CASAMENTO DE ALICE E FRANCO

Bem, como o James não lembra de quase nada que aconteceu na festa, eu vou compor essa parte da história deles com vários flashbacks dos personagens... claro que só da parte que interessa para o andamento, se não não terminaria nunca.

JAMES POV

-James, se acalme, parece até que é você que vai casar...

-Remo, não comece. Eu não estou nervoso.

-Não, só não para de se olhar no espelho e de checar o relógio. – Eu bufei. Droga. Eu estava realmente nervoso. Depois de três anos eu finalmente veria Lily novamente. Logo depois da formatura ela se mandou pra fora do país e eu me envolvi com a paternidade de Sirius. Agora era a minha chance de dizer pra ela de uma vez por todas como eu me sinto. Eu só não sei bem como.

-Então, Bonnie aceitou bem ficar com seus pais? – Já fazia quase um ano da morte de Sirius e essa era a primeira vez que Bonnie dormiria longe de nós. Senti-me culpado. Tinha assumido de vez a responsabilidade por ela.

- Ela parecia bem satisfeita na verdade. Só me preocupo com meus pais, faz um bom tempo que eles não cuidam de nenhuma criança... Não sei se vão agüentar o pique dela. – Tentei parecer confiante. Era difícil admitir a completa dependência que eu tinha de Bonnie, quando na verdade deveria ser o contrário.

-James, você vai ficar careca cedo. – Não era a primeira vez que ele dizia isso. Óbvio que estava se referindo a minha mania de bagunçar o cabelo. Pra falar a verdade, não começou como uma mania. Era mais uma tática idiota para chamar a atenção das garotas, Lily, principalmente. Ela, no entanto, parecia ser a única imune a esse charme. Com o tempo me acostumei a bagunçá-lo quase constantemente. Agora, sem conseguir tirar a maldita garota da minha cabeça, e com o iminente encontro se aproximando, o gesto era quase involuntário.

- Remo, não sou eu que tenho respeitosas "entradas" demarcando o meu cabelo. – Remo ficou sem jeito. Ele realmente tinha entradas. O que era estranho aos vinte anos e lhe dava um ar mais adulto.

-James, nós precisamos conversar.

- Sobre o que, posso saber?

- Sobre você tendo um colapso nervoso assim que ver Liily Evans entrando na igreja. – Lily era uma das damas de honra de Alice, entraria um pouco antes da noiva. Pobre Alice. Não que ela não fosse bonita, mas Lily com certeza atrairia uma atenção a mais para si. A minha com certeza.

-Não se preocupe, Reminho. Tenho tudo sobre controle. Dessa vez ela não me escapa.

-E é exatamente isso que me preocupa. Você sempre tem tudo sobre controle. Até o momento em que a vê. Aí vai tudo por água abaixo. Você sempre toma alguma decisão impulsiva e estraga tudo.

-Hoje não. Serei um perfeito cavalheiro. Mostrarei pra ela o quanto amadureci e serei honesto quanto aos meus sentimentos.

- E o que te faz pensar que isso bastará para que ela caia em seus braços? Hein? É da Evans que estamos falando aqui, ela conhece cada sujeirinha sua. Sem falar que o seu "charme" nunca funcionou muito bem com ela.

- Ora Remo, não precisa me desestimular desse jeito também. – Suspirei. - Eu só espero que o efeito casamento entre em vigor...

-Efeito casamento?

- Você sabe... Por mais que as mulheres estejam felizes pelo casamento da amiga, sempre rola um invejinha... Ficam meio desesperadas para encontrar o verdadeiro amor... Existe todo um clima romântico...

- James, eu achei que você já tinha entendido que Lily não é qualquer garota. Ela com certeza não vai estar com inveja de Alice e você com certeza não vai conseguir nada com ela se esperar que ela fique fragilizada com o "clima" de casamento.

- Não me tire minhas esperanças. Prefiro pensar que tenho chances por causa desse negócio de casamento do que cair na real e perceber que nada mudou e que pra ela eu sempre vou ser o abominável do Potter. – A expressão de Remo caiu. Merda. Eu não queria que ele percebesse o quão desesperado eu estava. Essa talvez fosse a minha última chance com Lily Evans... Sabe-se lá pra onde ela vai depois desse casamento...

