Notas:
Tenham uma boa leitura e compartilhem suas impressões comigo!
Capítulo 7 - Sob a proteção de Miguel
Na manhã do sexto dia sem John no 221B, uma melodia triste fluiu pelas paredes do apartamento. Sherlock em seu roupão azul ametista movimentava graciosamente o arco do seu violino pelas cordas afinadas, produzindo notas lamentosas que sangravam pelo recinto tentando preencher o vazio deixado pelo homem que costumava sentar de frente para as grandes janelas de vidro escrevendo sobre mistérios em seu blog.
– A coisa está mesmo muito séria por aqui, você está tocando a canção "Domingo sombrio" composta pelo húngaro Rezso Seress para sua ex-namorada e ele curiosamente se matou por causa dela. Está tendo pensamentos suicidas, irmão?
Sherlock parou de tocar assim que ouviu a última voz que desejava ouvir naquela manhã.
– Realmente não tem nada para fazer hoje, Mycroft? – o moreno indagou mantendo-se de costas para o irmão.
– Eu tenho, e aos montes ao contrário de você, mas precisei ver como estava, fiquei sabendo que precisou de cuidados médicos ontem. O John esteve aqui para ajudar e não ficou, não é mesmo? Bem... acho que errei os meus cálculos, já passaram as 72 horas. Ninguém é infalível, afinal de contas. – Holmes mais velho comentou com ar resignado.
– Anda me espionando? – Sherlock falou por cima do ombro.
– Não, a sua senhoria às vezes é mais eficiente no fornecimento de informações sobre você e seu namorado do que o meu pessoal treinado.
– Preciso dar um jeito nela. – Sherlock resmungou revirando os olhos, largando o violino sobre o assento da sua poltrona para apoiar as mãos na vidraça da janela à sua frente.
– Então o seu romance com o médico acabou. Devo confessar que estou surpreso, eu realmente pensei que a relação de vocês era algo sério. – Mycroft comentou com um riso desdenhoso enquanto observava Sherlock empertigar-se diante do janelão direito da sala.
– Nós não terminamos. Ele pediu um tempo.
– Oh, claro. Tempo para voltar para a ex-namorada médica e pensar sobre a diferença entre o que ela tem a oferecer a ele e você não.
– O que disse? – Sherlock indagou virando-se violentamente de frente para o irmão.
– Ah, você não sabe? Ele e a Dra Sarah andaram se encontrando em um Pub cinco quadras depois do São Bartolomeu e ontem ele dormiu na casa dela, e não foi no sofá. É, Sherlock... Você está perdendo terreno. – Mycroft comentou com um erguer desdenhoso de sobrancelha.
– Veio aqui me espezinhar? – Sherlock cuspiu de forma ácida dando um passo na direção do irmão que ergueu o queixo em desafio.
– Não, estou aqui apenas para avisar que suas peças estão caindo no tabuleiro enquanto você dorme.
Mycroft riu da expressão confusa que o irmão fez, em seguida gesticulou um leve cumprimento com a cabeça e saiu do 221B, deixando um Sherlock bastante perturbado olhando para o nada.
Depois de alguns minutos encarando o nada, o corpo longo moveu-se arrancando o roupão, pondo um blazer, cachecol e o sobretudo às pressas para ganhar o rumo da rua úmida em busca de um táxi. Ele precisava falar com John.
A tarefa de encontrar o endereço da hospedagem do médico foi simples, bastou inquirir o primeiro médico residente do Barts para ter o paradeiro do loiro. O difícil foi encontrar John. O médico não havia aparecido em seu quarto na pensão, no entanto, Sarah tinha dado conta de que o homem havia saído bem cedo de sua casa e Sherlock fez um esforço extra para não ser muito desagradável com a mulher, pois queria a localização do ex-militar.
Depois de horas rodando e perguntando, a sensação que restou no detetive foi a de que John havia aberto um buraco e se escondido dentro. Ninguém o tinha visto naquele dia em canto algum. Sua busca foi interrompida por uma chamada telefônica de Lestrade solicitando a imediata presença dele no St. James Park. Havia o corpo de um homem às margens do lago, cujas características eram do seu interesse.
