Primeiro entraram os dois escravos (surdos e mudos, como Aravis imaginou, usados nas reuniões secretas), andando de costas e empunhando as velas. Cada um se colocou a um lado do sofá. Por sorte um escravo ficou na frente de Aravis, que passou a enxergar a cena através dos calcanhares dele. Entrou em seguida um velho, gordíssimo, usando um engraçado gorro pontudo, pelo qual Aravis imediatamente reconheceu o Tisroc. A menorzinha das joias que usava valia mais do que todas as indumentárias e armas dos senhores de Nárnia. Mas Aravis passou a preferir a moda de Nárnia àquela massa enfeitada de babados, pregueados, laçarotes, botões, borlas e talismãs. Depois entrou um jovem alto com turbante cheio de plumas e joias e uma cimitarra embainhada em marfim. Parecia emocionado. Seus olhos e dentes reluziam no brilho das velas. Por fim entrou um corcunda mirrado, no qual ela reconheceu com um calafrio o grão-vizir, seu prometido esposo, o próprio Achosta Tarcaã.
O Tisroc estirou-se no divã com um suspiro de satisfação; o jovem tomou o seu lugar, de pé diante dele; o grão-vizir agachou-se sobre os joelhos e os cotovelos, achatando a cara no tapete.
O jovem tomou a palavra:
- Pai-meu-e-deleite-dos-meus-olhos! – falava depressa e num tom emburrado sem convencer a ninguém que o Tisroc fosse o deleite de seus olhos. – Louvado seja o seu nome para sempre! O senhor me destruiu completamente. Se tivesse me dado a mais rápida de suas galeras ao nascer do sol, quando percebi que o navio dos malditos bárbaros se afastava, talvez eu os tivesse alcançado. Persuadiu-me, porém, o senhor a verificar se acaso não estariam eles buscando melhor ancoradouro. Perdemos todo o dia. E já se foram... Já se puseram fora do meu alcance! Aquela falsa joia, aquela...
E aqui o jovem começou a referir-se à Rainha Luanna com palavras que não fica bem registrar no papel. Pois, sem dúvida, tratava-se do príncipe Rabadash; a falsa joia só podia ser Luanna de Nárnia.
- Olha a compostura, filho meu – disse o Tisroc. – A partida de um hóspede faz uma ferida que se cura mais depressa no coração do sensato.
- Mas eu quero a moça – bradou o príncipe. – Eu preciso da moça! Vou morrer sem... sem aquela falsa, soberba, aquela traiçoeira filha de um cão sarnento! Já não posso mais dormir, o melhor alimento não me apetece, os meus olhos estão ofuscados pela beleza daquela bárbara. Preciso da rainha bárbara.
- Como disse tão bem o divino poeta – observou o vizir, erguendo o rosto um tanto empoeirado –, "uns bons goles na fonte da razão ajudam a apagar o fogo do coração".
Esse verso irritou ainda mais o príncipe.
- Seu cachorro! – gritou ele, aplicando chutes certeiros no traseiro do grão-vizir. – Não ouse levantar poetas contra mim. Estou cheio de versos e máximas!
É possível que Aravis não tenha sentido a menor pena do vizir.
O Tisroc parecia mergulhado em devaneios, mas, ao notar o que acontecia, falou tranquilamente:
- Filho meu, pare de dar pontapés no venerável e esclarecido vizir: pois, assim como uma gema conserva o seu valor mesmo num monte de estéreo, deve a velhice ser respeitada, mesmo na mais vil das pessoas. Pare, pois, e diga-nos o que deseja e propõe.
- Desejo e proponho, pai meu, que o senhor convoque imediatamente seu invencível exército a fim de invadir a três vezes maldita terra de Nárnia, para arrasá-la com a espada e o fogo, anexando-a ao nosso ilimitado império, matando o Grande Rei e todos os de seu sangue, com exceção da Rainha Luanna. Pois a esta eu quero por mulher, quando ela tiver aprendido sua lição.
- Compreenda, filho meu, que nenhuma das palavras que proferisse poderá levar-me a uma guerra aberta com Nárnia.