- James, eu não quis dizer que você não tem chance... Eu só... Só não acho que você deva se apoiar nessa esperança idiota de que o "efeito casamento" vá agir sobre ela.

-Eu sei que o "efeito casamento" não vai mudar nada assim como sei que não tenho chances com ela, Remo. Sejamos realistas. Lily Evans nunca vai olhar pra mim do jeito que eu olho pra ela. – Engoli em seco. – Mas mesmo assim, Remo, eu preciso me agarrar á alguma esperança. Essa noite é a minha última chance. Eu não acho que vá da certo, mas eu tenho que tentar, uma última vez, tenho que tentar.

- Eu sei. E apoio você. Mas me prometa uma coisa, ok? – Assenti. – Você vai tentar pra valer. Vai ser sincero com ela. Não vai agir por impulso. E mais importante ainda: não vai se humilhar. Em nenhum momento você se humilhará diante de Lily Evans. Porque você e eu sabemos que ela merece coisa melhor do que isso.

- Tudo bem. E se eu não conseguir, Remo. Juro que desisto. Tiro ela da cabeça, parto pra outra... Qualquer coisa. Se Lily me esnobar hoje, eu sumo com ela da minha vida pra sempre.

-Acho sensato, James, o que você disse. Não faz sentido você ficar se machucando assim.

LILY POV

Caramba. Alice vai casar. Eu nem acredito nisso. Parece que foi ontem que Franco a pediu em namoro. Eles estão juntos há o que? Cinco anos. Bastante tempo, até. Eu estaria surtando, se estivesse no lugar dela. Tão nova... Mas parece feliz. Acho que isso é suficiente. Hoje em dia os relacionamentos andam tão estranhos... Minha vontade agora era a de entrar no quarto de Franco e desejar boa sorte, depois, é claro de tê-lo ameaçado de morta em caso de ele não fazer da minha amiga a mulher mais feliz do mundo. Alice não era como eu e Maria, por exemplo, ela era frágil demais. Sonhadora demais. Ávida leitora de contos de fadas, o seu maior sonho sempre foi casar. E hoje vai se realizar. Quem diria que um namorico de colégio daria nisso?

À medida que a hora se aproximava eu ficava mais nervosa. Eu e Maria já estávamos prontas, na suíte das damas de honra. Nenhuma de nós falava nada. Acho que se abríssemos a boca, começaríamos a chorar. Ela não se conteve, no entanto.

-Lily. Lily!- Acordei do transe com um sobressalto. Olhei pra ela. Maria estava com uma cara estranha. Assustada.

-Que foi?

- Eu to... Eu to nervosa. Pela Alice.

-Eu também.

-Quer dizer... Ela é tão... Tão...

-Menina?

-É. – Droga. Agora eu estava respirando fundo. Tentando manter a calma e não chorar, para não borrar a maquiagem.

-Pode chorar, Lily. Eu não vou rir de você. Eu provavelmente vou te acompanhar. – Ela riu com uma cara um tanto estranha. Entre emoção e divertimento.

-Eu não...Eu não queria borrar a maquiagem.

-Eu também não, mas provavelmente vamos. Eu soube que Alice e Franco que escreveram os próprios votos.

- Eu soube. Como será que ela está agora?

-Uma pilha de nervos. Com certeza.

-Sabe que eu não sei? Ela sempre foi tão tranqüila...

-Mas é o casamento dela... E, bem, sempre foi o sonho dela de qualquer jeito. Ela deve estar nervosa igual.

-Eu queria falar com ela. Ver se ela já tem alguma coisa azul pra usar.

- Ela tem, aquela madrinha dela passou a semana inteira correndo atrás dessas coisas... Até me ligou, a nojenta. – Senti uma pontada de inveja na voz de Maria, de certo ela queria ser a madrinha. Alice chamou os irmãos de franco para serem os padrinhos.

