As coisas ficaram... nebulosas depois da festa.

Eu me lembro que eu peguei a moto e saí de lá, sem me importar se tinha alguém prestando atenção em mim. Fui até em casa, escondi a moto na floresta, atrás de casa, e fui para o meu quarto. Dormi quase que imediatamente, e não sonhei com nada.

No outro dia Charlie já tinha ido pescar quando eu acordei. Ele deixou um bilhete dizendo que Jacob havia vindo buscá-lo no Rabbit para que ele pudesse trazer a minha caminhonete. Imaginei que Jacob havia dito a ele que a caminhonete tinha quebrado, quando não viu a minha moto na garagem.

Tomei café sem vontade, apenas para não ficar com o estômago vazio. Eu ainda estava absorvendo o baque. Aonde foi que eu me perdi?

Depois do café, andei até a floresta. Não queria ficar em casa, mas também não queria ir muito longe. Sentei-me no mesmo lugar onde, há um ano, eu havia estado para pensar no fato de Edward ser um vampiro. Agora eu tinha outra coisa pra pensar.

Eu estava apaixonada por Jacob.

Charlie já havia me dado um monte de indiretas, e eu achava que ele estava vendo coisas. Leah me conhecia muito pouco, e ela sacou tudo.

Eu não tinha mesmo percebido. Eu estava tão preocupada em esquecer o Edward, que não notei o quanto eu tinha me apegado ao Jacob. E eu não tinha me tocado que ele poderia mesmo se interessar por outra pessoa. Eu me iludi com a certeza de que Jacob sempre estaria lá, porque ele gostava de mim, e eu o usava deliberadamente pra não me sentir sozinha. E agora eu estava sozinha.

Sim, porque a natureza dos lobisomens falou mais alto. Ele sofreu uma impressão com a Ashley. E eu sabia o que isso significava: adoração exclusiva para o objeto da impressão. Eu nunca mais teria o meu Jake, agora eu era apenas mais uma conhecida de Jacob Black, filho do melhor amigo do meu pai. Nunca mais haveria as corridas de motos, nem as visitas sem avisar, nem a praia no final de semana... Eu não tinha mais nada a ver com Jacob. Por mais que ele tivesse sido apaixonado por mim, e eu estivesse apaixonada por ele – e agora eu sabia – eu nunca mais seria tão próxima.

E havia acontecido a mesma coisa com Edward. A natureza dos vampiros falou mais alto quando aconteceu o acidente comigo, no dia do meu aniversário. E ele percebeu que eu não servia pra ele. Eu era apenas uma humana frágil, que colocava a família Cullen em risco toda vez que chegava perto. Então ele me deixou, pois eu não era forte o bastante pra permanecer viva ao lado de um vampiro, e nem boa o bastante pra que eu me tornasse uma Cullen.

"Você não tem mais nada... eu ainda posso me dar ao luxo de ter esperança, ao contrário de você."

Leah estava certa. Eu não tinha mais nada. Eu fui rejeitada pelas duas pessoas que haviam mexido profundamente comigo. Nem Edward e nem Jacob me queriam. Eu não era boa o bastante pra nenhum dos dois.

Será que eu ainda era boa o bastante pra fazer alguma coisa?

Levantei-me e fui pro outro lado da floresta, sem me importar com a chuva fina que empastava meu cabelo. A moto ainda estava lá. Fui até o posto de gasolina para encher o tanque, e depois me dirigi até os penhascos de La Push. Eu já havia visto os garotos – Sam, Seth e Quil – pularem de lá para o mar. Parecia divertido.

Cheguei lá e desliguei a moto. Ela ficou encostada numa pedra, enquanto eu me dirigia à ponta do penhasco.

Eu não tinha mais nada. Edward e Jacob não me queriam mais, se foram pra nunca mais voltar. Renée estava na Flórida, feliz com Phil cuidando dela. Charlie tinha o seu emprego, a sua pescaria nos fins de semana, e não demoraria muito a encontrar alguém pra ele, já que eu já era uma adulta. Angela e Ben tinham um ao outro. Não seria difícil para os Newton encontrarem outra funcionária.

Eu não tinha mais nada.

Então não tinha mais nada a perder, não é mesmo?

Me aproximei da beirada do penhasco olhando pra frente. O céu estava lindo, azul. Fazia sol em La Push. Era tão raro acontecer um dia de sol, que eu não pude deixar de sorrir.

Respirei fundo e fechei os olhos. Dei mais um passo pra frente, pensando no que poderia ter sido a minha vida. Com Edward ou com Jacob, eu teria sido feliz. Teria. Mas o tal do destino não queria isso.

"Se é assim, que assim seja", pensei.

E então eu pulei.