DOCE DEZEMBRO
Capítulo 7
Ikki abriu os olhos. Mais um dia se iniciava. Lembrou-se de que não tinha que trabalhar; estava de férias. Por isso o despertador não havia tocado. Mesmo assim, Ikki acordou no horário usual – seu relógio biológico era mais eficiente que qualquer despertador. Sabendo que não conseguiria dormir novamente e não vendo prazer no hábito que as pessoas têm de ficar se espreguiçando na cama, o rapaz levantou-se de uma vez e foi ao banheiro.
Escovou os dentes tão mecanicamente como sempre fez. Olhou-se no espelho. Olhos vazios que refletiam como ele se sentia. Vazio. Jogou a água gelada que saía da torneira em seu rosto. Os olhos demonstraram estar mais despertos, mas não menos vazios.
Dirigiu-se à cozinha. Pegou uma maçã. Ligou a TV e ficou passando os canais quando viu, de repente, uma figura conhecida em um canal de noticiário.
- O que ele está fazendo na TV? – perguntou-se enquanto aumentava o volume para ouvir melhor.
Era Seiya Kido. Tratava-se de uma reportagem que falava algo sobre as empresas Massato estarem trabalhando em conjunto com as empresas Kido. Ikki não conseguiu assistir a toda a reportagem por não suportar ver ou ouvir por muito tempo aquele diretor-geral. Desligou a TV, jogou o resto de sua maçã no cesto de lixo e decidiu se exercitar um pouco.
Começou a correr na esteira que possuía em seu apartamento. Como sua esteira ficava virada de frente para uma janela que dava para a rua, ficou observando o movimento lá fora. Percebeu então que seria muito mais agradável exercitar-se ao ar livre em vez de fazê-lo entre quatro paredes.
Assim, começou a fazer sua corrida perto de seu prédio e foi se afastando sem saber para onde ia. Apenas corria e o não saber para onde dava-lhe uma agradável sensação de liberdade. Contudo, sem querer ou não, acabou chegando ao parque em que estivera nos últimos dois dias. Decidiu entrar para continuar sua corrida lá dentro.
Eram mais de 8 horas da manhã e o parque estava cheio de corredores – mas, provavelmente, ninguém tinha vindo de tão longe como ele. A maioria morava ali perto e fazia seu cooper matinal por lá. Por uma questão de lógica, Ikki deveria correr em uma praça que ficava próxima ao seu prédio. "Mas não seria a mesma coisa", pensava ele.
Enquanto corria, aquela sensação de liberdade continuava e Ikki não lutava contra ela. Não tinha para onde ir e não tinha pressa de chegar aonde quer que fosse. E não precisava se repreender por nada disso. Era, definitivamente, uma boa sensação.
Finalmente, após um bom tempo que ele não soube precisar – estava sem relógio, pois se esqueceu de colocá-lo – parou para recuperar o fôlego. Aproveitou para beber um pouco d'água em um bebedouro ali perto. Foi quando ouviu:
- Ikki?
Reconheceu de imediato aquela voz. Virou-se para trás e lá estava Hyoga Yukida.
- Não sabia que morava aqui perto. – disse Hyoga, com um sorriso singelo em seu rosto.
- E não moro. Mas gosto daqui. – falou Ikki, retribuindo o sorriso.
- Tem motivos para isso. É um belo parque. – Hyoga olhava ao redor como que para confirmar sua afirmação.
- Sim, mas para mim é mais que isso.
Hyoga apenas olhou para Ikki, esperando que ele explicasse o que quis dizer. Sempre que aqueles olhos azuis o encaravam, vinha ao moreno aquela sensação que ele não conseguia definir o que era. A cada vez que essa sensação lhe percorria o corpo, parecia-lhe mais familiar. Parecia lembrar-lhe algo...
- Sabe, - desviou os olhos, pois não conseguiria falar se estivesse preso a eles – esse parque me faz sentir bem. Ele foi meu companheiro em alguns momentos de reflexão. Quando estou aqui, sinto-me como se estivesse na presença de um bom amigo.
Hyoga apenas acenou com a cabeça, como se estivesse aprovando o que Ikki dizia.
- Acho que encontrei meu recanto de paz. – Ikki surpreendeu-se ao perceber as palavras que lhe saíram da boca. A resposta que ele não quisera dar um dia atrás agora surgia naturalmente nessa conversa, provavelmente porque só agora ele encontrara uma resposta para oferecer.