-Também não sou muito fã dela. – Admiti.

-Sinceramente. Acho que ela deveria ter escolhido uma de nós pra ser a Madrinha. Faria muito mais sentido...

-Ah, não sei... Eu estive viajando todo esse tempo. Talvez faça sentido convidar alguém próximo da família. Assim não há risco de perder o contato.

- Isso não significa nada. Veja eu e você, por exemplo. Nunca paramos de nos falar. Ligávamo-nos quase todos os dias.

-Seilá. Isso é diferente.

- Diferente como?

-Ai, não sei. Alice se afastou de nós quando começou a namorar Franco. Eu e você continuamos unha e carne. Você e eu, bem... - Não sabia bem como dizer isso. Sempre fui péssima em declarações e expressões de afeto. – Alice é uma grande amiga, mas você é como uma irmã pra mim, Maria.- Droga. Os olhos dela estavam marejados. Os meus também, percebei.

-Ah, Lily! – Ela me abraçou. – Achei que nunca ouviria uma coisa dessas de você. – Tudo bem, agora estávamos ferradas. Não existe no mundo maquiagem capaz de suportar uma avalanche de lágrimas como foi aquela.

-Maria. Eu prometo que se um dia eu casar, você vai ser minha madrinha. – Falei quando nos soltamos.

-Ah Lily!- Ela me agarrou de novo. – Você não deveria ter dito isso agora. Vamos parecer duas zumbis borradas... Ah, e a propósito. Você também vai ser a minha madrinha.

Eu adorava Alice. Mas com Maria era diferente. Eu realmente acho que fomos separadas na maternidade ou algo assim.

-Lily?

-Sim?

-O que você quis dizer com "se um dia eu casar"?

-Ah, é que eu não sei se quero casar... E se vou achar alguém pra isso.

-Você vai se casar sim, Lily Evans. Ou eu não me chamo Maria McDonald. Já consigo até ver o seu casamento: a decoração, os convidados, o padre, o noivo...

- Nem brinque com isso. – Um calafrio percorreu meu corpo só de pensar em casamento.

- Não brinque você. Nem pense em ficar pra titia depois de ter me convidado pra ser madrinha. Você simplesmente TEM que se casar.

- Sua interesseira.

-Meu único interesse é a sua felicidade. Cara amiga. – Ela parou por alguns momentos, analisando minha expressão aterrorizada, ainda, com a visão do "meu casamento". – Então, não vai querer saber quem é o noivo que imaginei?

-Sinceramente, não.

- Você só diz isso porque já sabe quem vou sugerir. – Claro que eu sabia. Ela não perdia uma oportunidade de me lembrar da existência daquele traste. Mesmo depois de três anos sem vê-lo meu estômago embrulhou, ao que sua imagem invadiu minha mente.

- Não sei não, aliás, eu estou namorando. Você não tem porque não imaginar Albert comigo no altar.

-Eu sei que você não se vê casando com ele Lily. Sinceramente, acho que ele é só mais um passatempo pra você, enquanto viaja com a "trupe".

-Primeira coisa. Não somos uma "trupe", somos uma companhia de Ballet. Segundo. Eu realmente gosto dele. Ele me faz bem.

-Ah, fala sério Lils, ele não faz seu tipo. Você só está deslumbrada pelo corpo dele. Logo-logo você percebe que gosta de caras intelectuais.

- Maria, eu acho que eu sei mais sobre o "meu tipo" do que você.

-Claro que não! Eu sou sua melhor amiga, percebo coisas em você que mesmo você desconhece.

-Tipo o que? – Maldita boca essa minha. No momento em que completei a pergunta seus olhos faiscaram. Ah não. Não mesmo. Eu sei o que ela vai dizer. Algo com relação a ELE. Porque ela sempre fazia isso? Trazia esse ser miserável de volta quando a conversa seguia para ramos menos constrangedores... Foi então que eu percebi. Ele provavelmente vai estar lá hoje. Porque era muito amigo do Franco...

-Digamos que quando certa pessoa se aproxima de vo... –UFA! Alguém bateu na porta e corri, literalmente, para abri-la, fugindo da língua afiada de Maria.

