Culpa. Era o que a consumia. Sabia que deveria ter se afastado de Darcy antes que o pior acontecesse, mas agora era tarde demais. Dera a ele seu corpo, sua alma e seu coração, mesmo sabendo que era a última coisa que deveria fazer. Porque ele seria marido de Ema. Porque Ema havia pedido.

E não seria hipócrita. Não fosse a relação de Ema e Darcy, não teria porque se arrepender. Cada momento que passava com Darcy era único, ardente, urgente, especial. E a noite passada não fora diferente. Não se arrependia dos beijos, não se arrependia do toque de Darcy em seu corpo. Se arrependia de não ter resistido.

Por isso agora estava atrás de Ernesto. O italiano era o único que a ouviria sem julgamentos, que a aconselharia. E era a única pessoa que poderia saber o que ela estava sentindo, ajuda-la a entender esse limite entre o certo e o errado. Mas Ernesto não estava em casa, e nem na oficina, e Luccino só soube informar que ele estava na cidade.

Sua ansiedade não permitia a espera, por isso agora caminhava angustiada pelas ruas da cidade, completamente alheia ao que acontecia a sua volta. Sentia as lágrimas queimarem em seus olhos, e o nó na garganta cada vez mais apertado. Por isso, quando finalmente avistou Ernesto, depois do que pareceu uma eternidade, não conseguiu pensar em nada além de correr para os braços do amigo.

Ernesto era como um irmão para Elisabeta. Apesar da relação forte que ambos tinham com Ema, eram companheiros de pensamentos e sonhos. E era Ernesto o ombro amigo de Elisabeta quando sofria qualquer decepção, porque ao contrario de Ema, que sempre tentava remediar tudo, Ernesto era cru como ela.

O italiano apenas passou seus braços pelo corpo da amiga, a puxando para mais perto. Não precisava de palavras, conhecia Elisabeta bem demais para saber que nunca a vira assim. Sentiu quando ela escondeu a cabeça em seu peito e soluçou, e apesar de estar consciente demais dos olhares de Darcy e Ema, não tinha motivos para alertá-la sobre a plateia.

Darcy e Ema não desviaram o olhar. Sentados em uma mesa da Casa de Chá viram quando, minutos antes, Ernesto passou por ali, os cumprimentando pela janela com um sorriso irônico. Viram também quando Elisabeta sequer notou sua presença, e agora observavam aquele abraço cúmplice, com emoções diversas.

Ema remexeu-se na cadeira, desconfortável. Gostaria de parar de olhar, mas havia algo muito errado com Elisabeta, e com Ernesto. O olhar dela cruzou com o dele, do outro lado da rua, e Ema desviou, fingindo não se importar e agora observava a expressão incompreensível de Darcy.

Ele deveria ter imaginado. A forma como Elisabeta saíra da ferrovia no dia anterior, como um furacão, sem olhar para trás. Deveria ter imaginado que ela não estaria bem. Mas acabara jogando Elisabeta nos braços de Ernesto, e agora o consumia a forma como o italiano acariciava os cabelos dela, como a envolvia em seus braços.

- Eles sempre foram muito amigos. – Ema comentou, um toque de ciúme na voz. – Mas não achei que poderiam ser mais do que isso.

- Você acha que realmente... realmente estão envolvidos? – Darcy engoliu em seco.

- Quem poderia saber?

Ema deu de ombros, mas seus olhos voltaram para os dois, a tempo de ver quando Elisabeta e Ernesto andaram em direção às trilhas que dariam acesso ao sítio dos Benedito. E ela precisaria urgentemente ter uma conversa com Ernesto.

##

Ernesto manteve um de seus braços na cintura de Elisabeta, enquanto ela manteve a cabeça em seu ombro, as lágrimas caindo agora sem controle nenhum. Os dois andaram em silêncio por algum tempo, até que chegaram à cachoeira, e sentaram em silêncio nas pedras, ouvindo a água correr.

- Pronto, estamos longe. O que houve? – Ernesto acariciou os cabelos dela.

- Eu e Darcy... – Elisabeta escondeu o rosto com as próprias mãos. – Não era pra ter acontecido, Ema nunca vai me perdoar.

- O que aconteceu entre você e Darcy? – o italiano cutucou a amiga.

- Eu me entreguei à Darcy, Ernesto. Ele queria conversar, e eu precisava colocar tudo em pratos limpos, mas estávamos sozinhos e uma coisa levou a outra.

- Ele machucou você? – a expressão dele se fechou.

- Não, claro que não. Foi tudo maravilhoso, como eu sempre sonhei que fosse. Mas ele vai se casar com Ema, Ernesto. E Ema não vai me desculpar nunca.