Hyoga não ficou menos surpreso. Mas que sorte! Um momento de vulnerabilidade! Isso podia ser um sinal para ele não desistir ainda. E pensar que já estava planejando dar um fim ao trato com Shun naquela tarde...
- Creio que encontrou mesmo. – disse Hyoga, buscando encontrar novamente os olhos de Ikki, que teimavam em fugir dos seus – Você está muito mais sereno hoje. Está até uma pessoa mais atraente, sabia? – dizendo isso, conseguiu atrair os olhos e a atenção plena do moreno para si.
Ikki sentiu o coração acelerar. Hyoga havia dito que ele era atraente?
Como se tivesse adivinhado os pensamentos de Ikki, Hyoga continuou falando:
- Existem dois tipos de pessoas. Aquelas que atraem as pessoas para si e aquelas que as afastam. Até ontem, você parecia ser o segundo tipo de pessoa.
Ikki não conseguiu evitar um sorriso. Mais uma vez percebia que a imagem que tanto trabalho lhe deu para cultivar ainda surtia efeito.
- Entretanto, mudei minha visão a seu respeito. Você é capaz de atrair pessoas quando está assim, sereno. Até parece ser uma pessoa agradável de se conversar.
- Nossa... a primeira impressão que lhe dei não foi boa mesmo.
- A segunda também não foi lá essas coisas... – brincou Hyoga.
- Bom, temos uma melhora a partir da terceira impressão. Antes tarde que nunca.
- Com certeza. – sorriu o jovem loiro.
Era uma conversa diferente. Ikki não sabia exatamente por que ou o que era diferente, mas era certo que havia uma grande mudança no modo como conversavam agora. Ele estava mais relaxado. Seria por estar no parque? Será que esse negócio de recanto de paz realmente funcionava? "Deve ser porque hoje estou pensando menos bobagem. Ainda bem que consegui esclarecer tudo na minha cabeça", pensava Ikki, lembrando-se das respostas que achava ter encontrado um dia antes.
- Então... tirou outro dia de folga?
- Como é? – disse Ikki, confuso com a pergunta.
- Ontem você me disse que estava de folga... Considerando o horário que seu irmão me falou que você trabalha, acho que era para você estar vestindo um terno em algum grande escritório agora, mas como não está...
Ikki tinha se esquecido desse detalhe. Tinha mentido sobre sua demissão.
- Ah, isso... – deu um meio sorriso e continuou – Bem, na verdade, eu não estou de folga. Eu pedi demissão há dois dias.
- E por que não me disse antes?
"Porque não era da sua conta" seria uma resposta provável e típica de Ikki. Porém, essa resposta nem passou perto de ser pronunciada. Ikki simplesmente sorriu timidamente e disse:
- Acho que não estava preparado para anunciar isso. No fundo, acho que ainda não me dei conta do que aconteceu. Patético, não acha? – falou rindo, um pouco nervoso.
- Não, não acho. – respondeu Hyoga, sério – É difícil se adaptar a essas mudanças bruscas que ocorrem em nossas vidas.
O breve sorriso que surgiu no rosto de Ikki foi o modo como ele encontrou para agradecer Hyoga pelas palavras. Era difícil e raro para o moreno demonstrar uma fraqueza, como acabara de fazer. E era provável que se Hyoga fizesse troça disso, Ikki nunca mais se abriria desse jeito novamente. E, mesmo que momentaneamente, Ikki sentiu-se bem em poder mostrar um pouco do seu lado mais humano.
- Mas olha só! Estou aqui atrapalhando você!
- Me atrapalhando? – perguntou Ikki .
- Sim, interrompi sua corrida.
- Ah, não se preocupe com isso. Já corri o bastante por hoje...
Hyoga sorriu tristemente. Que pena... a situação era propícia, mas o momento era ruim. Ikki estava disposto a conversar; mas ele não podia, não agora.
- Sei que está tentando ser educado, mas é fato que te atrapalhei. De todo modo, preciso mesmo ir, tenho um compromisso urgente ao qual preciso comparecer agora...
- Precisa ir à praia de novo? – falou Ikki, não como zombaria, mas como quem gostaria de encontrar um meio de continuar a conversa – Se for, posso acompanhá-lo...
- Não, não é preciso. – Hyoga cortou a fala de Ikki de modo abrupto, até um pouco grosseiro. – E eu já estou meio atrasado, então preciso ir andando... Até mais, Ikki! – essa última fala foi dita enquanto Hyoga ia se afastando do jovem executivo, de modo que não deu a ele sequer a chance de se despedir também.