-Não pense que esse assunto acabou, Evans! – O pior de tudo é que eu sabia que ela não ia esquecer.

-Oi ! Vera. A Alice ta precisando de alguma coisa? – Me segurei para rir, quando de dentro do quarto, Maria simulou um barulho de vômito ao ouvir o nome da madrinha de Alice.

-Não, de jeito nenhum, eu já cuidei de tudo que ela precisava. Eu só vim aqui avisar que ela está pronta e que pediu pra ver vocês.

-Ah, tudo bem. Estamos indo lá, então. Maria! Venha, vamos ver a Alice.

JAMES POV

Eu e Remo já estávamos sentados nos banquinhos da igreja. Chegamos cedo, por insistência minha, e conseguimos lugares próximos ao altar. E próximos do local onde eu sabia que as damas de honra estariam durante a cerimônia.

Nunca estive tão impaciente em toda a minha vida. Será que ela mudou muito? Será que conseguiu ficar ainda mais bonita do que antes? Espero que não. Se com traços e corpo de menina ela já me tinha na mão, já me deixava louco... Se estiver mais "madura" e bonita... Eu com certeza não atingirei meus objetivos hoje.

Remo parecia sonolento, do meu lado. Até que eu o vi levantar de supetão.

-O que foi?

-Olhe. Emmeline Vance. – Emmeline tinha acabado de nos localizar e agora vinha em nossa direção,

-Remo, James! Quanto tempo!

-Emme!- Demos um abraço nela cada. Remo parecia nervoso. Haha. Eu não era o único.

-Então como vai a vida?

- Vamos levando. – Admito que soei um pouco pessimista.

- Ah, eu soube... Eu soube do Sirius. Tentei mesmo vir ao enterro, mas... Eu estava fora...

- Tudo bem Emme. –Remo começou. – Foi uma coisa pequena mesmo. Foi muito inesperado... A maioria das pessoas daquela época estava viajando. Você, Lily, Marlene... – Preciso dizer que tremi na menção do nome da ruiva?

- Mas eu queria ter vindo, de qualquer jeito... Me despedir.

- O que você tem feito? – Eu não agüentava aquele assunto por muito tempo.

- Agora que voltei tenho estudado, sabe. Vou tentar fazer algum concurso... Ver se fico por aqui.

-Seria bom, sentimos sua falta... – Remo, você é inacreditável. Ela riu pra ele. Algo naquele sorriso, no entanto, não me parecia bem.

- Ah, eu tenho que ir, acabei de ver Marlene. Até mais tarde meninos.

-Até.

-Remo, tome. Não queira sair com baba nas fotos. – Estendi um lencinho que trazia comigo no bolso.

- Você é quem vai babar, James, quando for a vez de Lily ler uma passagem bíblica lá na frente. – Merda. Merda. Merda. Por quê?

-Ela vai ler uma passagem bíblica?

-Não sei se é uma passagem bíblica, mas eu sei que as duas damas de honra vão fazer um pronunciamento.

-Não seria um brinde?

-Não, os brindes acontecem na festa. O que foi? Ta com medo de chorar quando ouvir a voz dela exaltando o amor?

- Eu não choro, Remo. Você já deveria ter aprendido isso sobre o seu melhor amigo.

- Ah é? E aquela vez...

-Foi um sisco! – Eu o interrompi.

-Tudo bem, só acho que é melhor você pegar o lenço de volta. Sabemos muito bem que quando Lily se propõe a fazer alguma coisa ela não brinca em serviço. – Relutante, eu peguei o lenço de volta.

Foi então que eu ouvi a marcha nupcial. Começou baixa e foi aumentando. Franco já estava preparado no altar, junto ao padre. Abanamos pra ele. Estava nervoso e suava como um porco. Nem nos viu. As portas se abriram e então eu a vi.