- Elisa, presta atenção. Ema e Darcy não se amam, todos nós sabemos disso. Você não pode se sentir mal pelo que sente por Darcy. Por acaso você teve escolha?

- Se eu pudesse escolher não teria me apaixonado. Mas foi no primeiro olhar, e eu não consigo explicar o que sinto quando o vejo, quando estou perto dele. Eu nem acredito nesse tipo de sentimento. – ela riu, triste.

- É paixão, Elisa. Ninguém pede para sentir, ou escolhe por quem sente. Você acha que eu me envolveria com a Baronesinha? Desde o primeiro dia em que a vi eu soube que ela era errada. E ainda assim, olha onde estou. – ele sorriu.

- Mas eu preciso esquecer. Nós precisamos esquecer.

- Antes de esquecer, você deveria ser sincera com Ema. Talvez ela não consiga entender o que você sente por Darcy.

- Talvez não importe, Ernesto. O que Ema sente por você, o que talvez Darcy sinta por mim, nada disso é suficiente para que eles repensem essa decisão. Será que é o tipo de amor que merecemos?

- Não sei, Elisa. – Ernesto sorriu, sincero. – Mas é o que queremos, não é? Eu conheço você há tantos anos, e nunca a vi tão entregue a uma possibilidade.

- Porque eu costumava ser mais inteligente do que isso. – Elisabeta sorriu.

- Ou não sabia ainda o que era viver de verdade. – ele levantou-se, apontando para a paisagem ao redor deles. – Ou agora o céu não parece mais azul, as árvores mais verdes? O mato não tem um cheiro melhor, o som da água é mais musical?

Elisabeta riu, mas precisou concordar. Sua vida tinha uma luz diferente depois que conhecera Darcy. As coisas brilhavam de outra forma, seu coração batia mais forte, os meros detalhes faziam com que lembrasse dele. E quando Ernesto ofereceu sua mão, e fizeram o caminho até o sítio dos Benedito, seu coração estava mais leve.

##

Ernesto voltou para casa apenas um par de horas depois. Dona Ofélia fizera questão de preparar biscoitos e quitutes, e Ernesto não recusaria o convite para uma refeição. Estava mais tranquilo ao notar que Elisabeta já sorria com mais facilidade e parecia mais calma com os acontecimentos.

Não imaginaria a amiga se envolvendo com um homem como Darcy, mas pensando bem, não era improvável. Ele também achava improvável que se apaixonasse por sua Baronesinha, mas ela havia levado seu coração sem aviso, apesar de todas as obvias diferenças que existiam entre eles.

Não esperava, porém, encontrar Ema no alpendre de sua casa, com uma expressão de tédio e irritação, que não se desfez nem ao vê-lo chegar. Já ele não pode conter o sorriso ao vê-la, um contraste tão grande entre suas roupas caras e a casa simples.

- Baronesinha. – ele tirou o chapéu, cumprimentando-a exageradamente.

- Achei que não voltaria mais para casa. Estou esperando há mais de uma hora, Ernesto. – ela cruzou os braços.

- Ora, me desculpe, a senhorita não me avisou que vinha para uma visita, e ainda não sou adivinho.

- Deixe de gracinhas. Precisamos conversar. – ela bufou.

- Meus pais estão trabalhando, e Luccino provavelmente na oficina. Podemos conversar no meu quarto. – ele sorriu.

- No seu quarto? Ernesto, eu não vim aqui para isso! – Ema manteve o olhar duro.

- Para o que? Para conversar? – ele fingiu inocência.

- Você é insuportável.

- Baronesinha, se você quer conversar, é melhor parar de me ofender.

Ernesto abriu a porta, e Ema sentiu o cheiro familiar da casa dos Pricelli. Era um cheiro de fogão a lenha, café passado, pão caseiro. Nem podia recordar quantas tardes passara ali ao lado de Ernesto, as vezes com a companhia de Elisabeta. O seguiu até o quarto, que agora já parecia menos dele do que em outros tempos.

- Pois bem... – Ernesto cruzou os braços, a espera.

- O que está acontecendo entre você e Elisabeta? – Ema perguntou, direta.

- De novo? – Ernesto bufou. – Eu já lhe disse, como você bem sabe, que eu e Elisabeta somos amigos.

- E por que Elisabeta estava daquela forma?

- Ema, você saberia se estivesse ao menos falando com a sua amiga.

- Não mude de assunto, Ernesto. Você e Elisabeta estão juntos?

- Pelo amor de Deus, Ema. Quem você acha que eu sou? Que Elisabeta é? – ele passou a mão pelos cabelos.