Quando Sherlock chegou ao St. James Park, avistou de longe a aglomeração de policiais e peritos em torno de um corpo perto do lago. Greg o avistou e fez sinal para que ele se aproximasse.
No solo úmido estava o corpo de um homem de cabelos claros e estatura mediana e compacta, Sherlock o encarou sem se mover por alguns segundos notando as semelhanças do morto com John. Depois desse breve devaneio, ele agachou-se analisando primeiramente uma marca arroxeada na garganta da vítima para em seguida observar um ferimento perfuro cortante no pescoço do morto, constatando ser feito por baioneta, continuou sua análise tocando a trama do tecido do casaco preto e apalpou rapidamente a gola e os bolsos encontrado um passaporte com várias notas de cem dólares entre suas páginas e uma nota-recibo de bebida consumida na Crypt Café, às 19:15 do dia anterior no verso do qual estava escrito a seguinte frase à mão:" a espada está sob a guarda de Miguel".
– Já puxei a ficha através do passaporte, o nome dele é Charlie Patel, 38 anos, solteiro, historiador e sem emprego fixo. – Lestrade resumiu enquanto observava o detetive revirando o corpo úmido no solo. – Seria tratado como um homicídio comum se não fosse o hematoma na área da traqueia e a perfuração ao lado do pescoço, achei parecido com as características que encontramos no corpo de Rebeca Allen há alguns dias. Então? Estamos diante de uma segunda vítima do mesmo assassino?
– Estamos. – Sherlock confirmou se erguendo olhando atentamente para o recibo de bebida que tirara do bolso do morto. – a vítima sofreu constrição súbita de ar com o golpe violento na parte frontal do pescoço, fraturando o osso hióide, seguido de perda imediata dos sentidos para possibilitar maior comodidade ao assassino que rompeu com a mesma precisão de antes a carótida do Sr. Patel aqui. A arma e o motivo são os mesmos do crime anterior e eu já sei onde podemos encontrar pelo menos o elemento do motivo.
– É mesmo? Tão rápido?! Como descobriu? – Greg perguntou espantado.
– Está anotado atrás desse recibo de bebida consumida. – o detetive disse passando o papel para Lestrade.
– " A espada está sob a guarda de Miguel". – o inspetor leu franzindo a testa. – É só um verso religioso.
– Não é um verso, é uma referência, a espada é o quarto naipe do baralho francês, a simbologia acaba aí, a segunda parte da frase é literal, "Miguel" está guardando o naipe que procuramos.
– Mas quem é esse Miguel?
– Não é "quem", é o "quê". Ele não estava se referindo a uma pessoa, mas a uma pintura do arcanjo Miguel que fica pendurada à esquerda do altar da St. Martin-in-the- Fildes, ele certamente escondeu um naipe atrás da pintura.
– Como sabe que é essa a igreja? Há vários templos em Londres com imagens parecidas.
– Olhe a nota de bebida encontrada no bolso dele. – Sherlock insistiu.
– O que tem?
– É do Crypt Café, trata-se de uma cafeteria localizada na cripta da igreja St. Martin-in-the- Fildes, na Trafalgar Square, pela data e horário registrado no canto esquerdo superior do papel, dá para ver que ele esteve lá ontem à noite, deduzo que ele leu nos jornais as matérias sobre a morte da professora Allen e procurou mudar o local de guarda do naipe que ele estava protegendo antes de tentar fugir de Londres. Como eu disse, assuste os coelhos e eles denunciarão seu paradeiro se movendo rápido e descuidado demais. – o detetive explicou.
– Como sabe que ele ia fugir?
– A jaqueta é nova, provavelmente esta foi a primeira vez que ele a vestiu, ainda tem uma etiqueta da compra por dentro, ele deve ter tido a impressão de alguém o seguindo ontem e a comprou em uma das lojas de conveniência próximas à igreja na intenção de mudar sua aparência externa na rua e, na pressa, vestiu sem remover a etiqueta com o preço, normalmente ninguém sai por aí com o preço de sua roupa pendurada para fora. Mas não é só isso, temos o passaporte no bolso do casaco dele junto com dinheiro suficiente para a compra de passagem no balcão do aeroporto, ele preferiu checar a disponibilidade de vôo no aeroporto ao invés de perder tempo fazendo verificações online, e convenhamos, foi mais inteligente do que a colega dele, no entanto não conseguiu ser mais esperto e rápido que o assassino.
