Capítulo VII
- Você?
A voz dela soou temerosa diante da imagem avassaladora do homem vindo em sua direção. Ele era alto e forte, seu corpo completamente nu intimidante e excitante ao mesmo tempo. Instintivamente, o olhar de Ana-Lucia se perdeu nos olhos claros e febris de desejo, o peito bronzeado e suado com penugens douradas e escassas que desciam pelo tórax traçando um caminho de fogo até o membro intumescido.
Ana gemeu àquela visão e olhou para o próprio corpo, também estava nua e suada, deitada em uma cama de lençóis muito brancos, com a respiração entrecortada, completamente em brasa.
O homem se deitou sobre ela e beijou sua boca com ardor, Ana-Lucia sentiu que já não conseguia respirar e que um calor sem precedentes a dominava, fazendo seu corpo inteiro doer de ansiedade.
- Por favor, deixe-me, isso é pecado...afasta-te de mim!
Ele parecia não ouvi-la, estava apenas concentrado em tocas todas as partes de seu corpo, de várias maneiras usando as mãos, lábios e língua. Ana-Lucia não podia resistir mais, tinha que deixar o prazer vir, inundando seu corpo sem controle. E ela gritou quando isso aconteceu, agressiva, impetuosa, abraçando-se ao corpo masculino como a uma tábua de salvação.
- Oh me salve, me salve!- ela repetia em meio ao êxtase.
E foi nesse momento que acordou quase caindo da cama, o travesseiro ensopado de suor. Sentou-se e respirou fundo. Por instinto olhou para a cama ao lado buscando a companhia da irmã mais nova, mas ela não estava mais lá, havia partido. Então o que ela ainda fazia ali?
Levantou-se da cama e buscou o ar da noite, abrindo as janelas. Seus longos cabelos cacheados balançaram à leve brisa. Não era a primeira vez que tinha aquele sonho, e sabia que nem seria a última. Mas dessa vez ela não sentia vontade de pedir perdão por desejar tão ardentemente o pecado, ela só queria ficar ali na janela e se permitir imaginar que o homem selvagem de seus sonhos iria buscá-la antes que o Conde Benjamin Linus pudesse pôr as mãos nela. Segurou a pedra esmeralda presa ao cordão que pertencera à sua mãe e sonhou mais uma vez, a pedra brilhava, seu amor deveria estar perto, quem sabe buscando-a tanto quanto ela o buscava?
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- Vai!Vai!Vai!Vai!Vai!- repetiam sem parar os homens da taverna vendo Kate virar com maestria mais uma caneca cheia de cerveja.
Paulo tragava mais uma dose do melhor uísque escocês e ria do comportamento da irmã caçula. Lady Diana com certeza o mataria se soubesse que ele havia levado Kate para aquele lugar, mas estava sendo tão prazeroso e reconfortante vê-la se divertir depois de tanto tempo enclausurada em um convento que permitiria a ela se esbaldar o resto da noite na taverna, contanto que no dia seguinte ela voltasse a ser a mesma lady de sempre.
Rindo como boba devido ao alto teor alcoólico que ingerira, Kate puxou um dos homens pelas mãos e começou a dançar animada pela taverna ao som dos violinos e gaitas escocesas.
- Sua irmã é um encanto.- gracejou Sawyer em um dos raros momentos que se permitia divertir-se. – Sua outra irmã também é assim, como Kate? Tão cheia de vida e preocupada com a causa escocesa?
- Ah não, Ana-Lucia é uma santa.- Paulo respondeu. – Vive para os jardins do convento e suas orações.
- Oh, uma beata?- inquiriu Sawyer.
- Não é culpa dela, jamais conheceu outra coisa além dos ensinamentos do convento. Éramos apenas crianças quando saímos da Escócia para o exílio na França.
Sawyer deu uma pequena risada: - Realmente me pergunto como foi que passastes de propenso padre que eras ao libertino que és hoje!
- Ora!- exclamou Paulo com um sorriso. – Melhor ser um libertino do que um celibatário, meu amigo.
- E falando em libertinagem...- disse Sawyer apontando com o canto do olho a Srta. Murray dançando e conversando animadamente com um cavalheiro.
- Cuide da sua vida, Lord Sawyer!- respondeu Paulo dando-lhe um tapinha no ombro e se dirigindo sem formalidades à Nikki, pedindo licença ao cavalheiro que conversava com ela e puxando-a delicadamente pela mão para fora da taverna.
