires e colheres e as geléias, ligando a cafeteira e fervendo o leite. Eram muitas pessoas, avaliavam.

A princípio as irmãs trabalharam em silêncio. A rosada mais cheia de bocejos do que resmungos, ao que Ino respondia com monossílabos às perguntas quase raras. Mas com o passar dos minutos o sono foi se afastando por completo, principalmente porque a tia Chiyo decidira ir pegar um ar naquela agradável manhã e se sentara na varanda, requisitando delas chá, biscoitos e muitas colheres de açúcar.

A loira estava à porta da geladeira, tirando o patê, quando Sakura começou a falar.

"Ela está grávida." Disse, de repente. "Naruto deu a desculpa da alta temporada para que Neji não saiba."

Ino preferia não fazer quaisquer comentários a respeito daquilo. Considerava aquele noivado uma decisão inconseqüente visto que Naruto obviamente não estava preparado para um casamento, quanto mais para o filho que logo viria.

Seria tudo mais prático e fácil se eles houvessem se prevenido como sempre mandavam os pais, principalmente os seus. Não conseguia aceitar que tudo aquilo que estava preste a se formar era apenas por inconseqüência. Ino jamais permitiria que algo daquele tipo acontecesse com ela. Priorizava antes de qualquer coisa a segurança na hora de uma relação sexual.

Não podia acreditar que uma mulher como Hinata, que parecia deveras centrada, caíra numa cilada daquelas. Entendia a alienação do irmão, ainda que aquilo não desfizesse a sua culpa, mas a iniciativa para a proteção devia partir delas, pois seriam elas as maiores prejudicadas. Estava cansada de se deparar com casos iguais àquele: um casamento forçado, apenas pela responsabilidade da criança que viria. Um relacionamento fadado ao fracasso.

"Como farão agora?" Quis saber, a voz neutra. "Mesmo que se casem às pressas, não poderão mentir sobre a gravidez por muito tempo."

"É, mas uma coisa é admitir uma gravidez já como senhora Uzumaki e outra é admitir uma gravidez namorando um instável jogador de futebol." Sakura falou. "Naruto diz que o pai da Hinata é assustador e extremamente tradicionalista." Confidenciou, desligando a boca do fogão onde esquentava o leite. "A mamãe já começará com os preparativos para o jantar de terça-feira que Naruto pretende dar no seu apartamento. Hinata ligará para os pais, convidando-os para conhecerem os nossos. Vão anunciar e começar a tratar da cerimônia."

Jogando o pano de prato com que secara alguns copos sujos sobre o ombro, Ino fez uma expressão de insatisfação.

"Não posso acreditar no que vi na noite anterior. Uma enorme burrada." Desabafou. "Mas não quero me envolver nisso. É melhor que não fiquemos fazendo comentários a respeito do assunto ou poderemos constranger a Hinata. É uma situação delicada e ela me parece uma pessoa muito sensível."

Sakura concordou.

Antes, entretanto, que pudesse tecer um comentário a respeito da sua conclusão sobre a personalidade e sentimentos da cunhada, a tia Chiyo berrou da varanda, ordenando que uma das suas sobrinhas ingratas lhe trouxesse mais biscoitos.

O assunto aparentemente morreu aí, mas elas sabiam que não era bem assim.

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O tempo estava feio. Fechara-se de repente, de modo que até mesmo a tia Chiyo se espantara.

Eram apenas nove horas, mas as nuvens negras obstruíram o sol por completo.

Quase nenhum dos ocupantes da casa despertara. Itachi já se encontrava acomodado no escritório do senhor Uzumaki, mas todo o resto continuava em seus quartos, ainda mais com o vento frio que balançava as árvores. Os trovões brilhavam algumas vezes.

Ino desistiu de tentar manter um diálogo com Sakura, uma vez que esta estava furiosa com o mau tempo, pois precisaria ir ao centro de Ota para falar com a costureira.

Sentou-se na varanda, na poltrona onde a tia meia-hora antes estivera, e ficou observando o céu escuro.

Permaneceu imóvel por muito tempo, até que viu alguém se aproximando velozmente sobre um alazão, deixando um rastro de poeira para trás. Ela se levantou àquele acostamento, curiosa para saber quem tinha tanta pressa em vê-los. Logo, os contornos foram tomando formas mais nítidas e a loira avisou Kiba apenas pela pele morena, curtida do sol, e o chapéu, embora já não houvesse sol.

Antes que tencionasse se esconder dentro da casa e fugir daquela presença desagradável, ele já havia se aproximado. Parou o cavalo em frente a casa e desmontou, sem fitá-la uma vez sequer. Havia um brilho apressado, até certo ponto preocupado, nos olhos escuros e o sorriso vitorioso que costumava tomar conta dos seus lábios em tempo integral não estava lá.

Foi subindo as escadas que dariam para a entrada da residência. "A sua mãe está aí?" Perguntou, rápido.

"Está." Respondeu Ino, secamente.

Ele entrou sem bater e, alguns minutos depois, Kushina apareceu ao lado da filha mais velha, junto do Inuzuka. Enxugava as mãos sujas de tinta num guardanapo, mostrando-se sobressaltada.

"Ino, pegue o jipe e vá com Kiba até a casa dos Inuzuka." Ordenou, energicamente.

"O quê?" A loira fez uma expressão incrédula. "Por que eu?"

"Ande logo, Ino!" A mãe mandou, furiosa.

Sem poder contestar, Ino bufou e se levantou. Baixou um pouco mais o tecido da saia que usava e adentrou a casa em busca das chaves do automóvel. Era o cúmulo, pensava, ser obrigada a acompanhar aquele homem insuportável. Só poderia ser um truque para que conseguissem deixá-los a sós.

Calçou as botas, deixando os chinelos para trás, e pegou um casaco, já que o vento frio bagunçava os seus cabelos e batia impiedoso contra a sua face, prenunciando a tempestade súbita que estava por vir.

Sakura já havia ido para o quarto, com o telefone sem fio em mãos, de modo que Ino não encontrou ninguém a quem repassar a tarefa. Assim, arrastou-se para a varanda ao terceiro grito agressivo da senhora Uzumaki, que a apressava, sem se preocupar em acordar ou incomodar alguém.

Ela e Kiba avançaram até a garagem e subiram no jipe. A loira não proferira sequer uma palavra desde então.

"Que é que aconteceu?" Perguntou de repente, asperamente. Manobrou o automóvel, dando a ré, e tomou a pequena estrada de terra que os levaria para fora dos domínios Uzumaki. "Vocês não têm carro, não?"

Ele passou a mão pelos cabelos, segurando o chapéu em mãos para que este não voasse. "A caminhonete estragou ontem à tarde." Disse, como se isso explicasse tudo. Vendo, porém, que a mulher ao seu lado continuava com uma expressão de puro ódio, estreitou os orbes. "Sei que você não gosta de mim, garota, mas dirija essa porcaria mais rápido!" Ordenou, irritado.

Voltando-lhe os olhos azuis faiscantes de fúria, ela se armou para lhe lançar uma resposta malcriada.