– É, e nós também, não conseguimos encontrá-lo antes de ser morto. – Greg murmurou relanceando um olhar para o cadáver sendo recolhido pela equipe de legistas.
– Bem, isso é um detalhe inútil no momento. Pare de reclamar e vamos para ao local indicado pelo Sr. Patel. – Sherlock disse arrancando a nota de bebida da mão do inspetor.
– Será que haverá outra morte? – Lestrade perguntou apressando os passos para acompanhar Sherlock.
– Não, pelo menos não pelos mesmos motivos. – o moreno afirmou convicto.
– Como sabe?
– Não percebe a falta de um item na cena do crime?
– Não.
– O desenho, o assassino não deixou nenhum rabisco, isso significa que ele não precisa desentocar mais ninguém. – o detetive respondeu firme. – Agora me leve até a igreja.
Lestrade bufou e entrou no carro sendo acompanhado por um Sherlock afoito e ambos seguiram para a St Martin.
Embora não faça parte dos roteiros turísticos tradicionais de Londres, o local é uma das igrejas mais visitadas da cidade. A construção oriunda do século XIII, atrai muitos nacionais e estrangeiros com seus concertos musicais regulares e o agradável serviço de café instalado em sua cripta. Ao pararem à frente da igreja, Sherlock pulou do carro saltitando animadamente os degraus do templo, passando à trote impetuoso pelas altas colunas estilo grego, afundando no ambiente sacro como um menino caçando o maior ovo de chocolate já escondido no jardim de sua casa.
O homem avançou rapidamente para o altar em passos largos e vigorosos de modo que nenhuma criatura teria ânimo para interrompê-lo enquanto Greg ia mais atrás, ligeiramente sem fôlego tentando alcançá-lo.
– Aqui está. – Sherlock afirmou apontando para uma pintura à esquerda onde figurava a representação de um anjo de joelhos e asas abertas. – Me ajude aqui, Lestrade – o detetive pediu tentando remover o quadro da parede. – A moldura é bem pesada.
O inspetor moveu-se para ajudar e os dois afastaram cuidadosamente o quadro sob o olhar horrorizado de alguns turistas que visitavam o lugar e o murmúrio enraivecido de algumas religiosas insatisfeitas com a falta de consideração dos intrusos.
Atrás do quadro, de fato havia uma carta de baralho grudada com fita adesiva no material da tela. Um Rei de Espadas. Sherlock a catou rapidamente e repôs o quadro no lugar com ajuda de Lestrade, afastando-se do altar assim que colocou seu achado no bolso do casaco. O que fez as beatas ficarem satisfeitas e os turistas um tanto curiosos.
Enquanto isso, John acordou desorientado em um dos leitos do Barts sob o olhar atento e preocupado de Sarah e Molly.
– Como está se sentindo, John? – Hooper perguntou.
Ele tentou falar, mas sentiu uma esmagadora dor na garganta e franziu a cara gemendo.
– Tome um pouco de água – Sarah indicou entregando-lhe um copo com o líquido frio. – Vai ajudar a melhorar, você machucou a garganta em um galho baixo enquanto corria no parque esta manhã.
– Galho baixo? – John perguntou rouco. – Não fui atacado?
– Atacado? Havia mais alguém com você no parque? – Molly perguntou preocupada.
– Sim, eu avistei um vulto entre as árvores, parecia estar me seguindo e observando, não é a primeira vez que eu o vejo nesses últimos dias, fiquei irritado com isso e decidi correr atrás para saber quem era e por que estava me observando. Mas quando estava chegando perto senti um golpe na garganta e desmaiei.
– Bem, não havia sinal de que outra pessoa estivesse na área em que você foi encontrado desmaiado. Perto de você havia um galho baixo, em altura perfeita para atingir a garganta de um sujeito da sua estatura se estivesse correndo sem prestar atenção. – Sarah explicou.
– Não, eu sei que tinha alguém lá, eu estava correndo atrás de uma pessoa, eu sei que estava. – John insistiu.
– Tudo bem, John, acho melhor você descansar. – a médica disse.