Os raios de sol que entravam pela porta batiam no seu cabelo e criavam um efeito incandescente. Quase como uma aurora boreal. Como se ela fosse um anjo. Lily entrou, caminhando segura, em um vestido vermelho comprido. Atrás dela vinha Maria, mais alta do que ela, vestida de rosa, o vestido no mesmo corte do de Lily. À medida que ela se aproximava eu não pude mais prestar atenção em qualquer outra coisa.

Meu medo tornou-se realidade. Lily estava mais bonita do que eu podia lembrar. Continuava magrinha e miúda, mas ganhou certo corpo... Estou tentando evitar a grosseria de dizer que ela estava ... Tudo bem, quem se importa mesmo? Ela estava muito gostosa. Era isso. Impossível negar. O vestido ainda ajudava. Pude ver, agora que ela estava mais perto, o decote que havia em suas costas, quase tão "desvirtuador " quanto o da frente. Seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo meio bagunçado... Arrumado ao mesmo tempo. Tudo bem, não entendo nada dessas coisas. A única coisa que posso dizer é que nem vi a noiva entrar. Estava tão ocupado olhando para Lily, babando por ela, como Remo diria, que nem reparei na atração principal do dia.

Lily agora estava muito perto de onde eu estava. Finalmente consegui ver seu rosto com nitidez, longe da luz do por do sol que entrava pelos vitrais. Linda. Seus traços delicados, mas firmes, continuavam os mesmos. Ela estava mais adulta, principalmente por causa da maquiagem. Mas a minha menina ainda estava ali. Apreensiva, pude notar quando ela mordeu o lábio. Morder o lábio era pra ela o que mexer no cabelo era pra mim.

As damas de honra subiram juntas para o lugar que estava reservado a elas, do lado contrário ao dos padrinhos. O pai de Alice entregou-a a Franco e o padre fez sinal de que a cerimônia ia começar.

LILY POV

Meu deus eu estou tão nervosa. Sem falar que já deixei escapar algumas lágrimas. Maria do meu lado me olhava de vez em quando e dava um sorrisinho. Alice também chorava. Muito. Acho que Franco até ficou preocupado que ela não fosse dizer sim no fim.

-Lily! – Maria sussurrou no meu ouvido. – Quer saber quem eu imaginei como seu marido?

-Não. E não devíamos estar conversando. – Por favor, Maria, não me deixe vermelha na frente de todo mundo. Não mencione ELE.

-Mas ele está aqui... – Onde? Eu não o vi em nenhum lugar...Quer dizer, eu nem estava procurando, então... – Anda, eu sei que você quer saber. – Eu a encarei, fuzilando com os olhos.

- Tudo bem então. – Ufa, ela vai desistir. Pelo menos agora. – Segunda fila da direita. – Maldita.

Era impossível não olhar. Quase que por impulso procurei pela respectiva fila. Senti Maria rindo do meu lado. Eu nem escutava mais o que o padre falava. Já estava ficando óbvio que eu procurava alguém na platéia, então me voltei para os noivos. Só pra disfarçar.

-Então, viu ele?

-Não, e não sei de quem você está falando.

-Eu sei que você estava procurando. – Alice nos olhou por um momento. Droga. Cale a boca Maria. Dei uma cotovelada nela.

-Ai!

-Cale a boca então!

Maria olhou nos meus olhos, bem fundo. Então ela se virou para a platéia e sorriu para alguém. Depois, sorriu para mim. Como dizendo: "vá, olhe, eu não conto pra ninguém que você olhou." Argh. A curiosidade foi mais forte que eu, eu tinha que olhar. Tinha que saber se ele tinha mudado muito. Se ainda era tão bonito quanto eu lembrava. Comecei a virar lentamente a cabeça para olhar o exato ponto que Maria indicara com o olhar, quando o padre falou o meu nome. Merda. A passagem Bíblica. Tinha esquecido completamente.

Fui até o microfone meio cambaleante, completamente perdida, eu diria. Pensando no que eu ia dizer sobre a falta da carta aos coríntios. Me postei atrás do microfone e limpei a garganta.