Ao ver o irmão saindo, Kate que já havia parado de dançar, se dirigiu à Sawyer:
- Aonde o meu irmão foi?
- Dar uma volta com a Srta. Murray.- respondeu Sawyer educadamente. – Deseja que eu a leve de volta ao castelo Lady Katherine?
- Oh, não me chame assim! Somos companheiros de revolução, me chame Kate ou de endiabrada se preferir.
Sawyer deu uma risada: - Certo, somos companheiros de revolução. Mas eu me pergunto, milady, já atirou alguma vez?
Kate balançou a cabeça veementemente: - Não, nunca foi preciso! Mas se tu me ensinares garanto que aprendo depressa!
- Uma lady que se dirige a um homem que não é seu parente o tratando por tu é bem incomum, milady, devo dizer-lhe que a senhorita é mesmo incomum.
Kate queria rir, mas tudo o que conseguiu foi um soluço provocado pelo excesso de bebida.
- Desculpe!- disse Kate com polidez, levando uma das mãos à boca.
- Não precisa se desculpar, Kate, então não somos companheiros de revolução como tu mesma o dissestes?
- Sim.- respondeu Kate.
- Então aceitas que te leve de volta ao castelo de Isenwood? Confesso que gostei muito da senhorita e gostaria que pudéssemos conversar mais.
- Está tentando me cortejar, Sawyer?
- Talvez!- ele respondeu com uma mesura. – Isto se milady permitir.
- Mas é claro que não permito.- disse ela bem humorada. – Se vamos ser colegas de revolução isto é completamente inadmissível.- ela tropeçou nas próprias botas e Sawyer a segurou para que não caísse. – No entanto, permitirei que tu me leves de volta para o castelo já que meu irmão sumiu e ao que tudo indica a Srta. Thompson também.
Sawyer estendeu o braço a ela: - Então vamos?
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- Eu pensei que fosse enlouquecer se ficasse longe de ti mais um dia Nikki!
- Eu também Lord Austen!- disse ela enquanto ele despia-lhe o corpete, desnudando-a diante de seus olhos ávidos.
- Já te disse que não precisas me chamar assim quando estivermos a sós, meu amor...
- Oh Paulo!- ela gemeu quando ele tomou um dos seios fartos na boca.
Estavam com tantas saudades um do outro que sequer houvera tempo para encontrar um lugar para se amarem, o bosque próximo à taverna serviria de quarto e a grama espessa de cama. Paulo a deitou no chão com suavidade e suspendeu suas saias tomando-a com paixão. Nikki se contorceu embaixo do corpo dele e não conseguiu mais fazer calar a pergunta que a perseguia desde a primeira vez que se entregara a Lord Austen.
- Paulo, me amas?
- Eu amo sim Nikki, mais do que tudo.
Satisfeita com a resposta, Nikki afastou mais as coxas para recebê-lo melhor e se entregou à paixão sem limites que nutria por ele. Sabia que Paulo Austen jamais a desposaria, não pelo seu sangue nobre, afinal a mãe verdadeira dele havia sido uma cigana, mas por seu empenho pela revolução, enquanto a guerra não acabasse, Lord Austen não se casaria, mas ela esperaria por ele até o dia de sua morte se fosse preciso.
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O ar da noite era agradável, e Kate sentia uma alegria maravilhosa inundá-la, efeito óbvio da bebida, mesmo assim naquele momento lhe fazia um grande bem. Caminhava pelos prados iluminados parcialmente por algumas tochas acesas pelo caminho que conduzia até Isenwood segurando com firmeza no braço musculoso de Lord Sawyer.
- Nunca me diverti tanto.- confessou a ele.
- Eu imagino, no convento por certo não permitiam à senhorita fazer esse tipo de coisa.
- Que tipo de coisa? Beber e dançar? Oh Sawyer, não tens idéia, ás vezes eu sentia que não conseguia sequer respirar. Apenas minha irmã parecia conformada com tudo, eu não, sempre ansiei por mais.
- Tua irmã?- Sawyer questionou. – Sim, Paulo me disse que ela é uma espécie de santa.
- Sim, com certeza.- concordou Kate. – Só sendo uma santa para aceitar o casamento que lhe impuseram. Eu jamais me casaria por conveniência, só por amor.