- Não fosse o senhor o meu pai, ó sempiterno Tisroc – disse o príncipe rangendo os dentes –, diria que são palavras de um covarde.
- E não fosse você meu filho, ó fogoso Rabadash, sua vida agora seria curta e demorado o seu fim.
A voz plácida e fria com que disse essas palavras gelou o sangue de Aravis.
- Mas, pai meu – replicou o príncipe, num tom bem mais respeitoso –, por que pensar duas vezes em punir Nárnia? É como se enforcássemos um escravo preguiçoso ou déssemos um cavalo velho para os cachorros comerem. Nárnia não chega a ser a quarta parte da menor de suas províncias. Mil lanças podem subjugá-la em cinco semanas. Não passa de uma nódoa aos pés do seu império.
- Sem dúvida – falou Tisroc. – Esses pequenos países bárbaros que se proclamam livres (vale dizer, indolentes, caóticos, inúteis) são odiosos aos deuses e a todas as pessoas de discernimento.
- Assim sendo, por que haveremos de sofrer a afronta de uma Nárnia insubmissa? – prosseguiu o príncipe.
- Saiba, ó sábio príncipe – interveio o grão-vizir –, que, até o ano em que o seu altivo pai começou o seu salutar e sempiterno reinado, a terra de Nárnia vivia coberta de neve e gelo e era governada por uma poderosa feiticeira.
- Sei de tudo isso muito bem, ó loquaz vizir – replicou o príncipe. – Mas também sei que a feiticeira morreu. E que o gelo e a neve derreteram. E que Nárnia agora é um país frutífero.
- E essa mudança, cultíssimo príncipe, sem sombra de dúvida, é devida aos encantamentos dessas criaturas perversas que agora se intitulam Reis e Rainhas de Nárnia.
- Sou de opinião – disse Rabadash – que isso aconteceu pela força das causas naturais.
- Isto é assunto para os sábios. – falou o Tisroc. – Jamais poderei acreditar que uma tal mudança possa ser feita sem a intervenção de poderosa magia. Tantas coisas ali sucedem, que a terra é principalmente habitada por demônios na forma de bichos que falam como homens e de monstros que são metade homem e metade animal. É geralmente aceito que o Grande Rei de Nárnia – que os deuses o amaldiçoem! – é sustentado por um demônio de aspecto hediondo e de imbatível poder maléfico, que aparece sob a forma de um leão. Daí ser o ataque a Nárnia uma empresa duvidosa. Estou decidido a não meter a mão em saco de onde não possa retirá-la.
- Venturosos os calormanos – disse o vizir, revirando mais uma vez a cabeça –, em cujo chefe os deuses houveram por bem derramar a prudência e a circunspeção! Como diz o sábio e irrefutável Tisroc, seria penoso meter as mãos em um saco tão opulento quanto Nárnia. Divino foi o poeta que disse...
A esta altura Achosta percebeu um movimento impaciente do pé do príncipe e calou-se.
- É muito penoso – concordou o Tisroc na sua voz profunda e mansa. – O sol é escuro aos meus olhos, e à noite meu sono é menos reparador, por lembrar-me que Nárnia é ainda uma terra livre.
- Pai meu – disse Rabadash –, e se lhe mostrasse uma maneira pela qual poderia estender a sua mão para agarrar Nárnia, podendo retirá-la incólume, caso fracassasse a tentativa?
- Caso me mostre isso, Rabadash, será o melhor dos filhos.
- Escute, pois, meu pai. Nesta mesma noite, conduzirei apenas duzentos cavalos e homens pelo deserto. Parecerá a todos que o senhor nada sabe de minha expedição. Na segunda manhã estarei nos portões do castelo do rei Luna, na Arquelândia, em Anvar. Estão em paz conosco e desprevenidos: tomarei Anvar antes que se mexam. Depois cavalgarei pelo desfiladeiro do alto de Anvar, seguindo por Nárnia até Cair Paravel. O Grande Rei não se encontra lá; quando o deixei, prepara va uma expedição contra os gigantes da fronteira do norte. Entrarei facilmente em Cair Paravel. Serei cauteloso, cortês e mesureiro como um narniano. E depois, então? É esperar sentado até a chegada do Esplendor Hialino, com a Rainha Luanna a bordo, agarrar o meu passarinho fujão assim que ele pousar, colocá-lo na sela e cavalgar, cavalgar até Anvar.