John considerou a sugestão uma ofensa, ele não estava tendo delírios, não era louco, mas resolveu largar-se no leito e tentar um cochilo reparador.
Com o transcorrer do dia, Sherlock e Lestrade voltaram a se encontrar no final do dia no Pub The Camel, um estabelecimento de proporção média que o detetive considerou relativamente lotado de pessoas estranhamente animadas por uma bebida e compartilhamento de calor em um local fechado, promovendo desagradável compressão em sua bolha de espaço pessoal, situação que ele tentou amenizar procurando a mesa mais afastada que havia no lugar, porém próxima a uma das janelas para não ficar sem a visão da rua que estava úmida com o sereno que precipitava naquele momento.
– Certo – Lestrade resmungou depois de assistir uma garçonete depositar dois canecos de cerveja diante deles – Agora temos duas cartas de baralho comum pelas quais duas pessoas morreram e nós não sabemos o que significam.
– Nós não, você. – Sherlock corrigiu pondo o Às de copas na mesa enquanto guardava o Rei de Espadas no casaco pendurado em sua cadeira.
– Tudo bem, desembucha logo a sua dedução sobre o possível significado. – Lestrade exigiu dando um gole em sua cerveja enquanto observava uma estranha mudança na expressão do detetive à sua frente.
De presunçosa e arrogante, a expressão de Sherlock tomou um aspecto lívido e descrente enquanto olhava atentamente para um ponto atrás do inspetor, no sentido da entrada do estabelecimento. A reação do homem foi tão surpreendente que o inspetor instintivamente virou-se para tentar compreender o ocorrido, então ele viu.
John Watson acabara de entrar sorridente ao lado de uma mulher ruiva igualmente sorridente, ambos se dirigindo para uma mesa a poucos passos da porta enquanto conversavam animadamente.
Quando Lestrade virou o rosto para encarar Sherlock, descobriu que o lugar estava vazio e que o homem havia catado a carta, posto no blazer e se levantado para caminhar de forma lenta e ereta no sentido da mesa do casal sorridente recém-chegado.
O inspetor se encolheu em seu assento voltando a dar um gole na sua cerveja, aguardando o que iria se desenrolar nos próximos minutos. Afinal, não poderia fazer nada para evitar o que quer que fosse acontecer. Sherlock Holmes resoluto em algo, era uma força da natureza, e portanto, imparável.
– Ora, vejam quem eu encontro neste Pub apertado e quente, Dr. Watson e sua nova aventura amorosa. Se bem que não seria propriamente nova, não é mesmo? Vocês já tentaram algo antes. Então devo chamar isso de reaproveitamento. – Sherlock disparou olhando com um riso de escárnio para John e Sarah.
– Eu não lhe dou o direito de fazer esse tipo de comentário sobre mim e a Sarah, Sherlock. – John rosnou encarando-o entre magoado e desconcertado.
– Ah, é mesmo? Que tipo de comentário eu posso fazer, John? Que sua necessidade de uma relação convencional e sem graça o fez sair de casa e correr a lista das suas ex-namoradas aptas a ser a mãe de seus muitos filhos e tutora do cãozinho que irão adotar depois do matrimônio?
– Você está sendo indelicado, injusto e está distorcendo as coisas. – John voltou a protestar fechando os punhos sobre a mesa.
– Será que estou? Ou estou falando a verdade pura e simples?
– Eu queria casar com você, e você me chutou! – John gritou pondo-se de pé de modo que Sherlock recuou um passo instintivamente intimidado. – Está lembrado disso? – John fungou tentando controlar a súbita raiva que estourou em seu sangue.
– Lembro-me de estar tudo bem conosco e você querer estragar tudo com convenções sem sentido. – Sherlock respondeu erguendo o queixo.
– Sem sentido? – John riu amargo balançando a cabeça. – Você sabe quantas coisas sem sentido você fazia e eu aceitava? E você sabe por que eu aceitava? Eu aceitei todas as coisas esquisitas e sem sentido que envolvia você e seus gostos porque eu amava você! – o loiro completou apontando o dedo indicador no rosto do detetive. – Pessoas que se amam abraçam e aceitam coisas sem sentido uma das outras, realizam concessões, Sherlock, doam parte de si. Eu fiz isso e não me arrependo, mas perceber que você não quer fazer o mesmo por mim me abriu os olhos para algo que eu não queria ver... – John fechou os olhos tomando uma respiração profunda antes de encarar o olhos do detetive que mantinha-se calado diante dele. – Você não me ama. – o médico completou de forma quase sussurrada de tão doloroso que era afirmar isso verbalmente.