"A minha mãe está passando mal, Uzumaki!" Kiba berrou. "Deixe o seu horror infantil de lado por um momento. Preciso levá-la para o hospital!"

Surpresa com aquela declaração, Ino ficou em silêncio. Engatou a quinta marcha do veículo e colocou-o a toda velocidade sobre a estrada esburacada, de modo que avançaram com ligeireza pelo caminho a ser percorrido até chegarem a casa dele. A porteira estava aberta para facilitar a sua chegada e eles logo vislumbraram a casa Inuzuka.

Ela sequer havia parado o jipe corretamente quando Kiba voou para fora deste, correndo escadas acima e sumindo atrás das portas dublas da residência.

Hana apareceu, o rosto lavado por lágrimas. "Eu n-não sei o qu-que aconteceu, Ino-chan!" Dizia, entre soluços aflitos. Passava a mão pelos cabelos, puxando-os, os olhos escuros brilhantes, como os de um gatinho assustado. "De.. de repente ela... ela começou a gritar, alegando uma do-dor forte na cabeça e v-vomitou.."

Sem saber o que dizer para confortá-la, Ino manteve o olhar fixo na direção, tamborilando os dedos, esperando que o Inuzuka saísse logo daquela casa com a mãe nos braços, para que pudessem levá-la de uma vez para o medíocre hospital de Ota. E ela, ainda assim, receava que a tecnologia daquele lugar não bastasse para identificar e sanar o problema. Mas era a única opção que tinham, uma vez que os vôos para Tóquio saídos dali tinham intervalo de horas e às vezes dias.

Começava a chuviscar quando Kiba se aproximou do jipe, trazendo uma Tsume inconsciente nos braços.

Hana se apressou para cobri-la com o casaco que utilizava e os dois subiram no automóvel, fazendo com que a loira imediatamente desse partida neste.

Enquanto que Ino e o homem preferiam o silêncio, os gemidos angustiados da irmã deste irrompiam o silêncio sepulcral, o vento se chocando contra os seus rostos e a garoa começando a se transformar numa chuva forte. Mal haviam chegado ao meio do caminho quando a tempestade os engoliu por completo.

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O hospital de Ota estava em polvorosa.

Quando eles enfim chegaram com Tsume, tendo sido obrigados a esperar por quase meia-hora no jipe para que a chuva diminuísse, uma vez que seria perigoso demais avançar sem que conseguissem enxergar coisa alguma, os médicos prontamente a socorreram.

Kiba a deitou numa maca e ela foi levada para a área de cirurgia, para que fossem executados os procedimentos corretos e se identificasse o problema. Ainda que os dois filhos houvessem tencionado acompanhá-la, foram barrados pela enfermeira, que lhes entregou toalhas e os encaminhou até a sala de espera, alegando cuidadosamente que eles nada poderiam fazer para ajudá-la naquele momento.

O Inuzuka andava de um lado para o outro no minúsculo cômodo, Hana com os orbes inchados pelas lágrimas cerrados, e Ino, que não se sentia à vontade para compartilhar daquele momento de dor íntima, seguiu até a área dos telefones públicos.

Estava completamente encharcada e com frio.

Discou o número de casa e não demorou a ser atendida. "Sakura falando. Quem é?"

"Sakura, passa para a mamãe." Ordenou Ino, os dentes tilintando, os cabelos dourados escorridos pelo rosto, gotas de água que caíam do seu corpo e vestes molhados formando uma poça no chão.

Após um comentário preocupado da noiva e um novo comando de Ino para que ela colocasse a senhora Uzumaki na linha, Sakura finalmente atendeu ao seu pedido. "Ino, amor, o que aconteceu? Como está a Tsume? Vocês devem ter sido pegos pela tempestade! Está tudo bem, querida?" E Kushina despejou várias perguntas, a voz rápida e enérgica.

"Ainda não sabemos, mamãe. A senhora Inuzuka foi levada para a sala de operações e não recebemos notícias até agora." Disse, cansada. "Escuta, será que a senhora não poderia mandar uma muda de roupas secas? Estou congelando!"

A mãe se apressou a concordar, dizendo que mandaria Naruto pegar uma pick-up e que em breve todos - ou pelo menos todos que coubessem no automóvel, o que já eram bastantes pessoas, de fato - estariam ali para dar apoio aos irmãos Inuzuka. Ino tentou dizer que aquilo não seria adequado, que talvez eles fossem um incômodo, mas Kushina já havia desligado.

Suspirando, a loira tornou a colocar o telefone no gancho e foi até o refeitório do hospital, onde comprou dois cafés bem quentes.

Retornou à sala de espera, onde havia apenas Kiba, uma vez que Hana fora até o banheiro, e ela se aproximou do moreno, sentando-se na cadeira ao seu lado. Ele parou ao notá-la junto de si. "O quê?" Perguntou, levemente agressivo. "Vai soltar mais uma das suas piadinhas?"

"Toma." Ino lhe estendeu um dos copos de isopor. "Bebe isso." Disse. "Nós precisamos esperar agora."

Hesitante, Kiba aceitou. Tomou um grande gole de café, fazendo uma expressão desgostosa. "Odeio isso." Comentou, referindo-se à bebida. Encostou a cabeça à parede. Havia um semblante de pura exaustão na sua face. "Eu não sei o que pode ter acontecido. Achei que já estava tudo bem." A voz saía baixíssima.

Ino encolheu os ombros, observando a fumaça da bebida subir e se desfazer no ar. "Fatalidades acontecem." Falou, sem saber como confortá-lo. "Você não tinha como prever que algo do tipo aconteceria. Não pode ficar se martirizando."

Ele não respondeu nada por longos minutos.

"Obrigado, loirinha." Agradeceu então. "Por nos trazer, por... por ficar aqui. Não é a sua obrigação."

"Não seja bobo!" Ela ficou constrangida por um momento. "É o mínimo que eu poderia fazer." Soltou um muxoxo, esforçando-se para não fitá-lo. "Talvez você não acredite, mas eu gosto muito da sua mãe. Ela sempre me tratou muito bem." Sorriu. "Não sei se porque gostava verdadeiramente de mim ou porque me considerava sua futura nora." Brincou.

Soltando um riso baixo, Kiba se virou para olhá-la. Os seus orbes escuros eram profundos e possuíam um magnetismo perturbador que procurava atraí-la para si.

Passou a língua pelos lábios, parecendo distraído.

"Você cresceu, garota." Disse. "Antigamente bastava que eu a encarasse para que você tremesse e fugisse. Quem é que a ensinou a ser tão durona?" Debochou.

"Gaara."

"Acho que eu perdi mesmo, não?" Ele forçou uma expressão pensativa, bebendo mais um gole do café. "Bem, receio que nada esteja perdido até que você tenha uma aliança no dedo." E a procurou nas mãos dela. "Nem a de noivado você traz aí."

Ino hesitou. Ela não achara necessário gastar dinheiro numa aliança de noivado e até então ninguém reparara no fato.