- Mas não é provável, filho meu, que, ao arrebatar a mulher, um dos dois, você ou o Rei Edmundo, perca a vida?
- São poucos: dez dos meus homens podem desarmá-lo e amarrá-lo. Sofrearei minha veemente sede de sangue para que não prevaleça um motivo de guerra entre o senhor e o Grande Rei.
- Acaso acha que o Grande Rei deixará a sua esposa fácil? E se o Esplendor Hialino chegar a Cair Paravel antes de você?
- Não com estes ventos, pai meu. Pouco me importa o Grande Rei e sua ira.
- Por fim, imaginoso filho meu, está bem claro de que maneira obterá a mulher bárbara, mas de modo algum está claro como poderei subjugar Nárnia.
- Pai meu, por acaso lhe escapou que, enquanto eu e meus cavaleiros cruzamos Nárnia de lado a lado como uma flecha, Anvar já será nossa para sempre? De posse de Anvar, estamos sentados às portas de Nárnia, e sua guarnição aí pode ser acrescida pouco a pouco, até transformar-se em legião imensa.
- Falou com discernimento e espírito de previsão. Mas como vou retirar a minha mão se tudo for por água abaixo?
- É só dizer que fiz esse gesto sem o seu conhecimento, contra o seu coração, impelido pela violência do meu amor e pelo ardor da juventude.
- Certo. Mas o Rei irá pedir que lhe mandemos de volta a mulher bárbara, que é dele!
- Pai meu, pode estar certo de que isso não acontecerá. Embora essa mulher tenha casado-se com ele, creio que o Grande Rei Pedro é homem prudente e judicioso. De modo algum vai querer perder a alta honraria e grande vantagem de ser aliado da nossa casa, mesmo que ele tenha que perder a esposa. Ele não tem herdeiro algum, na certa arranjará para si outra melhor que esta.
- Ele não verá isso se eu viver para sempre, como é sem dúvida o seu desejo, filho meu – disse o Tisroc, com uma voz ainda mais seca do que habitualmente.
Depois de um instante de embaraçoso silêncio, falou o príncipe:
- Além disso, pai-meu-e-deleite-dos-meus-olhos, forjaremos cartas da Rainha, afirmando que me ama e que não sente o menor desejo de regressar a Nárnia. Pois todo mundo sabe que as mulheres mudam mais que cata-vento. E, mesmo que não acreditem nas cartas, não ousarão entrar com armas em Tashbaan para buscá-la.
- Esclarecido vizir – disse o Tisroc –, queira esparzir sobre nós o seu sábio conselho a propósito desta estranha proposta.
- Sempiterno Tisroc: a força da afeição paternal não me é estranha e com freqüência vejo que, aos olhos do pai, filhos são mais preciosos que diamantes. Assim, como poderei ousar desvendar-lhe todo o meu pensamento, em matéria que pode colocar em perigo a vida deste decantado príncipe?
- É claro que você vai ousar – respondeu o Tisroc. – Se não ousar, correrá pelo menos um perigo igual.
- Ouvir é obedecer – gemeu o desgraçado. – Saiba então, ó iluminado Tisroc, em primeiro lugar, que o príncipe não corre um perigo tão grande quanto pode parecer. Pois os deuses negaram aos bárbaros a luz da discrição: assim a poesia deles não é, como a nossa, cheia de máximas e ditos úteis, mas é uma poesia de amor e de guerra. Portanto, nada lhes parecerá mais nobre e admirável do que a insensata empreitada a qual este... ai!
Na palavra "insensata", o príncipe dera-lhe um chute.
- Pare com isso, filho meu. E você, estimável vizir, quer ele pare ou não, de maneira alguma permita que a torrente de seu eloquente verbo seja interrompida. Pois nada assenta melhor a pessoas de gravidade e compostura do que suportar os males menores com resignação.