Ikki ficou parado no mesmo local, observando a figura esguia de Hyoga diminuir com a distância até desaparecer por completo do seu campo de visão.
- Compromisso urgente... Até parece. – falou consigo, em tom de escárnio. Para Ikki, isso não passava de uma desculpa para fugir à conversa que haviam entabulado e que, pensava ele, devia estar sendo tão desagradável que o jovem escritor precisou dar uma desculpa bastante esfarrapada para escapar dela.
- É isso que dá agir como um babaca chorão. – Ikki começou a caminhar de volta ao seu apartamento, enquanto ia se repreendendo por ter se comportado daquele modo. Agora, Hyoga devia estar achando que Ikki era uma pessoa fraca e contraditória, que é durona num dia, mas amolece no outro.
- Os comentários dele devem ter sido por pena. Que papelão!
E assim, Ikki chegou à conclusão de que a forma como ele sempre agiu é que estava correta: sendo frio, duro, de natureza hostil. Esse era o perfil de uma pessoa respeitada.
Com essa certeza em mente, voltou para seu apartamento para tomar um banho.
Mais tarde, pouco depois do horário do almoço, dois jovens discutiam, no aconchego de uma isolada casa, a respeito da vida de uma pessoa:
- Então, você tem certeza de que ele não está desconfiado de nada?
- Tenho. Se ele estivesse desconfiado, eu teria percebido isso hoje de manhã.
- Que bom... Porque ontem eu achava que nosso plano já tinha ido por água abaixo...
"E quase foi mesmo", pensou Hyoga. No entanto, não deixou que Shun percebesse seu pensamento e, sorrindo, disse ao jovem e preocupado irmão:
- Não se preocupe quanto a isso. Nosso plano continua de pé e acredito que as chances de sucesso são grandes.
- Fico muito feliz em saber. Não que eu tivesse dúvidas sobre seu trabalho, já que as referências são ótimas; mas é que meu irmão é muito teimoso, orgulhoso...
- Já lidei com casos piores.
- Mesmo assim... o Ikki, quando quer, é tão difícil...
- Nada que eu não consiga resolver. – respondeu Hyoga, de seu modo altivo usual.
- Então, acho que ele está em boas mãos. – falou Shun, sorridente, levantando-se da poltrona em que estava e preparando-se para ir embora – Ah, mas creio que seria bom avisá-lo de uma coisa...
Hyoga, que também havia se levantando da cadeira em que se encontrava, parou e prestou total atenção ao que Shun se preparava para falar. Afinal, toda informação a respeito do cliente era de grande importância.
- A maior desconfiança de Ikki em relação a tudo isso tem a ver com o fato de você ter agido de uma forma no primeiro encontro de vocês e de outra completamente diferente no segundo...
- Ah... – Hyoga mostrou certo desconforto com essa observação de Shun.
- Eu acho que consegui minimizar essa desconfiança, mas caso ele pergunte ou fale algo, você já fica preparado...
- Certo.
- Mas... – Shun sabia que já estava sendo indiscreto, mas não conseguiu evitar a pergunta – Por que você foi tão ríspido na primeira vez que Ikki foi procurá-lo?
- Eu não sabia que ele iria se tornar um cliente.
- Aí é que está! Quando me falaram de você, não me disseram que as coisas funcionavam desse jeito... Não me falaram que você se relacionava com eles como se fossem clientes... E também me contaram que bastava um deles aparecer à sua porta que você logo detectava que se tratava de mais um desses casos e, na mesma hora, dava início ao tratamento... sem necessidade de um contrato por escrito ou algo do tipo...
- Escute, - falou Hyoga, sem fazer questão de esconder sua irritação – é por causa do dinheiro?
- C- como é? – gaguejou Shun.
- Você está achando ruim ter de me pagar pelos meus serviços?
- Não, não foi isso que eu quis dizer! Eu só queria entender por que você está agindo diferente agora; não que isso seja ruim, era só porque...
- Olha... – Hyoga começou a falar mais calmamente por ficar com pena de ver aquele jovem tão preocupado por deixá-lo nervoso – Tudo o que você ouviu a meu respeito é verdade. Mas isso foi antes; hoje minha realidade é outra. E atualmente vivo uma situação em que eu preciso receber dinheiro em troca do que faço. Isso não significa que a qualidade do meu trabalho vá decair, muito pelo contrário.