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse Amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse Amor, nada seria. Eu fiz uma pausa para respirar e olhei para os convidados. Involuntariamente meu olhar se desviou para a segunda fila, lado direito. Lá estava ele. Me fitava por trás dos óculos, o cabelo bagunçado, como de costume. Não demorou para que um sorriso zombeteiro se formasse em seu rosto, de certo percebeu que eu o fitava. Meu estômago revirou. Tenho certeza que minhas bochechas já estavam vermelhas. Estava mais bonito do que eu podia lembrar. Mais velho. Parecia cansado, também. De súbito, lembrei do que estava fazendo. Desviei o olhar rápido e tentei me concentrar para lembrar onde tinha parado. Devia ter escutado Maria e trazido tudo anotado num papel. Porque eu achei que podia decorar?Olhei involuntariamente para James Potter de novo. Ele sorriu. Argh. Pare de me distrair! Então a idéia me veio na cabeça. Uma loucura. Alice ia me matar.

Alice, franco, me desculpem, mas eu não vou ler a epístola de Paulo esta noite. Alice arregalou os olhos, mas não parecia brava. Franco simplesmente levantou as sobrancelhas, surpreso. Aposto que ele mesmo nunca leu os coríntios. Eu acho, sinceramente, que eu não sou a melhor pessoa para vir aqui e falar de amor. Mesmo. Pude ouvir alguns risinhos vindos dos convidados. Paulo está, provavelmente, nesse momento se revirando na cova, por eu estar fazendo tamanha desfeita com sua carta. Respirei fundo. A verdade é que eu esqueci... Ouvi tantas vezes essa passagem em casamentos que... Bem, eu achei que conseguiria decorar. Desculpe, Alice, eu sei que você queria um casamento impecável, digno de uma princesa e cheio de clichês... Inclusive a carta aos coríntios, mas eu vou ficar te devendo essa... Quem sabe em alguma boda eu não leia a passagem? Alice sorriu pra mim, acho que tudo ficaria bem, afinal. Eu só precisava dizer as palavras certas agora. Involuntariamente olhei para o Potter. Parecia divertido. Como se eu ter esquecido a passagem fosse a melhor parte da cerimônia. Ele vai ver só. Como muitos aqui já sabem, eu sou péssima pra falar de temas sentimentais. Eu deveria ter decorado a passagem afinal. Os convidados riam da minha falta de jeito e das minhas tentativas desengonçadas de começar a falar algo relevante. Olhei para a segunda fila, lado da direita, de novo. Dessa vez ele me lançou um olhar confiante. Como se dissesse: "Vai lá, faça o seu discurso. Eu sei que você vai arrasar." Respirei fundo e comecei de vez. Mas eu vou tentar, da melhor forma possível, por entre os calafrios que eu estou sentindo agora, falar um pouco de amor. O amor, bem... O amor é aquele sentimento estranho, enrustido. Você nunca sabe que cara ele tem, que cheiro ele tem, que gosto ele tem... Você até duvida que ele exista. "Amor? Bobagem. Coisa de comédia romântica. Mito. Só existe em contos de fada, né Alice? Nunca vai acontecer comigo". Você caminha pela vida, olha pros lados, só pra ter certeza que ele não vem aí, que esse vilão não vai te pegar despreparada e virar sua vida de cabeça pra baixo. Mas ele não existe. Você só está se prevenindo, certo? Certo. Você vive tranqüila, evita becos escuros e dorme tapada até o pescoço. "Não, se ele existir mesmo, não vai conseguir me pegar". Até que, ao seu redor, indícios de que o amor existe começam a aparecer. Seus amigos se apaixonam à primeira vista e começam a namorar, por exemplo. Disse isso olhando para os dois, que estavam abraçados. Alice sorriu pra mim. Os dois não se desgrudam. É até chato ficar perto deles. Parecem tão... Completos. Como se fossem uma só pessoa. Alice e Franco, naquele onze de abril, trocaram seu status de substantivo composto para substantivo simples. Não existia mais a Alice e não existia mais o Franco. Eles eram AliceeFranco, pronunciado assim, junto.