Sherlock continuou quieto encarando-o sem mover um músculo e aquilo frustrou John, ele esperava que o homem usasse sua eloquência para tentar qualquer defesa contra seus argumentos e contrariasse sua conclusão, mas nada veio e aquilo foi como atingir o fundo rochoso de um alto precipício no qual o médico vinha despencando há dias.
O impacto foi doloroso a um nível tão intenso que sua percepção do ambiente em volta distorceu e no momento seguinte ele só sabia que havia saído do Pub e estava caminhando a passos militares resolutos pela rua deserta debaixo de uma chuva grossa, fria e impiedosa, tentando ir para qualquer lugar naquela noite que pudesse mantê-lo longe do lugar onde deixou Sarah e Sherlock. Se desculparia com a médica depois, ela não ficaria sozinha por muito tempo na mesa, eles estavam lá para esperar outros colegas do São Bartolomeu. Em breve a mesa estaria repleta de gente e ela relevaria a sua ausência precipitada.
Ele tinha caminhado algo em torno de quinze metros quanto percebeu que estava sendo seguido por alguém de longas passadas. O médico não se deu o trabalho de olhar para trás. Conhecia bem demais o som daqueles passos. Sherlock estava tentando alcançá-lo debaixo daquele aguaceiro.
John acelerou sua marcha, o torpor que havia tomado conta da sua mente agora dava lugar à raiva ácida. Se ele permitisse o outro homem alcançá-lo, as coisas não iam acabar bem para o moreno. Mas toda a sua agilidade em passos rápidos não foi suficiente para evitar que a mão de dedos longos do detetive alcançasse seu cotovelo puxando-o para trás numa tentativa de fazê-lo parar.
O médico não cedeu, puxou violentamente o braço e imprimiu mais rapidez às pernas, de modo que em segundos, os dois homens estavam correndo e deslizando nas poças de água acumulada da chuva que despencava encharcando ambos. John saiu da calçada após passar correndo a terceira esquina da via Queenstown, ele pretendia pegar um táxi, mas nenhum apareceu de modo que o médico continuou correndo tomando cuidado com o chão molhado, percebendo que o detetive não havia desistido da perseguição.
Na quinta esquina, John resolveu sair da rua larga e enveredou ardilosamente pelos becos entre os prédios altos na esperança que sua súbita mudança de rota fosse despistar Sherlock.
Correu por mais alguns minutos e entre um prédio em construção e uma escola politécnica fechada, ele parou para recuperar o fôlego e olhar em torno. O detetive havia ficado para trás. Ele conseguiu. Essa boba vitória fez o homem rir consigo mesmo apoiando-se contra a parede fria da construção vedada por tapumes de madeira.
Depois de rir um pouco e recuperar o fôlego, John desgrudou da parede e pôs-se a caminhar atravessando a rua e entrando numa pequena praça repleta de árvores copadas adiante da qual havia uma avenida onde ele pretendia fazer parar algum táxi, se bem que com o estado ensopado em que estava, duvidava que essa seria uma tarefa possível. A pequena satisfação por ter despistado Sherlock, foi rompida quando um pesado corpo atirou-se contra ele entre um aglomerado de árvores baixas a setenta metros da avenida.
O médico gritou surpreso caindo ruidosamente de costas entre grama e folhas imersas em dois centímetros de água acumulada no solo da pracinha.
– Droga! – o médico protestou tentando se mover enquanto seus pulsos eram pressionados com força no chão enlameado.
– Nós ainda temos uma ligação, John. Não negue. – Sherlock pontuou encarando-o sério enquanto a incessante água da chuva castigava suas costas.
– Eu não sou propriedade sua, fique ciente disso. – John respondeu respirando com dificuldade em decorrência do susto e da raiva que estourou em suas veias.
– Eu não estou sugerindo isso.
– Então o que foi aquilo no bar e isso agora, aqui, nessa praça? – o loiro indagou tentando libertar os pulsos.