Sawyer gostou de ouvir aquilo, Kate era uma revolucionária por natureza. A irmã dela deveria ser uma mulher insípida e frígida com uma daquelas frágeis belezas que não o atraiam que só pensava em rezar e se autopenitenciar, Kate deveria ser justamente o oposto com sua beleza aristocrática, porém selvagem. Os longos cabelos castanho-avermelhados, os olhos verdes ávidos e curiosos, o nariz arrebitado e o corpo esguio. Parecia com um anjo, talvez por isso a apelidassem de endiabrada, pois o jeito angelical não passava de fachada.
- Se quer mesmo entrar para a causa rebelde tens que aprender a atirar e eu posso ensiná-la.
- Por que tanto interesse em me ajudar sir? Por acaso ainda estás com a idéia de me cortejar?
- E por que não milady?
- E por que sim milorde?- ela arremedou. – Creio que não sou o tipo de mulher a quem desejas.
- E por que não seria?
- Pelo pouco que conversamos percebi que a causa rebelde é importante para ambos, portanto seríamos muito iguais para ficarmos juntos e eu tenho o costume de me sentir atraída por cavalheiros totalmente opostos a mim.
- Não acha que a igualdade pode ser conveniente, milady?
A essa altura, os dois já estavam quase adentrando os jardins do Castelo de Isenwood. Kate parou a alguns centímetros do portão onde havia um vigilante.
- Conveniente a igualdade pode ser, mas não excitante.- respondeu Kate, com um sorriso maroto. – Obrigada por me acompanhar até o castelo Lord Sawyer, mas eu preciso dormir, mal me agüento em pé. Aceito suas aulas de tiro, podemos começar amanhã cedo? Claro que sem o meu irmão saber.
- Seria um prazer Lady Katherine. Boa noite então.
Ela adentrou os portões e sumiu jardim adentro deixando para trás seu gracioso e inebriante perfume de flor. Sawyer suspirou, jamais havia pensado em se casar até aquele momento, mas Lady Katherine tinha algo de misterioso que chamou muito a sua atenção. O jeito espontâneo de ser ousado e ao mesmo tempo recatado era diferente das outras damas. Sabia que havia prometido a Paulo que se casaria com Ana-Lucia se algo acontecesse ao amigo, mas como duvidava que isso pudesse de fato vir a acontecer ponderou que Katherine era bem mais interessante que sua recatada irmã. Pensando nosso, Sawyer deu meia volta em direção à taverna, a essa altura Lord Austen já deveria ter satisfeito sua luxúria com a Srta. Murray e estaria de volta para mais uma cerveja.
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Muitas semanas se passaram e Kate tomava lições de tiro com Sawyer todos os dias. No início Paulo não sabia de nada, mas depois acabou descobrindo. Ficou furioso, mas Kate e Sawyer o convenceram que era necessário já que ela pretendia com todas as suas forças ingressar no movimento rebelde e ele não teve outro remédio senão assentir.
Obviamente Lady Diana não sabia de nada e todos ajudavam a encobrir os fatos para ela, principalmente Libby que era sua dama de companhia. Estava se aproximando o dia em que Kate invadiria o acampamento do general russo que trabalhava para os ingleses, Mikail Bakunin. Ela estava mais do que ansiosa para sua estréia como espiã e não conseguia pensar em outra coisa. Para tentar aplacar tanta ansiedade, insistiu com sua mãe e Libby que saíssem para caminhar no Centro Comercial da Vila, fazer compras era sempre um estímulo para os ânimos. Kate era uma rebelde, verdade fosse dita, mas jamais descuidava da vaidade.
As três caminhavam alegremente olhando os produtos oferecidos pelos mercadores na feira acompanhadas pelo criado principal do Castelo de Isewood, o intimidante e corpulento Mr. Eko quando foram abordadas pela figura espalhafatosa e arrogante do Conde Linus.
- Milady!- ele se dirigiu a Lady Diana em uma mesura falsa.
- Conde Linus.- Diana fez uma reverência. – A Srta. Thompson o senhor já conhece.
- Por certo, como está passando Srta. Thompson?
- Muito bem Conde Linus, obrigada.
- E esta beldade que vos acompanha Lady Austen, quem seria?
- Minha filha, Lady Katherine.- respondeu Diana.
Kate fez uma reverência e o Conde beijou-lhe a mão. Não conseguiu evitar de fazer uma careta quando sentiu os lábios pegajosos do homem em sua mão.
- Totalmente encantado, senhorita. A estava escondendo no convento também, milady?
- Conde Linus, Katherine assim como minha outra filha que é sua noiva, estudou lá para aprimorar sua educação, não tenho porque escondê-la.
- Falando em sua outra filha Lady Austen, quando a Srta. Ana-Lucia retornará à Escócia já que sua filha mais nova já está aqui?