- Ouvir é obedecer – falou o vizir, revirando-se um pouco para o lado, a fim de colocar o traseiro fora do alcance do pé de Rabadash: – Nada lhe parecerá mais desculpável, se não estimável, ao príncipe, do que esta... hum... arriscada tentativa, especialmente por ser inspirada pelo amor da mulher. Portanto, se por desgraça o príncipe cair nas mãos deles, certamente não irão matá-lo. Mais ainda: pode ser mesmo que, embora não sequestre a Rainha, à vista de sua grande bravura e da sua extrema paixão, os corações deles acabem por favorecê-lo.
- Está aí um bom ponto de vista, velho tagarela – falou Rabadash. – Muito bom, apesar de ter saído de seu bestunto.
- O louvor do meu amo é a luz do meu coração – replicou Achosta. – Em segundo lugar, ó Tisroc, cujo reinado deve ser e será sempiterno, creio que, com o auxílio dos deuses, é muito provável que Anvar caia nas mãos do príncipe. Se assim for, agarramos Nárnia pelo pescoço.
Fez-se uma longa pausa. A sala ficou tão silenciosa que as duas moças mal tinham coragem de respirar. Falou o Tisroc, afinal:
- Vá, filho meu. Faça como disse. Mas não espere de mim ajuda ou conivência. Não o vingarei se morrer, e não irei libertá-lo se o meterem numa prisão. E, caso fracasse ou triunfe, se verter uma gota a mais do nobre sangue narniano, e disso advenha a guerra, meu favor lhe será negado para sempre, e o seu irmão ocupará o seu lugar entre os calormanos. Agora vá. Seja rápido, discreto, e que a sorte o favoreça. Que o poderio de Tash, o inexorável, o irresistível, dirija a sua lança e a sua espada.
- Ouvir é obedecer – bradou Rabadash, que, depois de ajoelhar-se um segundo para beijar as mãos do pai, deixou rapidamente a sala. Para grande desgosto de Aravis, que sentia câimbras horríveis, o Tisroc e o vizir permaneceram.
- Vizir, será certo que nenhuma outra alma sabe da reunião que os três aqui mantivemos?
- Senhor meu, não é possível que mais alguém o saiba. Por esta mesma razão propus, e a sua infalível sabedoria concordou, que era aqui, no Velho Palácio, que deveríamos nos encontrar, onde reunião alguma jamais foi feita e nenhum dos familiares tem ocasião de entrar.
- Muito bem. Se alguém soubesse, estaria morto em menos de uma hora. E também você, meu prudente vizir, esqueça tudo o que se passou aqui. Limparei do meu próprio coração e do seu também toda a lembrança em relação aos planos do príncipe. Ele partiu sem o meu conhecimento e sem o meu consentimento, não sei para onde, por motivo de sua violência, precipitação e rebeldia juvenis. Ninguém ficará mais surpreso do que nós, eu e você, ao saber que Anvar está nas mãos dele.
- Ouvir é obedecer.
- Por isto mesmo, você jamais pensará, lá no fundo do seu coração, que eu sou o mais duro de todos os pais, capaz de enviar o primogênito numa missão que lhe possa causar a morte. Por mais que isto lhe agrade, a você, que não ama muito o príncipe, como bem vejo no fundo da sua alma.
- Impecável Tisroc, se o comparo com o amor ao meu senhor, eu de fato não amo o príncipe, nem a minha própria vida, nem a água, nem o pão, nem a luz do sol.
- São elevados e certos os seus sentimentos. Também não amo nada dessas coisas, se as comparo com o poder e a glória do meu trono. Se o príncipe triunfar, teremos Arquelândia e talvez, depois, Nárnia. Se falhar... se falhar tenho mais dezoito filhos... e Rabadash, ao estilo dos filhos mais velhos dos reis, estava começando a ficar perigoso. Mais de cinco tisrocs em Tashbaan morreram antes da hora porque seus filhos mais velhos, esclarecidos príncipes, acabaram se cansando de esperar pelo trono. Melhor que ele esfrie o sangue no estrangeiro do que o afervente aqui na inação. E agora, meu excelente vizir, o excesso de minha aflição paterna está me levando para a cama. Mande os músicos para os meus aposentos. Mas, antes de deitar-se, revogue o perdão que assinamos para o terceiro cozinheiro. Estou sentindo dentro de mim prognósticos evidentes de indigestão.