"Mas será que eu quero isso pra mim?" Você se pergunta. "Onde fica minha liberdade? Será que posso manter meu nome...?" O amor está ao seu redor. "Droga. Ele existe". Você constata. "Só espero que não aconteça comigo." Então você se prepara mais do que nunca para lutar contra isso. Lança, escudo, armadura. Até para de passar perfume. "Vai que ele sente o meu cheiro?" Você se esconde. Se fecha. Cria todas as barreiras possíveis para que ele não te encontre. Se sente segura até. "HÁ! Eu sou imune." Você grita feliz. Sério. Nunca faça isso. Não desafie o amor, porque quando ele te encontrar, não vai ter piedade. Ele vai te rasgar de dentro pra fora. Vai arrancar todos os órgão do seu corpo e colocar de volta no mesmo segundo. É como morrer e reviver num piscar de olhos. Num momento você está ali, conversando com suas amigas. No momento seguinte seu coração está acelerado, você perdeu a fala e não consegue respirar. "Merda. Ele me encontrou." Você pensa.

"Não! Eu não vou me entregar tão fácil. Não sem lutar." Então você luta. Pega suas armas e parte para a batalha. "No amor e na guerra vale tudo. Na guerra do amor, então... Só preciso ser criativa." Com todas as suas forças você acorda de manhã e diz: "hoje vai ser um bom dia. Hoje, eu não vou nem olhar pra ele." E você parte, achando que vai dar certo. Você acha que pode driblar o amor, que pode ignorar o seu amor. Você só não sabe que o amor é mais esperto. Ele quer vingança, lembra? A culpa não é sua. Afinal, você nem acreditava que ele existisse.

Mas ele quer vingança. Vingança por sua descrença, por sua petulância em pensar que era imune a ele. Ele vem e te arrebata. Você luta. Você ganha algumas batalhas... Mas ele ganha todas. Aos poucos ele quebra suas barreiras, destrói uma por uma das suas armas. "Cadê a muralha que protegia meu coração?" Querida, uma bomba atômica caiu sobre ela. Não tem mais volta. Ele tomou posse. A partir de agora você não responde mais pelos seus atos. O dono do seu coração agora é ele. O amor.

Você se nega. Sabe que ele está lá. Aceita que ele esteja lá. Mas se nega a obedecê-lo. "Onde está meu livre arbítrio?" Aos poucos, no entanto, ele se apodera de todo o seu ser. De repente, até sua cabeça, a única parte ainda sã, se volta contra você. Você vê o amor onde ele não está.Você o sente quando ele ainda não chegou. Você toma total e completa consciência dele. Só o nome da maldita criatura faz suas pernas tremerem. Vê-lo, então, é como uma viagem de montanha russa, com direito a parada cardíaca e calafrios. Seu corpo, é claro, não colabora. "Hormônios, tudo culpa dos hormônios".

Um dia você olha pros seus amigos apaixonados, "Tão bobos... Mas tão felizes", e pensa: talvez não seja tão ruim esse tal de amor. Quando esse dia chegar, perceba que você não tem mais chance. Ele está em você, impregnado em você, não adianta lutar. "Só mais um pouquinho, só pra ter certeza? Uma última batalha, se não der certo... Se não der certo eu me rendo" E você luta. E perde. E por algum motivo besta que você mesma desconhece, você não se rende. Orgulho? Medo? Um pouco dos dois, talvez.

O tempo passa e você cansa de lutar. Cansa de resistir. "Me agarre logo, seu desgraçado." Mas ele não agarra. O amor é cruel. É vingativo. Eu avisei para tomar cuidado. Quando você finalmente abre as portas pra ele, ele não quer mais entrar. A vida vai tratar de dar outro destino pra ele. O tempo vai tratar de passar. E você, trate de esquecê-lo.

Mas você não esquece. Não assim, tão rápido. Dói. Dói perceber que o que você queria estava o tempo todo ali, debaixo do seu nariz, esperando por você. A culpa é sua. Você que quis arriscar. Quis saber se era de verdade. Era. Agora não é mais. Supere.