- Claro, com certeza! Em hipótese alguma eu pensei o contrário; sei que vai honrar sua palavra, eu só tinha ficado curioso, mas compreendo, claro... – falava Shun, ainda tentando se explicar.
- Tudo bem. – Hyoga dava mostras de que desejava terminar logo aquela conversa.
- Bom, então... Acho que está tudo bem. Estamos conversados e está tudo indo bem. É melhor eu ir, então.
Hyoga levou Shun até a porta e despediram-se com um rápido "Até logo". Shun foi até seu carro enquanto Hyoga fechava a porta. Nesse momento, o jovem irmão se deu conta de que o dinheiro realmente tinha muita importância dentro de todo esse contexto. Lembrou-se então de como haviam travado um primeiro contato:
Início do Flashback
- Pois não? – disse um Hyoga mal-humorado à porta.
- Boa tarde, meu nome é Shun e eu precisava falar com você sobre... – começou a falar um afobado Shun, que tinha pressa em expor seus motivos para não dar chances ao outro de negar qualquer coisa antes de ouvi-lo completamente. Entretanto, sua tática não deu certo.
- Não tenho qualquer interesse em ouvir o que você tem a me dizer. – disse Hyoga, interrompendo o mocinho para logo em seguida começar a fechar a porta.
- Espere! O que eu tenho a lhe pedir é muito, muito importante!
De fato, quando Shun fazia uso de seu rosto mais angelical e pesaroso possível, não era só Ikki quem tinha dificuldades em negar algo a ele. Assim, Hyoga manteve a porta meio aberta para ouvir o que esse rapaz tão decidido a fazê-lo ouvir queria lhe dizer.
- Ouvi falar que você tem uma capacidade fantástica de ajudar pessoas como meu irmão...
- E como seria seu irmão? – disse Hyoga, impaciente.
- Bem, ele veio aqui hoje... de manhã...
Na mesma hora, Hyoga deu-se conta de que se tratava tudo aquilo. Já fazia algum tempo que não lhe surgia a oportunidade de trabalhar com pessoas como o homem que aparecera na manhã daquele dia... Afinal, mudara-se para uma casa bastante isolada justamente para dar um fim a tudo aquilo. Tinha decidido que não faria mais. Não havia por que fazer.
- Entendo. Mas não estou interessado. Eu me aposentei. Boa tarde. – falou Hyoga antes de fechar a porta de vez.
Shun não se deu por vencido. Do lado de fora, começou a falar em voz alta, numa tentativa que representava o desespero de não encontrar mais nada que pudesse ajudar seu irmão.
- Por favor, senhor Yukida! Você precisa me ajudar! Tenho certeza de que pode, e tenho medo de que ninguém mais seja capaz de fazê-lo...
Lá dentro, não havia qualquer sinal de resposta. Shun continuava a gritar:
- Olha, eu faço o que for possível para que me ajude! Eu conheço pessoas que podem ajudá-lo com sua carreira de escritor, eu posso pagar também se for necessário... sei lá... o que você quiser, eu dou um jeito de conseguir... Mas, por favor...
Nesse mesmo instante, a porta se abriu, o que mostrava que Hyoga estava bem atrás dela, ouvindo a tudo que Shun falava. Para Shun, isso demonstrava que, no fundo, o rapaz não conseguiu ficar indiferente à situação exposta pelo jovem com cabelos da cor da esperança, esperança essa que o encheu de forças para continuar ali insistindo.
- Muito bem, eu vou ouvir o que você tem para me falar. Mas já aviso com antecedência: Eu cobro caro pelos meus serviços.
Shun estranhou esse comentário, mas ficou tão contente de ter conseguido o que queria que não deu maior atenção a isso. Só agora percebia que o que fez Hyoga mudar de decisão não foi compaixão pelo rapaz que implorava ajuda do lado de fora da casa; fora tão somente o dinheiro.
Fim do Flashback
Shun respirou fundo depois de ter descoberto esse fato. Isso mudava um pouco o modo como ele se sentia em relação a tudo o que estava acontecendo... Mas logo se lembrou de como o resultado fora positivo em tantas outras situações, conforme tinha ouvido falar. E, se Hyoga prometia que a qualidade seria a mesma... Shun achou que deveria deixar as coisas seguirem seu rumo. "Acho que posso confiar nele". Assim, entrou em seu carro e partiu.
Minutos depois de sua saída, um porsche azul-marinho estacionava à porta da casa do escritor.
Continua...