- Ouvir é obedecer.
O grão-vizir engatinhou pela sala, levantou-se, abriu a porta, fez a reverência e saiu. O Tisroc permaneceu sentado e quieto no divã Aravis chegou a temer que tivesse caído no sono. Por fim, com grandes chiados e suspiros, ele alçou o enorme corpanzil, fez sinal para que os escravos o precedessem com as velas, e saiu. Fechou-se a porta. A sala estava novamente imersa em escuridão. As duas moças podiam afinal respirar de verdade.
- Que horror! Que horror! - gemeu Lasaralina. - Estou apavorada, querida. Estou tremendo da cabeça aos pés. Veja só.
- Vamos – disse Aravis, que também tremia. – Já foram para o palácio novo. Estaremos salvas lá fora. Como demoraram! Leve-me logo para a porta da muralha, depressa.
- Mas você tem coragem, querida? Olhe o meu estado de nervos! Não, por favor: vamos descansar um pouco e voltar para casa. No momento, nem consigo dar um passo. Que nervosismo, querida! Quero voltar para casa.
- Voltar?
- Você não entende, não é? Você é tão pouco compreensiva! – falou a amiga, começando a chorar.
"Não é hora para compaixão", pensou Aravis.
- Olhe uma coisa! – e deu umas boas sacudidelas em Lasaralina. – Se disser outra vez a palavra voltar, e se não me levar imediatamente para a porta do rio... sabe o que vou fazer? Vou lá fora e dou um berro... e pegam a gente.
- E nós duas então iremos mo... morrer! Você não acabou de ouvir o que disse o Tisroc – que ele viva para sempre!
- Ouvi, mas prefiro morrer a me casar com Achosta. Logo, em frente!
- Você está sendo má, Aravis. Veja só o meu estado de nervos.
Mas Lasaralina acabou entregando os pontos. Voltaram, seguiram por um comprido corredor e chegaram por fim ao ar livre.
Estavam agora no jardim do palácio com aqueles terraços em tabuleiros, cercados pelas muralhas da cidade. A lua brilhava. Uma desvantagem das aventuras é esta: quando chegamos aos lugares mais belos, estamos em geral tão aflitos e apressados que não somos capazes de apreciá-los. Por isso Aravis (apesar de lembrar-se anos depois) teve apenas uma vaga impressão de relvados cinzentos, fontes murmurantes, sombras esguias de ciprestes.
Quando chegaram ao fim da rampa, e a muralha lhes barrou o caminho, Lasaralina tremia tanto que não foi capaz de abrir o portão. Aravis passou à frente e o fez. Lá estava o rio, espelhando o luar, com um pequeno cais de amarração e simpáticas canoas.
- Adeus – disse Aravis – e muito obrigada. Perdoe se fiz jogo sujo, mas pense um pouquinho de quem estou escapando.
- Querida, não quer desistir? Agora já viu que Achosta é um grande homem!
- Grande homem! Um escravo repugnante e rastejante que a chutes no traseiro responde com lisonjas, mas vai guardando tudo, e acaba levando o Tisroc a aceitar um plano que causará a morte do próprio filho!
- Aravis! Aravis! Como você pode dizer uma coisa destas? E sobre o Tisroc – que ele viva para sempre! – também! Se ele fez aquilo, é porque está certo!
- Adeus e... achei lindos os seus vestidos. E sua casa também é linda. E você vai ter uma vida linda... Só que não é a minha vida. Feche a porta devagar.
Escapou dos ternos beijos da amiga, pulou para dentro de uma canoa e daí a pouco estava em pleno rio, com duas luas, uma no céu, outra no fundo das águas. Como era boa a brisa!
Quando se aproximava da outra margem ouviu o pio de uma coruja. "Muito mais agradável!" Vivera sempre no campo e detestara todos os minutos passados em Tashbaan.