Você segue sua vida. Entra em becos escuros e dorme com um olho aberto, para o caso dele aparecer. Tudo parece vazio, as horas parecem vazias. O Tempo passa e lá está você. Quem mandou duvidar do amor? Terminei meio trêmula. Não acredito que disse tudo isso. Eu simplesmente abri a boca e as palavras saíram... Eu nem... Eu nem precisei pensar no que tinha que dizer. Eu pretendia falar alguma coisa rápida, mas... Me empolguei. Foi isso.

Olhei Para Alice e depois para Franco. Ele sorria pra mim. Um sorriso estranho, compadecido... Quase como se estivesse com pena de mim. Alice estava com a maquiagem dos olhos um pouco borrada. Claro. Agora eu via a expressão dela. Chorosa. Ela não quis me encarar, simplesmente enterrou o rosto no abraço do Franco. Olhei para trás. Maria não se continha. Soluçava até. Os convidados na minha frente também tinham expressões estranhas. Alguns sorriam. Outros choravam. Não me atrevi a olhar para a segunda fila no canto direito. Algo me dizia que eu deixara minhas emoções interferirem no discurso.

Alice, Franco. Eu espero que vocês sejam felizes, que saibam cultivar esse amor de vocês... Vocês merecem muito. Não tiveram medo... Por isso chegaram até aqui. E pessoal, desculpem eu ter me empolgado aqui... Boa noite.

Voltei apreensiva para o meu lugar. Maria tentou sorrir para mim quando cruzou o meu caminho, indo para o microfone. Fiquei parada com a cabeça baixa o resto da cerimônia. Céus! Porque? Só espero que ELE não tenha percebido coisas demais nesse discurso. Olhei pra ele. Muito rápido. Só pra ver que ele tinha uma expressão pensativa no rosto. Estava confuso. Então ele me fitou. Epa. Virei o rosto.

Maria estava recitando o soneto da fidelidade de Vinícius de Moraes. Droga. Porque eu não pensei nisso antes? Eu podia ter recitado um poema. Ou até cantado. Nada seria mais embaraçoso do que confessar uma desilusão amorosa. Percebi, passando a mão pelo rosto, que eu tinha chorado. Muito... Ótimo. Agora mais essa.

JAMES POV

Depois dos pronunciamentos das damas de honra e dos padrinhos Alice e Franco fizeram seus votos e o padre os declarou marido e mulher. Mal prestei atenção à cerimônia. Fiquei muito tempo tentando digerir as palavras de Lily. No início eu achei engraçado. Era a cara dela esquecer a passagem e começar a improvisar qualquer coisa. Eu só não achei que seria tão... Tão sincero... Tão emocionante. Tão real. Os convidados se divertiram com o discurso. A clara falta de tato de Lily para falar de temas sentimentais e suas pitadas de bom humor aqui e a ali ganharam a platéia no primeiro parágrafo. Remo tinha razão. Ela não brinca em serviço. Mas algo naquele discurso me deixou desconcertado. Quer dizer... Falava sobre uma garota fugindo do amor... Acompanhava os pensamentos dela... Só podiam ser da própria Lily, aqueles pensamentos. Porque ela não teria tempo para inventar um personagem assim, tão rápido, certo? Eu queria acreditar que ela estava tirando aquilo de alguma experiência pessoal. Juro que ela olhou pra mim, em alguns momentos chave do discurso. Eu queria acreditar que ela estivesse falando de mim. Mas eu não podia. Seria pretensioso demais achar que toda aquela mágoa em relação ao amor e que aquelas lágrimas que ela soltou no fim do discurso eram pra mim. Argh. Preciso resolver isso logo. Preciso falar com ela. Agora.

Todos se levantavam pra sair da igreja. Lily ainda tinha a cabeça baixa, como permanecera a cerimônia inteira. Maria me olhava de um jeito estranho. Será que ela esperava que eu fizesse alguma coisa? Maria sempre me deu suporte, me incentivou a lutar por Lily. Hesitei. Queria pegar a ruiva pelo braço e arrastá-la para um canto em que pudéssemos conversar. Remo, no entanto, me segurou.

-Aqui não, James. Depois você fala com ela. – Bufei e o segui para fora da igreja.