– Você precisa me ouvir.
– Ouvir o quê, Sherlock? Que sentimentos é uma fraqueza a ser evitada? Que eu criei expectativas demais? Que nossa relação é apenas...
Os lábios volumosos do detetive imobilizaram os do médico que tentou recusar o beijo sacudindo o rosto como pôde, no entanto, mãos poderosas firmaram sua cabeça impedindo sua fuga e consequentemente fazendo-o se render ao ataque sem, contudo, corresponder ao gesto. Ele permaneceu impassível enquanto Sherlock massageava sua boca com os próprios lábios buscando tirar dele alguma reação positiva.
– Pare de tentar deduzir o que eu penso, John. – Sherlock disse rompendo o beijo e pondo os lábios a poucos centímetros do seu ouvido enviando-lhe um calor terrivelmente convidativo pela espinha. – Suas tentativas estão falhando miseravelmente. – o moreno completou levantando o rosto para encará-lo.
– Ok. Diga o que eu ainda não consegui deduzir. – John pediu relaxando o corpo sobre a grama molhada fechando os olhos, incomodado com a chuva que continuava a cair sobre eles.
– Minha relação com você não é só física, John. Nunca foi...
– Sei... está querendo dizer que era profissional também, os casos e tudo mais... Olha, Sherlock, a emenda está ficando pior que o soneto...
– Será que você é tão tapado assim para não entender?! – Sherlock resmungou acima do médico.
– Ora, seu! – John rosnou invertendo subitamente a posição de ambos, pronto para dar um soco no moreno.
– Eu amo você, John! – Sherlock gritou fechando os olhos esperando o soco.
John parou o punho fechado no ar e o encarou com olhos arregalados como se quisesse absorver a declaração com a visão, analisando criteriosamente o rosto molhado de Sherlock logo abaixo dele.
– Por que está dizendo isso? Não é só um truque para evitar um nariz quebrado e me fazer voltar para casa, é? – o loiro perguntou entre esperançoso e angustiado.
Sherlock abriu os olhos piscando em razão da chuva que gotejava pelas folhas da copa da árvore baixa que os abrigava parcamente do temporal.
– Estou dizendo isso porque é o que eu sinto. Não é um truque. – o moreno respondeu.
John contorceu uma expressão indecifrável e abaixou o punho pondo ambas as mãos espalmadas no solo úmido ao lado dos ombros do detetive e o encarou com algo que parecia um misto de fúria e incredulidade.
– Por que só agora? – o médico perguntou com voz turva encarando-o de forma perfurante.
– Você saber que sou leigo no campo dos sentimentos...
– Essa não é a resposta.
– Tudo bem... é só fração da resposta. – Sherlock respirou fundo. – Eu tive medo, medo de reconhecer que eu preciso de você. Que eu necessito de alguém... Eu necessito de você, John. Em todos os sentidos. Você me faz querer ser alguém melhor, me faz não me importar com a dor que essa necessidade pode trazer. Acho que é isso que as pessoas costumam definir como amor. Então eu amo você. Me perdoe se te causei sofrimento. Por favor, John... volte. Por favor...
John grunhiu de forma indefinida pegando o detetive pelo colarinho com notável violência e em seguida atacou seus lábios agarrando seus cabelos molhados com força. O detetive gemeu sentindo o lábio inferior ser mordido sem a menor cerimônia antes de ter os botões de sua camisa arrancados por um puxão violento empregado com a finalidade de expor seu peito que foi colhido por lábios, língua e dentes ávidos num tumulto de gestos confusos, divididos entre o desejo de dar prazer e castigar.
John aplicou mordidas firmes no pescoço, peito e flanco do detetive que se retorceu entre dor e prazer enquanto sentia a ereção do outro esfregar repetidamente com força de encontro a sua, repentinamente também animada dentro de suas calças.
A excitação crescente, não nublou o espanto de Sherlock na falta de inibição do seu namorado em envolver-se em tais atividades no gramado úmido de uma pracinha, tendo apenas algumas árvores baixas e a pouca iluminação noturna como proteção de privacidade. Nunca, nem em seus devaneios mais loucos, Sherlock pensou em fazer isso em um ambiente público, mesmo com o paliativo da completa ausência de pessoas num raio de trezentos metros por causa da chuva que não cessava nem por um decreto imperial.