Sorriu. "Não gosto muito de usar anéis." Mentiu. "Por isso aproveitei para livrar Gaara de um rombo no seu bolso." Arqueou os ombros, tentando parecer divertida. "Mas quando eu me casar... bem, daí precisarei usá-la, não é mesmo?"

"Sempre quis que você fosse minha." Kiba não parecia envergonhado de admitir aquilo, ao contrário, mostrava-se extremamente à vontade com a própria aspiração. "Nem que fosse para levá-la para a cama!" Zombou. "Lembro que os seus beijos de má vontade tinham a capacidade de me deixar louco, que dirá os excitados. Eu bem que gostaria de estar na pele daquele seu ruivo aguado."

Antes que ela respondesse, Hana entrou na sala de espera, o rosto já lavado, embora estivesse completamente molhada.

Sentou-se perto do irmão, que a abraçou, e bebericou um gole do café deste, fungando ininterruptamente. Assim, a conversa morreu por si só, o que Ino intimamente agradeceu, pois Kiba começava a constrangê-la.

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Quinze minutos depois, um médico apareceu para lhes dar notícias.

Tinha uma expressão preocupada na face e os três imediatamente se ergueram para recepcioná-lo, ansiosos por ter alguma observação do estado da matriarca Inuzuka.

"O que ela tem, doutor?" Perguntou Hana, aflita. "Ela ficará bem?"

"A senhora Inuzuka teve um aneurisma." Disse o homem pausadamente, como se tivesse medo da reação deles. "É uma dilatação anormal e frágil da parede de uma artéria do cérebro." Explicou. "Ele precisa ser tratado imediatamente por um médico especialista, um neurologista."

"Sim e vocês já começaram o tratamento?" Indagou Kiba.

O médico hesitou. "Esse é o problema, senhor Inuzuka. Nós não dispomos de um neurologista neste hospital." Falou, a voz muito baixa e propositalmente calma, para evitar ainda mais alarde que o que viria com aquela trágica revelação. "Entenda, Ota é uma cidade minúscula. Médicos especialistas são extremamente raros por aqui."

Toda a cor do rosto de Hana sumiu. Ela virou os orbes, tremeu e desmaiou.

Naquele momento, os Uzumaki chegaram, acompanhados de Gaara. Kushina invadiu a sala de espera com extrema rapidez, o xale roxo brilhante voando às suas costas, ignorando os apelos da atendente do hospital, que procurava saber o que um grupo tão grande queria. Tendo Minato ficado para esclarecer o fato, Sakura, Naruto e o Sabaku seguiram a senhora.

O médico imediatamente se abaixara para socorrer a mulher desmaiada, chamando por uma enfermeira, e Kiba se mostrava extremamente nervoso. Ino tinha a mão no seu ombro, tentando de todas as formas acalmá-lo antes que ele fizesse uma besteira.

"Esse maldito hospital!" Começou a berrar, furioso. "A minha mãe pode morrer e tudo o que esses imbecis sabem fazer é falar que nada pode ser feito!" Livrou-se do toque da loira e voou porta afora, esbarrando violentamente em Naruto no processo. "Vou mandar fecharem essa espelunca!" Chutou uma maca que havia no corredor.

A confusão chamou a atenção dos seguranças, que abandonaram a entrada para tentar segurá-lo.

"O que aconteceu?" Gaara se aproximou de Ino, que parecia assustada.

"A senhora Inuzuka teve um aneurisma." Ela explicou, a voz trêmula. "E o hospital não dispõe de neurologistas."

Os outros continuavam às voltas de Hana, que ainda se encontrava sem sentidos, tendo sido posta sentada numa das cadeiras. A enfermeira se aproximou, tentando afastar todos de perto da moça, e abriu um frasco de perfume bastante forte perto das suas narinas para ajudá-la a retomar a consciência.

Todos falavam ao mesmo tempo, gritando coisas diferentes e procurando atrair a atenção do médico para obter mais detalhes. Os silvos irados de Kiba podiam chegar até eles enquanto resistia aos guardas, tendo se aproximado do balcão da recepção e passado os braços sobre este com violência, levando os dois vasos de flores e pranchetas ao chão. Grunhia impropérios, xingando e se debatendo.

Ino estava quase às lágrimas quando o ruivo a beijou. "Vai ficar tudo bem." Prometeu, acariciando-lhe a bochecha.

O Sabaku, ao soltá-la, aproximou-se do médico responsável. "Eu posso cuidar do caso." Disse, chamando não só a atenção dele como a de todos os presentes. "Sou especialista em neurologia. Trabalho no Hospital Central de Tóquio."

O outro o encarou, cético, uma expressão de dúvida. A ela, todos começaram a lhe garantir que Gaara estava falando sério.

"Bem, não temos nada a perder, não é mesmo?" Ele suspirou por fim, embora houvesse imprecisão na voz, uma vez que não tinha certeza da veracidade das palavras do desconhecido à sua frente. "A paciente precisa ser atendida imediatamente, pois corre risco de vida. Podemos preparar a mesa de cirurgias em menos de cinco minutos, doutor."

"Sabaku. Doutor Sabaku." Ele falou, tirando o casaco e o entregando à loira. "Fique com isso, vara-verde." Disse, colocando-o sobre os ombros dela. "Vou ver o que posso fazer pela senhora Inuzuka."

Ele a beijou nos lábios e se virou mais uma vez para o médico.

"Se quiser referências minhas, ligue para o Hospital Central e peça para falar com a Tsunade, chefe do hospital." Avisou. "Ela certamente poderá lhe falar a meu respeito."

Quando ambos saíram, os presentes ficaram em silêncio por um segundo.

"Não sabia que Gaara era tão bom." Comentou Naruto para a irmã, surpreso.

Ino não disse, mas nem ao menos sabia que ele era realmente médico.

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Gaara já estava na sala de cirurgia há duas horas.

Ao saber que o Sabaku operaria a mãe, Kiba se permitiu ser segurado pelos seguranças e, depois de alguns pedidos implorativos, foi levado novamente até a sala de espera, onde estavam todos, sem apresentar mais quaisquer resistências.

Ninguém falava muita coisa. O semblante orgulhoso de Minato se fazia a todos os momentos quando voltava os orbes claros para observar a filha mais velha, que já trocara as vestes molhadas pelas roupas secas trazidas pela mãe. Ainda que se esforçasse para parecer impassível ante Kiba, o velho senhor Uzumaki não continha a satisfação por saber ter um genro como aquele.

Hana, que trajava calças e um moletom largo de Sakura e já se encontrava desperta, não parava de agradecer a Kushina por ela ter tido a brilhante idéia de trazer Gaara consigo. A mulher apenas sorria, alegando que aquela havia sido a vontade do ruivo, que pedira para ir junto deles a fim de ver Ino.

Depois do segundo telefonema de Hinata, que se encontrava preocupada com a demora do agora noivo, Naruto achou melhor ir para casa, uma vez que nada poderia fazer pela senhora Inuzuka. A sala de espera já estava, de fato, muito cheia.

Despediu-se de todos e levou Sakura consigo, ambos se decidindo por ir no jipe molhado da família.