Ao pisar em terra, viu-se cercada pela escuridão, pois a elevação do terreno e as árvores impediam a passagem do luar. Mesmo assim conseguiu descobrir o caminho trilhado por Shasta, divisando por fim os túmulos escuros. E, por mais valente que fosse nesse momento, o seu coração estremeceu. E se os outros não estivessem lá? E se, no lugar deles, estivessem os morcegos? Mas ergueu a cabeça e caminhou firme para os túmulos.
Ainda não os alcançara quando deu com Bri, Huin e o escudeiro.
Pode voltar para a casa de sua senhora – disse Aravis, esquecendo-se de que o escudeiro só poderia voltar no dia seguinte, quando os portões da cidade se abrissem. – Tome um dinheiro pelo trabalho.
- Ouvir é obedecer – disse o escudeiro, partindo com uma pressa inesperada na direção da cidade. Também a cabeça dele estava cheia de morcegos.
Aravis viu-se acariciando Huin e Bri como se fossem animais comuns.
- Aí vem Shasta! Graças ao Leão! – disse Bri. Shasta de fato apareceu, agora que o escudeiro se fora.
- Não há um momento a perder! – e em rápidas palavras Aravis falou sobre a expedição de Rabadash.
- Cães traiçoeiros! – bradou Bri, sacudindo a crina e batendo com o casco. – Um ataque em tempo de paz, sem declaração de guerra! Pois vamos lhes colocar sal na ração. Chegaremos antes deles.
- Chegaremos? – duvidou Aravis, pulando para a sela de Huin. Shasta sentiu um pouco de inveja daquele pulo perfeito.
- Bru-ru! – bufou Bri. – Firme, Shasta? Vamos dar uma boa largada!
- O príncipe também vai largar imediatamente – falou Aravis.
- Conversa de gente humana – respondeu Bri.
- Impossível organizar um esquadrão de duzentos cavalos e duzentos cavaleiros, com água, comida e armamentos, e largar imediatamente. Bem, qual a nossa direção? Norte?
- Um momento – interveio Shasta. – Deixe isso comigo. Tracei uma linha. Depois eu explico. Vocês, cavalos, cheguem um pouco mais para a esquerda. Aí... exatamente.
- Agora tem uma coisa – disse Bri. – Isso de galopar durante um dia e uma noite só existe nas histórias. Tem de ser no passo e no trote. Quando formos a passo, vocês aí, humanos, podem descer e ir a passo também. Pronta, Huin? Vamos! Para Nárnia! Para o Norte!
A princípio foi uma beleza. Com a noite alta, a areia perdera o calor acumulado durante o dia e a temperatura era agradável. Por todos os lados a areia resplandecia como água ou como uma grande bandeja de prata. Fora o barulho dos cascos, o silêncio era completo. Shasta seria capaz de dormir, caso não tivesse de desmontar para caminhar de vez em quando.
Parecia uma cavalgada sem fim. Sumiu o luar e tiveram a impressão de avançar nas trevas por horas e horas. Quando Shasta percebeu que distinguia o pescoço e a cabeça de Bri com mais nitidez, lenta, lentamente, a grande planura cinzenta começou a surgir. Parecia um mundo morto. Terrivelmente cansado, Shasta notou que fazia frio e que os seus lábios estavam secos. E o tempo todo o ranger do couro, o tinir dos cabrestos e o ruído dos cascos, não o proctiproc de um caminho duro, mas um pructupruc sobre a areia ressequida.
Por fim, muito longe, do lado direito, surgiu no horizonte um longo risco cinza, mais pálido. Depois um clarão avermelhado. Era enfim o amanhecer, a manhã que nem um só passarinho festejava. E, como estava ficando mais frio, Shasta começou a gostar das caminhadas a pé.
Com o sol, tudo mudou num instante. A areia cinzenta ficou amarela e cintilava como que salpicada de diamantes. As sombras de Shasta, Huin, Bri e Aravis alongavam-se à esquerda. Na lonjura em frente o topo duplo do Monte Piro refulgia, e Shasta achou que se haviam afastado um pouco da linha reta.
- Um pouquinho mais à esquerda, um pouquinho mais – comandou.
O melhor de tudo era olhar para trás e ver Tashbaan diminuindo de tamanho na distância. Os túmulos ficaram quase invisíveis, engolidos pela vasta corcova maciça que era a cidade do Tisroc. Todos se sentiram melhor.