Os pensamentos de Sherlock dispersaram-se quando John voltou a assaltar sua boca enfiando a língua o mais fundo que pôde enquanto descia a mão até o cós da sua calça, puxando de forma agitada o cinto e deslizando o zíper da peça para finalmente afundar a mão por dentro de sua cueca molhada e massagear vigorosamente seu pênis que pulsou quente na mão fria e úmida do médico.
Sentindo Sherlock agarrar o gramado ofegando em sua boca enquanto aplicava-lhe intensa masturbação, John rompeu o beijo para puxar a calça do homem junto com a peça íntima que ele usava, desvelando suas longas e pálidas pernas que foram colhidas de forma bucólica pelas folhas amareladas e úmidas que formava uma manta debaixo dele. O moreno tremeu de frio batendo levemente o queixo enquanto olhava John observando sua nudez quase completa e molhada sobre o gramado. Algo de muito primitivo dilatou as íris do médico que tocou de forma firme e possessiva suas coxas trêmulas para se encaixar entre elas e cobrir seu corpo com o próprio, aquecendo-o com beijos e afagos vigorosos por alguns longos minutos antes de serpentear a mão direita para o sul entre seus corpos, abrir o zíper da própria calça e introduzir sua ereção na abertura entre as nádegas do parceiro, sem qualquer aviso, fazendo-o soltar um som gutural no meio do beijo que compartilhava com o loiro.
John agarrou seu cabelo com força mediana e começou a aplicar-lhe penetrações profundas e cada vez mais céleres dentro do seu corpo. A fase inicial do ato foi dolorosa para Sherlock que fez algumas caretas enquanto apertava com força os ombros vestidos do médico, para lhe transmitir o seu desconforto. John desprezou o aviso por alguns instantes, mas em seguida deslizou a mão para o pênis semi-ereto do moreno, massageando-o enquanto diminuía a força de suas penetrações e buscava um ângulo melhor para atingir sua próstata.
A mudança na forma como era tomado, fez Sherlock relaxar mais e envolver o corpo do companheiro com ambos os braços, buscando o calor do homem que o fez perceber que ele era capaz de necessitar de alguém de uma forma que podia lhe trazer mais benefícios do que malefícios. John era sua nova droga e essa droga podia lhe salvar. Em instantes, os dois estavam gemendo perdidos em prazer, movendo-se em sincronia debaixo da chuva e meio ocultos pelas árvores e semi-escuridão do parque deserto.
John sofrera uma confusão de sentimentos quando iniciou aquele ato frenético sob as copas baixas das árvores no parque, queria quebrar a cara do namorado por tê-lo feito sofrer ao mesmo tempo que queria afogar-se nele e isso resultou em gestos rudes e ansiosos à princípio que aos poucos foram abrandando à medida que o gosto, o cheiro, o calor e os sons inebriantes de Sherlock atravessaram sua mente, trazendo paz à sua alma. As sensações ácidas que corriam em seu sangue foram substituídas por mel quente que foi se acumulando em seu baixo ventre até fazê-lo estourar gemendo de forma livre e despreocupado, depositado seu sêmen dentro do homem que ofegava debaixo dele.
Depois de esvaziar seu gozo dentro do detetive, John abriu os olhos que espremera enquanto estava preso na sensação do orgasmo, e observou o homem debaixo dele. Sherlock arquejava com olhos semi-cerrados e havia deslizado seus braços para os ombros dele. As longas pernas abertas tremiam levemente envolvendo seus quadris e a ereção do moreno despontava túrgida entre eles.
John deslizou a mão direita em torno do pênis ereto do homem debaixo dele e iniciou uma diligente massagem da base para a ponta da ponta para a base, assistindo o detetive remexer-se languidamente no gramado úmido fazendo a bagunça de folhas e gravetos mesclar-se mais ainda ao seu cabelo molhado. Não houve necessidade de muitas bombeadas, em pouco tempo Sherlock gozou com um grito estrangulado puxando o corpo do namorado sobre si, apertando-o.
O ex-militar deixou-se cair sobre o corpo do detetive até ambos equilibrarem a respiração.
– Isso foi uma loucura. – Sherlock murmurou sentindo alguns tremores tomarem conta dos seus músculos.