Quando se fecharam duas horas e meia de espera, Gaara apareceu, a roupa cirúrgica suja de sangue, tirando a máscara respiratória de frente da face. Parecia cansado e suado, o que não era típico da sua personalidade imponente. Todos se ergueram imediatamente à sua chegada, ansiosos por notícias de Tsume.

"Nós precisamos esperar." Foi o que disse, antes mesmo que Kiba pudesse perguntar qualquer coisa. "A senhora Inuzuka demorou muito tempo para ser atendida. Não foi um simples aneurisma, mas uma ruptura com hemorragia na meninge, causando a hemorragia subaracnóide." Explicava mecanicamente, sem fitar ninguém em especial. "Ela teve, resumindo, um derrame." Concluiu.

Eles permaneceram em calados à espera do veredicto.

Passando a mão pelos cabelos vermelhos, desgrudando-os da testa e expondo a tatuagem vermelha que tinha sobre ela, Gaara vinha escoltado por uma jovem enfermeira morena, que o fitava pelo canto dos olhos.

"É uma situação difícil, Inuzuka, mas eu preciso ser realista." O Sabaku encarou Kiba, decidindo-se por não poupá-lo, pois o homem lhe parecia forte. "Daqueles que conseguem sobreviver inicialmente ao derrame, metade morre na UTI ou fica com seqüelas. Nós precisaremos esperar." Frisou. "Só assim saberemos se ela resistirá e quais serão as conseqüências."

Hana começou a chorar.

"Gostaria de frisar, antes que alguém julgue a minha ou a competência de qualquer um dos que a atenderam," continuou o ruivo, ignorando as lágrimas da mulher, com um tom profissional. "que a senhora Inuzuka provavelmente já apresentava os sintomas de um aneurisma: dores de cabeça, dores oculares, visão dupla... Infelizmente, as pessoas só procuram os médicos no último caso."

Um chamado dos alto-falantes interrompeu o momento mórbido e a irmã se aconchegou nos braços de Kiba, que se forçava a se mostrar sério e não despedaçado, como se sentia na realidade.

"De todo modo, ela ficará inconsciente de dois a três dias, presumo. Acompanharei o caso enquanto estiver aqui."

O Inuzuka estendeu a mão a Gaara. "Obrigado, Sabaku." Disse, solene.

Apertando a mão de Kiba, o ruivo apenas fez um maneio de concordância com a cabeça. Não fazia o seu feitio se vangloriar pelo seu trabalho, uma vez que já se deparava com casos como aquele há anos. Nada era um mistério. Nada era novo ou entusiástico. Todos os casos eram, para ele, simples casos, independente das pessoas envolvidas.

"Nós não sabemos o que pode acontecer agora, mas, de todo o modo, você salvou a minha mãe da morte fatal." Continuou o moreno. "E, mesmo que ela não resista, eu serei eternamente grato, pois você proporcionou a ela uma chance."

"Eu apenas fiz o meu trabalho, Inuzuka."

"Um bom trabalho."

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Já era quase noite quando Gaara e Ino foram para casa.

Ninguém conseguira convencer Hana e Kiba a irem embora, apesar de tudo, e o casal Uzumaki se foi no final da tarde, pois Kushina precisava começar a preparar o jantar para receber as melhores amigas de Sakura.

A pick-up fora deixada para eles, uma vez que Naruto viera buscar os pais. Enquanto que o ruivo permanecia monitorando as possíveis alterações no ritmo cardíaco da senhora Inuzuka, Ino se decidira por ficar e esperá-lo. Passara o tempo a consolar e entreter Hana, que parecia desolada, mas se negava a abandonar a mãe.

Tendo o Sabaku decidido ir buscar um café na cantina, a loira o acompanhou.

Havia fadiga no semblante dele, agora vestindo um jaleco simples, trazendo um estetoscópio emprestado. "Um café preto bem forte para mim, por favor." Pediu à atendente. "O que você quer, Ino?" Indagou.

"Um cappuccino e um bagel." Ela se sentou ao balcão. "Estou faminta." Disse. "Você deveria comer alguma coisa, Gaara." Sugeriu, voltando os orbes claros para observá-lo. "Papai e mamãe saíram antes do almoço, você sequer deve ter tomado café!" Fitou-o acusadoramente. "Senhores Modéstia também precisam se alimentar, sabia, mocinho?"

"Senhores Modéstia?" Gaara arqueou uma sobrancelha.

Ino sorriu. "Eu apenas fiz o meu trabalho." Imitou-o, fazendo floreios desnecessários com a mão e um bico com os lábios, numa óbvia sátira. "Blábláblá, Inuzuka, não fiz por você, bláblá."

"Debochada." Ele falou, irônico.

Assim que o pedido deles chegou, o ruivo se sentou ao lado da mulher e aceitou, sem quaisquer resistências, um pedaço do pão em forma de anel, que Ino levou à sua boca, logo ingerindo também um pouco de café preto.

Ela suspirou ao provar o bagel. "Ai, mais um pouco e desmaiava por desnutrição!" Choramingou, a boca cheia. Porém, ao tornar a levar os olhos para a face impassível de Gaara, deu um risinho subitamente malicioso. "Mas até que não seria má idéia." Disse de repente, pensativa. "Agora que eu tenho um médico particular, eu acho que posso cometer alguns excessos..."

"Não, não brinque com isso. Quero você saudável para mim." A mão dele lhe tocou a perna por cima da calça jeans, ainda que o Sabaku não a encarasse, ocupado em tomar a sua fumegante bebida, e fez uma leve carícia sobre ela.

Entretendo-se com o seu alimento por um instante, a loira permitiu o aconchegante silêncio.

"Bem," continuou Gaara, um quê divertido em suas palavras, levemente incrédulo consigo mesmo por querer escapar espontaneamente daquele minuto de sossego. "agora você já sabe o que eu faço, conhece a minha irmã, me deu de comer e me deu amor, acho que já podemos nos casar." Zombou. "Como a sua agenda já está cheia de festas matrimoniais por esse mês, que tal no próximo?"

Ino corou de prazer à proposta, mas não permitiu que ele visse. Continuou compenetrada no seu bagel, mordendo-o em bebidas esporádicas do cappuccino e apenas maneou a cabeça numa consideração avaliativa, os cabelos dourados caindo sobre a sua face, desalinhados e já secos.

"Para mim parece bom."

Surpreso, ele a olhou. "Ótimo." Disse então. "Eu compro o anel quando voltarmos a Tóquio."

"Eu gosto de safiras." Ino lhe deu mais um pedaço de bagel, sorrindo.

Eles terminaram a refeição em silêncio.

Ao chegarem em casa, Kushina mandou que ambos tomassem banho, pois em breve Naruto sairia para pegar as amigas e madrinhas de Sakura. Pela expressão de Gaara, contudo, Ino soube que ele não estava disposto a tal.

O clima mórbido provocado pelo estado da Inuzuka foi momentaneamente esquecido, pois a filha do meio dos Uzumaki tratava de alegrar a todos com a sua excitação sem limites ante a chegada de Tenten e da outra moça que não puderam entender o nome. Neji aceitara ser deslocado para o escritório, cedendo o seu quarto de hóspede às damas, que dividiriam a cama de casal, e Sakura passou o resto do tempo o paparicando pela gentileza.