- Ainda não tenho nenhuma previsão conde.- respondeu Diana com seriedade. – Ana ainda quer passar mais um tempo estudando no convento.
- Pois escreva a ela e diga-lhe que isto não será necessário. Não quero uma esposa por demais inteligente além disso, devo lembrá-la milady que o prazo para o pagamento das dívidas de Lord Austen está se esgotando, se sua filha Ana-Lucia não estiver aqui em poucas semanas terei que contrair matrimônio com sua filha mais nova.
Kate estremeceu àquelas palavras e segurou instintivamente no braço da mãe.
- Isso não será possível Conde Linus, esse não é o nosso trato. Mas já que tens tanta pressa de tomar Ana por esposa, pedirei à Paulo que escreva à ela para que volte sem demora para a Escócia.
- Assim é que se diz.- respondeu ele. – Tenham um bom dia!
Quando ele se afastou, Kate implorou à mãe:
- Mamã por favor, não deixe Analulu se casar com esse homem asqueroso!
- E o que queres que eu faça pequena Kate? Seu irmão negociou tudo com o conde para nos tirar da ruína, agora não adianta mais nada.
Kate respirou fundo, conhecer o futuro marido da irmã trouxe-lhe mais forças para seguir em frente e salvar a Escócia do domínio inglês, assim seu irmão se livraria das dívidas e sua irmã não precisaria se casar com aquele patife.
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Ana-Lucia deu duas batidinhas de leve na porta do escritório da Madre Superiora. A freira disse que ela entrasse e Ana se acomodou na poltrona de couro.
- Queria me ver madre? Algum problema?
- Acabei de receber uma carta urgente da Escócia em nome de seu irmão. Ele diz que tu deves partir ainda esta noite para teu país pois teu prometido anseia por se casar contigo o mais rápido possível.
- Mas já?- ela assustou-se.
- Sim, teu irmão alega que vai fazer vinte e quatro anos e já estás na idade de te casares e como o Conde recentemente foi pedir-lhe que providenciasse a sua volta o mais rápido possível, o Lord resolveu ceder. Portanto arruma as tuas malas.
Ana levantou-se da poltrona e assentiu com uma reverência. Aparentava calma por fora, mas em seu interior estava gritando de desespero. Dirigiu-se para a porta mas antes que saísse a Madre lhe disse:
- Fostes uma excelente serva de Deus enquanto estivestes aqui Ana-Lucia, lamento muito que não possas abraçar a causa religiosa.
- Acredite irmã, preferia abraçar a causa religiosa a casarme.-disse com pesar. – Agora com sua permissão me recolho para arrumar minhas malas.
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Dois dias se passaram e numa manhã nublada que anunciava a chegada do inverno francês o Capitão Jack Shephard foi chamado às pressas até o Quartel General. Encontrou o seu superior, John Locke soltando fogo pelas ventas.
- O que aconteceu senhor?- indagou.
O General Locke estendeu-lhe um papel com uma gravura desenhada num papel de péssima qualidade. Jack observou o papel por algum momento e perguntou:
- Do que isso se trata?
- Não olhou direito Capitão?
- È o desenho de uma bela mulher trajando um vestido vermelho, não entendo porque está tão zangado por causa desse desenho. Por acaso a dama é sua filha ou sua parente?
- Nada disso, a dama é escocesa e é conhecida no meio rebelde como a "Endiabrada". Invadiu o acampamento do General Bakunin nas Colinas Errantes e roubou informações militares preciosas há três dias atrás. Depois disso o general recebeu um recado dos rebeldes dizendo que atacariam de novo, que dizimariam todos os acampamentos ingleses na Escócia e que libertariam os homens que invadiram o baile na Mansão Rosseau.
- Uma mulher fez isso? Roubou informações do valente general Bakunin?- Jack estava incrédulo.
- Exatamente Jack, os homens dizem que a Endiabrada tem poderes mágicos de encantá-los e que é uma bruxa. Preciso que vá até a Escócia e capture essa mulher. Precisamos enforcá-la o quanto antes.
Jack assentiu, não questionaria as ordens de seu superior. Pegou novamente a gravura e fitou os belos olhos da Endiabrada. Algo nela lhe parecia familiar, ele só não sabia o que era. Batendo uma respeitável continência para o General Locke, Jack cruzou a porta de saída do quartel. Arrumaria suas coisas e partiria ainda aquela manhã para a Escócia.
Continua...