– Lembre-se que eu invadi o Afeganistão. – John respondeu e os dois riram.
O médico levantou o tronco e se apoiou em seus cotovelos para observar o detetive e a visão que o recebeu quase o animou a transar novamente. Sherlock estava ensopado mantendo apenas o blazer escuro e a camisa clara com botões arrebentados com suas abas abertas mostrando o peito branco e pontilhado de mordidas em vários pontos. A pele branca, além de mordidas e marcas de arranhões e dígitos, estava maculada com lama, folhas e pequenos gravetos que misturaram-se aos cabelos negros e seu longo corpo durante os movimentos vigorosos que ambos fizeram sobre o solo que estava revolvido abaixo deles.
– Acho melhor voltarmos para casa, não é bom ficar debaixo dessa chuva. Você pode pegar uma pneumonia. – John comentou saindo de cima do corpo do detetive para pegar as calças do homem e entregar-lhe para que as vestisse.
Sherlock se vestiu o mais ágil que pôde e ainda tentou ver se havia algum botão salvo em sua camisa para fechá-la e teve a felicidade de encontrar dois na altura da sua barriga.
Após Sherlock se recompor e sacudir as folhas que haviam grudado em torno do seu corpo e cabelo, John pegou sua mão e o puxou para a avenida entrelaçando firmemente seus dedos. Como previsto, os poucos táxis que passavam não se animavam muito a receber dois passageiros ensopados. Mas depois de cinco recusas, um sexto taxista topou levá-los, porque reconheceu a dupla e passou a viagem inteira comentando as proezas de Sherlock Holmes publicadas no blog do Dr. Watson e as curiosas fofocas estampadas nos jornais e pasquins de Londres a respeito dos dois.
Ao entrar na sala do 221B, John sentiu-se em casa novamente e sorriu. Sherlock passou meio que mancando para o banheiro e foi seguido por John um tanto penalizado por ter sido um pouco bruto com o homem no parque. Ele nunca pensou que pudesse descarregar tanta mágoa em seus gestos durante o sexo.
Quando o médico entrou no banheiro, Sherlock estava tirando a roupa molhada e John o ajudou, pendurando-as para escorrer nos ganchos pendentes na parede. O detetive entrou debaixo do chuveiro morno e deixou a água lavar os vestígios de lama, folhas e esperma que ainda havia em seu corpo e John despiu-se e entrou logo depois tomando uma esponja e sabonete líquido para em seguida esfregar cuidadosamente o corpo do companheiro como um pedido mudo de desculpa pelas mordidas e arranhões que destacavam-se na pele branca.
Terminado o banho, os dois foram para o quarto que não compartilhavam há dias e mais uma vez John se sentiu feliz com a sensação de familiaridade que acalentava sua alma e se sentiu um tolo por haver saído daquele lugar. Ambos deitaram, cada um em seu lugar habitual como se nunca tivessem interrompido esse ritual do deitar-se juntos para dormir. O loiro puxou o moreno para seus braços sentindo o homem tremer um pouco e beijou-lhe a testa que estava úmida e estranhamente quente além do normal.
– Sherlock? – John chamou.
– O que foi?... – o homem gemeu embolando-se em seu lençol e no abraço do loiro.
– Meu Deus, você está com febre! – John diagnosticou tocando a testa do companheiro com as costas da mão. – Seu sistema imunológico está baixo, a chuva não fez bem a você.
– A febre vai passar, não se preocupe.
– Sim, vai passar depois que você tomar um antitérmico. – o médico disse se esticando para verificar o conteúdo da sua gaveta que continuava intacto.
Depois de encontrar o remédio, destacou um comprimido da cartela e o passou com um copo d'água para que o detetive ingerisse, o que o homem fez sem se queixar e depois voltou a aninhar-se no corpo do ex-militar e ambos dormiram quase que imediatamente após encaixarem-se um nos braços do outro até o amanhecer e John não teve pesadelos.
Notas:
Alguma teoria sobre a finalidade do baralho? Algo sobre o cara observando John no parque? Será que realmente tinha alguém lá? Estou esperando ansiosa pelas deduções de vocês e as impressões sobre a reconciliação do nosso casal favorito!