Itachi ria ante aquela movimentação que, para ele, tornara-se habitual.

Na sala de estar, um LP rodava no toca-discos. A voz de Neil Diamond enchia o cômodo e Naruto e Hinata, muito corada, dançavam sobre o tapete, o loiro descalço e descabelado, enquanto Minato lia o jornal.

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Ino abriu a porta do seu quarto ainda ouvindo a música que tocava lá embaixo.

Gaara a seguia e foi direto para a sua mala em busca de roupas limpas. "Tudo bem se eu for primeiro?" Perguntou sem olhá-la, sentando-se logo depois na cama para tirar os sapatos e calçar os chinelos.

"Não. Nada, nada bem." Decidindo-se por calças de abrigo simples e uma blusa de mangas compridas vermelha, ela amarrou os cabelos, que estavam volumosos e levemente frisados por terem secado com o vento. Tinha um sorriso travesso nos lábios quando se aproximou dele, sem tocá-lo. "Eu preciso mesmo tomar banho depois de você?" Indagou, manhosa. "Pretendia tomar com você."

Erguendo os orbes para fitá-la, ele arqueou uma sobrancelha. "Achei que fosse proibida qualquer interação casal aqui."

Tocando-lhe os ombros com as mãos, logo se achegando o bastante para sentar no seu colo, Ino riu, brincando com uma das suíças de Gaara, parecendo distraída. "Bem," começou, como quem não quer nada. "também é proibido fazer sexo. Mas se formos discretos..."

O Sabaku moveu a cabeça numa negativa e suspirou, enfiando as mãos por dentro da blusa feminina, acariciando as costas dela.

"Será que você precisa quebrar as regras sempre para se sentir no comando?" Perguntou. Viu quando o seu cenho franziu àquelas palavras irônicas e ele se apressou para capturar o lábio inferior entre os seus dentes, evitando a explosão de humor. "Eu quero." Disse então, as respirações descompassadas se mesclando. "Ouso dizer que quereria qualquer coisa que envolvesse você e, acredite, isso não é saudável."

"Eu deveria ficar ofendida por ser considerada um vício ruim, Gaara-babaca." Ela suspirou ao sentir a pressão das mãos dele sobre os seus seios. "Mas fico satisfeita por saber que você não pode se livrar de mim assim tão facilmente."

"Você está certa." Ele murmurou.

Antes que pudessem terminar o que começaram, Ino procurando livrá-lo da camisa, a senhora Uzumaki bateu à porta do cômodo, apressando-os.

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A água morna caiu sobre os seus cabelos dourados.

Gaara estava ao seu lado, nu, esfregando a cabeça para espalhar o xampu. Ino nunca tinha dividido um banho com qualquer pessoa. Jamais houvera intimidade para tal, para permitir que alguém a visse despida sem que o fato envolvesse sexo. Ela sorriu ao perceber como era gostoso fazer aquilo.

Percebendo-a feliz, ele fitou-a, curioso. "O que foi?" Perguntou, vendo-a friccionar o sabonete contra o corpo, provocando bolhas.

"Ohh." Ela mordiscou o lábio. "Nada." Desconversou.

"Hn."

Dando espaço para que ele removesse o xampu dos cabelos, Ino viu o sabão escorrer pela sua pele, massageando os seios e os braços e pescoço. Os orbes de Gaara estavam fixos nos seus movimentos, quase como se quisesse prevê-los.

Notando-se observada, ela o encarou. "O que foi?" Indagou, confusa.

"Ohh." Ele fez um som muito parecido com o proferido pelos lábios femininos. Pegou o tubo de condicionador, abrindo-o e virando um pouco na palma da sua mão. "Nada." Debochou, sem fazer mais quaisquer comentários.

Ino fez uma expressão de desgosto. "Se eu falar porque estava sorrindo você me conta por que estava me olhando daquele modo?" Ofereceu.

"Sim."

Voltando para debaixo do chuveiro, a loira removeu o sabão sobre a pele, corada sem nem saber ao certo porquê. "Bem, eu apenas estava pensando que jamais havia feito isso com outro homem." Disse, tentando dar uma entonação casual às suas palavras. "Digo... nunca me despi sem outra intenção além do sexo." Comentou, parecendo levemente hesitante.

"E eu estava pensando que você me excita passando o sabonete pelo corpo desse jeito." Reiterou Gaara, ainda a fitá-la profundamente. "Não quer que eu faça isso por você?" Ofereceu, malicioso.

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"Eu estou exausto, senhora Uzumaki." Falou Gaara à Kushina enquanto esta terminava de pôr a mesa do jantar. "Você se importa se eu me recolher antes da refeição?" Indagou, passando a mão pelos cabelos molhados.

Ela lançou um olhar benevolente ao genro.

"Claro que não, querido." Sorriu, gentil. "Você deve estar mesmo cansado após toda a movimentação de hoje. Merece, mais do que ninguém, uma boa noite de descanso. Não precisa se preocupar, porque teremos todo o tempo do mundo para nos familiarizar com as amiguinhas da Sakura, está bem?"

Maneando a cabeça em sinal positivo, ele lhe deu boa noite, despedindo-se também daqueles que estavam presentes na sala de estar, conversando e ouvindo música, e, depois de dar uma breve explicação referente ao seu cansaço, subiu as escadas na direção do andar superior. Ino terminava de pentear os cabelos loiros quando o Sabaku entrou no quarto.

Olhou-o pelo reflexo do espelho, curiosa.

"Vou dormir." Explicou Gaara, tirando a camisa e os sapatos e se deitando na cama simplesmente. "Não agüento ficar mais um minuto de olhos abertos, que dirá até a hora em que todos resolverem se recolher."

Ino riu. "Coitadinho do meu médico." Balbuciou, engatinhando sobre a cama na direção dele. "Fico aqui com você até que pegue no sono, Gaa." Disse, deitando a cabeça sobre o seu travesseiro, por cima das cobertas. Ficou a olhá-lo, estendendo a mão para fazer carícias nos seus cabelos vermelhos úmidos. "Amanhã você vai acordar com as galinhas e nem pense em me chamar." Brincou, a voz baixa.

Com as pálpebras baixas, ele não respondeu.

Acariciando-o por muito tempo mais, Ino suspirou.

Havia muitas coisas sobre Gaara que ainda eram uma incógnita para ela. Quando o ouvira se apresentar ao seu pai como médico, jamais poderia crer que ele fosse realmente médico. E, sendo-o, Ino não poderia imaginar como o ruivo viera parar ali, junto dela. Não fazia idéia, também, porque havia um anúncio no guia telefônico o sugerindo como acompanhante. Ele definitivamente não precisava daquilo, não precisava salvar mais vidas do que já o fazia todos os dias.

A cada segundo que se passava, queria mais e mais de Gaara. Queria saber o que ele fazia nos seus tempos vagos, quando não estava ocupado com as clientes e pacientes, quais os seus pratos preferidos, a cor que mais gostava, conhecer os seus melhores amigos.