Mas não por muito tempo. Tashbaan, muito longe quando olharam pela primeira vez, parecia permanecer no mesmo lugar enquanto avançavam.
Shasta parou de olhar para trás, para não ter a impressão de estar sempre no mesmo lugar. O sol passou a ser um incômodo, pois o fulgor da areia doía-lhe nos olhos. O jeito era esfregá-los e continuar fixando o Monte Piro e comandando a rota.
Notou que o calor havia chegado quando, ao apear, sentiu um bafo quente na face como se tivesse aberto um forno. E, quando ia desmontar mais uma vez, deu um berro de dor, um pé descalço na areia ardente e outro no estribo.
- Sinto muito, Bri, mas não aguento mais andar. Meus pés estão pegando fogo.
- É claro! Eu devia ter-me lembrado disso. Fique na sela. Não há outro jeito.
- Você não tem problema – disse Shasta para Aravis, que caminhava ao lado de Huin. – Você tem sapato.
Aravis nada respondeu. Estava com um ar superior. E infelizmente esse ar superior era propositado.
A trote, a passo, rã-rã-rã dos couros, tlim-tlim-tlim dos cabrestos, cheiro de cavalo, cheiro de si mesmo, calor, ofuscamento, dor de cabeça – eis o que era, e sempre a mesma coisa, quilômetro após quilômetro. E Tashbaan sempre lá, no mesmo lugar, nunca mais longe, e as montanhas à frente sempre no mesmo lugar, nunca mais perto. Não acabava mais, rã-rã-rã, tlim-tlim-tlim, cheiro de cavalo, cheiro de gente.
Experimentaram todos os passatempos, mas o tempo não passava. E era preciso fazer uma força monstruosa para não ficar pensando em refrescos gelados num palácio de Tashbaan, água clara batendo na pedra, leite fresco e cremoso, mas não cremoso demais... E, por mais que a gente não queira pensar, mais a gente pensa.
Entretanto, acabou surgindo uma coisa diferente: um bloco de pedra fincado na areia, com uns dez metros de altura. Com o sol já muito alto, a sombra do bloco de pedra era pouca. Foi para esse pouquinho de sombra que correram e aí se amontoaram. Comeram e beberam um gole de água. Não é fácil dar água a um cavalo com um cantil, mas Bri e Huin souberam usar os beiços com habilidade.
Ninguém chegou a ficar satisfeito. Ninguém falou nada. Os cavalos espumavam e respiravam ruidosamente. As crianças estavam pálidas.
Após um ligeiro descanso, partiram novamente. Os mesmos ruídos, os mesmos odores, os mesmos fulgores, até que as sombras dos quatro passaram para o lado direito e foram ficando cada vez mais compridas, como se quisessem alcançar a extremidade oriental do mundo. Com o sol posto, felizmente teve fim a reverberação das areias; mas o bafo quente do chão era cada vez pior. Quatro pares de olhos procuravam excitadamente um dos sinais referidos pelo corvo. Mas só havia areia. Já iam surgindo as estrelas, e as quatro criaturas se sentiam infelizes, sedentas e exaustas. Mal se erguia a lua quando Shasta – com a voz estranha de quem está de boca seca – gritou:
- Lá está!
Não havia erro. Lá estava uma inclinação do terreno, um declive com massas de pedra dos lados. Os cavalos, cansados demais para falar, picaram o passo e, em dois minutos, entraram na garganta. A princípio foi ainda pior que no areal aberto; respirava-se com dificuldade entre as paredes de pedra, e o luar mal penetrava. A inclinação prosseguia, e as rochas de lado a lado pareciam altos penhascos. Encontraram vegetação, plantas como cactos espinhosos e um capim que picava a pele. Os cascos dos cavalos pisoteavam seixos e pedras grandes. Por todas as curvas iam buscando ansiosamente qualquer sinal de água. Os cavalos quase não podiam mais, extenuados; Huin, aos tropeções, ia ficando para trás. Já quase desesperados, depararam com um fiozinho de água correndo por um capinzal menos áspero. O fiozinho virou um arroio, o arroio virou um riacho e o riacho acabou virando um rio de verdade. De repente, Shasta, meio zonzo, percebeu que Bri havia parado e que ele caíra da sela. Diante deles estava uma cachoeira formando uma piscina de água fresca. Os cavalos começaram a beber, a beber, a beber. Shasta entrou com a água pelos joelhos e foi meter a cabeça debaixo da cachoeira. Talvez tenha sido o melhor momento da sua vida.