- Eu não sei de mais nada, Ernesto. – ela sentou-se na cama dele, irritada.

- É claro que você sabe. Você me ama. Você está enciumada por não saber o que eu e Elisabeta conversamos, quando você sempre foi parte da conversa. Mas essas são escolhas suas, Baronesinha.

- Ernesto, eu tenho que cumprir o que meu avô planejou. – Ema respondeu, cansada.

- Já tivemos essa conversa centenas de vezes. – Ernestou sentou-se ao lado dela, segurando a mão de Ema. – Mas está cada vez mais perto, Baronesinha.

- Ernesto, eu...

- Me deixa falar. – ele pediu. – Pense no seu futuro, Ema. E quando o seu avô se for? Você vai ser feliz ao lado de Darcy?

- Não diga isso. Vovô está muito bem de saúde.

- Mas é um idoso, com planos megalomaníacos. Planos que são dele, Ema, e não seus.

- Eu vou herdar os cafezais, Ernesto.

- E pode fazer uma parceria com Darcy, ou qualquer outro, sem envolver casamento. Não faz o menor sentido condenar a sua felicidade, a de Darcy.

- Ou a sua. – ela suspirou.

- Eu nunca vou ser feliz sem você, Baronesinha. – Ernesto acariciou o rosto dela, com leveza. – Você é o meu primeiro pensamento quando acordo, o último quando vou dormir. Eu penso em você todo o tempo.

Ema fechou os olhos, entregue à carícia do toque e das palavras. Ernesto viu como uma abertura, e aproximou-se dela. Encostou o nariz no de Ema, fazendo um carinho leve, arrancando um sorriso.

- Eu amo você, Ernesto. – ela colocou as duas mãos no rosto dele, e abriu os olhos. – Cada parte sua, suas loucuras. Mas eu não sou assim.

- E eu amo você por tudo o que você é. Mas massacra o meu coração saber que você vai se arrepender, Baronesinha. E talvez seja tarde demais para todos nós. Para nós dois, para Elisabeta e Darcy.

- Por que vocês vão ficar juntos? – ela perguntou, insegura.

- Tire essa ideia da sua cabeça. Eu e Elisabeta nunca faríamos isso. Mas se você se casar, Baronesinha, pode ser que eu também siga em frente. E se eu estiver casado quando você finalmente perceber a loucura que fez?

- Nesse caso eu arranco sua esposa pelos cabelos, digo que você é meu. – ela sorriu, pensativa.

- Esse é o seu problema, Baronesinha. Você é tão segura do meu amor que não imagina um cenário em que eu não seja seu.

- E existe esse cenário?

Ernesto sorriu, acariciando novamente o rosto dela.

- Não. – confessou.

E então a puxou para seu colo sem aviso, plantando um beijo leve em seus lábios. Mas aquele toque foi o suficiente para ela, e suas mãos invadiram os cabelos de Ernesto, puxando-o para um beijo de verdade. Um beijo que não desmentia em nada as palavras dele.

Ema partiu o beijo, respirando fundo, e olhou nos olhos de Ernesto. Mudou suas posições, colocando uma perna de cada lado dele, e sorriu. Ernesto beijou o pescoço de Ema levemente, subindo seus beijos delicadamente, até chegar em sua boca. Mordeu o lábio inferior dela, e então a beijou profundamente, todo o desejo acumulado jogado em um beijo.

Ela começou a desabotoar a camisa de Ernesto, enquanto ele desfazia os laços do vestido. Precisavam ser rápidos, urgentes, e sabiam disso. Ele a ajudou a retirar suas vestes, mantendo a combinação apenas por tempo suficiente para que as roupas dele fossem retiradas.

Ernesto então inverteu suas posições, deitando-se por cima dela, beijando-lhe o pescoço novamente, retirando os últimos vestígios de tecido. Mas sua testa estava na dela, e seus olhos nos dela, suas mãos entrelaçadas, quando alguns minutos depois, ele a invadiu. Porque precisavam ter pressa, mas Ernesto mais uma vez precisava que ela soubesse o quanto o amava.

E foi perdendo-se naqueles olhos escuros que Ema mais uma vez percebeu que não poderia viver sem ele. Não conseguia imaginar-se na mesma situação com Darcy, ou com qualquer outro homem. Não queria dividir essa intimidade, não queria ser de mais ninguém. E queria menos ainda que Ernesto fosse de outra mulher.

Não sabia mais o que fazer, e por isso entregou-se ao momento. Deixou que Ernesto deslizasse seu corpo sobre o dela, que apertasse todos os gatilhos que a levavam cada vez mais perto de um abismo de prazer. E foi com o sorriso de lado que ela tanto amava que ele a empurrou do alto, e a seguiu com um suspiro, beijando-a em seguida.