Ainda que houvesse feito várias descobertas, Ino receava que, não fossem elas obras do acaso, jamais tomaria conhecimento de qualquer coisa.

Tinha medo de que, no final, ele revelasse que amá-la, aconchegá-la, beijá-la, tudo isso fazia parte do plano para torná-la auto-suficiente. Aquela dúvida a remoia, embora procurasse não suscitá-la. Mas era inevitável olhá-lo sem considerar que viviam uma farsa.

"O que eu sou para você, Gaara?" Murmurou, angustiada, crente de que ele já dormia.

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Quando Ino por fim desceu, todos já estavam reunidos na sala de jantar, inclusive as duas amigas de Sakura, que conversavam alegremente.

Uma delas, a loira percebeu, era morena e magra, os cabelos presos em coques até certo ponto infantis, trajava calças jeans justas e um pulôver verde, que combinava com os olhos cor de chocolate. Parecia ter a mesma idade da irmã, ao contrário da outra, que se mostrava uma senhora. Talvez como a senhora Uzumaki, ela arriscava dizer. De cabelos dourados e seios fartos, um sorriso grande nos lábios pintados de rosa.

Percebendo-a presente, a noiva se apressou em apresentar as convidadas a ela. "Porca, essas são Tenten," apontou para a mais jovem, que lhe acenou levemente com os dedos. "e a Tsunade-shishou." Referiu-se a outra. "E essa é a Ino, minha irmã mais velha."

"Muito prazer, Ino!" Cumprimentou Tenten, muito animada. "A Sakura vive falando de você."

"O prazer é todo meu." Ino sorriu.

Sentou-se à mesa à ordem da mãe, que tencionava começar a servir o jantar.

Sakura logo tratou de explicar-lhe donde as conhecia - e pela expressão impaciente de Sasuke, Ino pôde supor que não era nem a segunda nem a terceira vez que ouvia aquela história. Passou longos minutos relatando como conhecera Tenten na faculdade, quando dividiram um quarto no Campus Central e ficaram muito amigas, embora não houvessem escolhido o mesmo curso (a morena fizera Ciências Contábeis e agora trabalhava com o pai).

Quando chegou a parte de contar sobre Tsunade, Kushina amigavelmente a interrompeu para colocar os pratos na mesa. Naruto, que estava faminto e sem vontade de ouvir os relatos da irmã, sugeriu que a conversa fosse terminada após a refeição, o que as duas visitantes aceitaram de imediato.

A sala de jantar dos Uzumaki não era grande o suficiente para comportar tantas pessoas.

Enquanto que os convidados estavam à vontade nas cadeiras acolchoadas, os três filhos da família e também Itachi, que se oferecera depois de ouvir Kushina falar que se acomodaria em qualquer lugar, foram obrigados a se ajeitar em bancos encaixados à mesa, pois já não havia mais espaço. Assim, entre histórias de família contatas animadamente por Minato, comentadas pelos presentes, o tempo passou devagar.

Tsunade, por ser mais velha, simpatizara imediatamente com os pais da amiga. "Eu também sou médica." Comentou com o senhor Uzumaki depois deste ter dado um breve relato sobre os turbulentos acontecimentos do dia, citando o genro com orgulho. "Sou a nova chefe do Hospital Central." Esclareceu.

Ao ouvir aquilo, associando o nome da mulher enfim àquele que ouvira Gaara pronunciar como referência, Ino engasgou.

"Ohh, meu Deus, Tsunade-shishou!" Sakura soltou um gritinho excitado. "Quando foi que isso aconteceu? Por que não me mandou nenhuma carta? Ohh!" A tosse da irmã foi imediatamente abafada pela sua animação. "Mal posso crer. Foi o que você sempre quis, não é mesmo?" Fitou a mulher com um grande sorriso, virando-se para encarar os pais. "Tsunade-shishou esperou por isso a vida inteira! Foi pupila do médico-chefe do Hospital Central, o senhor Sarutobi!"

Parecendo curioso, Itachi, que dava palmadas amigáveis sobre as costas de Ino, ao seu lado, para ajudá-la, voltou-se para Tsunade. "Tsunade do Hospital Central, você diz?" Repetiu, o cenho franzido. "A chefa do Gaara?"

"Sim, Gaara trabalha no meu hospital." Ela respondeu, aparentemente sem saber o porquê da pergunta. "Ohh." Fez. "Não me diga que Gaara está aqui?" Perguntou, incrédula. "Sei que ligaram hoje à tarde para o hospital para confirmar a licença médica dele, mas não pude atender, pois estava tratando de alguns assuntos jurídicos antes da viagem." Explicou. "Gaara realmente está aqui?"

Parecendo agradavelmente satisfeita com a incrível coincidência, Kushina se apressou para confirmar.

"Gaara é noivo da nossa filha, a Ino." Apontou para a loira, que até então estivera encolhida à mesa, querendo passar despercebida.

Tsunade a fitou demoradamente, esmiuçando o perfil feminino como se até então não a tivesse visto com clareza. "Eu não sabia que Gaara tinha uma noiva." Ino gelou ao comentário confuso, mas a outra logo lhe deu um sorriso reconfortante e afável. "Ele sempre foi muito fechado." Esclareceu a todos.

Como se aquele fosse o pretexto para que a conversa sobre o assunto fosse encerrada, Naruto começou a questionar Tenten a respeito das coisas vergonhosas e execráveis que a irmã deveria ter feito na época em que cursava faculdade e ainda usava calças de couro. Sakura imediatamente corou ao ver como a amiga ria maliciosamente e se apressou a mandar o loiro ficar em silêncio, pois ele não tinha nada que aborrecer Tenten com suas perguntas bobas.

Com medo de que fosse mais uma vez lembrada, Ino terminou o resto do jantar em silêncio, conversando vez ou outra com Itachi, porque esse não se cansava de lhe fazer gentilezas.

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"Confesso que quando ouvi Gaara-kun citar o nome da Tsunade-shishou, nem sequer prestei atenção. Estava tudo tão bagunçado pelo desmaio de Hana e as notícias sobre a senhora Inuzuka que eu mal ouvi o que ele disse." Dizia Sakura, saboreando a sobremesa.

Tsunade riu por um momento da distração da noiva, mas ficou séria para esclarecer a todos a função do ruivo na equipe do seu querido hospital. "Gaara é um dos melhores da equipe de cirurgia." Falou, assoprando o café para esfriá-lo. "Trabalhava com o Sarutobi e é uma honra tê-lo comigo. Sempre passa muito tempo conosco. Dá muitos plantões e às vezes preciso mandá-lo para casa! Não sei como pode ter tempo para uma noiva."

Sorrindo, Ino resolveu aceitar a situação com naturalidade.

"Bem, eu também sou uma pessoa deveras ocupada, Tsunade." Disse. "Mas conciliamos o tempo que dá."

"Sim, meu bem, acredito que sim." Ela respondeu, francamente. "Sei que deve ser difícil conviver com um médico. Muitas cirurgias, serviço atrasado, hospitais sempre cheios... Não é uma tarefa fácil de se fazer, mais ainda para quem precisa se adequar à nossa rotina."