Só dez minutos mais tarde os quatro começaram a observar os arredores. A lua já subira o bastante para espreitar o vale. Relva macia alongava-se pelas margens do rio; além, moitas e árvores. Flores escondidas na sombra perfumavam o ar. Vindo do escuro da mata chegou um som que Shasta jamais ouvira: um rouxinol.
Fatigados demais para falar ou comer, os cavalos deitaram-se como estavam. O mesmo fizeram Aravis e Shasta. Cerca de dez minutos após, a prudente Huin abriu a boca:
- Não devemos dormir; temos de chegar na frente daquele Rabadash.
- Ninguém vai dormir – disse Bri com vagareza. – Só descansar um pouquinho...
Shasta percebeu que iriam todos pegar no sono se ele não se levantasse e fizesse alguma coisa. Resolveu levantar-se para convencê-los a prosseguir. Mas não agora... daqui a pouco...
E logo a lua brilhava e o rouxinol cantava acima de dois cavalos e duas crianças – todos os quatro a ressonar.
Aravis foi a primeira a acordar. O sol já ia alto, e as horas matinais mais frescas estavam perdidas. "Minha culpa" – disse para si mesma com raiva, dando um pulo e começando a despertar os outros. "Não se pode esperar que cavalos continuem acordados depois de uma canseira como essa, mesmo que falem. E o rapaz também, pois não tem o hábito. Mas eu, sim, eu devia saber."
Os outros estavam tontos de sono.
- Bru-ru! – disse Bri. – Dormindo de sela, eu! Nunca mais, que coisa desagradável!
- Depressa, vamos, já perdemos metade da manhã.
- Antes temos de comer um capinzinho - disse Bri.
- Não podemos esperar.
- Por que essa pressa? – perguntou Bri. – Já atravessamos ou não o deserto?
- Mas ainda não estamos em Arquelândia; temos de chegar lá antes de Rabadash.
- Ó, mas devemos estar muito à frente dele – respondeu Bri. – Esse corvo, amigo de Shasta, não disse que este era o caminho mais curto?
- Ele não disse nada sobre mais curto – respondeu Shasta. – Disse apenas melhor, por causa do rio. Pode ser o mais comprido.
- Bem, não posso ir sem comer qualquer coisinha – disse Bri. – Tire minhas rédeas, Shasta.
- Por favor – falou por sua vez Huin, muito encabulada. – Também sinto como Bri que não posso mais. Mas quando cavalos levam humanos nas costas não são muitas vezes obrigados a continuar, mesmo não aguentando mais? E não descobrem no fim que ainda eram capazes de suportar mais um pouco? Pois então, será que não podemos fazer uma forcinha, agora que estamos livres? Tudo em nome de Nárnia.
- Acho, madame – falou Bri esmagadoramente – que conheço um pouquinho mais do que a senhora a respeito de expedições e marchas forçadas ou da resistência de um cavalo!
Huin ficou quietinha; era tão sensível, tão gentil, tão cordata! Mas, na verdade, estava com a razão: se Bri estivesse carregando nas costas um tarcaã, este teria achado que ele poderia continuar por muitas horas. Mas justamente uma das piores consequências da escravidão é esta: quando uma criatura não é mais forçada a fazer as coisas, quase já perdeu de todo o poder de forçar a si mesma.
Esperaram que Bri comesse um pouco e bebesse água. Huin e as crianças, naturalmente, também comeram e beberam.
Deviam ser umas onze horas quando partiram. Mesmo assim Bri não se mostrava com a mesma disposição da véspera. Foi Huin, embora a mais fraca e mais cansada dos dois, que abriu a cavalgada.
O vale era tão bonito, com as águas frescas, relvados e flores silvestres, que dava a tentação de ir vagarosamente.