##

Darcy sabia que não deveria. Era um pouco invasivo, até. Mas desde o dia em que a vira com Ernesto, o dia em que ela estava caminhando sem rumo, com uma expressão pesada, horas depois da noite de amor que tiveram, ele a procurava. Perambulava pelo centro da cidade, cavalgava pelo morro onde a encontrara pela segunda vez, mas Elisabeta nunca estava.

E ele não queria procura-la em sua casa, não queria que ela não pudesse negar sua presença sem explicar para os familiares o que ele fazia lá. Por isso, naquele dia, ele esperou que ela saísse de casa, e apesar de sentir-se mal com isso, seguiu os passos dela, de maneira discreta.

Elisabeta seguiu o caminho para a cachoeira, e Darcy não pode deixar de sorrir quando ela sentou-se em uma pedra, a expressão serena, o pensamento longe. Colheu uma flor branca e se aproximou em silêncio.

- Ei... – ele a chamou, oferecendo a flor.

- Darcy... – ela sorriu, aceitando o simples presente.

- Posso? – perguntou, apontando para a pedra.

Elisabeta assentiu, mas para sua surpresa Darcy não sentou-se ao seu lado. Sentou-se por trás dela, uma perna de cada lado, e a puxou contra seu peito, passando os braços ao redor do corpo de Elisabeta, que não protestou.

- Estive a sua procura. – ele sussurrou, acariciando os cabelos dela.

- Eu estive evitando você. – ela respondeu, simplesmente, e Darcy não entendeu porque aquela frase apertou seu coração.

- Você quer que eu vá embora? – ao mesmo tempo em que perguntou, a abraçou mais forte.

- Mais tarde. – Elisabeta encontrou as mãos dele, aninhando-se em seu peito ainda mais.

Eles ficaram alguns minutos em silêncio, Darcy acariciando os cabelos de Elisabeta, as mãos dela segurando a dele, que envolvia seu corpo.

- Eu vi você novamente com aquele garoto. – ele disse, de repente.

- Ernesto?

- Esse. – ele tentou conter a irritação. – Pareciam próximos.

- Nós somos próximos. – ela sorriu, e inclinou sua cabeça para depositar um beijo na bochecha de Darcy.

Darcy ficou em silêncio, pensativo.

- Eu precisava conversar com alguém sobre o que está acontecendo. Sobre eu e você. E Ernesto me entende.

- Eu sei sobre ele e Ema. – Darcy disse, de repente.

- É complicado. Você e Ema estão decididos, não há espaço para nós. – ela sorriu, triste.

- Me desculpe. – ele depositou um beijo na têmpora dela.

- Você nunca me prometeu nada. – ela deu de ombros, fingindo indiferença.

- Mas eu poderia ter evitado, Elisabeta. Poderia ter me afastado de você. – e toda vez que falava em se afastar, ele a aproximava mais.

- Eu também poderia ter me afastado, deveria ter me afastado. Nenhum de nós conseguiu... consegue.

- Eu não quero me afastar. – ele confessou.

- Mas vamos nos afastar, Darcy. Nós precisamos nos afastar.

Darcy segurou os cabelos de Elisabeta com delicadeza, alinhando seu rosto ao dele. Tomou seus lábios de forma lenta, sua língua buscando espaço. Os dois prenderam a respiração naquele beijo, que parecia sempre tão certo. Elisabeta mudou sua posição, passando as pernas por cima da dele, ficando quase de frente. O beijo se intensificou, mas quando suas mãos começaram a explorar, Elisabeta o empurrou de leve.

- É melhor não. – ela sorriu, afastando-se completamente. – Já fomos longe demais.

- Eu não quero ficar longe de você. – ele disse, baixo.

- Essa é uma decisão sua e de Ema. – Elisabeta sorriu, pegando a flor e levantando-se. – Mas, obrigada. Pela flor, e tudo mais.

Darcy levantou-se também, e a observou começar a se afastar. Antes que pudesse pensar direito, foi atrás dela, a puxou pelo braço, direto para seus lábios, seu corpo. E a beijou com o máximo de sentimentos que poderia. Com paixão, com desejo, e queria pedir para que ficasse. Mas Darcy sabia que não podia, que Elisabeta merecia mais. Ainda assim, a beijou até que ficassem sem ar.

Partiu um beijo com um sorriso, e então Elisabeta partiu. E Darcy não conseguiu pensar em outro momento de sua vida que sentiu um vazio tão grande, que refletiu tão profundamente sobre seu casamento com Ema, e sobre o que perderia com ele.