"Nunca gostei de sangue." Sakura interrompeu. "Por isso escolhi a enfermagem." Explicou. "Não falei a vocês, não?" Fitou os pais. "Tsunade-shishou foi minha professora em Anatomia, Histologia Humana e Patologia um ano antes de voltar para Tóquio a chamado do seu avô, o senhor Sarutobi. Tsunade-shishou atuou como uma tutora para mim, embora fôssemos de ramos diferentes!"

Cerca de uma hora depois, quando Naruto e Hinata pediram desculpas e resolveram ir dormir, Ino aproveitou para fugir também.

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Quando adentrou o quarto escuro, a loira tateou o lugar até chegar ao roupeiro, pegando o pijama. Sempre sabia onde ele estava, pois sempre estava no mesmo lugar. Assim, se despiu e vestiu a camisola, os pêlos do corpo se arrepiando ao sentir o frio típico da noite.

Com a higiene bucal noturna já feita, ela correu para a cama e se escondeu embaixo das cobertas, sem se preocupar em fazer movimentos suaves para não acordar Gaara. O fato é que, apesar de Ino não fazer idéia, o ruivo estava acordado há algum tempo, revirando-se sob a cama tão vazia e, percebendo-a se acomodar ao seu lado, imediatamente agarrou a cintura delgada, puxando-a para si.

Soltando um grito assustado, Ino reclamou àquele gesto brusco, xingando-o, mas a sua fúria logo foi dissolvida ante os beijos que recebeu no pescoço.

"Achei que estivesse dormindo." Soltou, suspirosa.

Ficando por cima do corpo feminino, Gaara não respondeu coisa alguma. As mãos ergueram a camisola para acariciá-la com mais impetuosidade e ela já levara as mãos até as costas dele, por debaixo da camisa, contornando os músculos com as pontas dos dedos.

"Sabe quem está aqui?" Ela indagou, ainda querendo conversar.

"Hn."

Naquele momento, ele lhe invadiu a boca com a língua, mordiscando o seu lábio inferior com força, a ponto de fazê-la gemer e corresponder com tal ou maior ardor. O beijo durou por tempo suficiente para que ela quisesse mais e, ainda assim, não o bastante para reprimir a sua desesperada vontade de contar para o Sabaku quem dormiria no quarto próximo ao deles.

Enquanto o livrava da camiseta e ria das cócegas que o deslizar do nariz de Gaara sobre o seu ombro provocava, arqueou o corpo na direção das carícias que recebia, ansiosa por mais.

"A sua chefe está aqui.. Hmm." Arquejou. "Tsunade, não é?"

"Tsunade?" Ele imediatamente ergueu a cabeça ao ouvir o nome da mulher.

Aborrecida por ele ter parado de beijá-la, Ino fez um bico com os lábios, erguendo-se, apoiando-se com os cotovelos sobre o colchão.

"É. A sua chefa Tsunade, a que trabalha no Hospital Central. É loira, tem peitos grandes..." Ia dizendo ela, conforme voltava a guiá-lo. Beijou-lhe o tórax, fazendo com que Gaara rilhasse os dentes ao contato da língua feminina contra a sua pele. "Ela é amiga da Sakura. Deu aulas para ela antes de ir para Tóquio. E é isso que eu sei. Ahh, e nos desejou felicidades."

Relaxado, Gaara lhe sorriu. "Isso não foi muito simpático da parte dela?" Debochou, causando gargalhadas na loira, que já havia se habituado ao requintado humor negro daquele homem.

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O barulho incessante do celular a despertou.

Ino tateou o criado-mudo atrás do aparelho, depois de algum tempo ouvindo a melodia aborrecida do toque. "Quê?" Grunhiu, rouca e irritada por ter sido acordada às, checou no rádio-relógio, seis e quarenta da manhã.

"Porca, ligue a tevê agora mesmo." A voz apressada de Karin soou.

"Não tenho nenhuma televisão funcionando aqui, Karin." Ela bocejou, acendendo a luz do abajur.

"Fique com o telefone no ouvido. Vou aproximar o meu aparelho do televisor para que você escute." Ordenou ela.

A loira ouviu alguns ruídos e logo depois reconheceu a apresentadora do jornal da madrugada de Tóquio. "Ontem à noite, Yamato Tsunami, secretária de Sasori da Akasuna Company, entrou com um processo por atentado ao pudor contra o presidente da companhia. Alegou publicamente que o senhor Akasuna ameaçara demiti-la caso não mantivesse relações sexuais com ele após ambos terem sido pegos nus na sala da presidência."

Arregalando os olhos, Ino se sentou na cama, incrédula. "Oh meu Deus!" Soltou, assim que as vozes sumiram.

"Isso mesmo. A entrada da empresa está um caos. Acho melhor você começar a trabalhar já para reverter isso. Sasori não apareceu até agora e Deidara não quis nos atender. Você precisa dar um jeito, loirosa."Avisou Karin. "Eu estou no serviço, mas nenhum de nós tem a quem receber instruções. Gai está em Londres e você sabe que aquela ameba não nos ajudará em nada a resolver o problema. Nem sei como pode estar na vice-presidência!" Reclamou ela. "Conecte o seu notebook à Internet que eu atualizarei o seu banco de dados."

Jogando as cobertas para o lado, Ino ficou de pé. "Reúna os chefes de departamento na sala de audiências que eu passarei as coordenadas por telefone. Estou indo agora mesmo para o escritório. Ligo para você em dez minutos."

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Meia-hora depois, já menos apressada, Ino considerou positivamente que aquele não havia sido o pior escândalo que a empresa presenciara naqueles últimos anos. Depois do caso dos operários contrabandistas, do desvio de verba pela parte de um dos estagiários do setor administrativo e do furor causado quando Sasori apresentara a todos Deidara, o seu marido, eles poderiam muito bem reverter aquela má situação.

A primeira medida a ser tomada foi contatar os advogados e os relações-públicas da Akasuna. Deturpar a visão que a mídia deixara sobre o presidente seria o primeiro passo para que tudo fosse revertido.

Depois disso, Ino ditou que seria necessário colocar os principais meios de comunicação contra a secretária para evitar que o tumulto tomasse proporções maiores. Ligou para um dos seus contatos no Jornal de Tóquio e o convenceu a escrever um artigo satirizando o drama vivido na noite anterior. Colocar a moça como uma aproveitadora e mentirosa lhe custara cinco mil dólares, mas era o mínimo que ela poderia pagar, uma vez que não sabia se as alegações de Tsunami eram verdadeiras. O fato é que não poderia deixar que ela as provasse.

Era até bom, pensou enquanto atualizava o banco de dados da companhia do notebook, que Sasori houvesse sumido. Ele poderia de alguma maneira prejudicar o andamento do que Ino passara a chamar de 'remendo' após alguns anos enfrentando crises semelhantes.

Os acionistas eram muito puritanos e a menor desordem quedaria em uma reunião de horas e horas discutindo a melhor solução.

"Coloque um padre na televisão." Ordenou Ino ao assessor particular de Sasori, Sai, que era quem geralmente tratava dos assuntos maiores. "Difame a imagem dessa vagabunda, Sai. Levante todos os seus podres, coloque conhecidos declarando a sua promiscuidade. Acabe com ela. Não podemos deixá-la falar uma palavra sequer, exceto nos tablóides."

Sai era ótimo naquilo. Tornava ações as suas ordens com uma rapidez exímia e muitas vezes resolvia problemas pequenos sem ter de atormentar Sasori ou, mais precisamente, Ino, a quem ele era sempre enviado a pedir instruções.

"Não podemos deixar nenhum processo cair contra a companhia. Já tivemos de abafar o escândalo do roubo dos operários." Levantando-se da poltrona para esticar as pernas, ela andou de um lado para o outro dentro do escritório, ainda de pijama. "Aliás, vamos desdenhar disso, meu caro. Crie uma campanha publicitária debochando das alegações infundadas daquela secretáriazinha. Os críticos irão adorar."

"Algo do tipo 'Se até vadias podem comprar um duplex, por que não você'?" Sugeriu o homem, malicioso.

Ino arriscou um riso.

"Mais ou menos isso. Mas entre em contato com o jurídico. Não queremos mais nenhuma surpresinha indesejada." Parou para pensar por um segundo. "Aliás, vamos nos aproveitar da ambigüidade. Utilize uma cadela."

"Entendido."

"Mande o orçamento da nova campanha para mim ainda hoje. Não esqueça que temos três outdoors locados no centro de Tóquio até mês que vem. Instrua os funcionários a não comentarem nada com ninguém. Ameace-os. Se algum deles prestar qualquer depoimento, nós saberemos e o puniremos. Contrate imediatamente uma nova secretária." Ela falava tudo aquilo muito rapidamente, pois era como lhe ocorriam os pensamentos no momento. "Mande os nossos relações-públicas irem à imprensa no horário de almoço, instrua-os a ridicularizar e minimizar os acontecimentos."

Se havia algo no qual Ino era boa, era naquilo. Nascera para comandar. As suas ordens fluíam com uma rapidez e precisão que espantavam às vezes até ela mesma. Atribuíra para si grande parte das tarefas de Sasori, mas por vontade própria. Ver a maneira como as pessoas a olhavam com reverência ou como se apressavam para escutá-la a fazia se sentir bem e satisfeita consigo mesma.

Fazia mais de dez anos que estava lá. Começara o estágio ainda na faculdade e não demorara a ser efetivada. Gai, o vice-presidente, imediatamente simpatizara com ela e a sua ligeireza em prestar os serviços mandados. Aí veio Sasori. Ino sabia que fora ele quem decidira efetivá-la, mas não pela capacidade intelectual, sim pela beleza. Naquele tempo já era bissexual, porém não assumido.

Ao ficar ao lado dele, ela percebia que aprendia mais. Então não se absteve quando o ruivo a beijou, pois gostava dele. Ele lhe dava prazer.

E ali estava ela: chefe de um grande setor, respeitada, bem remunerada. Aquela era Ino: parte da Akasuna Company.

"Mantenha o Deidara longe da mídia, caso ele resolva gritar para todos o quão envergonhado se sente por ter sido traído. Caso algum dos contribuintes ou sócios ligue, afirme que está tudo na mais perfeita ordem." Continuava, a voz imponente. "Coloque os nossos advogados com um processo em cima da vadia ainda hoje. Quero vê-la arrependida, implorando para que paremos."

"Sob que motivo?"

"Invente um motivo! Nós temos uma equipe de criação para isso, meu caro." Ela desdenhou. "Ordene-lhes que criem um bom motivo ou eu criarei uma nova equipe de criação!"

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Quando Kushina bateu à porta do escritório para perguntar se estava tudo bem, Ino imediatamente disse que sim e pediu para que fosse deixada só para responder alguns e-mails.

O seu confinamento durou até o final da manhã, em que recebia constantes ligações de Sai, Karin e Kakuzu, o chefe do financeiro, e a equipe de publicidade já havia começado a produzir a nova campanha, intitulada por eles de 'A Inominável', visto que não poderiam fazer qualquer citação ofensiva a Tsuname ou mesmo citá-la no cabeçalho.

No horário do almoço, todos os relações-públicas da Akasuna já tinham entrado em contato com a imprensa e Tóquio inteira estava a par do drama protagonizado pelo turbulento Sasori, como era conhecido, e a sua promíscua/pobre secretária (as opiniões se contradiziam aí).

As feministas e alguns reacionários ficaram ao lado de Tsuname, mas todos os figurões preferiram se manterem neutros, não tecerem comentários a respeito e, se exigida deles uma opinião concreta, diziam que acontecimentos como aqueles eram comuns em grandes empresas. Suas palavras deixavam implícitas as opiniões que tinham - ou aparentavam ter: todos se mostravam crédulos às acusações da moça envolvida. E o padre contratado por Ino serviu para que os julgamentos se modificassem.

Ela já se sentia relaxada quando soube que os advogados da companhia armavam o processo a ser aberto contra Tsuname.

"Não vamos fazer alarde." Disse. "Mande um dos nossos meninos telefonar para a garota quando estiver tudo pronto. Vamos propor um acordo: ela fecha o bico e nós não a processamos."

Zabuza, o advogado-chefe, soltou um grunhido de concordância. Ele preferia os casos penais.

"Você é o melhor, Zabuza." Afirmou Ino. "Eu tenho certeza de que fará com que ela implore para que não a destrocemos."

Nos negócios, Ino não sabia quando era cruel. Ela simplesmente o era. Passava por cima de qualquer um que por um acaso viesse a atrapalhá-la e não sentia remorsos por isso. Qualquer coisa que desregulasse o funcionamento da Akasuna era um estorvo que deveria ser removido.

Mesmo que Tsuname fosse vítima, Ino não se importava. Ela decidira tentar processar a pessoa errada, a companhia errada, e Ino não poderia perdoá-la por colocar repórteres ensandecidos em frente às portas da Aka. A publicidade gratuita seria boa com os consumidores de baixo nível, mas afastaria os grandes nomes do ramo que estivessem interessados em se aliarem a eles. Aquilo não poderia acontecer. Nada poderia se interpor nos contratos milionários.

Não importasse o que custasse, aquela secretária seria carta fora do baralho muito em breve.

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N/A: Yep, eu pequei, eu sei. Mas tava uma loucura esse semestre e acabei esquecendo bastante das fics. Mas agora estou de férias e pretendo finalizar A Cor e Sabaku tel até março. Postei hoje porque amanhã não vou estar disponível, mas daqui a 15 dias nós nos vemos normalmente. Ou mesmo no próximo sábado, dependendo. Talvez eu compense vocês pela demora fiadamãe. Vou ver.

Hoje mais pela noite ou no domingo vou atualizar o livejournal, postando comentários a respeito das fics citadas aqui e alguma dica a respeito de A Cor. Já tenho um bom pedaço de capítulo pronto e acho que posso seguir escrevendo semana que vem.

Beijos e até o próximo. Revisem 8D